Quando, aqui há onze dias atrás, soube da morte de Doris Lessing (1919-2013), eu, que já lhe tinha dedicado dois postes no Arpose, na altura, não encontrei nada de novo, para lá da estima intelectual que lhe tinha, para dizer. Fui ler o seu discurso de recepção do Nobel (2007): texto grande, bem escrito, onde ela aborda, de forma singular, a injustiça no Mundo, a pobreza em África e a sede por leitura das crianças nas escolas africanas, onde normalmente não há livros, e a ecologia, revelando o seu grande amor pela Natureza.
Mas, aqui no Blogue, pensei que não tinha nada de novo para dizer, e calei-me, até porque o ciberespaço estava cheio, nesse dia, como aliás é habitual em casos de morte, de loas, citações, lamentos sobre a desaparição da grande escritora britânica e, por isso, tudo o que eu dissesse seria redundante e circunstancial.
No entanto, hoje, ao ler no último "l'Obs" (nº 2559) uma recolha antológica sobre alguns textos das entrevistas que fizeram a Doris Lessing, achei que merecia a pena, trazê-la aqui, de novo, traduzindo as suas palavras sobre o depois da morte. Que revelam, humanamente, o seu enorme amor à Vida, também. Eis a sua reflexão:
"...Um pouco do nosso espírito deve ir para algures. Um pouco do essencial de nós mesmos, mas não me perguntem o quê. Disso falam todas as religiões. E, por isso, deve haver um fundo de verdade. Em todo o caso, eu sei aquilo que me vai fazer falta: que é toda a intriga da vida. A batalha do bem e do mal. Onde ninguém ganha nunca. E que peça de teatro! Sim, isso faz-me ficar nostálgica. Mas pode acontecer que também se represente esta peça, lá em cima, quem sabe?"