quarta-feira, 17 de junho de 2020

#323 - MORTE: SUAS CONTAS DE DIVIDIR (Alexandre Pinheiro Torres)

O horizonte divide-nos nas suas mentiras:
ou é uma árvore ou um rio e todos os anzóis que engoliu
ou uma mandíbula de peixe ou o sol: o velho incendiário ambulante.
A morte essa é um maravilhoso número indivisível.



segunda-feira, 15 de junho de 2020

#322 - "Deixamos passar os prazos de entrega" (Rui Almeida)

Deixamos passar os prazos de entrega
Sem que nos peçam contas. Somos nada
Mais do que tarefeiros postos à
Porta da repartição a ver quem


Entra tomado do assombro fácil
Indispensável aos pobres coitados
Como nós. Já não vamos a tempo
De desatar as sandálias ao mestre


Momentâneo. O nosso lugar
Está vago, somos de outro jeito,
De outro tom de voz. Amanhã
Já não haverá quem se lembre.





terça-feira, 9 de junho de 2020

#321 - "Julgam-me mui sabedor;" (António Aleixo)

Julgam-me mui sabedor;
e é tão grande o meu saber
que desconheço o valor
das quadras que sei fazer!



sábado, 6 de junho de 2020

#320 - DISSOLUÇÃO (Carlos Drummond de Andrade)

Escurece, e não me seduz
tatear sequer uma lâmpada.
Pois que aprouve ao dia findar,
aceito a noite.

E com ela aceito que brote
uma ordem outra de seres
e coisas não figuradas.
Braços cruzados.

Vazio de quanto amávamos,
mais vasto é o céu. Povoações
surgem do vácuo.
Habito alguma?

E nem destaco minha pele
da confluente escuridão.
Um fim unânime concentra-se
e pousa no ar. Hesitando.

E aquele agressivo espírito
que o dia carreia consigo,
já não oprime. Assim a paz,
destroçada.

Vai durar mil anos, ou
extinguir-se na cor do galo?
Esta rosa é definitiva,
ainda que pobre.

Imaginação, falsa demente,
já te desprezo. E tu, palavra.
No mundo, perene trânsito,
calamo-nos.
E sem alma, corpo, és suave.


quarta-feira, 3 de junho de 2020

#319 - FLORESTA CONVULSA (Alberto de Oliveira)

Floresta de altas árvores, escuta:
Em minha dor vim conversar contigo,
Como no seio do melhor amigo,
Descanso aqui de tormentosa luta.


Troncos da solidão intacta e bruta,
Sabei… Ah! que, porém, como um castigo
Vos estorceis, e o som do que vos digo
Vai morrer longe em solitária gruta.


Que tendes, vegetais?... remorso?... crime?...
Açoita-vos o vento, como um bando
De fúrias e anjos maus, que nós não vemos?


Mas explicai-vos ou primeiro ouvi-me,
Que a um tempo assim braceando, assim gritando,
Assim chorando não nos entendemos.



segunda-feira, 1 de junho de 2020

#318 - MERIDIONAL (Cesário Verde)

CABELOS


Ó vagas de cabelo esparsas longamente,
Que sois o vasto espelho onde eu me vou mirar,
E tendes o cristal dum lago refulgente
E a rude escuridão dum largo e negro mar;

Cabelos torrenciais daquela que me enleva,
Deixai-me mergulhar as mãos e os braços nus
No báratro febril da vossa grande treva,
Que tem cintilações e meigos céus de luz.

Deixai-me navegar, morosamente, a remos,
Quando ele estiver brando e livre de tufões,
E, ao plácido luar, ó vagas, marulhemos
E enchamos de harmonia as amplas solidões.

Deixai-me naufragar no cimo dos cachopos
Ocultos nesse abismo ebânico e tão bom
Como um licor renano a fermentar nos copos
Abismo que se espraia em rendas de Alençon!

E ó mágica mulher, ó minha Inigualável,
Que tens o imenso bem de teres cabelos tais,
E os pisas desdenhosa, altiva, imperturbável,
Entre o rumor banal dos hinos triunfais;

Consente que eu aspire esse perfume raro,
Que exalas da cabeça erguida com fulgor,
Perfume que estonteia um milionário avaro
E faz morrer de febre um louco sonhador.

Eu sei que tu possuis balsâmicos desejos,
E vais na direcção constante do querer,
Mas ouço, ao ver-te andar, melódicos harpejos,
Que fazem mansamente amar e enlanguescer.

E a tua cabeleira, errante pelas costas,
Suponho que te serve, em noites de Verão,
De flácido espaldar aonde te recostas
Se sentes o abandono e a morna prostração.

E ela há-de, ela há-de, um dia, em turbilhões insanos
Nos rolos envolver-me e armar-me do vigor
Que antigamente deu, nos circos dos romanos,
Um óleo para ungir o corpo ao gladiador.

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Ó mantos de veludo esplêndido e sombrio,
Na vossa vastidão posso talvez morrer!
Mas vinde-me aquecer, que eu tenho muito frio
E quero asfixiar-me em ondas de prazer.




quarta-feira, 27 de maio de 2020

#317 - O SAPO (Afonso Lopes Vieira)

Não há jardineiro assim,
não há hortelão melhor
para uma horta ou jardim,
para os tratar com amor.


É o guarda das flores belas,
da horta mais do pomar;
e enquanto brilham estrelas,
lá anda ele a rondar…


Que faz ele? Anda a caçar
os bichos destruidores
que adoecem o pomar
e fazem triste as flores.


Por isso, ficam zangadas
as flores, se se faz mal
a quem as traz tão guardadas
com seu cuidado leal.


E ele guarda as flores belas,
a horta mais o pomar;
brilham no céu as estrelas,
e ele ronda, a trabalhar…


E ao pobre sapo, que é cheio
de amor pela terra amiga,
dizem-lhe muitos que é feio
e há quem o mate e persiga!


Mas as flores ficam zangadas,
choram, e dizem por fim:
-- «Então ele traz-nos guardadas,
e depois pagam-lhe assim?»


E vendo, à noite, passar
o sapo cheio de medo,
as flores, para o consolar,
chamam-lhe lindo, em segredo…












(Raul Lino)

segunda-feira, 25 de maio de 2020

#316 - FOZ DO ARELHO ou PRIMEIRO POEMA DO PESCADOR (Manuel Alegre)

Este é apenas um pequeno lugar do mundo
um pequeno lugar onde à noite cintilam luzes
são os barcos que deitam redes junto à costa
ou talvez os pescadores de robalos com suas lanternas
suas pontas de cigarro e suas amostras fluorescentes
talvez o Farol de Peniche com seu código de sinais
ou a estrela cadente que deixa um rastro
e nada mais.

Um pequeno lugar onde Camilo Pessanha voltava sempre
talvez pelo sol e as espadas frias
talvez pelas orquestras e os vendavais
ou apenas os restos sobre a praia
«pedrinhas conchas pedacinhos d'osso»
e nada mais.

Um pequeno lugar onde se pode ouvir a música
o vento o mar as conjunções astrais
um pequeno lugar do mundo
onde à noite se sabe
que tudo é como as luzes que cintilam
um breve instante
e nada mais.

Foz do Arelho, 8.8.96


domingo, 24 de maio de 2020

#315 - ONDA VAI ONDA VEM (Antero Abreu)

Forma-se a onda e depois outra e outra
E enquanto se desfazem outras vêm
O mar é sempre o mesmo e no entanto
Em onda se divide
E nelas se une.

O mar somos nós todos
O mundo
Em água condensado.

Onda vai onda vem
A fina areia e o mar vai revolvendo.

Desponta ao longe uma restinga.

17/10/977


sábado, 23 de maio de 2020

#314 - O BAILADOR DE FANDANGO (Pedro Homem de Melo)

Sua canção fora a Gota.
Sua dança fora o vira.
Chamavam-lhe: «o fandangueiro».
Mas o seu nome verdadeiro
Quando bailava, bailava,
Não era nome de cravo,
Nem era nome de rosa.
-- Era o de flor, misteriosa,
Que se esfolhava, esfolhava...
E havia um cristal na vista
E havia um cristal no ar
Quando aquele fandanguista
Se demorava a bailar!
E havia um cristal no vento
E havia um cristal no mar!
E havia no pensamento
Uma flor por esfolhar...
Fandangueiro! Fandangueiro!
(Nem sei que nome lhe dar...)
Tinham seus braços erguidos
Nem sei que ignotos sentidos...
-- Jeitos de asa pelo ar...
Quando bailava, bailava,
Não era folha de cravo
Nem era folha de rosa.
Era uma flor, misteriosa,
Quando se esfolhava, esfolhava...