segunda-feira, março 23, 2020

na estante definitiva

«As nuvens encheram o céu até que começou a cair uma chuva grossa. Nem uma nesga de azul. O vento sacudia as árvores e os homens seminus tremiam. Pingos de água rolavam das folhas e escorriam pelos homens. Sós os burros pareciam não sentir a chuva. Mastigavam o capim que crescia em frente ao armazém. Apesar do temporal os homens continuavam o trabalho. Colodino perguntou:»

A acção decorre provavelmente no tempo presente da narrativa, na Fazenda Fraternidade, município de Ilhéus, estado da Baía.

A insistência na palavra "homens", a dar substrato ao desejo, em dúvida manifestada pelo autor: «Será um romance proletário?» Já não heróis individuais e povo como motivo pitoresco, mas homens, neste caso trabalhadores da fazenda de cacau: Colodino, Antônio Barriguinha, Honório... mais à frente João Grilo. "Fraternidade" o irónico nome da fazenda, tal como o seringal em A Selva , de Ferreira de Castro -- que Jorge Amado lera --, tinha por crisma "Paraíso", como um dichote.

O antagonismo de classes é-nos dado pelas variações sobre o nome do patrão, Manoel Misael de Souza Telles, o "Mané Frajelo" (flagelo), "Mané Miserave Saqueia Tudo", "Merda Mexida Sem Tempero"; pelo confronto entre a casa opulenta do coronel, onde viviam mulher, filha e filho estudante no Rio, «elegante e estúpido», que destratava os trabalhadores; e as choças de barro cobertas de palha  -- «Deus também é pelos ricos...», observa um; e pela extorsão que Mané Frajelo exerce contra os homens que trabalham para si, com a cumplicidade do despenseiro João Vermelho. E depois as contas, três mil e quinhentos (réis?) por dia era a paga a cada um, retirada dos mil contos anuais que Frajelo ganhava com o trabalho destes homens.

E uma personagem sobre a qual cai um mistério, Honório, «Preto, forte, alto, brigão», que o patrão não despedia, apesar da grande dívida contraída no armazém.«Bebia cachaça pelo gargalo da garrafa e jamais foi visto embriagado. Mané Frajelo respeitava-o.»

Jorge Amado, Cacau (1933), ibidem, capítulo I, «Fazenda Fraternidade»,  pp. 19-23. 


sábado, março 21, 2020

estampa CCCXCII - Anne Brouillard


O Paraíso dos Gatos (2005)

terça-feira, março 17, 2020

«Leitor de BD»

sobre Spirou, de Émile Bravo

sexta-feira, março 13, 2020

estampa CCCXCI - Georges Braque

Violinos e Clarinete numa Mesa (1912)

quinta-feira, março 12, 2020

o Covid 19 da desorientação política

Não se ataca o mal pela raiz por puro medo. A desorientação é total: em Coruche uma escola com um aluno infectado aguarda ordens para encerrar… Em Lisboa, dois navios de cruzeiro despejam centenas de turistas sem qualquer controlo. Mas temos de ouvir apelos à responsabilidade social assistir aos puxões se orelhas aos miúdos que, sem aulas, foram para a praia de Carcavelos num dia estival... É extraordinário 

em tempo: gostei do tom da comunicação ao país de António Costa, do sentido de comunidade que por ela perpassou.

criador & criaturas

fonte

Derib e Buddy Longway & Chinook

fonte


terça-feira, março 10, 2020

«Leitor de BD»

sobre Tarzan, de Hal Foster e Burne Hogarth


o que é que a Beira Baixa tem?

domingo, março 08, 2020

estampa CCCXC - Ofélia Marques


Auto-Retrato (1936)

quinta-feira, março 05, 2020

assim um grande elogio a Sócrates e aos autarcas do PCP

Um grande elogio a Sócrates, pois é do seu tempo a lei que dá aos municípios a faculdade legal de vetar asneiras decididas por outros que se estão nas tintas para as populações. Por outro lado, elogio aos autarcas do PCP, que não estão a traí-las. A sua obrigação, enfim. Até porque eu não acredito que o povo da margem sul do Tejo ficasse impávido, tal como não ficou o das aldeias do lítio.
Não faço ideia se Alcochete serve, logo se verá; se alguém me explicar por que razão Beja não, ficaria bastante agradecido.
A não ser que o PSD dê alguma cambalhota, o aeroborto do Montijo está morto, e o ministro devia demitir-se, depois das declarações intoleráveis que proferiu. Sem nenhuma paciência para estes tipos que acham que são donos do país: não são, e se se esquecerem disso devem ser democraticamente postos na ordem, o que sem maioria absoluta, graças a deus, não é difícil; mas com maioria também se faz, é uma questão de convicções e tomates.

quarta-feira, março 04, 2020

«Kick Out The Jams»

«Leitor de BD»




sobre Edibar, de Lucio Oliveira

segunda-feira, março 02, 2020

Polanski, grande Polanski

O «Caso Dreyfus» mexeu com a opinião pública francesa e ocidental na última década do século XIX.  Do lado do oficial do exército francês, vítima da maquinação de um canalha, da pestilência anti-semita e do espírito de corpo sem alma ou um patriotismo enviesado, estiveram as pessoas de bem (um conceito que faz rir), ultrajadas com a perfídia; do outro lado do  escândalo, os racistas e a extrema-direita católica ultramontana, refocilavam gozosos e nada interessados pela sorte de um inocente que fora desonrado e condenado: era um judeu, não se perderia grande coisa, mesmo se injustiçado. Com ele e a sua família, que nunca desistiu de o salvar e ilibar, em sua defesa, as pessoas decentes, como foi o caso de Eça de Queirós e, obviamente do grande Zola, que com a carta ao presidente da República desmascara toda a ignominiosa fraude.
O J'Accuse…!, de Zola seria sempre algo que enobreceria o seu autor. O romancista de Germinal era rico e respeitadíssimo -- uma força da natureza. Ao comprar uma guerra com a tropa, o governo, a Igreja e a opinião pública fanatizada, tirou-se de cuidados e obedeceu ao ímpeto ético de homem livre. Esta carga de obus disparada para o centro da conspiração foi decisiva para acabar com uma degradante injustiça, como todos os dissabores que causou ao escritor, a morte inclusive (segundo alguns autores, Zola, encontrado com a mulher morto no quarto, intoxicados durante a noite, foi assassinado em consequência do Caso Dreyfus, já que as saídas de fumo da chaminé estavam tapadas).
Já agora, existe uma edição na Guimarães, com um bom estudo prévio de Jaime Brasil, também seu biógrafo, com várias edições.
O filme teve para mim o mérito de lembrar o coronel Georges Picquart, numa memorável interpretação de Jean Dujardin, um desses homens íntegros para quem o bem e o mal não existe conforme as conveniências. Sem ele, e o seu sacrifício, não teria havido o panfleto de Zola.
Polanski, grande Polanski, um dos meus realizadores, que como Woody Allen e Martin Scorsese, não sabe fazer filmes maus. É um prazer ver-lhe a câmara apaixonada pela mulher, Emmanuelle Seigner.
Produção apoiada financeiramente por judeus, não há nada de reprovável em tal. O que me repugna é que se utilize o drama dos judeus na Europa para que se iniba de condenar a política criminosa do estado de Israel em relação aos palestinos, veja-se o que aconteceu com o cartoon de António…
Uma palavra paras as peruas do #metoo à francesa, ou lá o que é: ver aquelas insignificâncias a ladralhar quando o 'César' foi atribuído ao filme é absolutamente degradante -- aliás o Polanski nem sequer apareceu para não ser linchado, por elas e pela voragem merdiática. Isto tem tudo e não tem nada a ver com o filme; é um sinal dos tempos.



quarta-feira, fevereiro 26, 2020

na estante definitiva

Não tem rosto de mulher, a guerra, proclama Svetlana Alexievich, e com verdade: haverá algo mais contranatura do que ter capacidade para gerar vida e em simultâneo tirá-la? No entanto, numa breve nota preambular, reproduzindo uma conversa com um historiador (pp. 11-12) não identificado -- Alexievich utiliza o método do inquérito antropológico e sociológico do informante, ocultando a identidade dos seus entrevistados --, somos esclarecidos que mulheres guerreiras houve-as desde a Antiguidade grega; e que na chamada Grande Guerra Patriótica um milhão de mulheres soviéticas integraram o Exército Vermelho, desempenhando todas as tarefas e missões que um conflito em larga escala implica; de tal modo que o léxico russo teve de adaptar-se à femininização de vocábulos até então exclusivamente masculinos.
Svetlana Alexievich, A Guerra não Tem Rosto de Mulher, (1985 - 1ª edição na União Soviética)

«Leitor de BD»

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sobre O Raio U, de Edgar Pierre Jacobs

terça-feira, fevereiro 25, 2020

segunda-feira, fevereiro 24, 2020

sábado, fevereiro 22, 2020

«St. Louis Blues»

VPV - a morte do cronista

O maior cronista português é o Eça de Queirós; nem estou a ver quem lhe possa chegar perto.  Cultura fortíssima, ideias, convicções, um estilo arrebatador, e o humor .Para mim, a crónica queirosiana não é menos importante que a obra romanesca; estou quase tentado a dizer, antes pelo contrário...
Vasco Pulido Valente, historiador e também polemista temível foi o maior cronista do seu tempo, em que se conjugavam uma base cultural vasta e sólida, uma forma literária de primeira grandeza e uma óbvia inteligência e perspicácia. A História, aliás, dava-lhe uma perspectiva sobre o presente que não assiste à maioria dos que escrevem.

quinta-feira, fevereiro 20, 2020

decidir aerobortos em cima do joelho porque sim, e é comer e calar; ou não queriam mais nada; ou vivam a Moita e Montalegre!

Alguém que ponha na ordem estes deslumbrados, que não há paciência para arrogância, autossuficiência, desprezo pelos concidadãos, falta de cultura democrática. Eu costumava achar piada aos jovens turcos do PS, pareciam-me arejados, sem desgaste pelas manhas do poder (ingenuidade) nem tiques autoritários.
Recentemente, João Galamba, investido de poder e secretarialmentedeestado engravatado, a propósito das aldeias do lítio em Montalegre, aduziu dois argumentos supostamente de peso para avançar com o processo de prospecção: primeiro, o concurso fora lançado pelo governo anterior (PSD) e o governo actual teria de o cumprir sob pena de pagar(mos) pesadas indemnizações, etc. -- a cantiga do costume. O segundo argumento: não pode uma população, neste caso as das aldeias afectadas pela extracção do lítio, condicionar o resto do país, até por uma questão de solidariedade com o todo nacional, e mais violinos.
Argumento parecido quanto ao aeroborto do Montijo, lançado pelo governo do PSD, ou lá o que foi, e que -- diz agora o ministro Pedro Nuno Santos que a Moita (esquecendo-se dos outros, mas que fosse só a Moita...) não pode negar uma oportunidade que afecta o país.

Este episódio mostra bem que a coisa foi decidida em cima do joelho, tipo petit comité de estado-maior governamentalo-partidário. Só agora, depois desta conversa toda, se aperceberam que foram apanhados com as calças na mão. Para que servem os batalhões de assessores, juristas e outra macacaria? (Sobre isto haveria muito a dizer, mas não quero desviar-me.) Arrumando a questão legal: estamos todos fartos dos factos consumados e das pesadas heranças transmitidas de um governo para outro, das obrigações legais urdidas sempre pelos mesmos. Aqui, já não se fala em mudar a lei, curiosamente -- até porque, como disse um conhecido facilitador de negócios, a esta hora já os caterpilares deveriam estar a trabalhar no Montijo…

Mas isto são questões legais com contornos duvidosos, pouco claros, assuntos eventualmente de polícia e justiça, a gangrena de que se alimentam agremiações manhosas como o Chega e quejandos, pasto para invejosos e desiludidos da vida (a propósito: alguém foi julgado e condenado, alguém foi para a cadeia por causa do nascimento do Siresp? Já quase ninguém se lembra, não é? Provavelmente até já prescreveu a negociata enjorcada por um ministro de saída, e que o governo seguinte lá teve endossar sob pena de o Estado ter de pagar chorudas indemnizações, ou seja, corrupção e rapina -- ou seja, vileza.

Politicamente gravíssimo é o autoritarismo revelado pela dupla Galamba & Santos. Para o primeiro, as aldeias de Montalegre têm de amochar para benefício do país todo. Pois não têm; têm o dever de exigir um debate muito alargado no seu município, e só a eles caberá decidir se estão ou não de acordo com a abertura dessas minas à exploração, com contrapartidas muito bem definidas no caso de concordância, sendo o Governo o mediador entre população e empresa. Mas só e apenas nesse caso. Se não concordarem, que vão prospectar e abrir buracos para outro lado. O mesmo se passa com a Moita e os restantes municípios contrários ao aeroporto. Não querem, não há, ponto final. E escusa o ministro de vir fazer voz grossa e ameaçar com um rolo compressor legislativo para cilindrar as populações. (Aliás, estas têm tanta ou mais razão quando se vê agora que foi tudo decidido em cima do joelho.) Em democracia é o povo quem mais ordena; aqui sim, justifica-se um referendo, exclusivamente local e vinculativo se a participação for superior a metade do número de eleitores, após uma campanha com debate, esclarecimento, contrapartidas no papel. E só aí: tudo o resto é antidemocrático, anti-ético, e como tenho escrito, legitima toda a resistência não-violenta.
Aliás, se a decisão for para a frente, contra tudo e contra todos, a ocupação do terreno pelas populações não só está mais do que justificada, como é um imperativo ético, em nome do presente e das futuras gerações.


quarta-feira, fevereiro 19, 2020

JornaL

Aeroaborto. Ouvi na rádio: sem parecer vinculativo das autarquias envolvidas, aborta o aborto do Montijo -- pelo menos à face da Lei, que parece que é para respeitar, sob pena de processo, julgamento e cadeia. Como a as autarquias do PCP, Moita e Seixal, protegendo as suas populações, irão vetar aquela miséria, pensada para encher mais os bolsos para alguns (o 'Turismo', ai o 'Turismo'...), temos o aeroporto do Montijo abortado. Ou será que não?... Vamos lá a estar atentos às manigâncias, sim?... E o secretário-de-estado, a fazer de nós estúpidos e dos pássaros inteligentes. Vão ouvir a crónica do Bruno Nogueira de hoje na TSF.

Racismos. Dou parcialmente razão ao Pinto da Costa: aquela manifestação dos símios do Guimarães, mais do que uma manifestação de racismo é-o antes de estupidez. O plantel está cheio de negros, e uma das sua principais figuras, Neno, que creio também ser dirigente, antigo guarda-redes que passou também pelo Benfica, é negro. Atribuo o primarismo da manifestação, em primeiro lugar, a uma boçalidade que ainda não nos largou enquanto povo. É sabido como somos atrasados, impreparados, incultos e aldrabões -- embora com cada vez mais e maiores bolsas de "excelência". Quando eu era miúdo, na primária, cantava com os meus colegas: "Em Macau, o bom chinês limpa o cu ao português". O país ainda é muito isto; e o racismo larvar é mais animal que pérfido. Em tempo, e para o tempo: falo do caso Marega.

Vergonha. É algo que a Igreja Católica não tem, nem nunca teve. Aqueles nacos de homilias nas missinhas de Domingo, passados no Telejornal, são do melhor que tenho visto. Ai os padrecas, que me moem a paciência.

1820. É verdade: este ano comemora-se o Bicentenário da revolução de 1820, aquela que, entre outras coisas, arejou a sacristia que era este país.
O Deus verdadeiro. O Eric Clapton tocou ontem com o Roger Waters em Londres.

terça-feira, fevereiro 18, 2020

«Intruder»

«Leitor de BD»

sobre Promenade de la Mémoire, e mais

criadores & criatura



Malik, Terence e Archie Cash


sábado, fevereiro 15, 2020

na estante definitiva

«Bendito Aquele que tem o reino dos céus e da Terra, que comanda a imensidão do Espaço, que conhece o Tempo…» Alcorão, XLIII, 85 -- epígrafe de O Meu Coração É Árabe. Apesar de confundir-se, erradamente, árabe e muçulmano, não há dúvida que foi no mundo árabe que surgiu a religião de que Maomé se fez profeta. Enquanto leitor, neste caso, de uma antologia poética, direcciono o meu entendimento do Divino, aqui saudado através do livro sagrado do Islão para o Verbo -- o Verbo que abarca tudo; tempo e espaço, a matéria e o intangível. O verbo manejado pelo profeta, pelo poeta.
Adalberto Alves, O Meu Coração É Árabe -- A Poesia Luso-Árabe, Lisboa, Assírio & Alvim, 1987.


sexta-feira, fevereiro 14, 2020

«Leitor de BD»

sobre Champignc -- Enigma,
de BéKa e David Etien

quinta-feira, fevereiro 13, 2020

«Grand Hotel»

referendar a liberdade individual

Referendar direitos individuais é uma aberração. Por isso fui contra o referendo sobre a despenalização do aborto, independentemente da minha posição que era, e é, restritiva.
O que mais me horroriza é a falta de honestidade intelectual e a pulhice dos que pretendem impor a terceiros as suas convicções religiosas, para mim fantasmagorias sem sentido.
Entendo que, por razões éticas, embora questionáveis, alguém possa apresentar-se contra a despenalização da eutanásia. Entendo e respeito a posição do PCP, embora discorde dela, pondo-se do lado dos mais fracos, vítimas potenciais de um descarrilar do processo. Percebo perfeitamente, mas não aceito, que em nome de preocupações legítimas, que têm que ver com a qualidade das leis e o funcionamento do Estado, se possa restringir a liberdade individual de cada um poder dispor da sua vida, não como bem entende, ainda não chegámos aí, mas em situações de grande sofrimento.
Agora o que não suporto é que as religiões se atrevam a condicionar pessoas como eu. Respeitando a liberdade de cada um de praticar a sua fé, não admito que em nome de parvoíces com que pastoreiam o rebanho, me venham impor as crendices com que se entretêm. E, portanto, tem de dizer-se que um sector liderado pela Igreja Católica que se apresenta contra a despenalização da eutanásia mais não quer que impor, ilegitimamente e com desonestidade intelectual, as convicções religiosas que livremente professam, procurando restringir a liberdade dos outros, recorrendo a argumentos ad terrorem e a toda a sorte de jogo sujo em que são useiros e vezeiros.

«Parasitas»

Parasitas (2019), de Bomg Joon Ho

Entre a farsa e o abjecto, presente também nos locais menos óbvios, pormenores de realização que transformam a crueza dum antagonismo de classes num exercício  de onirismo alucinante.



quarta-feira, fevereiro 12, 2020

JornaL

Coronelismo. O governador do estado brasileiro da Rondônia proibiu nas escolas livros de Machado de Assis, Euclides da Cunha, Mário de Andrade e outros. Chama-se a isto extrema-direita cavalar.

Eutanásia, assunto em que a Igreja detém a maior expertise, ou não registasse no seu cadastro uma prática recorrente, tantas foram as almas perdidas a agonizar nas fogueiras da Inquisição -- sem esquecer os nímios cuidados paliativos aplicados nos cárceres da santa instituição. Ando a ficar um bocado farto destes gajos.

Farto. Alexandre Farto, mais conhecido por Vhils, numa entrevista ao JL de hoje expressa a convicção no poder da arte em influenciar e alertar para a necessidade de transformação social. Sempre foi essa a arte que mais me interessou, talvez por ser um tipo muito concreto, como certa vez disse pessoa amiga; sempre tive pouca paciência para os orgasmos solitários e menos ainda para o tricot. Ou seja: entre Cesário Verde e António Nobre, gostando de ambos, preferirei sempre o Cesário. 

terça-feira, fevereiro 11, 2020

segunda-feira, fevereiro 10, 2020

na estante definitiva

Cacau, de Jorge Amado (1912-2001) não é certamente um dos melhores dos seus livros (para mim, Mar Morto, Gabriela, Cravo e Canela e Tenda dos Milagres, entre outros).
Por que o ponho então na minha estante definitiva? Porque, tratando-se da segunda narrativa do jovem autor (vinte e um anos), depois da surpresa inicial de O País do Carnaval (1931), que é outra coisa, o romancista viril de putas e vagabundos, como o próprio se caracterizava, está todo aqui em potência.
Claro que as chamadas putas e os alegados vagabundos são os descamisados, os outlaws, os negros, descendentes e ex-escravos, e o gosto indeclinável pela beleza feminina, coisas que incomodam os nefelibatas.
Em nota prévia, o alerta semelhante que já Ferreira de Castro (que ele lera) fizera em Emigrantes (1928) e Alves Redol faria em Gaibéus (1939): «Tentei contar neste livro, com um máximo de honestidade, a vida dos trabalhadores das fazendas de cacau do sul da Bahia. / Será um romance proletário?»

da posse: Janeiro de 2003.



Jorge Amado, Cacau [1933], Lisboa, Planeta DeAgostini, s.d.
ilustrações: Santa Rosa