«Um Funeral à Chuva: COM OS PÉS PARA A COVA», 5-VI-2010.

“UM FUNERAL À CHUVA, DE TELMO MARTINS
Um Funeral à Chuva: COM OS PÉS PARA A COVA
Os Amigos de Alex à portuguesa entre praxes e bebedeiras

Kevin Kostner tornou-se o mais famoso Godot da história do cinema, pela sua participação em Os Amigos de Alex. Lawrence Kasdan, o realizador, foi cortando, cortando, cortando, até que, quando deu por si, a personagem de Alex desaparecera completamente de cena, apesar de dominar o mise en scène. O não papel de Kevin Kostner é absolutamente brilhante e eleva o filme ao patamar altíssimo, de obra de referência. E como todas as obras de referência volta e meia é resgatada, reinventada, recuperada por realizadores de todo o mundo. Até porque, como se sabe, nos funerais muitas vezes se reencontram amigos de longa data.

Como seria Os Amigos de Alex se efectivamente aparecesse o Alex? Um filme diferente e pior, mas seguramente não tão mau como Um Funeral à Chuva, de Telmo Martins, um realizador português que tem andado discretamente pelas curtas-metragens e agora estreia-se de forma desastrada nas longas.

Um grupo de ex-colegas da faculdade encontra-se, passados 10 anos, para o funeral de um amigo, na Covilhã. Juntos recordam as peripécias da vida de estudante (praxes, bebedeiras e tal) e fazem algumas revelações (de índole sexual). Sem grande graça, tudo de uma banalidade atroz e de emotividade forçada, sem pingo de criatividade. As personagens são estereótipos e caricaturas de si próprias: o professor certinho ex-folião, o cronista de viagens sempre sempre agarrado à máquina fotográfica, o gay, a apresentadora de TV actriz frustrada, etc…

Há uma quantidade excessiva de cenas falhadas como a ‘neve’ na Covilhã, ou o ‘passo de dança’, que é um remate frouxo e desenxabido. O problema é que se as cenas fossem minimamente ‘bem feitas’ também não seriam grande coisa. Isto significa que o problema está na base, no argumento, paupérrimo. Os actores não ajudam muito, mas com estes diálogos e esta caracterização de personagens desconfiamos que nem o Kevin Kostner se safava.

O que sobra? A música, que até é boa, apesar de provavelmente não ser adequada (mas felizmente não cantam A Mulher Gorda). E o silêncio do morto, enquanto vivo, que o torna a personagem com melhor caracterização. O filme foi feito com um orçamento muito reduzido e sem grandes apoios. Mas se o dinheiro não resulta necessariamente num filme bom, a falta dele, como é óbvio, também não. E não desculpa tudo.”

In http://aeiou.visao.pt/um-funeral-a-chuva-com-os-pes-para-a-cova=f560817

«Sem desejo», 6-V-2010.

“”Como Desenhar um Círculo Perfeito” dá sequência a “Alice”, o filme com que Marco Martins se estreou na longa-metragem. Dá sequência, e não apenas numérica: reconhecem-se alguns apontamentos estilísticos e/ou “atmosféricos” que parecem criar uma continuidade com “Alice”. Por exemplo, o desenho da cidade feito de pura meteorologia invernal – húmida, escura, cinzenta – e o modo como os interiores (de que se diria serem mais predominantes aqui do que em “Alice”), preservando essas características, não estabelecem uma fronteira clara com os exteriores, como se fossem eles próprios dominados pela invernia citadina. Evidentemente, entre o clima e a definição psicológica das personagens as coincidências são tudo menos casuais, como se também para a dramaturgia as questões a resolver fossem, digamos, “nórdicas”.

Nesta disposição para a bruma há alguma singularidade em “Como Desenhar um Círculo Perfeito”, a mesma que havia em “Alice”. Mas “Alice” tinha, porventura, uma narrativa mais coesa, ou pelo menos um centro narrativo mais forte. “Como Desenhar…” tem uma estrutura mais vaga, ainda que plenamente determinada – pois se o filme mostra, de facto, “como desenhar um círculo perfeito”, a perfeição circular é a figura que mais se ajusta à evolução e ao desenlace do principal eixo da narrativa (a história dos dois irmãos). Narrativa de passagem (à idade adulta) e de descoberta, “Como Desenhar…” joga-se sobretudo na cabeça das personagens, em particular na do adolescente protagonista e na relação com os outros – especialmente a irmã e o pai (que, interpretado pelo granítico Daniel Duval, actor de Garrel e de Haneke, é a presença mais forte do filme). É aí que “Como Desenhar” revela alguma incapacidade para, além de uma ideia de atmosfera, encontrar a intensidade – a intensidade narrativa, mas também a intensidade visual: as imagens, os planos – que esteja à altura da profundidade psicológica que parece querer exprimir.

Fica-se com a ideia de um filme controlado, até demasiado controlado, que espera até ao fim por um momento libertador, por um gesto que o rasgue, que vire do avesso o seu torpor descritivo, que faça aparecer um desejo – não “o desejo”, nem um desejo qualquer, mas o desejo do próprio filme.”

In http://cinecartaz.publico.pt/criticas.asp?id=254814&Crid=49&c=6433

«Um Funeral à Chuva», 2-VI-2010.

“Não há nada de mal em querer fazer uma versão portuguesa (mesmo que tardia e actualizada para os nossos dias) dos “Amigos de Alex” (1983) de Lawrence Kasdan, com seis antigos colegas de faculdade a reunirem-se para o funeral de um sétimo e a fazer o ponto da situação sobre o modo como as suas vidas mudaram. E deve-se louvar o voluntarismo de fazer um filme em Portugal fora do sistema de produção tradicional, sem subsídios nem produtores, em regime quase de “carolice” – e o trunfo de “Um Funeral à Chuva” é que esse lado “amador” não transparece de uma produção que parece muito mais cara e consegue até ser superior à maior parte do que passa por televisão hoje em dia.

Infelizmente, parecer não chega – é preciso ser, e este projecto simpático desintegra-se muito rapidamente num guião cheio de banalidades redundantes e pontas soltas que nunca ficam resolvidas, que Telmo Martins filma sem ritmo (duas horas e dez porquê?) e ao qual nem a evidente cumplicidade do elenco consegue emprestar interesse.

“Um Funeral à Chuva” não é, felizmente, um desses produtos formatados televisualmente que se querem fazer passar por cinema, mas também não é suficientemente sólido para ser um bom filme.”

In http://cinecartaz.publico.pt/criticas.asp?id=255940&Crid=49&c=6519