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sábado, 19 de janeiro de 2019

Centenários e projectos


No limiar do novo ano, o TLS (nº 6040) recordou centenários de alguns escritores, que se vão celebrar em 2019. De Salinger a Iris Murdoch e Doris Lessing, entre outros. Pela nossa parte, portuguesa, cabem-nos Sena e Sophia, porque  Eugénio terá de esperar mais 4 anos. Hoje, fariam apenas 96 anos sobre o seu nascimento, na Póvoa de Atalaia (Fundão).


E, sobre Jorge de Sena, se eu não mudar de ideias, preparo-lhe a minha possível e modesta homenagem, mas lá mais para Novembro, que é quando o Arpose completa os seus primeiros 10 anos, juvenis, nove dias depois da data do nascimento do poeta de Fidelidade.

terça-feira, 25 de setembro de 2018

As palavras de Eugénio, pelas ruas do Porto


Numa esplanada da rua de Sta. Catarina, releio, à sombra, o luminoso prefácio Excessivo é ser jovem, que Eugénio de Andrade (1923-2005) escreveu para a sua antologia sobre Coimbra, Memórias de Alegria. Trouxe o livro da rua Formosa, juntamente com Martha Quest, de Doris Lessing, que já só irei ler em Lisboa.
Sta. Catarina está transformada numa babel de vozes, entremeada de uns pindéricos cantores de rua que, não sendo romenos, de anglo-saxónicos têm apenas a sujidade e a desafinação pelintra. Tudo isto afinal não difere muito de Lisboa, no fundo. E, se não fosse a força encantatória das palavras de Eugénio, eu ficaria submergido de mediocridade turística, por todos os lados.
...Era uma alegria antiga que se repetia, embora em rigor nunca fosse igual, este crescer, este subir, este fluir - pois para que serviria a música, se não nos levasse nas suas pequenas e sucessivas vagas ao tempo orvalhado e sem mácula?...
Fecho o livro, pago a despesa, levanto-me da mesa, e ao ritmo e lembrança das palavras de Eugénio, vou ligeiro, que tenho um encontro amigo e aprazado para a rua Sá da Bandeira...

terça-feira, 26 de novembro de 2013

Doris Lessing, sobre o Além


Quando, aqui há onze dias atrás, soube da morte de Doris Lessing (1919-2013), eu, que já lhe tinha dedicado dois postes no Arpose, na altura, não encontrei nada de novo, para lá da estima intelectual  que lhe tinha, para dizer. Fui ler o seu discurso de recepção do Nobel (2007): texto grande, bem escrito, onde ela aborda, de forma singular, a injustiça no Mundo, a pobreza em África e a sede por leitura das crianças nas escolas africanas, onde normalmente não há livros, e a ecologia, revelando o seu grande amor pela Natureza.
Mas, aqui no Blogue, pensei que não tinha nada de novo para dizer, e calei-me, até porque o ciberespaço estava cheio, nesse dia, como aliás é habitual em casos de morte, de loas, citações, lamentos sobre a desaparição da grande escritora britânica e, por isso, tudo o que eu dissesse seria redundante e circunstancial.
No entanto, hoje, ao ler no último "l'Obs" (nº 2559) uma recolha antológica sobre alguns textos das entrevistas que fizeram a Doris Lessing, achei que merecia a pena, trazê-la aqui, de novo, traduzindo as suas palavras sobre o depois da morte. Que revelam, humanamente, o seu enorme amor à Vida, também. Eis a sua reflexão:
"...Um pouco do nosso espírito deve ir para algures. Um pouco do essencial de nós mesmos, mas não me perguntem o quê. Disso falam todas as religiões. E, por isso, deve haver um fundo de verdade. Em todo o caso, eu sei aquilo que me vai fazer falta: que é toda a intriga da vida. A batalha do bem e do mal. Onde ninguém ganha nunca. E que peça de teatro! Sim, isso faz-me ficar nostálgica. Mas pode acontecer que também se represente esta peça, lá em cima, quem sabe?"

domingo, 18 de setembro de 2011

Os gatos de Doris Lessing


Nunca fui muito à bola com gatos. O meu gato primordial, aliás gata, chamava-se "Violeta" e deixou-me alguns arranhões na memória. Por isso, quando vi o livro no alfarrabista, como era de Doris Lessing (1919), prémio Nobel de 2007, folheei-o, mas voltei a pousá-lo na estante. Mais tarde, decidi arriscar e comprei-o. Tem por título "Gatos e mais gatos" (Particularly Cats and More Cats), foi traduzido, para a Cotovia, por Maria Isabel Barreno e publicado em 1995. Fiz bem tê-lo comprado, porque se lê lindamente. Fala de gatos persas, africanos e londrinos, com a minúcia inteligente e o pormenor atento de quem os conheceu e conviveu com eles. A leitura deste magnífico livro quase me fez começar a gostar de gatos -julgo que não posso fazer melhor elogio à obra de Doris Lessing. Aqui vai, por isso, um bocadinho para quem goste de gatos (ou não), e para aguçar o apetite:
"...A minha gata era uma jovem de origem indistinta, branca e preta, garantida como limpa e dócil. Era um bicho bastante simpático, mas eu não a amava; não sucumbi. Estava, em resumo, a proteger-me a mim própria. Achava a gata neurótica, ansiosa, agitada; o que era injusto, porque a vida num gato da cidade é tão pouco natural que ele nunca aprende a ser independente como um gato de quinta. Aborrecia-me porque ela esperava que voltássemos para casa - como um cão; precisava de ajuda humana para ter gatinhos. E quanto aos hábitos alimentares, ganhou a batalha na primeira semana. Nunca comeu, nem uma vez, outra coisa que não fosse fígados de vitela mal passados e pescada mal cozida. Onde arranjara esses gostos? Perguntei ao seu ex-dono, que também não sabia. Deixei-lhe comida de lata, e restos da mesa; mas só mostrou interesse quando nos viu comer fígado. E só comia fígado cozinhado em manteiga, nada mais. Uma vez decidi levá-la à submissão pela fome. «É ridículo que um gato tenha que ser alimentado, etc., etc., quando noutros lugares do mundo há pessoas a morrer à fome, etc.» Durante cinco dias dei-lhe comida de gato, restos da nossa comida. Durante cinco dias ela olhava reprovedoramente para o prato, e ia-se embora.Todas as noites eu deitava fora a comida cediça, abria nova lata, voltava a encher a tijela do leite. Ela vagueava por ali, inspeccionava o que eu lhe dera, abalava. Ficou mais magra. Devia ter muita fome. Mas, por fim, fui eu quem cedeu.  ..."(pgs. 24/25).

domingo, 3 de julho de 2011

Citações LXXI : Doris Lessing


"A aproximação da grand âge, esta Via Dolorosa, é-nos apresentada como uma decadência. Ora é então que se abre o tempo das surpresas. Uma delas, de que eu nunca falo: redescobrir o mundo com a frescura da criança. Tudo é maravilha."
Doris Lessing (1919), in Time bites.