Luís Graça: Textos sobre saúde e trabalho / Papers on health and work  

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5. Graça, L. (1999):  A Promoção da Saúde e o 'Blaming the Victim' [ When Health Promotion Means Blaming the Victim ](a)

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1. Um Novo Modelo de Saúde/Doença
   

Em Portugal, a promoção da saúde é ainda um conceito mal assimilado, resumindo-se, para o público em geral e para os profissionais de saúde em particular, à educação para a saúde e à adopção de estilos de vida saudáveis.

Esta noção redutora da promoção da saúde   tem a sua origem nos EUA. Com efeito, é em meados dos anos 60, na sequência do célebre estudo do Condado de Alameda, Califórnia, que surge um novo modelo etiológico ou teoria explicativa da saúde/doença, o lifestyle-risk factor, segundo o qual certos comportamentos individuais ou estilos de vida constituem factores de risco (por ex., o tabagismo) e são decisivos para o desenvolvimento de doenças crónicas, de elevada mortalidade (por ex., cancro do pulmão).

Poderia citar-se, entre outros, o U. S. Surgeon General's Report on Smoking, de 1964, como um dos documentos de referência que legitimou e popularizou este novo modelo etiológico. Em 1991, o U. S. Department of Health and Human Services estimava em mais de 390 mil o número anual de vítimas do consumo de tabaco (uma cifra superior ao total de vidas perdidas, pelos EUA, em todas as guerras em que o país esteve envolvido durante o Século XX).

 

2. As Sete Práticas de Saúde
 

 

O interesse do estudo da população de Alameda foi sobretudo o de tentar demonstrar o peso que teriam seven health practices no estado de saúde de cada indivíduo e, mais tarde, no risco de adoecer e de morrer. Essas práticas foram rapidamente incorporadas nos wellness programs:

  • Dormir diariamente 7 a 8 horas;
  • Tomar habitualmente o pequeno almoço;
  • Nunca ou raramente comer entre as três principais refeições do dia;
  • Ter o peso adequado;
  • Manter uma actividade física regular;
  • Nunca fumar;
  • E, de preferência, não consumir álcool (ou, pelo menos, beber moderadamente).

 

A estes sete estilos de vida haveria que acrescentar o uso do cinto de segurança, um safety behavior que não foi considerado no estudo de Alameda County.

A importância do novo modelo etiológico, para a educação e a promoção da saúde, era mais do que óbvia , o que explica que tenha ganho rapidamente fervorosos adeptos em todo o mundo: Sendo factores de risco endógenos ou comportamentais, os estilos de vida são mais facilmente elegíveis (e manipuláveis) pelos promotores de saúde do que os outros factores exógenos que o indivíduo não pode controlar e que também determinam (ou influenciam) a sua saúde: a biologia humana, o ambiente socioecológico, as condições de vida e de trabalho, o sistema de produção e de consumo, o sistema e a política de saúde, etc.

Os críticos do novo modelo irão denunciar os seus efeitos negativos e perversos, nomeadamente a excessiva ênfase na responsabilidade do indivíduo em relação à  manutenção e protecção da sua saúde, o blaming the victim, a dessocialização da saúde e a cobertura teórico-ideológica à ofensiva conservadora e neoliberal contra o Estado-Providência no tempo de Reagan.

Alegava-se, além disso, que muitas das estratégias para mudar os comportamentos de saúde não tinham originalmente qualquer base teórica, suscitando, entre outros, sérios problemas éticos.

 

3. Cultura de Saúde e Classe Social
   

Assistiu-se, por outro lado, nos EUA, a um boom da cultura do corpo e do fitness, bem como a mudanças de hábitos, sobretudo por parte da chamada classe média. O smoking cessation é apenas um exemplo das consequências desta mudança de valores e padrões de comportamento, associados à saúde e ao bem-estar (wellness):

  • Entre 1965 e 1980, a população masculina de fumadores, com 20 ou mais anos, diminuiu em 10.5%;

  • Por sua vez, o consumo anual de cigarros pela população adulta, depois de atingir o seu ponto mais alto em 1983 (4345 cigarros per capita), começou a descer acentuadamente (cerca de 3120 cigarros per capita, em 1988, um consumo já inferior ao nível atingido no final da II Guerra Mundial).

Enquanto se assistia a uma crescente segregação social dos fumadores, nomeadamente a nível das classes média e média-alta, persistiam diferenças acentuadas nas taxas de prevalência e de abandono do tabagismo, por idade, género, etnia, escolaridade e status socioeconómico. Nos anos 80, por exemplo, verificava-se que:

  • Os desempregados de ambos os sexos tinham maior propensão para fumar;
  • A prevalência do tabagismo era maior entre os trabalhadores menos qualificados e as minorias étnicas;
  • Os trabalhadores dos sectores primário e secundário, mais expostos a riscos profissionais, fumavam mais do que os do sector terciário, etc.

Um outro exemplo desta nova cultura da saúde foi o aumento, a partir da década de 70, da prática do jogging, da ginástica areóbica, da musculação, do fitness e de outras formas de actividade física regular, a par da voga dos health foods, etc. Podia, pois, falar-se duma tendência nacional to get fit, look good, eat well, and not smoke, protagonizada pela geração dos baby-boomers.

Mas, de um modo geral, os programas de promoção da saúde (em particular, nos locais de trabalho) continuam a ser mais populares e atractivos entre a população branca, dos 20 aos 50 anos, com bom nível de educação e de rendimento; em contrapartida são muito menos atractivos para os mais jovens e os mais velhos, para as chamadas minorias étnicas e, em geral, para os grupos da população com níveis mais baixos de rendimento e de escolaridade .

 

4. Um Nova Ética da Saúde no Local de Trabalho
   

Refira-se, por fim, a tese de alguns sociólogos norte-americanos, segunda a qual foi a Corporate America (com a colaboração activa do complexo Health and Business e à margem do sector da saúde pública bem como dos próprios médicos) quem forjou uma nova ética da saúde, em que a adopção de estilos de vida saudáveis passava a constituir uma nova forma, mais ou menos encapotada e subtil, de controlo social no trabalho.

Sob o pretexto da contenção dos custos com a prestação de cuidados de médicos e hospitalares, o que se operou nos locais de trabalho terá sido uma mudança histórica de paradigma no que dizia respeito à política de saúde no local de trabalho, com o fim da tradicional dissociação entre a esfera da vida pessoal/privada e a esfera da vida profissional/pública.

 

  (a) Uma outra versão deste artigo  foi  publicada  na Semana Médica, 84, 13 de Dezembro de 1999, p. 2      

 

Última actualização: 22  de Agosto de 2000 / Last updated: August 22,  2000.  

© Luís Graça (1999-2000). E-mail: lgraca@ensp.unl.pt

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