Tomé Varela da Silva: “O alfabeto para a escrita do cabo-verdiano parecia uma floresta de acentos” / Cultura / Detalhe de Notícia


10-4-2010

Tomé Varela da Silva: “O alfabeto para a escrita do cabo-verdiano parecia uma floresta de acentos”

Falar do volume - IV de "Na Bóka Noti" é também falar das várias etapas por que passou a escrita da língua cabo-verdiana. O primeiro volume, publicado há quase 25 anos, foi escrito no alfabeto proposto no Colóquio do Mindelo, em 1979, com os famosos chapéus enfeitando as letras que, nas palavras de Tomé Varela da Silva, mais parecia uma floresta de agressivos acentos. Já o último volume, recentemente saído do prelo, é escrito no Alfabétu Kauberdianu (AK) aprovado pelo governo há pouco mais de um ano "mas com algumas alterações", diz o autor. Uma dessas alterações é a supressão da letra y, como, de resto, informa, foi proposta unanimemente na Mesa Redonda para Avaliação do ALUPEC, mas que o governo não acatou. Resultado: "o y que nunca figurou no alfabeto surge pela primeira vez. E aí temos o mesmo som representado por duas letras diferentes", explica o investigador.

Expresso das ilhas - Os contos tradicionais cabo-verdianos têm uma componente irónica e humorística ou estão ausentes?
Tomé Varela da Silva - Os contos tradicionais cabo-verdianos naturalmente acabam por ser expressão deste povo e o povo cabo-verdiano, para ajudar a si próprio, brinca muito com as situações, às vezes as mais adversas. Neste sentido, a ironia não podia estar fora. É verdade que há uma variação de ilha para ilha por haver uma espécie de padrão psicológico de ilha para ilha, mas a ironia faz parte da idiossincrasia do povo cabo-verdiano enquanto tal. Não é por acaso que há chispes, ás vezes até sem graça, porque acabam por ofender, mas isso é sinal de espírito, sinal de vivacidade, sinal também de que o povo está sempre atento e que é criativo.

A que critérios obedecem as subdivisões dos ciclos das histórias neste volume-IV do "Na Bóka Noti"?
Este é mais um volume do livro " Na Bóka Noti". Se no primeiro aparecem contos de quase todas as ilhas, nomeadamente das ilhas de Santiago, Fogo, Santo Antão, Maio, Boa Vista e São Nicolau, já nos três outros que já se publicaram os contos são todos recolhidos na ilha do Fogo. A subdivisão dos volumes 2, 3 e 4 faz-se consoante o ciclo das histórias: o ciclo "Ómi ku mudjer", tendo como tema os affaires domésticos, a questão do relacionamento homem/ mulher e a questão pedagógica; há o ciclo "Pedru ku Palu ku Manel" que eu chamaria de contos iniciáticos e há o ciclo do "Lobu ku Xibinhu". No primeiro volume houve ainda um ciclo da feitiçaria numericamente muito expressivo. Já no volume II havia apenas dois ou três contos e ainda se arranjou um quarto capítulo. Mas no terceiro e quarto volumes há apenas os já referidos três ciclos. Só por essa designação o leitor poderá fazer uma ideia dos contos que irá encontrar neste volume. Em todos eles, os contos do ciclo "Ómi ku Mudjer" são muito mais numerosos que os restantes, às vezes até porque não há muita rigidez na definição dos ciclos. Em todo o caso, quer-se sobretudo dar ao leitor uma visão de ciclos e de histórias com mais ou menos enquadramento neste ou naquele sentido.

O primeiro volume de "Na Bóka Noti" sai em 1987, o último acaba de sair do prelo: como é que se reflecte as várias etapas da escrita da língua cabo-verdiana nos 4 volumes publicados ao longo de quase 25 anos?
O primeiro volume saiu no alfabeto proposto no Colóquio do Mindelo de 1979 em que os palatais tinham por cima os famosos chapéus, ou seja, os acentos circunflexos. Já nos restantes volumes utilizou-se o ALUPEC que tinha sido oficializado experimentalmente em 1998. Como sabe, o ALUPEC foi trabalhado em 1994, veio a ser oficializado em 1998 para ser utilizado experimentalmente durante 5 anos. Acontece que eu estive sempre a trabalhar sobre a língua e com a língua. Participei no grupo fundador do ALUPEC; foram quase 6 meses de trabalho árduo e intenso, com muitas discussões nas reuniões. Deu um resultado que eu considero muito bom que foi o ALUPEC. De resto, nenhum alfabeto é eterno, até porque a língua é viva e vai-se alterando e modificando paulatinamente e é preciso estar-se atento. Eu como estive sempre a trabalhar na e com a língua, fui-me dando conta de uma ou outra pequena deficiência no campo da fonética e da fonologia, mas que não põe em causa o essencial da escrita do cabo-verdiano. Por isso introduzi já no volume-2 de "Na Bóka Noti" algumas alterações que vieram a aumentar no volume-3, porque em 1994 nós tínhamos acordado no ALUPEC que o e e o sempre que abertos deveriam ser assinalados com acento agudo; para o a acordou-se que seria sempre aberto, a não ser que se tratasse de uma sílaba tónica, cujo acento já não era para indicar a natureza, mas a sílaba tónica, nomeadamente no caso de palavras esdrúxulas (prátika e pratika). Como dizia, com os meus estudos verifiquei que há determinados aa que em determinadas circunstâncias são mais abertas ou menos abertas. Por exemplo, se eu disser casa, baka é notório que o primeiro a é mais aberto de que o segundo e como essas duas palavras há muitas outras; então fiz um exercício que aparece no volume-3: todos os aa mais abertos são acentuados graficamente com acento agudo, à maneira do e e do o que são sempre acentuados, quando abertos. Fui esse exercício que eu fiz já no volume terceiro. Neste último volume levei em conta os resultados da mesa redonda, realizada na Praia, em finais de 2008 que tinha por objectivo fundamental fazer a avaliação da funcionalidade do ALUPEC e também eventuais recomendações. Recordo que a discussão mais acirrada tinha a ver com a questão do e conjunção coordenada que desde o Colóquio do Mindelo era grafado com y para representar essa conjunção coordenada. Ora, no encontro chegou-se à seguinte conclusão: nas escolas tanto crianças como adultos questionam porquê o y se já temos o i para representar o som i se o nosso alfabeto pretende ser fonético-fonológico. Ou seja, para cada som uma representação. Eu que sempre utilizei o y, perante esta argumentação tanto de professores que leccionam nos Estados Unidos como em Cabo Verde, disse ‘vamos parar e pensar um bocado. Não estamos a criar um alfabeto para nós, mas para servir a comunidade cabo-verdiana esteja ela cá dentro, ou lá fora. Convenhamos, se há esse problema, então vamos acordar a queda do y e a adopção do i para representar a conjunção coordenada copulativa. Assim temos o mesmo som em todas as circunstâncias. A Mesa Redonda da Praia de 2008 adoptou unanimemente o i para conjunção coordenada copulativa. Éramos 23 participantes e todos nós concordamos unanimemente que o y deveria cair e em seu lugar apareceria o i. O então ministro da Cultura, Manuel Veiga, entendeu curiosamente que o y não devia cair. Para meu espanto, poucos dias depois, aparece o Conselho de Ministros a aprovar o ALUPEC com a dominação de alfabeto cabo-verdiano, mas conservando o y para a conjunção coordenada copulativa i. Isso só para dizer que houve uma pequena alteração na proposta da Mesa Redonda e, quanto a mim, a aberração maior saiu no Boletim Oficial com a aprovação do alfabeto com o aparecimento de duas letras para o mesmo som: é o caso do i que já existia e o y também que nunca figurou no alfabeto e surge pela primeira vez. E aí temos o mesmo som representado por duas letras diferentes...

Portanto "Na Bóka Noti" Volume -IV já não utiliza o ALUPEC?
Não, utiliza o alfabeto cabo-verdiano. Já agora, uma das recomendações da Mesa Redonda foi que se passasse a usar com moderação os acentos gráficos: isso vai ser também notório neste volume porque há muito menos acentos gráficos. Desde já, só pelo facto de deixar de pôr acento gráfico no a quando aberto representa uma grande economia de acentos. De resto, neste último volume, a utilização de acentos gráficos, nomeadamente o acento agudo é de longe inferior, porque o alfabeto anterior parecia uma floresta de acentos. Creio que, nesse aspecto, a Mesa Redonda da Praia foi muito eficaz. Há apenas esse senão de não ter sido respeitada por alguém de direito.

Foi recentemente levado ao palco na Praia a peça "Na Bóka Noti" extraída de um dos contos do ciclo "Lobu ku Xibinhu" de um dos livros da sua autoria. Foi ver a encenação?
Não tenho ido ao teatro ultimamente, nem mesmo a outras actividades culturais há já bastante tempo, porque tenho estado numa roda-viva de ocupações, de maneira que não tenho ido, apesar de apreciar. Mas eu soube através da comunicação social que o grupo de teatro da Assomada "OTACA" apresentou na Praia uma peça intitulada "Na Bóka Noti". Não é a primeira vez; já houve um conto meu não tradicional que foi radiodifundido, no princípio dos anos 90 como peça de teatro. Sei que já se fez uma ou outra utilização de trabalhos meus, mas infelizmente por pessoas que não me consultaram nem tiveram autorização para o efeito. Como se trata de uma questão cultural, tenho fechado os olhos. Mas é bom que se saiba que não se pode utilizar propriedade intelectual alheia, sem autorização do autor. Isto pode ser passível de uma acção judicial e eu não gostaria, por questões culturais, levar ninguém à hasta pública.

Teve um período de grande glória devido a um poema da sua autoria. Gostaria de esquecê-lo ou nem por isso?
Para mim não foi coisa nenhuma. Com o meu poema quis apenas tomar o pulso à sociedade a que pertenço. Deu-me muito gozo ouvir e saber das reacções que provocou, quanto a mim típicas e muito nossas, porque às vezes reagimos com os nervos à flor da pele. Mas, afinal de contas, era tudo fogo-fátuo. Logo a seguir, quando apareceu alguém elogiando os poemas, tudo ficou por aí. Até gente de gabarito que se tinha barafustado, quando saíram opiniões de outras pessoas, gabaritadas também, murcharam. Para mim, mais do que as questiúnculas meio academicistas, foi saber como as pessoas reagiam perante nomes. No fundo, nem é sequer perante poemas, mais simplesmente perante nomes.

Então diga o nome dos poemas para aqueles que não acompanharam a polémica.
Foram 4 poemas sobre "Mudjer". Encontram-se num livro que publiquei já há alguns anos, intitulado "Na Kaminhu". Neste livro, encontram-se esses e outros poemas, se calhar até mais audazes que os 4 referidos. No fundo, eu chamei as coisas pelo nome, mas uma das prerrogativas do escritor é a liberdade. Portanto pode escrever sobre o que bem entender e eu costumo dizer que o escritor tem sempre razão, mesmo quando não tem. Recebi ameaças e fui informado de outras ameaças que pendiam sobre mim e ri-me aos capotes. De qualquer maneira serviu para saber como a nossa sociedade funciona. Eu acho que nem sequer foram os poemas, mas sim a pessoa que escreveu os poemas. Alguns ousaram altercar-se comigo no sentido de ‘bom, não era isso que eu esperava de ti. Eras uma pessoa isso e agora...'.No fundo eu estava num redoma que eu desconhecia e isso também deu-me gozo.

Criou-se na última remodelação ministerial o ministério do Ensino Superior, Ciência e Cultura. Que comentário faz dessa junção?
O primeiro-ministro deu uma explicação ainda que sucinta sobre a junção dessa três áreas. Acho que é uma explicação que se aceita. Naturalmente que seria melhor para a Cultura ter um ministério único, mas também não podemos esquecer que o governo está no fim do mandato. Portanto, não acredito que seja neste ano que a Cultura vai sair da casca e o Ensino Superior faça Ciência. Quanto a mim, o Ensino Superior e Ciência estão bem, a Cultura não estará mal, só que poderá ficar um tanto ou quanto descuidada. Mas acho que nem isso acontecerá, porque no ensino superior as universidades é que cuidam disso, no fundo têm uma tutela e na Cultura há os agentes culturais que fazem cultura, portanto tem uma tutela. O ministério não vai intervir directamente: terá que criar um conjunto de condições para que as acções apareçam, para que os agentes ajam. Não terá que fazer muito mais. Daí que, se a sociedade civil continuar como tem estado a ser muito dinâmica, creio que não é por aí que o caldo se entorna.

10-4-2010, 11:55:08
AM, Expresso das Ilhas


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