quarta-feira, 24 de junho de 2020

José Bonifácio se recusou a ser ministro



José Bonifácio chegou ao Rio de Janeiro acompanhado dos deputados de São Paulo no dia 18 de janeiro de 1822, uma semana após o Dia do Fico e já nomeado ministro à revelia da sua vontade. Angustiada pelos acontecimentos da semana anterior, a princesa Leopoldina foi encontrá-lo a cavalo a meio caminho entre a Fazenda de Santa Cruz e o porto de Sepetiba, onde a comitiva desembarcou. Ela sabia que o impulsivo, porém inexperiente, marido precisava de apoio e orientação naquele momento difícil. Ao apresentar a Bonifácio os filhos pequenos disse: “Estes dois brasileiros são vossos patrícios e eu peço que tenhais por eles um amor paternal.” 

O historiador Octávio Tarquínio de Sousa conta que D. Pedro estava tão ansioso quanto Leopoldina para encontrar-se com os paulistas. Por isso, os recebeu entre nove e dez horas da noite, sem que tivessem tempo de mudar as roupas com as quais viajavam. Todos foram introduzidos no palácio por uma porta privada, e ali mesmo o príncipe comunicou a nomeação de Bonifácio. Recebeu um sonoro “não” como resposta. O paulista avisou que se dispunha a ajudar o príncipe em tudo que precisasse, menos como ministro. Depois de alguns instantes de impasse, voltou atrás e anunciou que aceitaria mediante algumas condições. D. Pedro perguntou quais eram. Bonifácio pediu uma conversa a sós, “de homem a homem”. Nunca se soube o conteúdo do diálogo que se seguiu entre os dois, mas Bonifácio saiu dali ministro, como queria D. Pedro.

Fonte: GOMES, Laurentino. 1822. Como um homem sábio, uma princesa triste e um escocês louco por dinheiro ajudaram D. Pedro a criar o Brasil – um país que tinha tudo para não resultar. 1° ed. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2010.

Imagem: Leopoldina (Letícia Colin) cercada por D. Pedro (Caio Castro) e Bonifácio (Felipe Camargo) em Novo Mundo. (Foto de TV Globo)

Originalmente postado no  blograinhasmalditas

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sábado, 20 de junho de 2020

A história do nome do bairro de Paciência no Rio de Janeiro e a Marquesa de Santos



Há muitas estórias para a origem do nome do bairro Paciência na zona oeste do Rio de Janeiro, são variadas as versões, mas a maioria ligadas à Domitila de Castro, a Marquesa de Santos.

Uma delas foi contada no periódico A Manhã em 1947 pelo historiador Arnaud Pires Chagas, sobre o encontro do casal de amantes na Fazenda Santa Cruz . Ele cita como ponto de descanso de d. Pedro I antes de chegar à Santa Cruz, a Fazenda dos Ribeiro que mais tarde se chamaria Paciência e daria nome ao bairro, diz também que a Estrada de Ferro passava pelas terras da fazenda e ao lado da sede. Nos idos de 1947, com palmeiras circundando o casarão, a sede se achava em ruínas. Que a fazenda pertenceria ao Comendador Souza Ribeiro e que os encontros dos amantes se sucederam em Santa Cruz até a mudança da Marquesa para São Cristóvão bem perto do palácio da Boa Vista.



Outros periódicos atribuem ainda a propriedade de um engenho à Marquesa de Santos na região com o nome de Paciência como por exemplo no periódico abaixo:

O Fluminense (RJ)

De fato Domitila esteve na região e hospedada na fazenda de Santa Cruz. Segundo Rezzutti em Domitila – A Verdadeira História da Marquesa de Santos, pelas ocasiões abaixo:

Uma ocasião foi com a filha Isabel Maria de Alcântara Brasileira, a duquesa de Goiás, que nasceu no Rio de Janeiro em 1824. Filha do imperador D. Pedro I com Domitila ainda com o título de Viscondessa. O pai a reconheceu oficialmente em 1826 dando-lhe o título. 



“No dia 31 de julho, d. Pedro foi com a mulher e a filha rezar pela saúde da duquesinha, cumprindo uma promessa feita por Domitila. Logo depois, no início de agosto, o imperador partiria com a viscondessa e a Goiás para a Fazenda de Santa Cruz, sem levar mais ninguém. D. Leopoldina e os filhos ficavam sozinhos em São Cristóvão, e o governo completamente parado, enquanto d. Pedro passava férias com a amante e a filha.”

Outra ocasião citada por Rezzutti foi 19 em de abril de 1827. “Passadas as festividades da Páscoa na corte, que naquele ano foi em 19 de abril, d. Pedro foi para a Fazenda de Santa Cruz esperar Domitila. Impaciente como de hábito, antecipou-se à chegada da marquesa, indo aguardá-la duas léguas adiante, em Itaguaí. Ficaram hospedados em Santa Cruz até quase o final do mês, matando as saudades e afogando as mágoas.”

Em contato com o biógrafo Paulo Rezzutti em 2019 a respeito do engenho que a Marquesa teria em Paciência, ele nos diz que: “Eu já li informações sobre ela ter tido engenho no RJ, mas nunca descobri onde e se a informação era realmente correta”.

Sobre a região onde hoje é o bairro, segundo Pedroza em Transmissões de Engenhos de Campo Grande, desde 1669 os Carmelitas ao receberam grande Sesmarias em Guaratiba, se tornaram senhores da Fazenda da Pedra , em Pedra da Guaratiba, e ainda controlavam o porto. Eram os padres também, senhores do engenho de açúcar do Mato da Paciência em Campo Grande e o aforaram a João Francisco negociante e esposo de Mariana Eugênia em 1797.

Mariana Eugênia faleceu em 1840, segundo sua longa necrologia teve vida exemplar e gênio ativo, ela teria adquirido a primeira máquina a vapor  do Brasil, para o engenho de Paciência em 1815, além da melhorias no engenho de Palmares que herdou do marido  falecido.

Diário do Rio de Janeiro (RJ) – 1840

Significa portanto que o nome do bairro advém do engenho de açúcar e não dos encontros furtivos de d. Pedro I e da Marquesa de Santos, mas ainda assim a Fazenda da Paciência era um dos locais de parada e descanso em direção a Fazenda Real de Santa Cruz, segundo Noronha Santos e outros relatos.

O Fluminense (RJ)

Um outro ponto no artigo do Arnaud Pires Chagas é o fato do Comendador Antonio de Souza Ribeiro ser sido dono da fazenda de Paciência, segundo o Almanak Mercantil essa informação está correta, pelo menos no período de 1875 a 1881.

Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro (RJ)

Gazeta de Noticias (RJ) – 1881

Texto de Deca Serejo
Maranhense, moradora de Campo Grande na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro, guia de turismo, apaixonada por história, pela cidade maravilhosa e bairrista.

Originalmente postado no blog riodecoracaotour 

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sexta-feira, 19 de junho de 2020

Cidade romana de 2 mil anos é descoberta sem nenhum tipo de escavação


Portão de entrada para a cidade romana de Falerii Novi - Wikimedia Commons

Uma tecnologia inovadora evitou que se escavasse a área, mas mesmo assim permitiu localizar templos, ruas e até esgotos da antiga localidade

Detalhes surpreendentes da cidade romana de Falerii Novi, soterrada na Idade Média, foram descobertos por arqueólogos, que nem se quer precisaram escavar o terreno. O local, a cerca de 50 quilômetros de Roma, foi desvendado por um radar, que mapeou o solo de toda a localidade. 

Graças à tecnologia, foi possível ver como a cidade evoluiu desde o momento em que foi construída, em 241 a.C, até o seu abandono, em 700 d.C. O radar permitiu enxergar a antiga urbe através das camadas de solo, revelando que lá havia uma rede de tubulações de água, locais para banho e esgoto, além de um mercado e um templo. 

Havia ainda um monumento público, um objeto que estava perto do portão norte da cidade. O design do local, ao contrário do que se acreditava, era bem diferente do de Pompéia. Em relação às outras cidades do período, essa urbe era bastante particular. O templo, mercado e um local com banheiros tinham estruturas muito mais complexas do que se imaginava. 

Mapa da cidade registrado por meio do radar / Crédito: Divulgação

"O nível surpreendente de detalhes que alcançamos em Falerii Novi, e os recursos surpreendentes que o [radar de penetração no solo] revelou, sugerem que esse tipo de pesquisa pode transformar a maneira como os arqueólogos investigam os locais urbanos, como entidades totais", disse em comunicado Martin Millett, pesquisador da Universidade de Cambridge, que fez parte do estudo. 

Texto de Vanessa Centamori

Originalmente postado em AH - Aventuras na História

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quinta-feira, 18 de junho de 2020

Sob a luz do saber



Uma das quatro bibliotecas mais bonitas do mundo fica no centro do Rio e atende pelo nome de Real Gabinete Português de Leitura. Essa joia da arquitetura neomanuelina, meio escondida atrás do Teatro João Caetano, é um templo da língua portuguesa aberto a qualquer mortal. Com o maior acervo de obras lusitanas fora de Portugal, a instituição é bicentenária tem mais de 350 mil títulos, inclusive um exemplar da primeira edição de 'Os Lusíadas', poema épico de Luís de Camões escrito pouco depois do descobrimento do Brasil. O acervo não para de crescer, já que uma lei portuguesa torna obrigatória a remessa ao Real Gabinete de um exemplar de cada livro editado lá. 

A biblioteca é fruto de uma associação de intelectuais e comerciantes portugueses. Com objetivo de preservar a cultura e a literatura lusa do lado de cá do Atlântico, eles fundaram-na em 1837. A vistosa sede só seria construída em 1887, com o incentivo – claro – do imperador Pedro II e de sua filha, a princesa Isabel, amantes que eram das letras e da tradição lusófona. Decorada com estátuas de heróis portugueses como Vasco da Gama, Pedro Álvares Cabral e, claro, Camões, a instituição mantém também um museu e um Centro de Estudos. O título que consagra sua beleza foi conferido em um levantamento realizado pela revista americana 'Time', que  colocou o Real Gabinete ao lado da George Peabody Library, que fica na universidade Johns Hopkins (EUA); da Biblioteca Real de Copenhague, na Dinamarca; e da Clementinum, que fica capital tcheca, Praga. 

Subir as escadas de mármore, atravessar os portões de ferro lindamente decorados e adentrar o salão de leitura dá a sensação de uma volta no tempo. As vetustas estantes, de madeiras nobre, se erguem a 25 metros de altura, alcançando a magnífica claraboia.  Dominando tudo, o enorme lustre parece vigiar aqueles que vêm à procura dos escritos de imortais  ou, simplesmente, para apreciar o lugar. A uns e outros, letreiros em relevo solicitam o necessário silêncio. Nem era preciso – dentro do Real Gabinete Português de Leitura, a reverência é quase tão perceptível quanto os raios de sol que o atravessam de alto a baixo. É a luz do saber.

Originariamente postado no Passeador Carioca

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terça-feira, 16 de junho de 2020

Quarentena deixa água de um lago na Turquia limpa e ruínas de antiga igreja é encontrada



Estima-se que a basílica tenha aproximadamente 1.600 anos.

O meio ambiente certamente é o mais beneficiado com a pandemia. A diminuição drástica da poluição – já que as pessoas precisam estar em casa ou mantendo um sério distanciamento social, querendo ou não, está fazendo com que a natureza permaneça mais limpa do que costume.

Os benefícios já foram vários, indo dede a recuperação da camada de ozônio no Ártico até animais selvagens vistos nas áreas urbanas, sem esquecer também os rios, lagos e mares, que viram suas águas ficarem transparentes novamente.


Na Turquia por exemplo, algo incrível aconteceu, permitindo que fosse observado algo até então oculto debaixo d’água.

No lago Iznik, na região noroeste do país, foi encontrada uma basílica da época bizantina, com aproximadamente 1.600 anos. As imagens revelam como ela pode ser vista claramente agora que o lago está transparente. A igreja havia sido descoberto pela primeira vez em 2014, mas devido à cor das águas, ela foi perdida de vista. No entanto, agora ela pôde novamente ser encontrada, revelando poucos metros de profundidade.

Na época, a descoberta foi considerada pelo Instituto Arqueológico da América como uma das 10 melhores descobertas do ano. Acredita-se que ela foi construída em 390 D.C, em homenagem a Saint Neophyte, um santo cristão que foi martirizado em 300 D.C, embora se calcule que a Igreja entrou em colapso durante um terremoto por volta de 740 D.C, sendo afundada no lago.


“Não tinha descoberto uma estrutura tão magnífica como essa (…) Quando vi pela primeira vez as imagens do lago, fiquei surpreso ao ver a estrutura de uma igreja tão claramente”, disse o professor Mustafa Sahin, chefe do Departamento de Arqueologia da Universidade de Uludag, em entrevista para o site Live Science.

Além disso, o professor especula que a igreja tenha sido um templo pagão da época do imperador romano Commudus, localizada sob os restos da própria basílica.

Artigo original: Live Science

Autor do texto: somadetodososafetos 

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Manuel Jacinto Nogueira da Gama, Primeiro Marquês de Baependi, e sua esposa Francisca Mônica Carneiro da Costa



Retrato de Manuel Jacinto Nogueira da Gama, Primeiro Marquês de Baependi, e sua esposa Francisca Mônica Carneiro da Costa, Marquesa de Baependi. Pintura de Claude Joseph Barandier, 1826.

Baependi era membro da tradicional família dos Nogueira da Gama, que prestara importantes serviços à Coroa portuguesa. Nascido em São João del Rei, Minas Gerais, em 1765 iniciou seus estudos no Brasil, até ingressar na Universidade de Coimbra, onde se graduou em filosofia natural (1789) e matemática (1790). Em Portugal, foi lente substituto de matemática da Academia Real de Marinha, nomeado por decreto de 16 de novembro de 1791. Usou de sua influência com o Principe Regente para proteger amigos envolvidos na Inconfidência Mineira.

Foi escrivão do Erário Régio no Rio de Janeiro (1809-1821) e conselheiro do Conselho de Fazenda (1821). Integrou o Conselho de Procuradores-Gerais das Províncias do Brasil (1822-1823), criado pelo príncipe regente d. Pedro, após o regresso de d. João VI para Portugal. Foi secretário de Estado dos Negócios da Fazenda em diversas ocasiões (1823, 1826-1827 e 1831). Teve ainda uma carreira política, tendo sido deputado geral pelo Rio de Janeiro na Assembleia Constituinte de 1823, senador pela província de Minas Gerais (1826-1847), e presidente do Senado (1838).

Em 1823 integrou o Conselho de Estado, encarregado de elaborar a Constituição outorgada em 1824, após a dissolução da Assembleia Constituinte. Casou-se em 1809 com Francisca Monica Carneiro da Costa e Gama, filha do importante comerciante português Brás Carneiro Leão e de Anna Francisca Maciel da Costa, baronesa de São Salvador de Campos dos Goytacazes.

Seus filhos tiveram destaque na administração imperial: Brás Carneiro Nogueira da Costa e Gama, segundo conde de Baependi, Manuel Jacinto Carneiro da Costa e Gama, barão de Juparanã e Francisco Nicolau Carneiro Nogueira da Costa e Gama, barão Santa Mônica. Recebeu os títulos de visconde (1825) e marquês (1826) de Baependi. Foi agraciado ainda com a Grã-cruz da Ordem da Rosa, dignitário da Ordem do Cruzeiro, e comendador da Ordem de São Bento de Avis. Como militar, chegou à patente de marechal-de-campo. Faleceu em 1847 aos 82 anos de idade.

Texto original: Brazil Imperial

Obs: Francisca Mônica Carneiro da Costa, Marquesa de Baependi, era uma das cinco irmãs de Mariana Eugênia Carneiro da Costa, a grande senhora de Engenho da Mata da Paciência (1773 – 1840) (área que englobava os atuais bairros de Cosmos, Inhoaíba e Paciência), na periferia ocidental carioca.

Segundo Adriano Novaes do Inepac. Esse óleo sobre tela do casal ficava em uma das várias salas da Fazenda Santa Mônica, lá em Valença. O tela hoje encontra-se no Museu do Forte de Copacabana, no Rio.


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sábado, 13 de junho de 2020

Superintendência da Fazenda de Santa Cruz (1889-1930)


Estação de Piedade, com a linha telegráfica entre a Estação Central e a Fazenda de Santa Cruz, Rio de Janeiro, 1906

A Fazenda Nacional de Santa Cruz teve origem na sesmaria de Guaratiba, doada em 6 de janeiro de 1567 ao primeiro ouvidor do Rio de Janeiro, Cristóvão Monteiro, que lutara ao lado de Mem de Sá para expulsão dos franceses. Sua viúva, dona Marquesa Ferreira, em 1589 transferiu ainda em vida metade dessas terras à filha Catarina Monteiro, concedendo a outra parte aos jesuítas. No ano seguinte, a Companhia de Jesus tomou posse de sua porção e incorporou ainda o restante da propriedade através de uma permuta com Catarina Monteiro e seu marido, José Adorno, por terras em Bertioga e Santos, na capitania de São Vicente.

As delimitações da sesmaria original foram alteradas ao longo do tempo, como resultado de inúmeras incorporações e desmembramentos que se verificariam ao longo dos anos. Com a expulsão dos jesuítas em 1759, a fazenda foi incorporada aos bens da Coroa e ficou subordinada diretamente ao vice-rei, pela carta régia de 16 de outubro de 1761, passando sua produção por um período de decadência. Em 1808, pelo decreto de 31 de agosto, a administração da fazenda, com o objetivo de promover o aumento das receitas e o progresso da agricultura e de ramos da indústria, foi colocada sob a direção do Erário Régio, órgão para o qual deveria ser enviado um balanço anual de receita e despesa, além de uma exposição dos trabalhos de melhoramentos realizados. Somente em 1889, com a Proclamação da República, quando passou a denominar-se Fazenda Nacional de Santa Cruz, voltou a ser integrada ao domínio da administração pública.

Em 1891 o relatório ministerial apresenta um pequeno balanço de sua situação, informando sobre o conflito entre os ministérios da Guerra, da Fazenda e do Interior acerca da administração daquela área, ocupada em parte pelo 5º Regimento de Artilharia. No entanto, a Fazenda de Santa Cruz, apesar do mau estado de conservação, ainda possuía importância, sendo capaz de gerar considerável renda. Apesar da decadência e do abandono da lavoura, contava com mais de mil foreiros e arrendatários. Em suas terras se localizava o matadouro público, inaugurado em 1881, além de ser ponto de descanso para o gado que era abatido e supria de carne verde a capital.

A questão fundiária seria tratada em diversas ocasiões ao longo dos anos seguintes. O levantamento da situação da fazenda deu origem ao decreto n. 613, de 23 de outubro de 1891 e aos avisos n. 157, de 29 de outubro e n. 5, de 12 de fevereiro de 1892 (Brasil, 1892). O decreto n. 613 conferiu regulamento à Fazenda Nacional de Santa Cruz, que ficava sujeita à Recebedoria do Rio de Janeiro, e procurou regularizar a arrecadação da renda proveniente de foros e arrendamentos de terrenos. Em 1892 a lei n. 126-B, de 24 de novembro, artigo 14, autorizou o Poder Executivo a conceder a remissão de foros da Fazenda de Santa Cruz, quanto aos terrenos sitos no Estado do Rio de Janeiro, a transformar em foreiros os arrendatários e a validar os aforamentos posteriores à lei de 25 de novembro de 1830. Em virtude desse disposto, foi expedido o decreto n. 1.195-D, de 30 de novembro de 1892, que dava instruções para sua execução, determinando o prazo de um ano para que os foreiros requeressem a remissão dos foros a que estivessem obrigados, mesmo prazo para que os arrendatários solicitassem a transformação dos arrendamentos em aforamento e legalizassem seus títulos. E ainda, passava a Superintendência da Fazenda de Santa Cruz, então a cargo da Recebedoria da Capital Federal, à Diretoria-Geral das Rendas Públicas do Tesouro Nacional, pela seção dos próprios nacionais (Brasil, 1892, p 1.287).

A lei n. 360, de 30 de dezembro de 1895, em seu artigo 10, transformava em aforamentos os arrendamentos de terras da Fazenda de Santa Cruz, estabelecendo que os arrendatários tivessem a remissão do foro concedida mediante o pagamento de 20 anos do arrendamento a que estivessem obrigados. Assim, ao longo dos primeiros anos da República, a situação da ocupação da Fazenda de Santa Cruz recebeu regulamentação que procurava ordenar o aforamento da área, bem como estimular sua exploração agrícola.

A retomada na criação de núcleos oficiais no período republicano, a partir de 1907, deu-se pelo decreto n. 6.455, de 19 de abril, que aprovou as bases para o serviço de povoamento do solo nacional. Com a Constituição de 1891, a questão das terras devolutas havia passado para o âmbito das unidades da federação, o que significou a contenção da criação de núcleos coloniais, já que os estados não tinham como arcar com os recursos para o custeio da política imigratória. Foi, portanto, com a criação do Serviço de Proteção aos Índios e Localização dos Trabalhadores Nacionais, pelo decreto n. 8.072, de 20 de junho de 1910, que a constituição de núcleos coloniais nos estados ganhou um forte estímulo. Tal medida integrou a política agrícola capitaneada pelo Governo Federal de assentamento e fixação de colonos em pequenas propriedades, que, ainda que distinta da efetivada no período monárquico, manteve o privilégio do imigrante em detrimento do trabalhador nacional (Mendonça, 1997; Petrone, 2006, p. 146).

Após 1930, a política agrícola sofre uma inflexão, onde se evidenciou a preocupação com a pequena e a média propriedade, tendo por orientação o fornecimento de alimento às populações urbanas e matérias-primas à indústria nacional. Assim, ganha reforço o projeto de investimentos nos núcleos coloniais existentes e de criação de novos, capazes de produzir para o mercado interno, sem confrontar a estrutura agrária tradicional, baseada nos grandes latifúndios (Linhares; Silva, 1999).

Dessa forma, o decreto n. 19.133, de 11 de março de 1930, criou um centro agrícola em terras da Fazenda de Santa Cruz, ao qual seguiria a constituição de outros no Estado do Rio de Janeiro: o núcleo colonial de São Bento (1932), no município de Duque de Caxias; o de Tinguá (1938), no município de Nova Iguaçu; um segundo em Duque de Caxias e Magé (1941); em Papucaia, Cachoeira de Macacu (1951); em Macaé (1951) e em Santa Alice, localizado em Itaguaí (1955) (Barcellos, 2008, Nota 4, p. 20). A área total das colônias agrícolas do Estado do Rio de Janeiro era de 49.096 hectares, sendo a maior e a mais importante a de Santa Cruz, com 19.140 hectares (Neves, 2009, p. 30).

Texto de Dilma Cabral - Jun. 2018

Fontes e bibliografia:

ADMINISTRAÇÃO da Fazenda de Santa Cruz. In: DICIONÁRIO da Administração Pública Brasileira do Período Colonial (1500-1822), 2011. Disponível em: https://goo.gl/bJkH3a. Acesso em: 21 ago. 2015.

BARCELLOS, Fernando Henrique Guimarães. Ação sindical e luta por terra no Rio de Janeiro. 2008. Dissertação (Mestrado). Instituto de Ciências Humanas e Sociais, Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.

BRASIL. Decreto n. 1.195-D, de 31 de dezembro de 1892. Dá instruções para a execução do art. 14 da lei n. 126 B, de 21 de novembro do corrente ano. Coleção das leis da República dos Estados Unidos do Brasil, v. 1, parte II, p. 1.287, 1892.

Relatório apresentado ao presidente da República dos Estados Unidos do Brasil pelo ministro de Estado dos negócios da Fazenda Francisco de Paula Rodrigues Alves no ano de 1892. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1892.

Relatório apresentado ao vice-presidente da República dos Estados Unidos do Brasil pelo ministro de Estado dos negócios da Fazenda Francisco de Paula Rodrigues Alves no ano de 1896. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1896.

GAMA, José Saldanha da. História da Imperial Fazenda de Santa Cruz – Primeira Parte. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, tomo 38, parte II, p. 165-225, 1875.

LINHARES, Maria Yedda; SILVA, Francisco Carlos Teixeira da. Terra prometida: uma história da questão agrária no Brasil. Rio de Janeiro: Campus, 1999.

MENDONÇA, Sonia Regina de. O ruralismo brasileiro. São Paulo, Hucitec, 1997.

FRIDMAN, Fania. Rio de Janeiro Imperial: a propriedade fundiária nas freguesias rurais. In: Donos do Rio em nome do Rei. Uma história da propriedade fundiária da cidade do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, Garamond/Jorge Zahar Editor, 1999.

VERÍSSIMO, Antônio Augusto. Santa Cruz e a Fazenda Nacional: notas sobre a situação fundiária. Disponível em: https://goo.gl/AQjxDR. Acesso em: 30 ago. 2015.

SILVA, Luciano Pereira da. O regime jurídico da Fazenda Nacional de Santa Cruz. Disponível em https://goo.gl/RTp9NJ. Acesso em: 10 jul. 2015.

PETRONE, Maria Tereza Schorer. Imigração. In: FAUSTO, Boris (dir.). História Geral da Civilização Brasileira. O Brasil Republicano. 8 ed. Rio de Janeiro: Bertrand, 2006. Tomo III, vol. 9, p. 274-276.

Documentos sobre este órgão podem ser encontrados nos seguintes fundos do Arquivo Nacional:

BR_RJANRIO_0O  Casa Real e Imperial - Mordomia-Mor

BR_RJANRIO_2H Diversos - SDH - Caixas

BR_RJANRIO_NP Diversos - SDH - Códices

BR_RJANRIO_EM Fazenda Nacional de Santa Cruz

BR_RJANRIO_4O Ministério da Fazenda

BR_RJANRIO_A8 Série Interior - Mordomia - Casa Imperial - Casa Presidencial (IJJ3)

BR AN,RIO 22 Decretos do Executivo - Período Imperial

BR AN,RIO OI – Diversos GIFI - Caixas e Códices

Referência da imagem:
A Repartição Geral dos Telégrafos: memória histórica. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1909. Arquivo Nacional, OR_4511.

Este verbete refere-se apenas à trajetória do órgão no período da Primeira República. Para informações entre 1500-1822 e 1822-1889, consulte Administração da Fazenda Santa Cruz

Originalmente postado em: 
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sexta-feira, 12 de junho de 2020

Holocausto brasileiro



Hoje, a história é horripilante e dispensa qualquer tipo de comentário engraçado. Por isso, evitaremos as brincadeiras tradicionais postadas no instagram e apenas cumpriremos o papel de divulgar esse terrível incidente para que tamanha crueldade não aconteça novamente.

O ano é 1903, o atual presidente é Rodrigues Alves e a cidade de Barbacena (MG) recebia 7 instituições psiquiátricas, entre elas o Hospital Colônia – o protagonista da nossa história. Criado para ser um Hospital de luxo para a elite, tornou-se um manicômio durante a Ditadura de Vargas deixando um número assustador de mortes devido ao péssimo tratamento realizado nas dependências do hospital.

O Dr. Joaquim Antonio Dutra foi o primeiro diretor do Hospital Colônia ele foi convidado pelo próprio governador de Minas para o cargo após ter visitado o hospício de Juqueri , em SP, e ter feito estágio no Hospital de Alienados do Rio de Janeiro. Situado na Fazenda da Caveira, de Joaquim Silvério dos Reis, o Hospital de Barbacena que inicialmente era para tuberculosos foi modicado para atender 300 doentes mentais. Barbacena foi escolhida para ser a sede desse hospital devido ao seu clima montanhoso que era considerado perfeito para a cura de tuberculose e tratamento de doenças psiquiátricas.

Contudo, apenas em 1980 o manicômio se torna amplamente conhecido pelo tratamento desumano que fornecia sendo comparada a um campo de concentração nazista pelo psiquiatra italiano Franco Basaglia.

O que mais assusta é que 70% dos pacientes não possuíam diagnóstico de doença mental, o hospital se tornou um reduto para pessoas marginalizadas pela sociedade como: mendigos, homossexuais, prostitutas, negros, militantes políticos, filhas de fazendeiros que perdiam a virgindade antes do casamento etc.

Antes de todo o horror o hospital psiquiátrico tinha como pacientes pagantes e mendigos. Eles usavam o método de laborterapia, que na época era usada como parte do tratamento da loucura para tirar o louco de sua situação de inútil e lhe dar uma função lhe distraindo e o curando. Os pacientes pobres e considerados miseráveis eram forçados a afazeres repetitivos, sem remuneração, e faziam trabalhos pesados na lavoura, na área do hospital, e na confecção de tijolos, bonecos e tapetes.

Durante os 30 primeiros anos de funcionamento, o hospital foi uma Instituição respeitável oferecendo atendimento humanitário a seus pacientes. Então, ele passou a ser o destino para todos os indispostos que as comunidades pretendiam curar ou isolar. O problema é que sua capacidade não era o suficiente para a demanda que estava crescendo.

Em seu auge o hospital chegou a abrigar cerca de 5.000 moradores, os quais chegavam de todos os cantos do Brasil. Por isso fizeram uma mudança radical: para acomodar tanta gente as camas foram retiradas e feno foi espalhado pelo chão, as pessoas passaram a conviver com ratos (que lhes mordiam), com suas próprias fezes e urina e muitos morriam de diarreia, desnutrição, desidratação e de tantas outras doenças. Estavam em absoluto abandono, perambulavam pelos pavilhões nus e descalços e eram forçados a comer comida crua.

Vários ex internos se referem a um chá que era frequentemente servido por volta da meia-noite e “estranhamente”, no dia seguinte, muitos amanheciam mortos e eram empilhados nos corredores e pátios do hospital. Porém, o mais pavoroso de todos era o “desencarnar” dos mortos, que consistia em coloca-los em tonéis com ácido para tirar-lhes a carne e vender os esqueletos às faculdades de medicina. Os próprios pacientes tinham que fazer isso com seu colegas mortos! Estima-se que cerca de 60 mil pessoas morreram nesse hospital.

Com a Lei Federal 10.216/2001 passou a ocorrer uma maior desospitalização e a construção de um modelo humanizado. Em 2004 foi realizada uma inspeção em hospitais psiquiátricos em 16 estados brasileiros, organizada pela Comissão Nacional de Direitos Humanos do Conselho Federal de Psicologia e o Conselho Federal da Ordem dos Advogados do Brasil, acabando por encontrar condições subumanas em 28 unidades.

Em 2013 restavam 200 sobreviventes, parte ainda internada ou vivendo em residências terapêuticas, sendo que 10 anos é a expectativa de sobrevida dos 170 pacientes que continuam no Centro Hospitalar Psiquiátrico de Barbacena (CHPB).

Um dos sobreviventes é Luiz Pereira de Melo, que foi internado no hospital aos 16 anos (em 1952) por ser mais tímido do que a maioria dos garotos de sua idade. Durante o tempo que passou internado, um funcionário o fez construir casas para serem depois vendidas, mas disse que o pior foi a humilhação pela qual passou. Foram 60 anos até que ele pudesse reencontrar sua irmã, com quem não foi possível manter qualquer tipo de contato (igual o resto de sua família, a última vez que viu a mãe foi no dia em que foi levado para o hospital).


O Hospital Colônia de Barbacena funciona há 24 anos como museu, chamado Museu da Loucura, dedicado a relatar e conscientizar os horrores pelos quais muitas pessoas sofreram. Barbacena certamente ficou marcada na história por tais atos desumanos e por muito tempo foi um fato rejeitado: nos primeiros anos de abertura do museu, políticos ordenaram a retirada de duas placas da BR-40 que chamavam o público para uma visitação ao espaço.

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Postado neste blog por Adinalzir Pereira Lamego

"Destruir uma estátua não resolve, é preciso discutir a memória", diz historiador



Estátuas de figuras ligadas de alguma forma ao escravagismo estão sendo derrubadas ou destruídas na Europa e nos Estados Unidos nos últimos dias. A questão se levanta também no Brasil. Para o historiador Paulo Garcez Marins, os monumentos são importantes para a reflexão do passado.

Embaladas na energia planetária de descontentamento diante do assassinato de George Floyd, manifestantes têm tido como alvo estátuas de personagens que tiveram influência no tráfico de escravos negros. Primeiro foi Edward Colston, no domingo (7), jogado no rio por uma multidão em Bristol, na Inglaterra. Seguiram-se Leopoldo II, da Bélgica, rapidamente retirado de uma praça em Antuérpia e deslocado para um museu. Cristóvão Colombo tem sido depredado nos Estados Unidos.

Nos últimos dias, principalmente nas redes sociais, levanta-se a possiblidade do ato no Brasil, principalmente contra os bandeirantes, considerados historicamente como desbravadores, mas que buscavam essencialmente riquezas minerais, sendo responsáveis também por dizimar populações indígenas e destruir quilombos.   

Paulo Garcez Marins é docente e curador do Museu Paulista (Museu do Ipiranga), da Universidade de São Paulo (USP), acervo que conta com importante material iconográfico sobre os bandeirantes. “São representações codificadas de pioneiros, encomendadas para ilustrar a construção do país, mas hoje eles são discutíveis do ponto de vista historiográfico, ético e memorial”, explica.

“Brasil está de novo construindo mitos contemporâneos, que podem vir a gerir estátuas", analisa o especialista. "O que vamos fazer com essas homenagens? Elas dizem respeito a quantos por cento da população? A nossa sociedade está debatendo hoje claramente a centralidade de figuras políticas que colocam em xeque posições muito contraditórias. Ou seja, isso nos marcará sempre. Não vamos nos apaziguar tirando um problema, precisamos tratar esse problema”.

“Como historiador, eu não vejo um movimento de derrubada de estátuas como algo que seja efetivamente útil”, diz o especialista. “Mais importante que abolir imagens, é nos capacitarmos para discutir essas imagens e outras. Não há possibilidade de nós lidarmos com imagens, sejam elas esculpidas, pintadas, fotográficas, sem que tenhamos em conta o quanto essas imagens são parciais. Ou seja, mais que derrubar um monumento, é importante entender por que ele foi construído, problematizar essa escolha, problematizar o ato de celebrar alguém no passado que hoje é intolerável e, sobretudo, trazer a discussão sobre a construção de memória para o público. Porque se nós tiramos uma estátua e substituímos por outra, daqui a 30, 40 anos, será essa estatua também objeto de uma crítica – e a solução será derrubar essas estátuas?”

Destruir estátua não resolve o problema"
Marins cita sucessões de derrubadas e substituição de monumentos na Europa, da monarquia dos Bourbon, na França, passando pela Revolução Francesa, Napoleão e a guerra franco-prussiana. E o processo se repete até hoje.

“Na verdade, sofremos um processo contínuo de destruição dessas evocações memoriais, como se destruindo a estátua, destruíssemos o problema que elas representam e isso não acontece. Do meu ponto de vista, é sobretudo importante usar as estátuas como um ponto de partida para a discussão”, explica o historiador.

O ideal, para Marins, seria um texto explicativo junto a um monumento: “Precisamos saber tratar essas imagens como um problema. Eu não posso simplesmente retirar a estátua de um bandeirante e enterrar junto com isso uma discussão sobre o que é, por exemplo, a destruição de populações indígenas, ou quilombolas, nos séculos 17, 18, porque essas questões continuam presentes hoje”.

Ele enfatiza a importância das discussões. “O documento cruel sobre o passado é um ponto de partida. Precisamos aprender a desconfiar das imagens, dos monumentos, muito mais que simplesmente celebrá-los. . Enquanto uma estátua de um bandeirante estiver na praça, a discussão sobre a memória dos bandeirantes e o massacre das populações indígenas, isso estará vivo. A partir do momento em que aquilo sai da praça, da rua, da vista, esse assunto pode simplesmente fenecer. Sumir”, diz o curador do Museu do Ipiranga.

“A União Soviética passou sucessivas vezes também por esse problema”, lembra Marins. “Quando foi constituído o regime comunista, tudo relativo à monarquia Romanoff tudo foi destruído, fundido, derrubado, com raras exceções, como é o caso da estátua equestre de Pedro, o Grande, em São Petersburgo. Mas quase tudo foi destruído. Depois, com a queda do regime soviético, as esculturas do Lenin, do Stalin, foram todas derrubadas. Enfim, derrubar uma escultura não é efetivamente muito produtivo, acho preferível mantê-la como problema.”

Argentina troca Colombo por indígena

O historiador cita ainda a Argentina como palco recente do fenômeno. “Isso foi muito discutido há alguns anos, quando o regime da Cristina Kirchner decidiu que uma homenagem a Cristóvão Colombo foi substituída por um monumento lembrando uma liderança indígena, uma mulher. Numa discussão sobre o que é o contato da Europa com a América, é compreensível que muitas pessoas queiram retirar o conquistador e fazer uma homenagem à liderança indígena. Mas não é apenas ela que está ali figurada, é por exemplo todo o movimento do regime da Cristina Kirchner usando a imagem dessa indígena para também promover-se como regime contemporâneo. Ou seja, não é apenas um monumento à índia, mas também ao governo que a faz. Nunca vamos conseguir nos livrar dessas dimensões.”

Texto: Patricia Moribe (rfi) http://www.rfi.fr/br/hp/


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