Ovídio Martins, o poeta-profeta, faria 83 anos a 17 de Setembro / Cultura / Detalhe de Notícia


16-9-2011

Ovídio Martins, o poeta-profeta, faria 83 anos a 17 de Setembro


Muito mais do que livros, contos e poesias, o espólio literário de Ovídio Martins prova que a maior das armas não é a espada, é a pena. Com o punho cerrado mas, empunhando uma caneta e não uma espingarda, o jornalista, poeta e escritor conduziu a revolução e participou activamente na construção do eu cabo-verdiano contra as correntes do colonialismo português.

Os seus escritos são revolucionários e agressivos no bom sentido, mesmo para os tempos actuais, ainda mais se considerarmos a época em que viveu, provando o espírito desassossegado e inconformado do poeta que não se perdia em poemas de amor e contestava sem medo ou meias palavras o regime.

Nasceu no Mindelo, em São Vicente, a 17 de Setembro de 1928, escrevia tanto na língua materna como na língua portuguesa e com o mesmo à-vontade. É um fundamental representante das letras do arquipélago e da luta pela libertação de Cabo Verde do jugo colonial, e que lhe valeram a pena de prisão, e o exílio nos Países Baixos.

Para alguns críticos é exactamente com ele que nasce a poesia de intervenção política em Cabo Verde. Apesar da violência dos colonizadores, Ovídio Martins anteviu a vitória da revolução e corajosamente não se abateu sendo por alguns considerado ‘o poeta-profeta'. È o que prova este poema:

(...)
Podem metê-los em prisões
cadeias nos pulsos
correntes nos pés
(...)
podem humilhá-los
mil vezes massacrá-los
matá-los de mil mortes
(são serviçais...)
mas depois
não nos venham dizer
que não vos avisamos!...
(ANDRADE, 1977, p. 235)

Enquanto alguns dos seus colegas claridosos se deixavam vencer procurando o exílio, Ovídio Martins rejeita a ideia da emigração e a evasão para o estrangeiro. Mais do que todos os relatos é o próprio trabalho do poeta que prova a sua bravura na defesa da sua pátria. Em versos furiosos escreveu ‘Não vou para Pasárgada'.

Atirar-me-ei ao chão
E prenderei nas mãos convulsas
Ervas e pedras de sangue

Não vou para Pasárgada

Gritarei
Berrarei
Matarei

Não vou para Pasárgada
(ANDRADE, 1977, p. 48)

Ainda assim o mais conhecido dos poemas é aquele que celebra a insularidade do arquipélago. Que vê a seca, o vento e as montanhas como um trunfo contra o jugo estrangeiro: "Os Flagelados do Vento Leste". A paisagem hostil não mais o espanta, e como as cabras, os homens permanecem de pé, ano após ano. O poema convoca à resistência:

Somos os flagelados do vento leste!
O mar transmitiu-nos a sua perseverança
Aprendemos com o vento a bailar na desgraça
As cabras ensinaram-nos a comer pedras
Para não perecermos
Somos os flagelados do vento leste!
Morreremos e ressuscitamos todos os anos para desespero dos que nos impedem a caminhada
Teimosamente continuamos de pé
num desafio aos deuses e aos homens
E as estiagens já não nos metem medo
porque descobrimos a origem das coisas
(quando pudermos!...)

Somos os flagelados do vento leste!
(ANDRADE, 1977, p. 46)

No dia 05 de Julho de 1975 Cabo Verde é finalmente um país livre do domínio português. A dor, o sentimento de injustiça, o medo, a fome e a miséria são substituídos pelo orgulho de pertencer a uma nação livre. Vivem-se, nas ilhas, momentos de grande euforia e expectativa com a reconstrução do país e esses sentimentos novos tomam conta da população. 

As combativas letras de Ovídio Martins finalmente celebram os novos tempos envoltos de esperança e convocam os cabo-verdianos para o regresso da terra-longe e para participar no nascimento e crescimento de um novo país, "Ilha a Ilha, Lágrima a Lágrima". 

Os textos de Ovídio Martins sugerem agora que se transforme o vento agressivo em energia eólica, que se aproveite do mar os recursos hídricos, que se tire proveito do sol, do sal. Que se construam estradas, estaleiros navais, centrais eléctricas.

Cá vamos reconstruindo o país. Devagar, é certo, mas avançando ilha a ilha. Dor a dor.

(...)

O mar acabou o lamento de não ouvir falar da frota mercante. O vento é a possibilidade de dominarmos a energia eólica. As estradas a rasgar as montanhas puseram fim à música silenciosa destas.

A luta contra a seca é uma constante. Diques conservação do solo e da água. Aproveitamento de recursos hídricos. Ilha a ilha. Lágrima a lágrima.

Puros, de pureza do sal, deixam-nos indiferentes as madrugadas de sonhos. Sonhos, só de criar. Esquecemos os nomes de utopias e de pasárgadas. Avante.

Criadores, portadores de certezas, o bloqueio está longe, perdido o ultraje imenso. Não tentaremos comover os deuses, pela simples razão de sermos nós os deuses.

O povo, de pé, tem agora outro canto: estaleiros navais, centrais elétricas, estruturas metálicas. A solidão morreu.

Desespero, desesperança vão sendo palavras esquisitas. Como falar em desespero, depois de ver desfilar os nossos pioneiros? Como pensar desespero, depois de ouvir aquela garotinha de dois anos (nem isso teria),

cantar, muito séria ‘nós somos os pioneiros' ‘nós somos o futuro da revolução'? Ah, revolução, se não vingares, não será decerto por culpa desta pioneira de pioneiros!

Foi riscado, das nossas estradas a percorrer, o caminho da perdição do serviçal-escravo-contratado. Os capatazes de escravo perderam o emprego.

(...)

Nas ilhas ora calmas não acabarão jamais as metamorfoses. Já têm nome os meninos sem nome da pátria do meio do mar.

O nosso destino, estamos a cumpri-lo: dar a Cabo Verde outro mar, outro céu, outro homem. Devagar, vamos conhecendo o sabor do sal da terra.

Estes mares nunca foram muros, muito menos agora. Ontem, uniram-nos. Hoje, as vedetas rápidas vão encurtar as distâncias.

Com que satisfação morreram as profecias sangrentas e os processos! A noite longa não se repetirá jamais!
Chamamos uma vez a Cabo Verde "estrela salgada de dez braços / e em cada braço mil esperanças". Se pusermos, hoje, em cada esperança mil certezas, ficaremos com uma idéia clara do espírito com que se enfrentam as dificuldades nesta pátria do meio do mar.

Devagar, a reconstrução nacional avança. Ilha a ilha. Dor a dor. Amor a amor.

Ovídio Martins, será homenageado a título póstumo, no dia 17 de Setembro, na Associação dos Antigos Alunos do Liceu Gil Eanes, em Lisboa. Esta homenagem, que se realiza no dia em que o escritor e activista completaria 83 anos de idade, incluirá uma palestra sobre a sua obra, apresentada por Luís Filipe Carvalho, mestre em Teoria da Literatura, um filme sobre a sua vida, declamação de poesias e interpretação de música cabo-verdiana.

 

16-9-2011, 22:48:55
Susana Rendall Rocha, Redacção Mindelo


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