quarta-feira, agosto 18, 2021

ABOLIÇÃO DAS PALAVRAS

 

Gostava de celebrar-te

Num poema pleno de “interditos”

Em que todas as palavras seriam abolidas

E, em lugar delas, apenas o debruar dos sentidos

Numa dança de improvisados gestos

Como quem ama e cuida e se diverte

A misturar cores do dia, num bouquet

De emoções pagãs, tão intensas como

Outras não houvera e, aquelas ali inventadas,

Fossem, em desfrute de favo, plenitude de mel


E baixariam todos os decretos e todas as leis

E as instituições seriam um amontoado de inutilidades

Donde apenas sobressaiam a pegada

Dos colossos…


E o amor? Ah, o amor seria tudo e coisa nenhuma

Fluiria como brisa em noite cálida. E entraria

Sem licença em todas as casas,

Como uma chávena de chá de mão em mão

Ou como o pão repartido dos famintos-


E, por vezes, o amor poderia ser uma gota de fogo

A desprender-se e a elevar-se em frémito

Como se fora teu corpo no enlace 

De meus braços


Manuel Veiga

quinta-feira, agosto 05, 2021

A COMÉDIA DA VIDA


Mais um “encore”, ainda.

Como quem serenamente

Espera o anoitecer no canto

Magoado de ave nocturna

 

Ou, então um inesperado estremecimento

Como se a alma se desprendesse sem prévio aviso

Ou, tão somente um delírio da pele

Como se nela se jogassem

Todas as sensações.

 

Assim fadadas quero que minhas letras

Sejam meu palco único

E lugar de excelência

De festa ou de tormenta.

 

E o poeta seja adereço desbotado

Da Grande comédia da vida

 

Manuel Veiga

 

sábado, julho 17, 2021

A NUDEZ DAS ESTATÚAS



O levíssimo tule que verte a nudez das estátuas

Detém também uma policromia outra, que se nega

E a geografia das ondas e das águas fulvas

Sem que – reparem – por vezes, o saibamos dizer.

………………………………………………..

Tudo é nada. Apenas a avidez das coisas

Lhes traça o perfil em que se despenham 

E lhes esboça existência – precária forma!

 

Ineptos nossos olhos deslizando

Pela superfície acumulando sinais que tecem

Girandolas fogosas, logo desbotadas ou

Perfidamente sedutoras na voragem

Do instante – néscios que somos

A exibir aparências e a colher o Vazio  

 

Como se veracidade das coisas fosse

A nossa fome delas

 

 

Manuel  Veiga

 

 

quarta-feira, junho 30, 2021

Da Fragrância das Flores


No perfume das flores uma fragrância

Perversa. Uma subtilíssima ocultação, não da cor

Que ruboresce – quando a flor, for!

Nem assim também a corola,

Girandola de cor a arder

Perante o assédio da brisa

E do besoiro sedutor

 

 Nem a nudez das pétalas,

Assim expostas tão ávidas do toque

Que as derrame, flor sem nome

 

A fragrância – flor ainda – é de outra índole

Deleita-se em jogo de faz de conta

E em seu deslizar de nuvem

Arvora seus mistérios

Há quem a diga devassa

Há quem a queira assim louçã

E fagueira...

 

 

Manuel Veiga   

  

 

sexta-feira, junho 18, 2021

PERFUME DE "ROSA-MUNDO"


Derramo meus poemas em gesto largo

De quem semeia. Modesto destino o de nascer entre ervas

Daninhas. Porém, outras palavras-poema trazem no ventre

A gravidez do tempo – ainda que sem Memória.

Nem medida.

 

Mas assim as quero – palavras lascadas

E excessivas. E sem destino certo –

As minhas palavras ditas …

 

Persiste, porém, um poema outro.

De palavras muito nítidas. Cerzidas de seda

E linho. E servidas puras como se fossem as primeiras

Assim despidas Ou a inauguração do universo.

Ou o perfume da Rosa-Mundo.

 

Manuel Veiga

 

quarta-feira, maio 26, 2021

SEM RAZÃO QUEM SE AFADIGA...


Dizem-me ser urgente amor

Mas sem razão quem se afadiga

Em cortar cerce a flor

E a profanar a rosa

De um trago…

 

Entre o amor e o desalinho

Uma gramática de signos mudos

Pela polpa dos dedos decifrados

Que se acendem no percurso dos lábios

Em ardor de seda e lume

 

E ardem. E renascem em espiral

Lume com lume. E os corpos já não corpos

Apenas lume aceso. E o vernáculo

A inscrever o verbo no murmúrio

E na incisão vertical da pele

 Onde em tributo e dádiva os corpos

Se libertam

 

Manuel Veiga

 

sexta-feira, maio 14, 2021

EM LOUVOR DE LYDIA - Favo de Teu Nome

 

Amoráveis os dias, Lydia, assim colhidos

Como pétalas em teu regaço. E o lago de teus olhos

Onde moram os barcos e aportam

Todas as viagens.

 

Deixemos, Lydia, que o tempo se faça solstício

E do momento guardemos a doce espera

E o favo de teu nome. E desfolhemos

Os dedos numa carícia breve

Como se fora a brisa

Sobre a pele.

 

E louvemos os deuses

Que embora néscios sobre nós descem

Na amargura das horas e no cântico

Festivo da tarde…

 

Manuel Veiga

Lydia é criação literária de Ricardo Reis

 

terça-feira, maio 04, 2021

AURORA DOS TEMPOS...


Na subtil vibração das coisas

Onde se desenha o fluxo imaculado

De todas as águas. E os ventos são início

E sopro criador em busca de forma

Que lhes defina o perfil

E lhes conceda substância

E cor. E os nomes determinação

E movimento…

 

E a música apenas

Bruma atonal em trânsito

A acender o fogo

E o frémito dos corpos

 

Nessa inconstância primeva

De afectos. E na incisão do tempo

Sujeito de acasos

 

Revolvo a matriz das coisas perecíveis

E daquelas que são luz e irradiam

E daquelas outras que são raiz

E permanecem.

 

E te digo prenúncio, verso e reverso

E te inauguro femina – cálice e semente! –

E bem te digo guardiã de ritos. Iluminação

E sombra. Murmúrio e grito

E Aurora dos Tempos …

 

Manuel Veiga

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Nota - Contra meu desejo, razões de força maior têm impedido a minha visita e comentários nos blogs da minha estimação. Em breve será reposta a regularidade das visitas, Assim, espero! 

Beijos e Abraços!


domingo, maio 02, 2021

"COMO SE FORAS INVENÇÃO MINHA..."

 




As palavras, meu amor 
São apenas insónia 
Um rumor mudo
E a flor selvagem 
Com que enfeito 
Teus cabelos


Para além delas
E das suas cinzas
Existe uma chama outra 
E esta coisa estranha
De saber-te
Como se foras
Invenção minha

Manuel Veiga

COREOGAFIA DOS SENTIDOS
Edição Modocromia
No Prelo


domingo, abril 25, 2021

ESCULTOR DE PAISAGENS - O TEMPO!


Escultor de paisagens o tempo. E estes rostos,

Onde me revejo. E as mãos, arados.

E os punhos erguidos.

 

Sons de fábricas a martelar silêncios

Perdidas na voragem dos dias

Infecundos. E do lucro

Sem fronteiras.

 

E, no entanto, esta torrente. E esta fonte

Que desce em cascata de palavras

Verbo que se faz carne. E ferve

No peito a latejar

Rubros cravos

E bandeiras.

 

Nada é definitivo quando a rocha

Se abre ao fogo. Nem a memória

É fatuidade de um beijo e

Cantilena de amores

Em retalho…

 

Nem a Revolução um feito

Inacabado. Antes um horizonte aberto

A oferecer-se em cada tempo

Sonho sempre novo

Em cada gesto

Logrado

 

Como um poema sinfónico

Passo a passo a arder por dentro

Uma cadência sem idade.


E este amor desatado!

 

E este aguilhão e este alvoroço

E o rosto magoado deste Povo

A inscrever um tempo novo

Letra a letra

Liberdade.

 

25 Abril Sempre!

 

Manuel Veiga




ABOLIÇÃO DAS PALAVRAS

  Gostava de celebrar-te Num poema pleno de “interditos” Em que todas as palavras seriam abolidas E, em lugar delas, apenas o debrua...