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quinta-feira, 12 de agosto de 2021

ANITA GARIBALDI

 Comemora-se no dia trinta do corrente mês o Bicentenário de Anita Garibaldi – a heroína de dois mundos.

   

Anita na Fonte – obra do
catarinense Martinho de Haro.
Acervo do Museu Casa de Anita

 

ANITA

Na praia uma linda flor
A bela orquídea imita.
Porém muito mais bonita
Dado o matiz multicor.

Um nauta navegador,
Com lentes, busca a infinita
Visão. Vendo a flor Anita
Jura-lhe um eterno amor.

Saltando em terra, o guerreiro
Inala da flor o cheiro
Quando a fragrância a ilumina.

Como esposa e companheira,
Anita fez-se a guerreira
De dois mundos – a heroína.
*Por Laerte Tavares


Anita Garibaldi – obra do artista genovês                       Anita, obra do pintor catarinense Willy 
Gaetano Gallino. Ano de 1845 na cidade                                                   Zumblick
                  de Montevidéu


       Uma amiga portuguesa perguntou-me quem foi Anita Garibaldi. Respondi ser uma brasileira catarinense de nome Ana Maria de Jesus Ribeiro que viveu na segunda metade do século XIX, considerada “heroína de dois mundos”, por lutar na América do Sul e na Europa. No Brasil pela Revolução Farroupilha e no Uruguai contra as tropas argentinas que visavam o controle comercial do Rio da Prata. Já na Itália, seu grande feito foi lutar pela unificação do país, combatendo ao lado do companheiro Giuseppe Garibaldi; também consagrado herói.
Ana, para o mundo, ficou conhecida como Anita, devido a dificuldade de pronúncia de Garibaldi que assim a tratava. A jovem guerreira atuou efetivamente nos movimentos revolucionários em diferentes países: Brasil, Uruguai, San Marino e Itália. Exemplo de bravura que motivou os italianos na busca da unificação do país.
    À época de Ana, a atividade comercial do Estado de Santa Catarina era insipiente, mas seus entrepostos marítimos contavam com o Porto de Laguna (cidade que serviu de marco territorial ao Tratado de Tordesilhas), movimentado com o comércio terrestre e marítimo. Duzentos quilômetros distantes dali, em altitude de 1.600m, situava-se o município de Lages com seus vilarejos circunvizinhos no Planalto Serrano, onde predominava a atividade agropecuária. O transporte de mercadorias a exemplo do sal e de produtos industrializados como lampiões, enxadas e outros artigos eram levados à serra. Já o charque, pinhão, canjica, fubá, jacás de fumo em corda, enchidos defumados, toucinho salgado e torresmo, iam de Lages para o litoral. Mercadorias essas transportadas aos lombos de muares e asininos em seirões (grandes cestos oblongos atrelados às cangalhas), dado o caminho íngreme, acidentado, possível para animais de cargas ou cavalo de montaria individual que, além da sela, era encilhado levando um peçuelos para utensílios pessoais. Demais ferramentas, alimento e roupas iam nas bruacas de couro cru transportadas por animais cargueiros.
    Ana nasceu de pais tropeiros – talvez até em uma dessas tropeadas, num trecho do caminho entre as duas cidades, enquanto conduziam uma tropa de bovino a Laguna para uma feira pecuária. É fato, que desde menina ela acompanhava os progenitores nas jornadas, tornando-se exímia amazona nas lidas de tropeadas.
    Ainda adolescente, Ana se casa com um morador de Laguna, tamanqueiro por profissão, cujo enlace pouco durou devido às diferenças de gênios, culturas e costumes. Com a separação do casal, ela passa a morar com parentes, enquanto ele alista-se na Guarda Nacional do Império que lutava contra a revolta republicana instalada na região sul do Brasil. Ao conhecer o revolucionário italiano Giuseppe Garibaldi, decidida, Anita se junta às suas tropas, surpreendendo a todos pela denodada bravura em combate. Ao tempo em que viveu com Garibaldi, ela se superou nas batalhas, lutando até seu último instante de vida.


                                                      
    Alegoria da Revolução –                                           Anita, Anita, pelo artista brasileiro
óleo sobre papel sobreposto a cartão;                       Galdino Guttmann Bicho, 1919
de Johann Moritz Rugendas, 1846-48




ANA MARIA

Do grande amor de um tropeiro
E de um cavalgante ventre,
Entre equinos, gado e entre
Jornadas sem paradeiro,
Nasce Ana, no entreveiro
Da campanha. E um retardo
Foi feito para o resguardo
Da mãe com a criancinha.
A comitiva todinha
Parou também no aguardo.

Depois de uns dias passados
De repouso e muito zelo
Reuniram o sinuelo
Com o gado, dos dois lados
Da via. Já encilhados
Os cavalos, mulas cargueiras
Carregadas e pelas beiras
Da sinuosa estrada
Iniciaram a jornada,
Atrasados para as feiras.

Ana de Jesus Ribeiro,
Apelidada de Aninha,
Das veias paternas tinha
Bons dotes de cavaleiro
Herdados do pai boiadeiro,
Visto que desde menina
Foi a criança ladina
Que aprendeu cedo e seria
Melhor que ele em montaria
Por ter bem mais disciplina.

Um dia, em pelo, ao cavalo
Sem sela e só barbicacho,
Aninha enfrentou um macho
Atrevido, e ao surrá-lo
Ele cai dentro de um valo
E quase perde sua vida.
Mas Ana o socorre em lida
Sozinha, essa heroína,
Adolescente menina,
Tornando-se bem conhecida.

Contam que a moça, a trote
Ligeiro, de erguido relho,
Correu atrás do fedelho
Por entender ser preciso
Que ele tomasse juízo.
E ele em disparada
Zarpou. À margem da estrada
O cavalo tropeçando
Derruba o jovem. Foi quando
Ana o livra da enrascada.

Esse, o primeiro feito
De denodo e valentia
Da rapariga, que iria
Levar-lhe a um conceito
De nobreza por seu jeito
Altruístico e de valor,
Perdoando o pecador
Mas condenando o pecado,
Pelo tratamento dado 
A um filho do Criador.
*Por Laerte Tavares


Selos postais     

   
                                                                     Anita com seu chapéu de feltro 
                          (calabrês) com penacho


    *Em alguns registros, autores destacam a importante participação feminina, mesmo que mais indireta, na Guerra dos Farrapos. Diversas mulheres assumiram os negócios da família enquanto seus maridos e filhos lutavam na guerra. Outras, na maioria índias, anônimas em relação à Anita, acompanharam seus maridos no campo de batalha. Muitas delas tomavam conta das pontas de gado, da munição, tratavam os feridos e algumas até pegavam em armas à defesa contra o inimigo.

Retrato de Anita em roupas masculinas, 
Roma, 1849, Museu do Ressurgimento



Anita, (obra) morte ocorrida em Mandriole, Itália. Instante em 
que as tropas garibaldinas fugiam das tropas suíças. Acometida 
por uma crise de febre tifoide, Anita falece em 4 de agosto
de 1849, grávida de cinco meses do quinto filho.



Giuseppe Garibaldi – retrato.Risorgimento 
italiano, Duroni,  Alessandro; Pozzi, T. A.
Collocazione: Lovere (BG), Accademia
di Belle Arti Tadini. Museo Cassioli
Pittura senese dell'Ottocento


Narrativa escrita por Garibaldi, entregue ao 
seu amigo e admirador Alexandre Dumas (pai), 
que publica no final de 1860. 

 

 

Monumento em homenagem à Anita Garibaldi,
na cidade de Laguna, SC


Monumento no Janículo, em Roma,  Itália. (obra de Mario Rutelli). 
Retrata Anita, quando da passagem em que fugia carregando 
o filho Menotti, de 12 dias,  ao serem atacados em São Luís das 
Mostardas/RS em setembro de 1840


Letra para o hino em homenagem a heroína - 1915.
Material referente ao “Levantamento Bibliográfico, Anita Garibaldi. 
Pesquisa realizada nos Jornais Catarinenses da Biblioteca Pública 
de Santa Catarina, disponíveis na Hemeroteca Digital Catarinense 
e Hemeroteca Digital Brasileira (1889 – 1968).” 
Organizado por Helen Moro de Luca 





Lanchão, suspenso sobre rodas,atrelado a juntas de
 bois – carregado até o rio Tramandaí-RS

 


Varais com charque (carne-seca) – Rio Grande do Sul. Fonte: GZH/RS
O charque do Rio Grande do Sul abastecia o mercado interno, mas com os 
altos  tributos sobre o sal, o couro bovino, mais o charque (alimento 
principal dos escravos), gerou a insatisfação entre os estancieiros. As altas 
taxas  teriam levado os produtores gaúchos a lutar pela independência 
 do estado em relação ao governo central,  o que motivou os conflitos. 
Os farroupilhas  almejavam uma República Federativa permitindo autonomia 
às leis,  para a economia local. arais com charque (carne-seca) – Rio Grande do Sul.


ANITA GARIBALDI - (1821-1849)
"A Heroína de Dois Mundos"-
Documentário – Anita Garibaldi / Amores e Guerras:

sábado, 10 de julho de 2021

A ARTE PERDE UM ARTISTA

 

Obra de Rodrigo de Haro pertencente a Sandra, minha esposa. Eis pierrô a chorar por colombina. E eis a ilha emocionada e abraçada à serra frígida junto aos elegantes aparatos pétreos demonstrando que seus corações não são empedernidos, a prantear aos quatro ventos, em uníssono com a Ilha de Santa Catarina, humilde e reservada chorando pela perda de Rodrigo. 



Cartaz / Rodrigo H - Fundação Badesc

    

    Semana passada, perdi um dos últimos amigos de fraternos convívios na pujante e bela juventude, Rodrigo de Haro, um dos maiores artistas brasileiros da arte pictórica e literária, filho do grande pintor Martinho de Haro. Conheci Rodrigo apresentado por Marcos Konder Reis, na década de 1960,  num excelente boteco instalado em humilde rancho de canoa à beira da Barra da Tijuca, no Rio de Janeiro, quando à mesa rústica, ele compartilhava com Benito Batistotti, um rico madeireiro catarinense, mecenas do cinema novo, que veio a ser, mais tarde, concunhado do irmão de Rodrigo, cujas festas de núpcias, Marcos e eu viemos de Armação do Itapocoróy a Florianópolis à sede do Veleiros da Ilha, para participar do evento com Rodrigo; e não demorando, chegaram outros ilustres amigos. Ali, entre prosas descontraídas, degustamos alguns camarões ao bafo, pescados na hora e preparados em seguida, regados à cerveja gelada, após doses de caipirinha. 

    Rodrigo e Marcos conviviam cultural e socialmente, na cidade maravilhosa, com as mais ilustres figuras icônicas da arte, àquela época; a exemplo de Vinícius de Moraes, colega de Itamarati do Marcos; Paulo Mendes Campos, escritor que viajara com Marcos em turnê pela Europa; Maria Alice Barroso; Lúcio Cardoso; Murilo Mendes; Otto Lara Resende; Paulo Saraceni, cineasta amante do cinema novo e outros. Frequentavam também um barzinho de Ipanema, juntos a outras figuras icônicas como, ainda, Vinícius, Leila Dinis, Helô Pinheiro (a garota de Ipanema) e gente ligada à música. 

    Voltei a encontrar Rodrigo nos fins dos anos sessenta em Florianópolis, onde a família havia fixado residência. No Rio de Janeiro, moravam em casa própria, muito aconchegante no bairro de Laranjeiras e, em Florianópolis, em residência à Rua Altamiro Guimarães. Já formado, de Porto Alegre, passei a residir à Rua Alves de Brito, vizinha à Família De Haro. Foi quando reencontrei Rodrigo, mantendo nossa amizade até seus últimos dias. 

    Faço homenagem à memória do amigo Rodrigo, em meu estilo literário porque ele era apaixonado pelas décimas do cancioneiro; e em arremedo ao seu estilo em prosa poética na qual ele era exímio.



Rodrigo (internet)

 


Despede-se, enlutada, a ilha,
Do seu magistral pincel
Mais ilustre e o mais fiel
Intérprete da maravilha
Do belo ilhéu que ainda brilha
Nas eternizadas telas
Pictóricas com suas belas
Paisagens, seus brilhos, cores,
Máscaras, arcanos, flores
E anímicas formas singelas.

                                       Laerte Tavares




    Desenho de Rodrigo, sua santa de devoção e nome do nosso Estado. Imagem que tanto ele pintou, cantou, escreveu e produziu um extraordinário livro que levou de presente, junto a uma comitiva do Governo do Estado catarinense, ao Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai, Egito. Para Rodrigo um milagre contínuo e perpetuado presente em nosso templo, é que três religiões (Islamismo, Cristianismo e Judaísmo) proprietárias do bem, convivem simultânea e harmonicamente, com seus ritos e liturgias diversas no mesmo local em horários diferentes, frequentados por multidões dos seguidores diversos, em que nos arredores, todos se aglomeram e convivem fraternalmente. É um milagre! – dizia Rodrigo que interagiu com esse povo eclético.

Foto de nosso acervo

 

    Eis que é chegada a hora, o dia, o mês, o ano! E tu, vate imortal em ser humano, findaste-te à Terra, oh mestre! A tua alma poética singrou ao panteão dos deuses, enquanto Deus, no Reino da Glória, recebeu o teu espírito para o descanso eterno. Tua memória irá permanecer por tempo afora ao consumar dos anos de lembranças à tua obra perene. Porém, amigo, vai chegar a hora indefinida do esquecimento. Sabeis agora, oh, imortal de luz tão pura, que quando a luz da barca rompe o cerco e chega com aferro, com garras e com dentes, entre diáfanos nevoeiros, já não há tempo para o desespero; e num efêmero e longo suspiro, a luz de nossa vida é ofuscada e repentinamente tudo é nada para ser tudo em outro plano onde deveis estar. Junto ao Altíssimo, vate, sabemos que vós contemplais nossos pobres espíritos a tentar buscar a luz do sonho, mas até chegar o dia, a hora, o mês e o ano para partir e vos encontrar no plano desse confuso e perfeito universo, espírito de luz. Hoje, canto em verso e prosa mansa, nossos entendimentos, para que sintas, igual à criança que tu foste como ser humano, Rodrigo – em atrevido adulto que optou por ser um pobre artista rico do saber.

    Sabeis também, oh vate transcendente, que a vida é, talvez, qual luz de vela que ao leve sopro da brisa mansa e resfolegante apaga ao entrar pela janela da casa antiga do Morro do Assopro, a encimar o belo promontório junto a secular capela de Nossa Senhora da Conceição, na bela Lagoa da Conceição, cantada em versos, a exemplo do hino de Zininho que tu, humano artista, o homenageaste em afresco na Caixa Econômica Federal da Praça XV em Florianópolis.

    À partida de Rodrigo, aos prantos, a serra abraçou o mar ao enxugar seus olhos tristes. A terra dos ancestrais de Rodrigo, nascido em país europeu, aos eflúvios hibernais de São Joaquim, gelado, beijou a Ilha do Desterro desse artista. 

    Os entes, entre querubins, silfos, ninfas, musas, serafins, arcanos, orixás, ao toque de uma trombeta sacra, entoando uma canção bem popular, gravitando, levaram a alma do velho amigo – o bardo augusto, à morada eterna do céu preparada para o justo pecador, redimido pelas graças redentoras. 


  São Galo (internet)   
 

    O nosso pintor partiu no dia de São Galo (Saint Gall), o santo artista da música, falecido em 01 de julho de 554, descendente de família tradicional da corte da França, país onde Rodrigo nasceu. S. Galo era um servo dedicado às cerimônias da Santa Missa, causa que o levou a se especializar nos cânticos sacros. Relatos afirmam que além do talento à música, era dotado de uma excelente voz, capaz de encantar e atrair fiéis para ouvi-lo cantar no coro do convento. Em seus feitos, o mais citado, foi ter salvado a cidade de um incêndio que ameaçava transformar em cinzas as construções locais. Galo teria aplacado as chamas que se apagavam, conforme as suas orações eram entonadas.


  Cartaz / Rodrigo - Fundação Badesc

 

UM HINO A RODRIGO DE HARO
                                                        Autor: Laerte Tavares

Os anjos dos céus, contentes,
Recebem o vate Rodrigo,
Na paz de Deus e ao abrigo
Da morada dos bons entes,
Dos justos e dos inocentes,
Cantando glória e louvor
A Deus Pai Nosso Senhor,
Por chegar mais um eleito
Triunfante pelo pleito 
Em vida, vivendo o amor.
 
Rodrigo partiu, mas resta
De sua vida, a obra sua
Tão viva que continua
Florindo em gloriosa festa
Perpetuada, e à testa
De outras obras completas
De pintores, de poetas,
De excelentes muralistas
E tanto outros artistas
Balizados nessas metas.  

Deixaste uma obra enorme,
Sublime e de conteúdo
Denso de beleza em tudo,
Por diversa, a ser conforme
Ao teu ser que à campa dorme,
Mas teu espírito glorioso
Dos céus, sob o eterno gozo
Da Luz do Pai Criador
Reflete; e eis o esplendor
Do acervo esplendoroso.
 

ESTRIBILHO:

Cantemos Glórias ao ente
E a monumental obra,
Que nos deixou de presente
Do excesso que, ora, sobra
Da su’alma indulgente.




Rodrigo à hora do nosso café semanal junto 
ao amigo  Pedro Port, grande poeta, quando 
declamávamos nossos mais recentes versos. 




Foto de Marcos Konder Reis 
(capa de excelente obra do 
confrade Artêmio Zanon)

Foto de Gilberto Gerlach - reprodução/
Rodrigo H - divulgação ND



Foto de Rodrigo com Sandra, em visita. 



Mosaico de anúncio do filme 
GENIALIDADE TOTAL



Poema a Rodrigo aos seus oitenta anos




Última foto que temos do amigo Rodrigo com 
nossa querida amiga Leila, esposa do artista
 plástico  Idésio Leal que com fidelidade canina 
acompanharam Rodrigo até o último leito. 
Junto a foto, que a pedido dele, Leila  nos encaminhou.

Com a fotografia, Leila escreveu-nos:

"Hoje reparei que o azul do céu estava intenso; que havia um formato um pouco surrealista nas nuvens, em pleno meio-dia; que os raios de sol entravam pelas janelas do quarto e faziam aqueles desenhos clubistas na parede branca. Sim, era mais uma manhã de inverno, eu e meu querido Rodrigo de Haro contemplando nosso jardim." Leila Leal.

sexta-feira, 4 de junho de 2021

FESTA DO DIVINO ESPÍRITO SANTO

    

imagens ajustadas a esta plataforma de: Leandro Foto


    Uma das festas essencialmente comunitária em minha terra natal, Penha, Santa Catarina, acontece há 185 anos. É a Festa do Divino Espírito Santo, evento de tradição portuguesa trazida pelos portugueses que colonizaram a região litorânea.
    Coroado o Imperador daquele ano, sorteia-se, entre doze inscritos, o nome do imperador do ano seguinte que, eleito, a partir desse instante começa com as tratativas para os festejos do evento vindouro. Dalí, desencadeia-se o início dos preparativos, com os convites aos festeiros e recebimento das doações do povo em geral, em espécie (dinheiro) e bens materiais ao imperador responsável em promover uma grande festa com comida farta à comunidade e aos convidados de fora. Mais tarde, “visitas da bandeira do Divino” pelo cortejo, até às vésperas da novena do evento principal, aos fiéis convidados como o Trinchante, Alferes, Empregados de Vela, Empregados de Bandeira, Espadins e demais representantes.
    Meu avô paterno foi um dos Imperadores e depois meu pai, em 1950. Lembro-me, ainda muito jovem, dos detalhes e preparativos. (Tão jovem eu era, que quando adulto queria saber o que seria Pai do Espadim, que minha família tanto falava e, finalmente, descobri que eram: Pajens e Espadins). Papai, comerciante local, abriu uma conta bancária somente para os depósitos de doações recebidas que cresciam a cada dia. Antecipava-se a encomenda de tecidos e acertos com alfaiates e costureiras às confecções de alfaias; encomenda ao artesão de fogos de artifício, dos foguetes para os eventos principais e principalmente à grande queima de fogos da noite de véspera da Festa; contratos com os foliões – músicos responsáveis pelas cantorias; construção de chiqueiros à criação de leitões especiais; doações de novilhas e de cordeiros para engorda que ficavam sob cuidados de vizinhos e parentes. Tudo era às expensas dos fiéis, embora papai despendesse também.
    Com a aproximação da data começavam as doações em gêneros alimentícios de consumo oportuno; de criações vivas como patos, marrecos, perus, faisões e outros galináceos, que de tão abundantes foi preciso improvisar um enorme cercado com galinheiros. Quase às vésperas, chegavam produtos como trigo, farinha de mandioca, açúcar, feijão, arroz, macarrão.
    Já na semana da festa, formavam-se os mutirões para o corte de palmeiras (palmiteiras) na mata, as quais eram afixadas a ladear as vias do percurso próximo à igreja, onde aconteceria a celebração, e de nossa casa, local em que seria servido o almoço. Nos espaçamentos entre palmeiras, pendiam linhas munidas de bandeirolas multicoloridas a trepidar ao vento, enquanto o pavimento era alcatifado com flores e folhagens em desenhos sugestivos ao evento.
    Eram erguidas armações com cobertura de lonas em forma de grandes barracas à proteção de mesas e bancos improvisados sobre estacas cravadas no solo com madeiramento encimando feito assento e tablados a formarem tabuleiros de mesas às refeições. Talheres e louças chegavam por empréstimos da vizinhança. Por fim, no dia, todos se fartavam com as iguarias que se costumava oferecer aos convivas. E por mais um ou dois dias, a comilança permanecia com as sobras e complementos de cocção de suplementares acompanhamentos, a terminar as bebidas. (xarope de groselha, capilé, consertada, refrigerantes, vinhos, cervejas, vinhos frisantes...).
    Ao passar do tempo, diversas mudanças operaram-se ao ritual da festa, mas o louvor ao Divino continua, e com o mesmo cortejo que segue ao som da viola tocada pelo mestre folião, (em primeira voz), da rabeca tocada pelo contra voz e do tambor pelo batuqueiro na terceira voz, popularmente alcunhada de tripa.
A fé ao Divino Espírito Santo representado sob o símbolo de uma pomba, conforme o Novo Testamento, mantém-se forte.
    
“É a fé, é a esperança, é a paz, é o amor. / É assim nossa bandeira,  por todo lugar que for. / Essa é a nossa festa, nossa gente já chegou / trazendo a imperatriz e o senhor imperador. / O imperador agradece sua valiosa oferta, / transformando em alimento no dia da grande festa. / Se Deus quiser, o ano que vem,  a nossa bandeira volta / com o outro imperador entrando em sua porta”.
Recitado pelo mestre folião da Festa do Divino José Olavo Coelho.


Coroação do Imperador 

Abaixo, fotos da festa do ano de 2021, que teve como Imperador o Senhor Romualdo Waltrick e a sua esposa Márcia Zimmer Waltrick representando a Imperatriz.


Guião com a Pomba do Divino Espírito Santo que vai à frente do cortejo


Imperador e a Imperatriz na 185ª Festa do Divino em Penha


Imperador com a senhora Imperatriz ao cortejo, cercados
pelo quadro de varas enfeitadas que os 4 Empregados de 
Vara as sustentam à altura dos quadris.  


Foliões da Festa 



Meninas dos Sete Dons do Divino Espírito Santo


Coroa e o cetro sobre a salva (todos em prata). 


Imperador e Imperatriz com as meninas

Vista parcial do interior da Igreja Nossa Senhora da Penha 


Os pães bentos


Curiosidade - mini-candeeiro português em ouro 18k (popularmente - pomboca, candeia, lamparina) alimentado a óleo de peixe ou a querosene (atualmente). Ele estampa a pombinha com os sete dons do Divino Espírito Santo (em alto-relevo).

P. S. -– Expresso minha gratidão à escritora, historiadora e professora, doutora Lélia Pereira Nunes, com robusta bagagem literária de pesquisa sobre cultura açoriana histórica e das que ainda remanescem, como a Festa do Divino Espírito Santo, tão viva na vida social do catarinense do litoral de nosso Estado, que editou matéria em página do jornal “PORTUGUESE TIMES”, pela excelente postagem referente às Festas do Divino neste ano pandêmico, que enalteceu minha terra natal – Penha, SC, efetivando sua 185ª Festa. 

“É tempo de Espírito Santo na cartografia açoriana do Mundo” – página18: https://www.portuguesetimes.com/admin/archive/Edic%CC%A7a%CC%83o%202609%20-%2023%20de%20junho%20de%202021.pdf 

Agradeço, igualmente, a CASA DOS AÇORES DE SANTA CATARINA, representada na pessoa do presidente da entidade professor doutor em história cultural Sérgio Luiz Ferreira, nativo da Ilha de Santa Catarina, grande autoridade em história do povo açoriano e renomado pesquisador na área genealógica dos açorianos emigrados ao território brasileiro, pela divulgação desta matéria.

Casa dos Açores de Santa Catarina 19 de junho às 18:51 

 · https://www.facebook.com/casadosacoressc/posts/2913357452219506

quarta-feira, 5 de maio de 2021

DIA DO EXPEDICIONÁRIO


Nilson Vasco Gondin
livro LIBERDADE ESCRITA COM SANGUE


Símbolo da FEB


Símbolo da Força Aérea Brasileira
com a imagem do Cruzeiro do Sul.
Pua é a ponta da verruma e a expressão
 "Senta a pua!" significava algo como ex-
   expressões atuais: "manda ver!" ou 
    "manda bala!"


    Cinco de maio, dia em que celebramos a memória do grande herói brasileiro, o expedicionário que ajudou a conquistar a “liberdade aos países livres” ao preço de seu sangue e das lágrimas de seus familiares. Como olvidá-lo? Não queremos repetir o que é da História desta amada Nação. O expedicionário é um herói consagrado e conhecido pelos adultos que têm o dever de transmitir conhecimentos cívicos às crianças e aos adolescentes. Importante nos lembrar desse valoroso homem e de seus feitos ao serviço da Pátria.
    Alguém disse que o brasileiro só iria à guerra no dia em que a cobra fumasse. Símbolo, depois empregado pela Força Expedicionária Brasileira (FEB) – uma cobra fumante. Em meio aos horrores enfrentados na luta, no inverno, ao chegar à cordilheira dos Apeninos, ante as batalhas severas em que mal conseguia dormir, nosso soldado teve de improvisar.
    No frio de 20ºC negativos, forrava os pés com jornais velhos sob as meias ao coturno, excelentes isolantes térmicos, o que fez os soldados americanos imitá-lo. O jovem obrigava-se a comer o que lhe fosse oferecido, e por isso, colocaram-lhe o apelido de Avestruz – símbolo desenhado nos tanques de guerra e nos narizes dos aviões caças – um avestruz atirando para todos os lados. (O bullying não funciona para os fortes). Há relatos de que os pilotos brasileiros foram os mais audazes em combate. Exemplo: Durante a tomada do Monte Castelo davam rasantes extremos, radicais e perigosíssimos, conseguindo com precisão, disparar as bombas no colo do inimigo.
    O principal objetivo do pracinha brasileiro era vencer a luta e voltar para a sua casa sob a luz da atmosfera brasileira. E ele conseguiu quando da tomada do Monte Castelo, último bastião dos nazistas em que nas duas tentativas, as Forças Norte-americanas foram rechaçadas com muitas perdas de vidas. O infante brasileiro chegou lá aos limites de suas forças, mas cantando os seus sambas improvisados. Depois fez amizades com italianos e até hoje é homenageado na Itália por ter sido o liberatori, ao contrário da sua Pátria que logo ao pisar em solo brasileiro, a FEB já estava extinta.
    Posto aqui foto do herói condecorado por atos de bravura, Nilson Vasco Gondin, de família de origem Viking que imigrou aos Açores e de lá para o Brasil. Nilson, nascido em Florianópolis, foi meu chefe quando assumi como engenheiro fiscal da Caixa Econômica Federal. Tive a honra de conhecer muito da história da Segunda Guerra a partir dos relatos de Nilson e de outros expedicionários com quem convivi, como é o caso do Sr. Milton Fonseca e Emanoel Assis, irmão de um tio meu. O que me fez escrever o romance UM SOL DADO À LIBERDADE, narrando fatos históricos e pormenores vivenciados no teatro de guerra quando da participação desses catarinenses até hoje festejados em nosso Estado.
    Os pracinhas saíram da Itália aos aplausos do povo, principalmente às enfermeiras brasileiras que tiveram um papel extraordinário na guerra pelo excepcional atendimento. Despediram-se daquele maravilhoso povo cantando a Canção do Expedicionário.

internet - soldado brasileiro no front com capacete de aço
 sobre o de fibra e com seu fuzil de baioneta calada 


A TOMADA DO MONTE CASTELO


Meu Brasil, cinco de maio 

É Dia do Expedicionário,

Merecedor de um sacrário  

De luz, pois igual Sampaio, 

Demonstrou não ser lacaio 

E deu sua vida à Guerra 

Para defender a terra 

Desta Nação brasileira,

Tendo por sua bandeira,  

O que a brasileira encerra.

 

Os pracinhas brasileiros 

Mostraram brio, destemor, 

Moral, paz interior 

E altivos, sobranceiros,

Provaram aos estrangeiros

Serem vocacionados 

À guerra; como os soldados 

Mais combativos no front 

E com a tomada de um Monte 

Eles foram consagrados. 

 

Famoso o Monte Castelo, 

Covil sacro do inimigo 

Representando um perigo

Pelo local  –  "il capello”

Que o diabo, por flagelo,

Usava para assombrar 

Todo e qualquer militar 

Que ousasse às subidas,  

Porém com perdas de vidas 

O Brasil pode o assaltar. 

 

O P-47 (Thunderbolt) era 

Famoso avião de caça 

Que o brasileiro, com raça, 

Usou a “nova pantera” 

Fazendo o que não se espera 

De um piloto aprendiz 

Que desenhou no nariz 

Do avião um avestruz, 

Para poder fazer jus 

Ao que a herói não condiz.

 

De ações quase suicidas,

Em seus radicais rasantes,

Ele arrasou tudo, antes 

Dos infantes, às subidas 

Em progressões protegidas 

Por fogo da artilharia 

Que à retaguarda cobria, 

Chegassem para dar cabo 

Ao tal chapéu do diabo  

Invencível, se dizia.

 

Estribilho:

E foi à desforra, ao fim 

Do fogo inimigo atuar 

E a ter que ceder lugar 

Ao intrépido clarim 

E a nossa bandeira, assim

Ser hasteada no alto 

Do Monte, ao último assalto

Que à guerra pôs um fim!