TEMPO CONTADO
Patrão da Barca: J. Rentes de Carvalho
quinta-feira, março 26
No fio da navalha
No passado dia 7 os nossos
vizinhos voltaram de uma quinzena de esqui no Tirol e feitas as perguntas do
costume, dados os abraços, devolvemos o gato e as plantas que tinham ficado
connosco e fomos os quatro jantar num ambiente de amizade e harmonia.
Os dias passaram na rotina
costumeira, vendo e ouvindo os perigos que vão pelo mundo, mas felizmente
longe da nossa porta e do nosso bairro, até que ontem à tarde um telefonema
tudo mudou: o vizinho anunciava estarem ambos infectados com o coronavírus, as
autoridades e o pessoal médico iam chegar, não mexêssemos nem saíssemos de
casa.
A equipa que veio fez
eficientemente o que tinha a fazer, desinfectou, informou, avisou, aconselhou.
Como o seu estado não é urgente, os vizinhos por enquanto ficam em casa. Nós
também, e por feliz acaso temos no frigorífico e na despensa comida para quinze
dias. Agora é esperar para vermos que sorte nos toca, pois desde o dia 7 o
vírus andou à solta dentro e fora de casa, não têm conta as vezes que nós e os
vizinhos tocámos nos mesmo fechos e nos mesmos corrimões, abrimos a porta da
rua ou a da garagem. Medo não temos, nem preocupação por aí além, será o
que tiver de ser.
quarta-feira, março 25
Felizes os que cantam
Em tempos como os de agora é
fácil cair na tristeza e no azedume, ver sombras, sentir desespero, ficar certo
de que só pode vir o pior, que se for encontrada solução ou houver benefício,
essa boa sina caberá sempre aos outros, para nós fica o mau destino das dores e
das aflições, dos compromissos que não podemos cumprir, da má sorte que bate à
nossa porta.
É fácil cair no desespero, fácil
também ensinar aos outros a receita que connosco nunca dá certo, e com ar sábio
dizer-lhes que é errado desesperar, há sempre um amanhã, mas escondendo que são
excepção os amanhãs que cantam e da paulada que nos atordoa raro se vê o braço.
Felizes os que agora cantam e
aplaudem às janelas, são eles os cães que ladram enquanto a caravana passa.
terça-feira, março 24
Um ponto de vista
"March 23, 2020
Former Israeli Health Minister, Professor Yoram Lass, says that the new coronavirus is „less dangerous than the flu“ and lockdown measures „will kill more people than the virus“. He adds that „the numbers do not match the panic“ and „psychology is prevailing over science“. He also notes that „Italy is known for its enormous morbidity in respiratory problems, more than three times any other European country.“
Pietro Vernazza, a Swiss infectious disease specialist, argues that many of the imposed measures are not based on science and should be reversed. According to Vernazza, mass testing makes no sense because 90% of the population will see no symptoms, and lockdowns and closing schools are even „counterproductive“. He recommends protecting only risk groups while keeping the economy and society at large undisturbed.
The President of the World Doctors Federation, Frank Ulrich Montgomery, argues that lockdown measures as in Italy are „unreasonable“ and „counterproductive“ and should be reversed.
Switzerland: Despite media panic, excess mortality still at or near zero: the latest testpositive „victims“ were a 96yo in palliative care and a 97yo with pre-existing conditions."
Retirado daqui
Former Israeli Health Minister, Professor Yoram Lass, says that the new coronavirus is „less dangerous than the flu“ and lockdown measures „will kill more people than the virus“. He adds that „the numbers do not match the panic“ and „psychology is prevailing over science“. He also notes that „Italy is known for its enormous morbidity in respiratory problems, more than three times any other European country.“
Pietro Vernazza, a Swiss infectious disease specialist, argues that many of the imposed measures are not based on science and should be reversed. According to Vernazza, mass testing makes no sense because 90% of the population will see no symptoms, and lockdowns and closing schools are even „counterproductive“. He recommends protecting only risk groups while keeping the economy and society at large undisturbed.
The President of the World Doctors Federation, Frank Ulrich Montgomery, argues that lockdown measures as in Italy are „unreasonable“ and „counterproductive“ and should be reversed.
Switzerland: Despite media panic, excess mortality still at or near zero: the latest testpositive „victims“ were a 96yo in palliative care and a 97yo with pre-existing conditions."
Retirado daqui
segunda-feira, março 23
Um balde de água fria
(Clique para ver o Inferno de Hieronimus Bosch)
Um balde de água fria no optimismo e na esperança de que tudo acabará bem: aqui.
Sai o tiro pela culatra
- É a vida, é a família, o
trabalho, os aborrecimentos, as más surpresas, agora essa coisa do vírus… - com
a mão esquerda espalmada, o indicador da direita a fazer de ponteiro e um modo
soturno que vai mal com a sua costumeira jovialidade, ao mesmo tempo que
calcula os seus incómodos e os que afligem o mundo, a expressão do Vasco
leva-me a sorrir, pois não o conheço dado a queixumes, todo ele é vitalidade, vive
folgado, aos cinquenta e dois a sua postura mostra ainda o centro-avante de
rugby que foi na juventude.
- Não sei como aconteceu, cedi
ao impulso. Devia ter pensado, mas a verdade é que no fundo ainda sou um bocado
romântico.
Conta então que bem sabe do
perigo que no Facebook correm os desastrados e que na internet também vale a
sabedoria antiga da cautela e caldos de galinha, mas um homem tem os seus
fracos e de alguns nem faz ideia o que os causa, certo é que o que tinha começado
como uma inocente busca de sites de contacto não demorou a ser vício, ele
a perguntar-se por que não parava com aquilo e no momento seguinte a dar mais
um passo, caindo finalmente na tentação do encontro, mas seguro de si e certo
que o rombo não seria maior do que o custo do jantar.
Faz uma pausa, deixando em
suspenso se vai continuar ou se está arrependido, de modo que nos sentimos
acanhados, ele por esconder a confidência, eu porque sofro mal ouvir casos de
aventuras amorosas, não tanto por falta de interesse ou simpatia, antes porque por
experiência as mais das vezes são de uma banalidade que entristece e põem a nu
traços de carácter que no que respeita os amigos prefiro desconhecer.
Mas enfim, estávamos naquele
impasse e eu, com mais idade do que o pai dele, resolvi que devia ser simpático
e encorajá-lo a avançar:
- Se não contas deve ser que o
tiro te saiu pela culatra. Saiu?
- De facto saiu. Não esperava aquilo.
A avaliar pelo modo como
desviava os olhos para a porta do café, o assunto era talvez mais penoso do que
eu supunha e, ele a tamborilar com os dedos no tampo da mesa, eu a esconder a
minha impaciência, ali ficámos num silêncio que já se tornara penoso quando ele
sussurrou: - Lembras-te da Sara, a filha do…
Nesse instante o telemóvel
tocou, ele atendeu, fez um gesto de desculpa e levantou-se, acenando que depois
falaríamos.
Faz meses que não nos vemos mas
não estranho que me evite, há muito me habituei às confidências que o não são e
para uns servem de espelho da vaidade, outros usam-nas como válvula de escape
para medos que não confessam.
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