Tavira Romana

A ocupação da zona de Tavira na Época Romana

Geografia histórica do povoamento, rede viária e sacralização do território

 

Luís Fraga da Silva, 2005

 

Ensaio constituído por um texto e quatro mapas.

A sua realização integra-se no plano de estudo e divulgação do território da cidade romana de Balsa e da história urbana de Tavira.

 

RESUMO

O lugar de Tavira foi pouco importante na Época Romana, situado a 6,5 km da cidade de Balsa, que era então a capital de todo o território entre Moncarapacho e o Guadiana.

A tradição da sua "ponte romana" não tem fundamento arqueológico. Passava no entanto aí a principal via romana do Algarve, in­te­grada no Itinerário Antonino XXI na sua etapa Balsa-Baesuris A travessia do rio efectuar-se-ia pos­sivelmente ou por passadeiras ou por uma ponte de madeira, estruturas que não dei­xa­ram vestígios.

O sítio notabilizava-se então pela presença de um gran­de campo de ruínas tartéssicas na colina de San­ta Maria, abandonadas já há séculos, por uma do­mus ou villa (que ficou na toponímia como Villa Fri­gida, evoluindo posteriormente para Bela Fria) e por uma ocupação agrícola no Campo da Atalaia, de que apenas se conhece a ne­cró­pole.

Destacava-se ainda o vau do rio, sí­tio de passagem da re­fe­ri­da via, on­de se pensa ter existido um san­tuário fluvial junto da nas­­­cen­te aí existente, de­dicado a uma divindade des­­conhecida.

 Coloca-se a hipótese de o nome do rio Sé­qua ser de ori­gem pré-romana e estar as­so­cia­do a essa di­vin­da­de, que per­tenceria então a uma tra­di­ção indo-europeia ar­cai­ca.

São aqui numerosos os ma­­nan­ciais sacralizados no per­­cur­so da via romana e nas suas li­ga­ções secundárias nos ar­re­do­res de Ta­vi­ra. As­so­cia­dos a fun­ções viá­­rias e com uma origem ou tra­di­ção pré-ro­mana, são, ou cer­ti­fi­ca­dos pe­la pre­sen­ça de "pe­ga­das" gra­vadas na pe­dra ou de­du­zi­dos pe­las ca­rac­te­rís­ticas das de­­­di­ca­ções páleo-cris­tãs, por cul­tos po­pu­lares ac­tuais e len­das tra­­di­cio­nais que indiciam uma con­ti­nui­da­de des­de a An­ti­gui­da­de.

Estes indícios, assim como a fer­­ti­lidade estuarina e agrícola das redondezas, são porém con­tra­di­tó­­rios com a escassez de lugares de po­voa­mento ro­ma­no co­nhe­ci­dos. Tal poderá de­ver-se, entre outras causas, a uma ocu­pa­ção rural dis­persa por populações tur­de­ta­nas au­tóc­to­nes, enquadradas no sistema fundiário e fis­cal ro­ma­no prevalente no ter­ri­tório balsense.

Séculos mais tarde, provavelmente já durante o do­mí­nio visigótico, o sítio do vau terá sido cris­tia­ni­za­do com uma dedicação a São Juliano. O hagiónimo Sancti Iuliani passaria a designar um pequeno po­voa­do da margem esquerda (hoje a colina de Sant'Ana) e a parte terminal do rio. No século X o cul­­to de S. Julião permanecia vivo, como prova a existência de um bispo local chamado Iulianus. No séc. XII o local, já totalmente islamizado, de­no­mi­nar-se-ia Gilla, nome que surge nas fontes árabes e que evoluiu para o Gilão actual.

Os antigos esteiros do Gilão-Séqua e do Almargem constituíam então um obstáculo ao trânsito terrestre pelo litoral, entre Balsa e Baesuris, no Guadiana. Existiam já também, provavelmente desde a Pré-História, trilhos de longo curso que uniam o litoral ao interior da Serra Algarvia e ao Alentejo. O conjunto produziu um complexo polígono de ligações viárias, mais tarde reutilizadas e desenvolvidas pelo crescimento de Tavira, a partir do séc. XI.

 

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