quarta-feira, março 25, 2020

Dependências assumidas

Ai que desgraça a minha.
Que infortúnio.
Que altura ingrata para ocorrer tal má sorte!!

(Vá - isto é para ler num tom de severa lamentação!)

O que me aconteceu?!?
Estou desde 2ª sem telemovel.
Bloqueou
Entrou em Loop
E já tentei todos os tutorais que me apareceram pela frente!

É mau!
Mesmo!

Tenho usado o meu telefone para trabalhar em videochamada.
É lá que tenho o contacto de toda a gente.
Deixei de estar contactavel para familia e amigos e para o trabalho!!!

Há muitas alternativas para contactos virtuais.
Zoom
Skype
Hamgout
You name it....

Ou seja - vou-me desenrascando!

Mas lá que está a ser uma chatice - está!!!!!!

Faço minhas as palavras de Cervantes:

"As desgraças buscam o desgraçado mesmo que ele se esconda nos cantos mais remotos da terra."

terça-feira, março 24, 2020

Uderzo

Um grande obrigada por tantas e tantas horas de companhia.
Não sei quantas vezes reli cada um dos livros do Asterix!


segunda-feira, março 23, 2020

Um Haiku por dia?

O meu amigo manteve o desafio e tornou-o no "um Haiku por dia"
Ele tinha um blog aqui há uns tempos, se quiserem espreitar alguns dos seus poemas: haikuportugal
Deixou de o alimentar mas nunca deixou de escrever e de publicar.
Não sei se irei continuar a deixar-me desafiar todas as manhãs, mas hoje saiu-me este:

Homens quedos
A primavera vem
Na flor do pessegueiro

14/35 O Silencieiro

Não sei se se recordam mas aqui há tempos fui a uma livraria comprar UM livro e saí de lá com meia dúzia...
Pronto!
É um problema meu!

Um deles era este "Silencieiro". Achei piada ao nome, fiquei curiosa sobre o que ele encerraria, li a contracapa, e rendi-me a esta edição da Cavalo de Ferro (Sim! A editora ajudou! Tem bons livros e encadernações fantásticas!)

O que tenho a dizer sobre o livro:
O pensamento obsessivo e factual torna a leitura deste livro para mim difícil. Faltou-me a melodia, a continuidade narrativa, a linha que tece o pensamento mais neurótico e romanciável.
Mas isto diz apenas que os traços do personagem que nos traz a história estão bastante bem explorados. Está bem escrito portanto!
(diz esta extremamente conceituada critica literária! Ahahahaha)

E é interessante a questão do ruído insuportável. Seja ele qual for. De como a realidade externa pode ser de tal forma invasiva que leva alguém a uma busca incansável para calar o mundo.

O livro é de 1964, foi editado este ano cá em Portugal pela Cavalo de Ferro
Se quiserem saber mais de Antonio Di Benedetto vejam AQUI


Tenho ido ler para o jardim nestes tempos de primavera e quarentena.
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PS - Estava a pensar que esperei deste livro algo semelhante ao "Ensaio sobre a Cegueira" em que realmente se consegue anular um sentido. Imaginei o protagonista a recolher-se num isolamento distante da civilização (como em "O Perfume") e a ser mesmo assim invadido pelos sons da natureza.
Mas este é um livro realista. E retrata a impotência (não a omnipotência).

Louco

O riso.
Sempre um gozo.
Dissimulado.
Gargalha.
Olho por cima do ombro.
Não o vejo.
Lá está outra vez - o riso.
Viro-me repentinamente e parece-me vê-lo a dobrar a esquina.
Camisola azul, chapéu de marinheiro.
Corro até lá.
Nada.

A voz.
Irritante e indecifrável.
Diferente do gozo do riso.
É zangada – a voz.
Abano a cabeça.
Não quero ouvir.
E o som aumenta.
Invade.
“Vai-te embora!” – grito.
O riso.
Outra vez.
O gozo.

Estão a olhar para mim.
Não posso deixar que me levem outra vez.
Eu calo-me.
A voz não.
Não percebo o que diz.
Confunde-me.
Autoritária.
Sei que quer que me sente para ler.
Não tenho nada para ler.
O pai vai zangar-se comigo!
O pato Donald está zangado comigo!
Procuro desesperado o livro.
Não há livros na rua.
Tenho de me sentar a ler.
De repente o riso.
O gozo.
Outra vez.

“Vai-te embora!”
“Cala-te!”
O volume sobe, do riso, ruído estridente, que arranha os ouvidos por dentro.
Grasnar agudo e irritante, insuportável.
Tapo os ouvidos, sacudo a cabeça, pára por favor!

“Nuno, Nuno”
Abro os olhos e vejo que é o senhor Manuel que me agarra os ombros e me resgata da espiral louca em que estou.
Conhece-me desde pequeno, sabe do que se passa comigo e nunca se riu. É diferente do meu pai, nunca me bateu, nunca me obrigou a ler aqueles livros coloridos, cheios de animais que falam, e “dele” o pato rabugento, zangado, e inútil. O meu pai, o inútil, que me obrigava a ler enquanto se fechava no quarto ao lado de onde vinha um cheiro quente e enjoativo. O meu pai morreu no quarto ao lado enquanto eu lia um livro aos quadradinhos. O meu pai é o inútil.
Ouço o riso, mais baixo.
O Sr Manuel nunca se riu.

domingo, março 22, 2020

Haiga

Hoje um amigo, mestre de Haiku, fez um desafio no FB para se fazer um Haiku, que ele comentaria
(Quando digo mestre, é mesmo mestre!, referência nacional, com prémios internacionais e tal!)

E ao que parece acabei por lhe enviar um “Haiga” - a conjugação de um Haiku com uma imagem.
Já aprendi qualquer coisa hoje.
Nem sabia da existência desta palavra!

Um paquete entra
No rasgo de mar
Embarcando vírus 



O comentário dele:
“ O que fizeste foi um "haiga" isto é a conjugação de um haiku com uma imagem. Muito bom. A tensão vem da beleza do lugar, do paquete a entrar e... o que ele pode trazer dentro. É um bom exemplo de narração em 17 sílabas.”

E assim se começou mais um dia de quarentena!

sábado, março 21, 2020

Hoje saí para uma volta de bicicleta

...e tive um furo 500 metros depois de sair de casa!!!!
Ahahahaha

O universo não me quer na rua!


quinta-feira, março 19, 2020

Sonho

(O  último texto do 47º Concurso Naconal de Escrita Criativa - mas já começou o 48º... ;) )

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A casa de jantar está composta, a mesa é farta, família reunida como se fosse uma cena montada para um filme de Natal.

(é só nos filmes, não é?)

Os homens vestem camisolas de lã, de cores marcadas, têm uma barba cuidada e trazem na boca e nos olhos sorrisos rasgados.

(é a tua barba em cada um deles!)

As mulheres estão vestidas à anos 60, com vestidos cuidados, e cabelos perfeitos, as tarefas do feminino parecem harmoniosamente integradas, como se ninguém questionasse o lugar de ninguém nessa farsa pantagruélica.

(há fotografias num álbum qualquer lá por casa em que as mulheres, e a minha mãe, se vestem assim)
(Tento esconder-te esta minha veia conservadora que gosta de ver tudo numa ordem qualquer, que me permita prever o que vai acontecer)

Os meus personagens estão todos lá, os vivos e os mortos,

                       (que bom ver de novo a avó)

mas TU estás lá.
Tu estás e eu não.
Eu sou as próprias paredes, observadoras e contentoras deste encontro surreal onde há espaço para ti.

(Um lugar criado nas minhas entranhas, ou num qualquer intervalo sináptico onde se funde passado e futuro, realidade e desejo, armadilha mental que me oferece uma realidade improvável)
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Tu ris-te sempre dos meus sonhos, não me levas a sério.Aninhada nos teus braços conto-te-os todos, acreditando que assim me entrego por completo. Como podes duvidar de mim se te revelo sonhos?


Deixo os meus lábios roçarem levemente na tua barba. Cheiro-te. Sinto as tuas mãos procurar o meu corpo e sinto que sou apenas as partes de mim que tu tocas, e o fogo que em mim se acende. Os medos destes dias ficam todos lá fora.

Isto que sinto?
Não há sonho que iguale!

quarta-feira, março 18, 2020

13/35 Contos Escolhidos

Já li alguns livros da Carson McCullers, este não é definitivamente o que mais gostei.

Uma colectânea dos seus melhores contos.
Leu-se relativamente bem, mas acho que será um daqueles livros que vou acabar por esquecer.

Fica como o primeiro livro acabado no período de quarentena.
Foi terminado aqui, deitada na relva, a aproveitar o sol do fim de tarde.

Gosto de ler no jardim.
Próxima aquisição (quem sabe...?) umas espreguiçadeiras para tornar ainda mais confortáveis estes momentos de leitura.

Mais livros virão (espero) nesta quarentena.
Ainda me sinto a organizar os tempos, os espaços, as pessoas cá de casa....

terça-feira, março 17, 2020

Work from home


Momentos extra-ordinários requerem medidas extra-ordinárias.
Neste momento, desde ontem, encontro.me a trabalhar a partir de casas.
Este é o meu local de trabalho.

A cadeira é-me muito especial.
Foi feita pelo meu avô. (um conjunto de duas)
Lembro-me tão bem de as ver no quarto deles há 40 anos atrás.
Sei o seu local exacto e consigo evocar claramente o padrão das almofadas que existiam na altura.

Curiosamente não me lembro de alguma vez ter visto alguém sentado nelas!

Eu uso-as desde que as tenho comigo!
Na antiga casa estavam na sala, frente à televisão, e nesta casa estão na sala da cave.
E agora no meu mais recente "consultório"

Sinto-me bem aqui.
Há que ter alguma flexibilidade para nos adaptarmos às circunstâncias.

segunda-feira, março 16, 2020

O olhar do Aluco

Aluco ou Coruja do mato
Sentado no alpendre, com um casaco quente e um cigarro a queimar-se devagar nos dedos, olhava a serra que tinha sido eleita o seu “Skyline” para o resto da vida.
“O resto da vida” pode parecer dramático mas, garanto-vos, é uma escolha deveras apaziguadora!
O sol já tinha passado para o lado de lá do cume e a linha que se desenhava contra o céu violáceo desta tarde fresca trazia a reconfortante certeza de estar em casa.
Lá de dentro chega o cheiro do forno, onde assa um lombo de porco com mel e castanhas, e os barulhos da cozinha são uma companhia benfazeja.
Às vezes tem a sensação de estar longe do mundo, protegido, como um soberano de coisa nenhuma, só a força esmagadora das montanhas o redefine na sua condição frágil e vulnerável.

Sem aviso, assaltam-no, primeiro no corpo e depois no pensamento, memórias da tarde anterior. Não sabe se é tortura se deleite. Revisita em pormenor o prazer proibido, num misto de júbilo e culpa, de subir com beijos lentos o declive do ombro dela.
Nenhum dos dois foi capaz de parar.
Sente ainda no corpo todos os toques, a pele tem uma memória própria que o arranca da paz desta tarde. Nem a serra nem a presença na cozinha são fortes suficiente para o arrancar desta memória hipnótica.

E de repente um Aluco pousa num tronco nu da amendoeira, ali a tão poucos metros de si, e num momento raro, e quase mágico cruza o olhar denso e misterioso com o seu. Uma comoção de quem entra verdadeiramente em contacto com o mais puro de si açambarca-o para logo de seguida ver a coruja-do-mato abrir as asas e voar para longe.

Levanta-se e vai à cozinha.
Tem de contar a coisa mais extraordinária que aconteceu nos últimos tempos.

sexta-feira, março 13, 2020

E assim me comovo


Vizinhos juntam as vozes
O isolamento torna-se momentaneamente menos penoso
Porque as gentes são também isto
Solidariedade
Procura do outro
Abraço falado

Bem hajam!

quinta-feira, março 12, 2020

Esse outro de mim

São 21h05 e sento-me ao computador para escrever.
Numa página em branco há um misto de vazio e potencialidade que me faz ter sempre a certeza de que as palavras que eu escolher ficarão sempre aquém.
Na procura de inspiração olho para a grande janela que ocupa toda a parede no topo do escritório.
Lá fora o breu absoluto. A pretura da noite, hoje opaca e turva, esconde o fulgurante verde da selva mais ou menos desalinhada que acarinho no meu jardim.
Sei do contorno das árvores, do tom das suculentas, das flores que desenham os canteiros, e do chão cinzento em tijolos de cimento que a força das raízes moldou com o passar dos anos numa irregularidade que a mim apenas me evoca uma leve ternura.
Há poucas coisas com tanto futuro como o planear um jardim. Saber sonhar um jardim é uma arte, projectar fruto onde apenas há semente. Há o saber esperar pelo tempo certo de plantar, de regar, de podar, de moldar. E respeitar o tempo, e o temperamento de cada uma das peças que o tornam O Meu Jardim.
Sei do lugar dos formigueiros e das teias de aranha, sei das flores que as abelhas mais procuram, e dos galhos em que os pardais descansam.
Mas agora tudo o que vejo é o meu próprio reflexo, que com as trevas se transmuta o vidro em espelho, e nada vejo para além de mim.
Nem um som me chega que me traga a vida que respira lá fora.
Olho para esse outro de mim que ocupa o espaço que deveria ser do jardim e constato que envelheci.
Este manto que a noite trouxe deixa-me sozinha comigo numa tranquilidade que há muito procurava.
Retomo à pagina que já não está em branco, sei que foi escrita pela mulher do vidro/espelho e por isso não ouso trocar uma única palavra.





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Up-date matinal
:)




terça-feira, março 10, 2020

Quando por dentro é Inverno

Vale-nos o saber que há árvores que só florescem em tempos frios

ou

Tenho pena de não me estar a borrifar para as coisas!

(Ambivalências minhas...)

Domingo passado em Portimão 


domingo, março 08, 2020