Eugénio de Andrade (1923-2005), in Pureza * (1945).
* este terceiro livro do poeta, foi excluído da bibliografia pelo autor.
Eugénio de Andrade (1923-2005), in Pureza * (1945).
* este terceiro livro do poeta, foi excluído da bibliografia pelo autor.
Já o disse várias vezes e teimo em repeti-lo: a prosa de Eugénio de Andrade (1923-2005) é, por vezes, tão bela quanto o é a sua poesia. Ora, pois, ouçámo-lo:
Há poucos brinquedos na minha vida, mas, além do arco, do pião e da bilharda, a minha infância está cheia de sol, cheia de água. E do calor quase materno dos animais. Meu avô comprara-me uma cabra e três ou quatro merinos. E nós já tinhamos um burro e um cão, além das galinhas e do pato. Eu adorava aqueles borreguinhos com olhos de rola e, depois, a imaginação das crianças é muito vasta: o pequeno engenho feito de juncos por um primo meu facilmente se convertia em azenha. Um rego de água era o mais irreal e navegável dos rios, os bichos feitos de bugalhos e gravetos ganhavam vida por encanto. Chapinhar numa poça de água ou transformar uma cabra em cavalo persa, se isto não é felicidade, então a felicidade não existe. Os cavalos, sim, foram uma paixão minha, mas só um pouco mais tarde, dos sete para os oito anos, já em Castelo Branco, quando comecei a ver o Tom Mix no Cinema Vaz Preto. E foi ainda naquela cidade que tive isso a que talvez se possa chamar o primeiro brinquedo - uma trotineta. Ninguém se lembra já de me ter visto passar pelas ruas belo como um anjo proa. Mas com ela fui assim uma espécie de Fernão de Magalhães dando a volta ao mundo: descia do castelo e só parava no jardim do Paço, depois regressava a casa a horas do pão com compota de ginja e o sorriso da mãe - tão merecidos.
Eugénio de Andrade (19/1/1923 - 13/6/2005), in Do Silêncio à Palavra.
Será esta Patagónia de Bruce Chatwin (1940-1989) mais interessante que a de Luís Sepúlveda? Duvido, e até dizem que há alguma ficção entremeada por Na Patagónia (Quetzal, 2020), o que só corrobora o velho ditado: Quem conta um conto, acrescenta um ponto.
Pouco tempo depois, e para me iniciar na prosa de Antonio Gamoneda (1931), poeta espanhol que muito aprecio, adquiri Um Armário Cheio de Sombra (Almedina, 2020) deste vate nascido em Oviedo. Nem sempre os bons poetas escrevem prosa de qualidade, mas há honrosas excepções: Quevedo, J. Ramón Jiménez, Eugénio de Andrade, por exemplo.
A ver, ou melhor, a ler vamos o que se passa com Gamoneda...