segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Com o «manto diáfano» ele (também) se cobriu

José Maria Eça de Queiroz ficou famoso por ter sido – ou tentado ser – um exemplar escritor realista, por ter tentado (e de certa forma conseguido?) aplicar na literatura – e, logo n(uma parte d)a arte – os mesmos critérios, princípios e técnicas do método científico. As suas descrições de pessoas e de locais são de um pormenor e de um rigor por vezes levado ao extremo e à exasperação, mas tal, afinal, mais não terá sido do que um estilo, uma marca autoral consciente e assumida para assim (procurar) obter credibilidade, tanto para a sua obra como para si próprio – já houve quem sugerisse que Eça era como que um antropólogo ao (d)escrever. Porém, e apesar de ele privilegiar os factos sobre as ficções quando construía as suas… ficções (isto é, baseava-se em «tipos», em categorias humanas mais ou menos facilmente identificáveis e reconhecíveis quando criava as suas personagens), ele não deixou de, numa ocasião ou outra, de «dar asas à (sua) imaginação» para o levar a situações e a enredos clara e decididamente fora dos limites demasiado estritos, e mesmo restritivos, da realidade quotidiana.
Terá sido esta sua faceta de ocasional mas virtuoso maestro do maravilhoso e do misterioso que me levou a consagrá-lo como que em «santo patrono» das duas antologias colectivas de contos de ficção científica e de fantástico que eu concebi e organizei, mais concretamente como autor das citações iniciais que dão como que o «tom» e o «mote» para o que vem a seguir. Na primeira dessas antologias, «A República Nunca Existiu!», publicada em 2008, escolhi o seguinte trecho: «O Partido Republicano em Portugal nunca apresentou um programa, nem verdadeiramente tem um programa. Mais ainda, nem o pode ter: porque todas as reformas que, como Partido Republicano, lhe cumpriria reclamar já foram realizadas pelo liberalismo monárquico. (...) A república não pode deixar de inquietar o espírito de todos os patriotas. Ela seria a confusão, a anarquia, a bancarrota. Além disso (é de urgente patriotismo falar com franqueza), a república entre nós não é uma questão de política interna, mas de política externa. Um movimento insurreccional em Lisboa, triunfante ou semitriunfante, teria no dia seguinte um exército de intervenção marchando sobre nós da fronteira monárquica de Espanha.» São excertos de um artigo de Eça de Queiroz intitulado «Novos factores da vida política portuguesa», publicado em 1890 na Revista de Portugal, e justifica-se realçar o (parcial) acerto da previsão do escritor: efectivamente, a implantação da república significou confusão, anarquia e bancarrota (e censura, violência, mortos, uma participação desastrosa na Primeira Guerra Mundial) mas não uma invasão por parte de Espanha. Aliás, a ideia (e o receio) de uma (nova, contemporânea) ocupação militar por «nuestros hermanos» seria desenvolvida por Eça no seu conto «A catástrofe», também conhecido como «A Batalha do Caia».    
Na segunda dessas antologias, «Mensageiros das Estrelas», publicada em 2012, escolhi o seguinte trecho: «(…) Ideias justas, exprimidas de uma forma sóbria, não nos interessam por aí além; o que nos encanta são as emoções excessivas traduzidas com um grande fausto plástico de linguagem. (…) O que nos atrai é a fantasia, sob todas as suas formas, desde a canção até à caricatura; também, na arte, havemos sobretudo produzido líricos e satíricos. Mantivemo-nos de olhos levantados para as estrelas. (…) Somos homens de emoção, não de raciocínio. (…)» São excertos do prefácio de Eça de Queiroz escrito para a primeira edição francesa d’«O Mandarim», publicada em 1883. Um texto, aliás, que constitui um importante elemento no meu artigo «A nostalgia da quimera» e na demonstração de que «o fantástico é o género dominante na literatura portuguesa»… tanto que o título vem dele! Justifica-se pois alargar a transcrição: «”Fazemos esta nobre tarefa não por uma inclinação natural da inteligência mas por um sentimento de dever literário… ia quase dizer de dever público. (…) (Mas se o artista português) não puder por vezes fazer uma escapadela para o azul morrerá bem depressa da nostalgia da quimera. Eis porque, mesmo depois do naturalismo, escrevemos ainda contos fantásticos, dos verdadeiros, daqueles onde há fantasmas e onde se reencontra ao canto das páginas o Diabo, o amigo Diabo, esse delicioso terror da nossa infância católica. Assim, ao menos durante todo um pequeno volume, não sentimos mais a incómoda submissão à verdade, a tortura da análise, a impertinente tirania da realidade. Estamos em plena licença estética. (…)” Apenas três anos mais tarde, Eça de Queiroz como que resumiria o seu pensamento sobre esta matéria a uma só frase notável que colocou como subtítulo de “A Relíquia”: “Sobre a nudez forte da verdade o manto diáfano da fantasia”.»
O Movimento Internacional Lusófono organizou em 2019, por proposta minha, o congresso «Eça de Queiroz, nos 150 anos do Canal do Suez», em que se apresentaram comunicações de um conjunto diversificado de autores tendo como pretexto a viagem do escritor ao Médio Oriente (Egipto e não só) para, principalmente, assistir à inauguração da revolucionária via de ligação entre o Mar Mediterrâneo e o Mar Vermelho. Neste ano de 2020 o MIL volta a celebrar o grande escritor a propósito de, sim, outra efeméride de século e meio com ele relacionada. E em 2021 assinalar-se-á outra que, muito provavelmente, nos suscitará também uma iniciativa! O criador de «Os Maias» é quase inesgotável nos conteúdos e nas consequências, implicações, das suas obras, e destas muitos «mantos», quais camadas, podem ser retiradas. (Também no Simetria.)  

domingo, 12 de janeiro de 2020

«O Egipto», criticamente?

Se há livro que é associado à viagem que Eça de Queiroz fez ao Médio Oriente em 1869 para, principalmente, assistir à inauguração do Canal do Suez, é «O Egipto», publicado após a sua morte. A questão da necessidade de se efectuar ou não uma «edição crítica» desta obra – assim como de outras deste escritor – tem sido debatida ao longo de décadas. Em 2016 a Relógio d’Água lançou uma versão organizada e prefaciada por Maria Filomena Mónica – autora de uma notável biografia de EdQ – que tem como (significativo) subtítulo «E Outros Textos Sobre o Médio Oriente». Recentemente perguntei a Rui Lopo, meu colega no Movimento Internacional Lusófono e também na comissão organizadora do congresso do passado mês de Novembro, se esta edição com pouco mais de três anos poderia ser suficiente para colmatar essa lacuna na investigação literária. Eis a sua resposta:
«Conheço essa edição que tem o grande mérito de recolher tudo o que o Eça "produziu" sobre o Médio Oriente. Devia ter sido a base de todos os que participaram no nosso congresso! Cito-a logo na primeira página do artigo que publicarei nas actas. Mas a Maria Filomena Mónica compilou os textos publicados pelo Eça em vida (“Os Ingleses no Egipto" – 1881, vide “Cartas de Inglaterra”) mais a "reportagem" no Diário de Notícias (vide “Notas Contemporâneas”) e os póstumos montados pelos filhos. A minha crítica incide sobre esses textos póstumos. Eu não estou a criticá-los pessoalmente. Acho que eles fizeram o melhor que sabiam e podiam: o filho coligiu e montou "O Egipto – Notas de Viagem" em 1926 e a filha transcreveu a "Alta Síria" e a "Palestina" nas "Páginas Soltas" que edita nos anos 40. Grande mérito! O que eu estava mesmo a pensar era no Carlos Reis e sua equipa que ainda não fizeram a edição crítica a partir dos manuscritos. Quanto mais tempo teremos de esperar por eles? Isto é, o filho assume no prefácio ao "Egypto" que cortou repetições, frases soltas, apontamentos, omissões, hesitações... isto é, aquilo que chamamos hoje "material em bruto". Eu acho que hoje em dia, para autores como o Pessoa, o Eça ou outros gigantes, tudo isto deve ser conhecido. Até para percebermos e aprendermos com a sua laboriosa oficina. E a Net pode ajudar a divulgar estas edições críticas – feitas com escrúpulo filológico – que naturalmente se dirigem a um público especializado. Para o grande público essa edição já disponível é óptima. Percebo que em papel seja difícil e oneroso publicar este tipo de projectos. A própria (grande queiroziana) Beatriz Berrini tentou cotejar o que o filho fez com o que o Eça escreveu e infelizmente desistiu, pela dificuldade da decifração caligráfica de textos que podem ter sido apontamentos no café, em cima de um camelo, e suas reescritas e reelaborações mais tarde na noite, no hotel Sheperd's. Uma futura edição crítica "ideal" num momento em que há muito tempo passou o prazo legal que oferece o Eça ao domínio público devia conter: fotografias de todos os manuscritos; transcrição sistemática de tudo – apontamentos soltos, tópicos, textos compostos, textos fragmentários, repetições, passagens a limpo; proposta de edição dos filhos com devida vénia histórico-crítica; nova proposta de edição dando conta de toda a fortuna crítica destes textos, cotejando todas as variantes e confrontando com os outros textos de temática conexa.» 
Enquanto essa autêntica edição crítica não é realizada, a acima citada, lançada pela RdA com a supervisão de Maria Filomena Mónica, é por enquanto talvez a melhor aproximação disponível. E beneficia ainda do facto de, ao contrário de livros posteriores publicados por aquela editora, não estar inquinada pelo dito «acordo ortográfico de 1990».

sexta-feira, 20 de dezembro de 2019

Eça «regressou» ao Egipto

O congresso «Eça de Queiroz, nos 150 anos do Canal do Suez», que o Movimento Internacional Lusófono, em colaboração com outras entidades, organizou e realizou entre 15 e 18 de Novembro deste ano não foi referido, lamentavelmente e tanto quanto pudémos constatar, nos maiores, principais, órgãos de comunicação social nacionais – e isto apesar de uma divulgação atempada e volumosa, conduzida principalmente pelo serviço de relações públicas da Biblioteca Nacional de Portugal.
Uma excepção, porém, deve-se registar, referir e realçar: o Diário de Notícias, que constituiu precisamente, tal como a BNP, uma das várias entidades que se associaram ao MIL na concretização do evento, e que, aliás, teria todo o interesse em fazê-lo, considerando a ligação histórica do jornal ao autor d’«A Relíquia», que começou logo no início de 1870 com a publicação das quatro crónicas-reportagens enviadas do Médio Oriente e que continuaria, no Verão do mesmo ano, com a publicação das «cartas» - na verdade, capítulos – que viriam a constituir «O Mistério da Estrada de Sintra».   
O desinteresse mediático pela nossa iniciativa verificado no nosso país foi de algum modo compensado pelo interesse verificado no país relacionado com a efeméride – exactamente, o Egipto. Graças à intervenção de um dos oradores no congresso, Maged Talaat Mohamed Ahmed El Gebaly, que é… egípcio, a evocação de Eça de Queiroz tomando como pretexto a inauguração da ligação entre os mares Mediterrâneo e Vermelho acontecida em Lisboa foi noticiada no Masrawy, um dos mais importantes portais informativos do Norte de África. Não dispomos actualmente de uma tradução do texto; no entanto, se e quando obtivermos uma procederemos, obviamente, à sua publicação aqui.

domingo, 1 de dezembro de 2019

Fotos do Congresso...

 15 de Novembro, na Sociedade de Geografia de Lisboa...
 16 de Novembro, na Casa do Alentejo...
18 de Novembro, na Biblioteca Nacional...

terça-feira, 19 de novembro de 2019

A viagem continua

Terminado, ontem, o congresso «Eça de Queiroz, nos 150 anos do Canal do Suez», cumpre-nos agora expressar novamente a maior gratidão aos que nele participaram – os oradores, os espectadores (vários dos quais também foram intervenientes, através das perguntas que colocaram nos debates tidos em cada painel) e as outras entidades que connosco colaboraram na organização, em especial a Sociedade de Geografia de Lisboa, a Biblioteca Nacional de Portugal e o Diário de Notícias. E também a Embaixada do Egipto: afinal, e contrariando (felizmente!) o que aqui afirmámos há dois dias, aquela marcou mesmo presença no congresso, através do cônsul Omar Choukry, que assistiu a parte do último painel e proferiu uma breve declaração, agradecendo a realização da iniciativa e enaltecendo a cooperação entre a sua nação e a nossa, dando como exemplo a que existe entre as autoridades do Canal do Suez e as do Porto de Sines. 
Porém, o que aconteceu entre os dias 15 e 18 de Novembro não vai desaparecer, ser esquecido, deixar de ter continuação, resultados: em 2020, numa das edições da revista Nova Águia, serão publicados os textos das comunicações apresentadas na SGL e na BNP; também no próximo ano o Movimento Internacional Lusófono poderá (co-)organizar mais um evento referente, igualmente, a uma efeméride associada à vida e à obra de Eça de Queiroz. Antes disso – concretamente, já amanhã – o autor de «A Relíquia» volta a estar em destaque: n(o auditório 1 da Torre B d)a Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa decorrerá, a partir das 14 horas, uma conferência proferida por Karla Suarez denominada  «Cuba e Portugal – Eça de Queiroz em Havana», precedida de uma apresentação por Maria Fernanda de Abreu…
… E que aborda, pois, um tema que já foi tratado ficcionalmente (ou nem tanto) na série televisiva «O Nosso Cônsul em Havana», que a RTP exibiu este ano.     

domingo, 17 de novembro de 2019

É amanhã que termina…

… O congresso «Eça de Queiroz, nos 150 anos do Canal do Suez», com os dois últimos painéis de comunicações, um de manhã (início às 10.15), outro de tarde (14.15), no auditório da Biblioteca Nacional de Portugal.
Ontem foi dia de almoço – adequada e devidamente «regado» com um vinho branco Tormes da Fundação Eça de Queiroz – na Casa do Alentejo de Lisboa, que juntou em agradável convívio alguns membros da comissão organizadora, oradores e espectadores do congresso com Ferreira Fernandes, director do Diário de Notícias, e isto algumas horas depois da publicação da – agora semanal – edição daquele jornal com a inclusão, previamente combinada com o Movimento Internacional Lusófono, de um caderno especial destacável de oito páginas com os textos que o autor d’«A Relíquia» escreveu e enviou para o mesmo no início de 1870, ainda em viagem pelo Médio Oriente depois de assistir à inauguração da então nova via de transporte e de comunicação; o suplemento inclui também um texto evocativo do nosso convidado, intitulado «Eça e o DN».
Em iniciativas como esta é quase inevitável que alterações (literalmente) de última hora aconteçam, e esta não foi excepção. Alguns oradores faltaram (com justificação) ao primeiro dia de trabalhos na Sociedade de Geografia de Lisboa; um deles, porém, deverá apresentar a sua comunicação amanhã na sessão da tarde – Rui Lopo, também membro da CO e que era, aliás, suposto moderar igualmente o segundo painel. Outra alteração teve, infelizmente, um carácter definitivo: o cancelamento do passeio cultural pela «Lisboa de Eça e da Geração de 70» previsto para hoje, isto devido às desfavoráveis condições climatéricas àquele que se verificam nestes dias na capital. Teríamos preferido – e era essa a nossa intenção inicial – realizar hoje um evento significativo, de preferência dentro de portas, porque hoje é precisamente o dia da efeméride que está na origem desta iniciativa, e nesse sentido contactámos oportuna e formalmente a Embaixada do Egipto em Portugal – que, no entanto, não nos deu uma resposta. Entretanto, naquele país o Canal do Suez teve os seus 150 anos efectivamente comemorados na data própria, uma ocasião que constitui um pretexto tanto para algumas (compreensíveis) reflexões de âmbito político, geo-estratégico e histórico como para outras (duvidosas) de âmbito ambiental.
Enfim, são de referir mais menções ao congresso e/ou à celebração que a ele está associada, feitas por António de Araújo no seu blog Malomil, Humberto Lopes no jornal Público e Artur Manuel Pires na Revista da Marinha.

quinta-feira, 14 de novembro de 2019

É amanhã que começa…

… O congresso «Eça de Queiroz, nos 150 anos do Canal do Suez», com os dois primeiros painéis de comunicações, um de manhã (início às 10.15), outro de tarde (14.15), na sala «Algarve» da Sociedade de Geografia de Lisboa.
Alfredo Campos Matos será o primeiro orador, e o Diário de Notícias publicou hoje, no seu sítio na Internet, uma entrevista ao grande especialista na vida e na obra do autor de «Os Maias». O mesmo jornal, que no próximo sábado incluirá na sua – agora habitual – edição semanal um caderno especial com os textos enviados pelo escritor aquando da sua visita ao Médio Oriente para cobrir, como jornalista, a inauguração da nova via de comunicação e de transporte marítima, publicou ontem um primeiro artigo sobre a efeméride e a iniciativa que o Movimento internacional Lusófono, em associação com outras entidades, organiza para a assinalar. De referir ainda que, hoje, Maria do Rosário Pedreira, no seu blog Horas Extraordinárias, divulgou o congresso.
Entretanto, há uma alteração na actividade marcada para sábado, 16 de Novembro: o almoço, com a presença de Ferreira Fernandes, director do Diário de Notícias e início às 13 horas, decorrerá na Casa do Alentejo – um local que também pode ser considerado «queirosiano» dada a presença do escritor na região em 1867, dois anos antes de partir para o Egipto, para dirigir o jornal Distrito de Évora. Quanto ao programado passeio em Lisboa no dia seguinte, domingo, 17 de Novembro, foi cancelado devido à previsão de chuva.

Com o «manto diáfano» ele (também) se cobriu

José Maria Eça de Queiroz ficou famoso por ter sido – ou tentado ser – um exemplar escritor realista, por ter tentado (e de certa forma c...