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quinta-feira, 3 de junho de 2021

Antologia (poesia) 1

 


Eugénio de Andrade (1923-2005), in Pureza * (1945).


* este terceiro livro do poeta, foi excluído da bibliografia pelo autor.

quarta-feira, 2 de junho de 2021

Bibliofilia 188



Vi há dias, na RTP 2, um interessante documentário (Laureano Barros, Rigoroso Refúgio) sobre o matemático e importante bibliófilo nortenho que, na sua Quinta de Fonte Cova (Ponte da Barca), foi constituindo uma enorme e valiosa biblioteca que viria a ser leiloada, no Porto, pelo alfarrabista Manuel Ferreira, em 2010. O catálogo da almoeda compreendia 6 volumes, que ainda hoje podem ser adquiridos por 120 euros, na livraria portuense.
Para quem se interesse pela bibliofilia nacional há alguns nomes míticos de personalidades que reuniram bibliotecas importantes de livros antigos e obras raras, como por exemplo: Sir Charles Louis Gubian (cujo acervo foi a leilão em 1867),  Fernando Palha (em 1896), José Maria Nepomuceno (1897), Azevedo e Samodães (1921/22), Ávila Perez (1939/1940)...
Laureano Barros (1921-2008), homem probo, rigoroso e sério, interessava-se sobretudo por primeiras edições portuguesas dos séculos XIX e XX (Nobre, Cesário Verde...), e teve, ao longo da vida, relações privilegiadas de amizade com Luis Pacheco (1925-2008), de que conservava muitos manuscritos autógrafos. Bem como tinha como amigo o poeta Eugénio de Andrade (1923-2005), de quem conservava um raríssimo exemplar (dos 53 publicados, em 1940) de Narciso, obrinha de XVI páginas inumeradas, que viria a ser renegada pelo autor, mais tarde.
O pequeno livro de poesia, com dedicatória de Eugénio de Andrade, era o lote nº 280, da primeira parte do leilão, e foi arrematado por 4.000 euros, dada a sua extrema raridade.


terça-feira, 19 de janeiro de 2021

Lembrar Eugénio



Já o disse várias vezes e teimo em repeti-lo: a prosa de Eugénio de Andrade (1923-2005) é, por vezes, tão bela quanto o é a sua poesia. Ora, pois, ouçámo-lo:

Há poucos brinquedos na minha vida, mas, além do arco, do pião e da bilharda, a minha infância está cheia de sol, cheia de água. E do calor quase materno dos animais. Meu avô comprara-me uma cabra e três ou quatro merinos. E nós já tinhamos um burro e um cão, além das galinhas e do pato. Eu adorava aqueles borreguinhos com olhos de rola e, depois, a imaginação das crianças é muito vasta: o pequeno engenho feito de juncos por um primo meu facilmente se convertia em azenha. Um rego de água era o mais irreal e navegável dos rios, os bichos feitos de bugalhos e gravetos ganhavam vida por encanto. Chapinhar numa poça de água ou transformar uma cabra em cavalo persa, se isto não é felicidade, então a felicidade não existe. Os cavalos, sim, foram uma paixão minha, mas só um pouco mais tarde, dos sete para os oito anos, já em Castelo Branco, quando comecei a ver o Tom Mix no Cinema Vaz Preto. E foi ainda naquela cidade que tive isso a que talvez se possa chamar o primeiro brinquedo - uma trotineta. Ninguém se lembra já de me ter visto passar pelas ruas belo como um anjo proa. Mas com ela fui assim uma espécie de Fernão de Magalhães dando a volta ao mundo: descia do castelo e só parava no jardim do Paço, depois regressava a casa a horas do pão com compota de ginja e o sorriso da mãe - tão merecidos.


Eugénio de Andrade (19/1/1923 - 13/6/2005), in Do Silêncio à Palavra

terça-feira, 1 de dezembro de 2020

sábado, 7 de novembro de 2020

Últimas aquisições (28)

 


Será esta Patagónia de Bruce Chatwin (1940-1989) mais interessante que a de Luís Sepúlveda? Duvido, e até dizem que há alguma ficção entremeada por Na Patagónia (Quetzal, 2020), o que só corrobora o velho ditado: Quem conta um conto, acrescenta um ponto.



Pouco tempo depois, e para me iniciar na prosa de Antonio Gamoneda (1931), poeta espanhol que muito aprecio, adquiri Um Armário Cheio de Sombra (Almedina, 2020) deste vate nascido em Oviedo. Nem sempre os bons poetas escrevem prosa de qualidade, mas há honrosas excepções: Quevedo, J. Ramón Jiménez, Eugénio de Andrade, por exemplo.

A ver, ou melhor, a ler vamos o que se passa com Gamoneda...

segunda-feira, 17 de agosto de 2020

Divagações 162


São como as cerejas, as palavras - diz-se. E assim foram, para mim, contagiosas. De Agustina (O Susto), passei para Pascoaes (Regresso ao Paraíso) que, curiosa e poeticamente, nunca me contagiou muito; e ao ensaio e antologia escolhida por Sena (Brasília Editora) sobre o poeta de S. João de Gatão. Poupei-me a reler Os Afluentes do Silêncio, em que Eugénio traça um belo e comovido retrato de Teixeira de Pascoaes (1877-1952), real e não ficcionado como o de Bessa-Luís.


Pela biografia de René Char (Tempus, 2013) ando eu, há meses, mergulhado em leituras do maravilhoso texto de Laurent Greilsamer. Até que fui dar com umas palavras sobre o pintor russo Nicolas de Staël (1914-1955), amigos que eles foram, que me fez ir à estante buscar o livro de Antoine Tudal (Le Musée du Poche, 1958). Sucinto de escrita, como convém à biografia de um suicida, mas bastante. E de competente iconografia.
Fiquemos por aqui!

segunda-feira, 25 de maio de 2020

Eugeniana mínima (6)


Ao longo da vida, por gosto e proximidade estética, dediquei algum do meu tempo livre ao estudo da obra poética de Eugénio de Andrade (1923-2005), de que resultou a conclusão de dois pequenos trabalhos que foram publicados no DL o primeiro, em 9/11/1967, intitulado: Um Comprometimento Poético - Eugénio de Andrade, no Suplemento Literário semanal; o segundo, veio a aparecer no jornal Letras & Letras, em Agosto de 1990, com o título Pulvis et Umbra, integrado no dossiê dedicado ao Poeta.


Qualquer trabalho destes implicou muitos apontamentos ou notas prévias que haviam de vir, ou não vir a ser usados no texto final. Recentemente, encontrei uma folha minha manuscrita em que, num impresso do Exército, fui lançando citações da obra de Eugénio de Andrade referenciando três temas: Bicho e Animal, e versos em que se fazia alusão à Lua.
Conjugaram-se por ali, assim, associações poéticas, bem como marciais, porque, na altura me encontrava a cumprir o serviço militar (CHERET).
Acima, fica o testemunho.

domingo, 19 de abril de 2020

Para responder a MR



Num comentário a um pequeno vídeo de música de Telemann, que muito recentemente surgiu no Arpose, MR perguntava se Eugénio de Andrade (1923-2005) gostaria da obra do compositor. Não creio que ele alguma vez o citasse, mas refere, que eu me lembre, Bach, Beethoven, Haydn e Schubert. E tem também um poema dedicado à memória de Webern. Em Obscuro Domínio (1971), no poema Envio, Eugénio de Andrade escreveu na terceira estrofe:

A Mozart
que escreveu o Alegretto do Concerto em Sol
(K. 453) à memória de um estorninho.

W. A. Mozart era por isso também uma das referências do Poeta.
É esse andamento que aqui surge interpretado, ao piano, por Maria João Pires.

Especialmente dedicado a MR, com as melhores lembranças.


sábado, 18 de abril de 2020

De "Rente ao Dizer"


Eugénio de Andrade (1923-2005), in Rente ao Dizer (Março 1992).

Recomendado : oitenta e quatro - Eugénio e JPP


Haverá poucas pessoas vivas, hoje em dia, tão habilitadas como José Pacheco Pereira (1949) para falar de Eugénio de Andrade (1923-2005). Pelo menos nos anos 60/70 do século passado, o seu convívio foi frequente e frutuoso. Por isso, tem duplo motivo a minha recomendação: a leitura da crónica do historiador, hoje, no jornal Público; a revisitação da poesia do Poeta, nestes tempos de provação e cuidado.

domingo, 19 de janeiro de 2020

Eugénio


Creio que nunca disse tudo sobre Eugénio de Andrade (1923-2005). Talvez me guarde para o centenário, se eu chegar lá, e ainda for a tempo. Para já, são só 97 anos que o poeta faria hoje, a 19 de Janeiro, se ainda fosse vivo. E a última vez que o vi foi na Feira do Livro, no Parque Eduardo VII. Estranhamente lhe notei um grosso anel de prata (?) no dedo anelar da mão esquerda. Ele que não era nada de penduricalhos, sobretudo em poesia. Autografou-me os dois livros de histórias infantis, que ele escrevera para o afilhado Miguel, trocámos breves palavras formais e despedimo-nos, para sempre.


Da sua poesia é que eu nunca me despedi. Como disse Óscar Lopes: " tudo em Eugénio de Andrade acaba por amanhecer de novo, alado, fresco, rumoroso e frágil de orvalho..."

sexta-feira, 29 de novembro de 2019

Palavras finais


Num dos seus últimos escritos, em prosa, Eugénio de Andrade (1923-2005), antecipando a entrada num prolongado silêncio final de cerca de 4 anos antes de morrer, fala de alguns versos fulcrais que o marcaram na relação essencial com quatro poetas e a sua obra. Refere, por exemplo, "os alciões chegados" de Nemésio, ou o "Só, incessante, um som de flauta chora" de Pessanha.
Se a qualidade misteriosa destes dois exemplos perfeitos e alheios, integrados nos seus poemas respectivos, é indiscutível, não é menos estranho que estes versos tenham percutido a sensibilidade de Eugénio de Andrade de uma forma tão impressiva e fundamental, tal como ele declarou nesse posfácio, escrito em Fevereiro de 2001, para um livro de poemas de José Tolentino Mendonça.
E é por aqui que talvez se possa começar, sem romantismos pueris, a falar do mistério da poesia.

segunda-feira, 19 de agosto de 2019

Instantâneo


A meio da tarde, passa-me pelos olhos um poema antigo (2001) de Eugénio de Andrade, a mim que agora ando a ler, paulatinamente, Fernando Echevarría (Via Analítica).
A diferença de vozes é flagrante, mas ambos falam da água. Este último sobretudo do mar, Eugénio de uma bica, que vai perlando, como os seus últimos anos.
Em qualquer dos casos, é de grande poesia que se trata e que nos vai faltando, nos dias que correm, como da bica o fiozinho de água, que já só pinga escassamente. E de que Eugénio falava.

sexta-feira, 19 de julho de 2019

Recuperado de um moleskine (33)


Dizia Eugénio de Andrade (1923-2005), a abrir um poema:

Não se aprende grande coisa com a idade.
Talvez a ser mais simples,
a escrever com menos adjectivos.

Eu acrescentaria que, apesar dos anos, os advérbios de modo são ainda, e muitas vezes, a minha perdição e a minha fraqueza. Nem sempre lhes consigo resistir ou iniciar uma abertura de hostilidades contra eles.
Os anos trazem-nos porém a consciência das nossas debilidades com que, apesar de tudo, vamos convivendo. Assim como Andorra, a Suiça e San Marino que, por não terem um exército próprio e em moldes clássicos, evitam qualquer acto bélico, para evitar incómodos posteriores.
Embora destes três países europeus me pareça que apenas San Marino, que é considerada a mais antiga república do mundo, mantenha uma estrutura de imbatível coerência. Pois a Suiça republicana, na sua neutralidade militante, fornece ao Papa mancebos para a Guarda Suiça e Andorra, considerada um principado, se deixa governar, ambígua e duplamente, pelo cristianíssimo Bispo de Urgel e pelo PR do estado mais laico da Europa: a França.
Para não abrir mais hostilidades hoje, qualquer dia falarei do Vaticano...

segunda-feira, 3 de junho de 2019

Agustina Bessa-Luís


Sejamos singelos. Evitemos os derrames barrocos de que Agustina (1922-2019) tanta vez abusou.
Mas a ingratidão é sempre um pecado imperdoável, e capital. E eu li-a, quase sempre com gosto, no passado.
Lembranças compassivas a Mónica, sentidas e sinceras.

domingo, 21 de abril de 2019

Eugeniana, mínima (4)


No último trimestre de 1977, Eugénio de Andrade (1923-2005) colaborou, com 5 poemas em prosa, no número 3-4 (duplo) da revista Raiz & Utopia. Creio que, por essa altura, já se encontrava aposentado da função pública. Mas morava ainda no pequeno apartamento, da rua Duque de Palmela, 111, 2º (Porto).
Os poemas, referidos acima, tinham os seguintes títulos, sequencialmente: As Cabras, Plaza del Viento, Enquanto Escrevia, Do Outro Lado e Ocupações do Verão


Todos estes poemas em prosa viriam a integrar o livro Memória Doutro Rio, que o Poeta publicou, mais tarde, na editora Limiar, em Abril de 1978. Quatro deles não sofreram qualquer alteração. Mas o quinto, Ocupações do Verão, teve três pequenas revisões, no texto, em relação à versão inicial que fora publicada na revista literária (que sublinhei, parcialmente, a lápis, na imagem).


A vírgula foi substituída pela copulativa e. Quanto ao desviá-las, inicial, Eugénio de Andrade trocou-o pelo verbo distraí-las, no livro; preocupações desapareceu e deu lugar a ocupações. Transformando, talvez, o concreto do verbo pelo abstracto, mais abrangente. Nos substantivos, no entanto, a mudança foi inversa, aparentemente.
Assim veio a aparecer o poema, ne varietur, na edição da sua obra completa (da altura), em 1990.

domingo, 7 de abril de 2019

Eugeniana, mínima (3)


Nota pessoal:
sabem alguns, do cuidado que Eugénio de Andrade (1923-2005) punha na reedição dos seus livros. Das revisões apuradas que exercia sobre poemas antigos, quando não da monda a que procedia eliminando alguns, que entendia menores. Melhor exemplo não há, do que ter rejeitado, quase por inteiro, os seus três primeiros livros (Narciso, Adolescente e Pureza), de que veio a republicar salvando, revistos, apenas 10 poemas, num conjunto que denominou: Primeiros Poemas.
Comprei, há dias, um velho número da Colóquio-Letras (nº 6, de Março de 1972) que inclui 2 poesias do poeta de Obscuro Domínio. Tudo me leva a crer que o primeiro poema (na imagem) não veio a ser aproveitado na sua obra futura, talvez porque o considerasse de qualidade menor. Quanto ao poema que, na colaboração para a Colóquio, intitulou Viagem, viria a alterar-lhe o título para Brindisi (Escrita da Terra, 1974), suprimindo apenas as 2 vírgulas, que existiam no dístico original.

sábado, 30 de março de 2019

Osmose 103


Fará sentido, hoje, falar-se de amor imortal? Quando a finitude é uma evidência humana? Prefiro, talvez por isso, aceitar, em alternativa: amor fatal - com todas as suas finitas consequências. Porque, também o Outro irá morrer e a memória desse fogo celeste, comum, se irá apagar "como lume breve".
Nunca me recusei a amar, com todos os seus limites e sujeições, terrenos. Mas usar o verbo adorar, e praticá-lo, sempre me pareceu uma prerogativa feliz e exclusiva das almas simples e ligeiras. O que não deixa, no entanto, de ser uma virtude, na alínea particular da generosidade.

segunda-feira, 4 de março de 2019

Pela manhã


Começo bem a manhã - três poemas se me impõem à leitura. Gosto muito de dois, o terceiro não me toca, nem ao de leve. Também neste último a ilustração não ajuda...
E se dois poetas são do norte, o terceiro é de outro continente. Minimalista, de nome. É tudo uma questão de voz, ou de tema que me permite separar as águas, aderir ou não.
A contenção é, muitas vezes, uma questão de sabedoria, a que não falte ritmo ou essa música discreta que as palavras trazem consigo. E que só alguns pressentem.
E o António, meu amigo, bem mo disse, ontem, que ele tem música e ritmo no sangue (eu não tenho), a propósito de Echevarría. Mas pelo Eugénio, respondo eu.

sábado, 23 de fevereiro de 2019

Divagações 142


Se algumas, raras, vezes um poste pode ser uma discreta vontade de diálogo com outro poste que vimos e lemos num blogue alheio, a maior parte deles resulta de uma vontade pessoal de tomar posição perante um facto, uma pessoa, um acontecimento que não nos deixou indiferentes.
Por outro lado, romper o nosso silêncio encasulado pode resultar de um irreprimível desejo de partilha com os outros (ainda que anónimos) de uma emoção ou sensação demasiado agradável que não pode só restringir-se às restritas paredes do nosso pequeno universo.
Eugénio de Andrade exprimiu isso, em verso, de uma maneira admirável e para sempre: "...De coisas que te dou/ para que tu as ames comigo..."
Não tenho grande memória para a Música. Melhor dizendo, consigo reconhecer e situar uma melodia, às vezes, quando a volto a ouvir, mas tenho enorme dificuldade em me lembrar, por exemplo, de quem a interpretou, quando e onde.
Se tenho a certeza que vi, ao vivo, execuções de Braga Santos e de Stravinsky, este último no Coliseu, já não estou seguro de ter assistido a interpretações de Maria João Pires, muito embora seja altamente provável tê-la ouvido na Gulbenkian, nos anos 60 ou 70.
Tudo isto para deixar escrito, aqui no Arpose, o nome de Sequeira Costa (1929-2019), que ontem nos deixou. E que era um homem discreto e sério, para além de ser um notável pianista português.