«Ao apresentarmos a segunda série das Líricas Portuguesas afigura-se-nos desnecessário dar aos leitores qualquer explicação no género da que fez o compilador da Fénix Renascida, que pretendeu salvar do "silêncio pouco merecido os grandes partos dos engenhos mais elevados".» Uma nota de humor deste compilador, Cabral do Nascimento (1897-1978), que infelizmente se excluiu, certamente por pudor, da obra em que deveria também figurar.
Gosto muito de antologias; e gosto ainda mais das que são panorâmicas. Prefiro-as às antologias temáticas (sou co-autor de uma publicada e várias por aí), mais fáceis de organizar, ou, pelo menos, levantando menos problemas quanto à selecção. As que pretendem fazer um ponto de situação, além de -- sendo os seus organizadores honestos e competentes --, pedirem um conhecimento extensivo, neste caso da poesia do período que versam, assumem também um risco: o risco da exclusão. Exclusão que é sem dúvida desagradável para as vítimas dela, como o poderá ser para o antologiador, num futuro mais ou menos distante, pela possibilidade de ser apontado por negligência, preconceito ou mero desconhecimento.
(Sempre me causou alguma estranheza a ausência do Borges na Poesia do Século XX, do Sena, publicada em 1978, enquanto que o Ruy Belo já o traduzira e publicara na antiga Dom Quixote.)
Cabral do Nascimento escolhe um conjunto de cinquenta autores (clicar na capa), correspondentes a um intervalo de cinquenta anos entre o nascimento do mais velho, António Feijó (1859-1917), e do mais jovem, Adolfo Casais Monteiro (1908-1972). Desta meia centena, desconhecia três: Queirós Ribeiro, António Fogaça e João Saraiva, e gostei de lê-los. Outros há que, apostaria dobrado contra singelo, duvido se encontrassem numa antologia igual, cobrindo o mesmo período, organizada hoje: por exemplo, Manuel da Silva Gaio, Júlio Brandão, Cândido Guerreiro e até Luiz de Montalvor, para não dizer mais.
Há ausências que me parecem problemáticas: a de Saul Dias -- dos poetas da presença um dos que menos envelheceu. O organizador da 3.ª série, Jorge de Sena outra vez, irá colmatar estas ausências, vincando que o seu lugar seria nesta 2.ª Série. Só podiam ser cinquenta, um por cada ano a que a antologia corresponde, e por isso, salvaguardando-se também, Cabral do nascimento sugere uma nova antologia para agrupar nomes preteridos.
O prefácio avança com verdade elementares, hoje, mas que à época (1945) faziam ainda sentido, em torno de forma e conteúdo, indivíduo e grupo, num período em que a dava tudo à estalada por razões que hoje nos fazem sorrir. Aqui, como noutras coisa, Régio sobressaía pela grande lucidez, qualidade que não faltava a Cabral do Nascimento quando a certa altura sustenta: «[…] tudo é susceptível de constituir a substância lírica -- até um simples nada.» Nada, aliás, título do extraordinário livro de estreia poética do negregado Júlio Dantas (1896), aqui presente (Almada está fora…), tão bom quão péssimo é os segundo e derradeiro, Sonetos (1916). Mas estou a adiantar-me... As notas biobibliográficas são tão boas quanto sucintas, e o prazer da leitura é grande. A ela voltarei, claro.
título: Líricas Portuguesas - 2.ª Série
antologiador: Cabral do Nascimento
edição: Portugália Editora
colecção: «Antologias Universais»
data: [1946]
impressão: Gráfica Santelmo, Lisboa
págs.: 367.
data de posse: Junho de 2004
Gosto muito de antologias; e gosto ainda mais das que são panorâmicas. Prefiro-as às antologias temáticas (sou co-autor de uma publicada e várias por aí), mais fáceis de organizar, ou, pelo menos, levantando menos problemas quanto à selecção. As que pretendem fazer um ponto de situação, além de -- sendo os seus organizadores honestos e competentes --, pedirem um conhecimento extensivo, neste caso da poesia do período que versam, assumem também um risco: o risco da exclusão. Exclusão que é sem dúvida desagradável para as vítimas dela, como o poderá ser para o antologiador, num futuro mais ou menos distante, pela possibilidade de ser apontado por negligência, preconceito ou mero desconhecimento.
(Sempre me causou alguma estranheza a ausência do Borges na Poesia do Século XX, do Sena, publicada em 1978, enquanto que o Ruy Belo já o traduzira e publicara na antiga Dom Quixote.)
Cabral do Nascimento escolhe um conjunto de cinquenta autores (clicar na capa), correspondentes a um intervalo de cinquenta anos entre o nascimento do mais velho, António Feijó (1859-1917), e do mais jovem, Adolfo Casais Monteiro (1908-1972). Desta meia centena, desconhecia três: Queirós Ribeiro, António Fogaça e João Saraiva, e gostei de lê-los. Outros há que, apostaria dobrado contra singelo, duvido se encontrassem numa antologia igual, cobrindo o mesmo período, organizada hoje: por exemplo, Manuel da Silva Gaio, Júlio Brandão, Cândido Guerreiro e até Luiz de Montalvor, para não dizer mais.
Há ausências que me parecem problemáticas: a de Saul Dias -- dos poetas da presença um dos que menos envelheceu. O organizador da 3.ª série, Jorge de Sena outra vez, irá colmatar estas ausências, vincando que o seu lugar seria nesta 2.ª Série. Só podiam ser cinquenta, um por cada ano a que a antologia corresponde, e por isso, salvaguardando-se também, Cabral do nascimento sugere uma nova antologia para agrupar nomes preteridos.
O prefácio avança com verdade elementares, hoje, mas que à época (1945) faziam ainda sentido, em torno de forma e conteúdo, indivíduo e grupo, num período em que a dava tudo à estalada por razões que hoje nos fazem sorrir. Aqui, como noutras coisa, Régio sobressaía pela grande lucidez, qualidade que não faltava a Cabral do Nascimento quando a certa altura sustenta: «[…] tudo é susceptível de constituir a substância lírica -- até um simples nada.» Nada, aliás, título do extraordinário livro de estreia poética do negregado Júlio Dantas (1896), aqui presente (Almada está fora…), tão bom quão péssimo é os segundo e derradeiro, Sonetos (1916). Mas estou a adiantar-me... As notas biobibliográficas são tão boas quanto sucintas, e o prazer da leitura é grande. A ela voltarei, claro.
título: Líricas Portuguesas - 2.ª Série
antologiador: Cabral do Nascimento
edição: Portugália Editora
colecção: «Antologias Universais»
data: [1946]
impressão: Gráfica Santelmo, Lisboa
págs.: 367.
data de posse: Junho de 2004









