«No reino dos espectros», 25-VI-2010.

“Se existe alguma marca distintiva na obra de João Mário Grilo, ela passa por um extremo rigor, uma quase ascética visão do plano, das movimentações de câmara, das motivações das personagens, dos objectivos finais da ficção construída.

Foi assim com a representação da História em “O Processo do Rei” (1990), em tom de quase reportagem, ou em “Os Olhos da Ásia” (1996), cristalizando o mito sacrificial. Foi também assim pelo modo como se interroga a dimensão política do país real em “O Fim do Mundo” (1992) ou “Longe da Vista” (1998). “A Falha” (2000) “falhara” o alvo, numa narrativa algo desconjuntada e, por isso, ansiava-se pela mais recente longa-metragem para nos restituir uma imagem mais condizente com a importância da sua radical diferença, no modo como percepciona Portugal e as suas contradições mais fundas.

“Duas Mulheres” não poderia começar de melhor forma: uma imagem a preto-e-branco, como se de um registo de tráfico se tratasse, imobiliza um carro na auto-estrada, acompanhando o genérico e abrindo para o confronto inicial entre as duas personagens femininas, em curioso duelo, marcado pelos silêncios e mistérios de uma hipótese de “thriller” psicanalítico.

Aliás, esta ideia do “thriller” vai aflorando ao longo de todo o filme, sem que se vislumbre uma opção clara, mesmo na inscrição (quase) final do crime, filmado, como sempre em Grilo, com uma secura que desarma e confunde. Nos muitos caminhos traçados, a sequência do jantar, formada por quatro casais geometricamente dispostos em redor da mesa, inscreve uma nova e importante pista de leitura: a grande finança e os seus jogos de mitigado poder, numa economia globalizada que serve de pano de fundo ao crescente romance entre as duas mulheres do título, uma psicanalista frustrada no casamento e uma modelo, fútil e insidiosa, dobrada de prostituta de luxo.

Por esta vertente sensual poderiam passar as regras organizadoras do melodrama, caso João Mário Grilo não optasse, de novo, pelo distanciamento e por uma espécie de frieza racionalizante, que reduz os encontros a resquícios desmembrados de mais um jogo de sedução, operado por mensagens crípticas de telemóvel e cruas exibições de nudez. Toda a estratégia do cineasta passa por evitar qualquer expressão do sentimento, com a possível excepção da visita à antiga casa da médica e da ida ao rio, mesmo assim filtrada por um estrito código de rigidez no olhar sobre os corpos. O que lhe interessa verdadeiramente é o vazio da inscrição social de personagens complexas, mas frígidas.

No centro de toda a dança de mortes anunciadas, está a força interpretativa da que é, porventura, a maior actriz portuguesa de cinema, Beatriz Batarda, contida numa interioridade feita de sorrisos e de pequenos gestos. Por ela passa tudo, o desejo controlado, a raiva surda, o retrato codificado de uma sociedade hipócrita e apodrecida, explodindo (um pouco) na belíssima sequência do aniversário do financeiro (Nicolau Breyner, mais uma vez a compor a personagem com enorme economia de meios expressivos), metonímia de um país em queda. Um dos mais belos planos do filme faz-se de fora para dentro da casa, com a câmara a fixar, entre anelas, uma festa de fantoches congelados no tempo, em volta de um bolo, cujas velas se apagam em triste anúncio de uma felicidade impossível.

João Mário Grilo filma sempre muito bem, com o tal rigor milimétrico que impede qualquer intervenção dos sentimentos, gelando tudo à passagem da câmara, fria como um bisturi que disseca o mundo que descreve: os corredores do hotel, a decoração medida dos interiores da casa do casal, o “court” de ténis fechado entre grades, tudo determina um território fantasmático, povoado por espectros disfarçados de gente. Falta carne e sangue às figuras que se deslocam como “zombies” por entre as ruínas de um mundo em que o sexo funciona como um ruído de corpos que se tocam sem se interpenetrarem. Mais uma vez por opção, a relação lésbica encontra-se condenada pela distância da câmara a um exercício de “voyeurismo” desgarrado e perturbante.

O final é bizarro, sem que se entenda muito bem a necessidade de o localizar num “longínquo” 2014, embora cumpra a função de mostrar o futuro igual ao presente (e ao passado), com as personagens executando os mesmos vazios rituais de sobrevivência social. Sem este epílogo “anti-trágico”, o desmaio da protagonista perante o cadáver da “amante” de olhos abertos para o vazio correria o risco de adicionar um “pathos” que o realizador queria a todo o custo evitar. Faz falta este “pathos” que conferiria outra grandeza ao “romance”? Talvez, mas encaixaria num outro filme, uma espécie de “film noir” que apenas existe nas entrelinhas, embora pontue, aqui e ali, gestos e fragmentos de um cinema (demasiadamente?) autoconsciente.

O que faz a grandeza e o limite deste discurso descaradamente desconstrutivo passa, precisamente, por esta glacial postura de objecto “sem alma”, reflexo de uma certa contemporaneidade e de um certo olhar desapiedado sobre o mundo. Como se queria demonstrar…”

In http://cinecartaz.publico.clix.pt/criticas.asp?id=257810&Crid=4&c=6619

«Duas Mulheres», 25-VI-2010.

“Ponto prévio: era tão bom que tantos cineastas (e não só portugueses) fossem capazes de filmar como João Mário Grilo, colocando a câmara e a “mise-en-scène” ao serviço da história que se quer contar, com uma sobriedade tanto mais admirável quanto rara. Não estamos a falar de mero funcionalismo anónimo, e no entanto, “Duas Mulheres”, primeira ficção de longa-metragem do cineasta, professor e crítico em dez anos, é um filme estranhamente frio e distante, exercício aplicado e cerebral mais do que o drama vibrante que se esconde por entre o guião. Na verdade, a chave é a personagem central, Joana, psiquiatra com dificuldades em extravasar as suas emoções, casada com um financeiro poderoso mas perturbada por uma jovem “call girl” que surge nas urgências e com a qual desenvolve uma relação lésbica. Beatriz Batarda é impecável na gestão das emoções complicadas que o papel lhe pede, mas a câmara de Grilo não é capaz de a acompanhar na transição da frieza para a sensualidade, e fica sempre a sensação de que está mais interessado nisso do que no complexo xadrez político-económico que o guião de Tereza Coelho e Rui Cardoso Martins desenha sem esforço. Isso faz de “Duas Mulheres” um filme que não cumpre por inteiro as suas promessas e deixa um travo meio amargo através de alguns “saltos” narrativos um pouco abruptos e, sobretudo, da dispensável coda final.”

In http://cinecartaz.publico.clix.pt/criticas.asp?id=257810&Crid=49&c=6618

«Duas Mulheres: Aconteceu em Lisboa», 22-VI-2010.

“No novo filme de João Mário Grilo há duas mulheres que se encontram numa cama, enquanto lá fora todo o mundo das altas finanças, das benzeduras ante o leito nupcial e os corta-relvas continuam.
O filme começa com uma câmara de vigilância da A5, no sentido Cascais-Lisboa e termina com o ensurdecedor ruído de um moderno cortador de relva, pelo meio, uma banda sonora magnífica e um vídeo de telemóvel. Oito anos depois de A Falha, João Mário Grilo regressa à ficção com Duas Mulheres, um filme eminentemente contemporâneo, em que o realizador faz questão de registar a Lisboa de hoje e experimenta coisas novas.

Woody Allen gosta de pensar que se os seus filmes não servirem para mais nada, servirão enquanto retrato de Manhatan. O mesmo se passa com este novo João Mário Grilo, a propósito do qual se poderia fazer um itinerário por Lisboa, passando pela avenida da Liberdade, túnel do Marquês, avenida da Igreja, Quinta da Marinha ou o a travessia do Tejo de cacilheiro… esse mérito o filme tem. Assim como o vídeo da câmara de vigilância (exógeno) e vídeo do telemóvel (endógeno), que não são mais do que isso, olhares dentro de olhares, justificados pelo pulsar moderno do filme, mas também por essa vontade de descoberta.

O pano de fundo é uma aristocracia lisboeta raramente focada no cinema. Estamos habituados a ver a classe aristocrática nortenha, nos filmes de Manoel de Oliveira a partir de Agustina, que são famílias lendárias paradas no tempo de Camilo. Aqui há uma aristocracia emergente, de yuppies banqueiros, modernos e estilizados, que vivem em grande, mas com requintes contemporâneos. Como a arquitetura da casa onde o mora o casal, formado por um banqueiro e uma psiquiatra. Tratam-se por você e ele reza antes do coito. Mas nem por isso são personagens divertidas. Paulo Amorim (Virgílio Castelo) é seco e enfadonho, preocupado com assuntos da alta finança, em jogos políticos, diplomáticos e financeiros, que se sobrepõem à moral, por mais que ele a introduza no seu discurso palavroso.

Também por aí o filme acerta em cheio no Telejornal. A questão é a nova ordem mundial e as novas regras do mundo financeiro, globalizantes e supranacionais, que, alegadamente, prejudicam os mais fracos. Aparentemente até há uma certa nobreza no seu discurso. Mas é apenas uma aparência. Paulo revela a identidade em algumas frases. O pedido que faz à mulher: “Se não me vai ajudar na minha carreira, pelo menos não me prejudique”. O conselho que dá ao filho: “Noutros desportos, como o futebol, funciona o jogo de equipa. No ténis, tudo depende de si, da sua força de vontade”. Depois há a personagem cínica, Tomás, o braço direito, que é uma espécie de bêbedo da aldeia, que diz todas as verdades.

É um filme com retratos e até algumas caricaturas, como é o caso do comandante (Nicolau Breyner), que poderia ser comendador, milionário e excêntrico nos seus atos. Pilota um avião telecomandado perante o aplauso do público subserviente. É o lado Tráfico (de João Botelho) do filme, que culmina com Romana (a cantora pimba) a entoar os Parabéns a Você.

A intriga, de resto, tem o seu quê de Call Girl (de António-Pedro Vasconcelos) e de Os Sorrisos do Destino (de Fernando Lopes). Uma certa ideia de medo (mais interior do que exterior) percorre a tela, em que Beatriz Batarda mais uma vez brilha. O sal do filme é Beatriz Batarda. Cria uma personagem densa, que torna a história consistente. O chamariz é a aventura entre Mónica (Débora Monteiro) e Joana. A personagem descobre-se lésbica, vencendo medos, desviando rotinas e beija a call girl que é sua paciente: “Não sei se o caso é interessante, mas tu estás muito interessada nele”, diz-lhe o amigo (João Perry).

A componente erótica não pode nem deve ser desvalorizada, pois é uma marca essencial do filme. Contudo, que o efeito cativador do erotismo não ofusque em demasia as várias camadas em que o filme se vai despindo. Que no fundo, percebemos no final, é o prmeiro de uma série chamada Condição Humana.

Duas Mulheres, de João Mário Grilo, com Beatriz Batarda, Virgílio Castelo, Débora Monteiro, Marcello Ureghe, Nicolau Breyner, João Perry; argumento de Rui Cardoso Martins e Tereza Coelho; Portugal; 100 min.”

In http://aeiou.visao.pt/duas-mulheres-aconteceu-em-lisboa=f563622