20.7.05
Falar verdade
É chegada a hora, julgo eu, de questionarmos sem tibiezas todos os preconceitos politicamente correctos, a começar pelo famoso «direito» às férias.
O país não suporta tamanho desperdício, evidente quando se pensa que esse sacrossanto direito reduz todos os anos o PIB em mais de 9%. Além disso, esse tempo de não-trabalho é, em resultado do subsídio de férias, vergonhosamente pago a dobrar!
Depois, há o problema do fim de semana. Deus decretou o descanso dominical, os sindicalistas, que já nasceram cansados acrescentaram-lhe o repouso ao sábado. Resultado: mais uma quebra de 21% no PIB.
Daqui resulta, por um simples cálculo ao alcance dos nossos politicos, que a eliminação das férias anuais e do descanso ao sábado permitiria imediatamente ao país ultrapassar a Espanha em nível de desenvolvimento.
Há que ter a coragem de revogar sem mais demoras todas estas invenções comunistas, sob pena de a competitividade do país continuar diariamente a degradar-se.
O país não suporta tamanho desperdício, evidente quando se pensa que esse sacrossanto direito reduz todos os anos o PIB em mais de 9%. Além disso, esse tempo de não-trabalho é, em resultado do subsídio de férias, vergonhosamente pago a dobrar!
Depois, há o problema do fim de semana. Deus decretou o descanso dominical, os sindicalistas, que já nasceram cansados acrescentaram-lhe o repouso ao sábado. Resultado: mais uma quebra de 21% no PIB.
Daqui resulta, por um simples cálculo ao alcance dos nossos politicos, que a eliminação das férias anuais e do descanso ao sábado permitiria imediatamente ao país ultrapassar a Espanha em nível de desenvolvimento.
Há que ter a coragem de revogar sem mais demoras todas estas invenções comunistas, sob pena de a competitividade do país continuar diariamente a degradar-se.
19.7.05

Murakami: Dupla hélice invertida, Nova Iorque.
Direita e esquerda
Quando se estuda inferência estatística ensinam-nos que é possível cometer-se dois tipos de erros.
O erro de Tipo 1 consiste em recusar-se uma hipótese que na realidade é verdadeira. O erro de Tipo 2, em aceitar-se uma hipótese que de facto é falsa.
O drama é que só é possível diminuir-se a probabilidade de se cometer um erro de Tipo 1 aumentando a probabilidade de se cometer um erro de Tipo 2, e vice-versa.
Algo de semelhante ocorre quando se discute se deve ser adoptada uma determinada política de alcance social, tal como, por exemplo, a introdução do rendimento mínimo garantido.
Há um risco de que o rendimento seja negado a alguém que de facto necessita dele (erro de Tipo 1), tal como há um risco de que seja concedido a alguém que não deveria recebê-lo (erro de Tipo 2).
As pessoas que se situam mais à esquerda preocupam-se relativamente mais com a probabilidade de ocorrer um erro de Tipo 1, ao passo que as que se situam mais à direita temem principamente um erro de Tipo 2.
Naturalmente, há também, de um e de outro lado, os extremistas: à esquerda, os que acham que o rendimento deve ser atribuído sem restrições ou limitações, porque não admitem sequer a eventualidade de um erro de Tipo 2; à direita, os que se opoem terminantemente à própria existência do rendimento, porque não consideram a possibilidade de realmente ocorrer um erro de Tipo 1.
O erro de Tipo 1 consiste em recusar-se uma hipótese que na realidade é verdadeira. O erro de Tipo 2, em aceitar-se uma hipótese que de facto é falsa.
O drama é que só é possível diminuir-se a probabilidade de se cometer um erro de Tipo 1 aumentando a probabilidade de se cometer um erro de Tipo 2, e vice-versa.
Algo de semelhante ocorre quando se discute se deve ser adoptada uma determinada política de alcance social, tal como, por exemplo, a introdução do rendimento mínimo garantido.
Há um risco de que o rendimento seja negado a alguém que de facto necessita dele (erro de Tipo 1), tal como há um risco de que seja concedido a alguém que não deveria recebê-lo (erro de Tipo 2).
As pessoas que se situam mais à esquerda preocupam-se relativamente mais com a probabilidade de ocorrer um erro de Tipo 1, ao passo que as que se situam mais à direita temem principamente um erro de Tipo 2.
Naturalmente, há também, de um e de outro lado, os extremistas: à esquerda, os que acham que o rendimento deve ser atribuído sem restrições ou limitações, porque não admitem sequer a eventualidade de um erro de Tipo 2; à direita, os que se opoem terminantemente à própria existência do rendimento, porque não consideram a possibilidade de realmente ocorrer um erro de Tipo 1.
Guerra às sombras
Heródoto conta algures a estória de um povo do Norte de África cuja cidade foi assolada por uma violenta tempestade de areia que causou inimagináveis estragos nas culturas e vitimou um elevado número de homens e animais.
Reunidos em conselho, uma unânime indignação impeliu-os a declarar guerra ao deserto. E assim equiparam um grandioso exército que, no dia aprazado, caminhou destemidamente rumo ao Sul por sobre as areias escaldantes. Nenhum dos valorosos soldados que partiram voltou a ser visto.
Não sei porquê, lembro-me sempre deste conto quando ouço falar da guerra contra o terrorismo.
Reunidos em conselho, uma unânime indignação impeliu-os a declarar guerra ao deserto. E assim equiparam um grandioso exército que, no dia aprazado, caminhou destemidamente rumo ao Sul por sobre as areias escaldantes. Nenhum dos valorosos soldados que partiram voltou a ser visto.
Não sei porquê, lembro-me sempre deste conto quando ouço falar da guerra contra o terrorismo.
18.7.05
Jason Moran: Jump Up (do CD «Some Mother»).
À beira de Moran, Brad Mehldau é um tenrinho.
Chantagem ideológica
No seu artigo da passada semana no Público, Pacheco Pereira escrevia:
«Acima de tudo, não compreendo porque razão um terrorismo apocalíptico, que tenta por todos os meios ter as armas mais pesadas, nucleares, químicas e bacteriológicas, para garantir o seu Armagedão sacrificial, que tem como objectivo a guerra total, ou seja a aniquilação de milhões dos seus adversários, haja os meios para isso, não tem que ser combatido com tudo o que tenho á mão: tropas, polícias, agentes de informações, à dentada diria um velho inglês da Home Guard, daqueles que esperava a invasão da sua ilha e achava que sempre podia levar um «boche» consigo. E aí o «não se limpam armas», é de um simplicidade brutal. Ou nós ou eles.»
Este tema é extremamente delicado. Merecia, por isso, uma discussão mais demorada e, sobretudo, mais cuidada, para a quel de momento me falta tempo.
Não posso, no entanto, deixar de perguntar: que terrorismo apocalíptico é esse de que PP aqui fala. Onde está ele afinal? Onde as armas «nucleares, químicas ou bactereológicas»? Onde a «guerra total»? Onde a «aniquilação de milhões»? Onde, que não os vejo?
Escapa-me totalmente a relação entre esta linguagem hiperbólica e os factos.
Existe mesmo esse terrorismo apocalíptico, ou será antes um mero produto de certas imaginações fertéis que, a coberto dessa fantasia, pretendem impor-nos uma agenda política e militar irracional e agressiva, estribada no medo e no ódio?
É que, bem vistas as coisas, nada semelhante a isso aconteceu ou, que se saiba, esteve, até hoje, para acontecer .
Nem eu nem ninguém prudente pode garantir que não irá acontecer um dia. Tudo o que posso dizer é que não se me afigura muito provável, tal como não se me afigura muito provável que amanhã me caia na cabeça um meteorito vindo do espaço, embora essas coisa aconteçam.
Por isso, ou estas pessoas explicam claramente de que elementos dispõem para poderem usar sem exagero esta linguagem alarmista, ou teremos que concluir que apenas pretendem colocar-nos sobre chantagem e impedir qualquer debate racional sobre os males do mundo.
«Acima de tudo, não compreendo porque razão um terrorismo apocalíptico, que tenta por todos os meios ter as armas mais pesadas, nucleares, químicas e bacteriológicas, para garantir o seu Armagedão sacrificial, que tem como objectivo a guerra total, ou seja a aniquilação de milhões dos seus adversários, haja os meios para isso, não tem que ser combatido com tudo o que tenho á mão: tropas, polícias, agentes de informações, à dentada diria um velho inglês da Home Guard, daqueles que esperava a invasão da sua ilha e achava que sempre podia levar um «boche» consigo. E aí o «não se limpam armas», é de um simplicidade brutal. Ou nós ou eles.»
Este tema é extremamente delicado. Merecia, por isso, uma discussão mais demorada e, sobretudo, mais cuidada, para a quel de momento me falta tempo.
Não posso, no entanto, deixar de perguntar: que terrorismo apocalíptico é esse de que PP aqui fala. Onde está ele afinal? Onde as armas «nucleares, químicas ou bactereológicas»? Onde a «guerra total»? Onde a «aniquilação de milhões»? Onde, que não os vejo?
Escapa-me totalmente a relação entre esta linguagem hiperbólica e os factos.
Existe mesmo esse terrorismo apocalíptico, ou será antes um mero produto de certas imaginações fertéis que, a coberto dessa fantasia, pretendem impor-nos uma agenda política e militar irracional e agressiva, estribada no medo e no ódio?
É que, bem vistas as coisas, nada semelhante a isso aconteceu ou, que se saiba, esteve, até hoje, para acontecer .
Nem eu nem ninguém prudente pode garantir que não irá acontecer um dia. Tudo o que posso dizer é que não se me afigura muito provável, tal como não se me afigura muito provável que amanhã me caia na cabeça um meteorito vindo do espaço, embora essas coisa aconteçam.
Por isso, ou estas pessoas explicam claramente de que elementos dispõem para poderem usar sem exagero esta linguagem alarmista, ou teremos que concluir que apenas pretendem colocar-nos sobre chantagem e impedir qualquer debate racional sobre os males do mundo.
«Imbecilidade à mão armada»
Todas as noites, a estupidez «marca presença» nos telejornais, e a ignorância «é uma constante».
Para um breve mas certeiro tratado do analfabetismo televisivo, leiam este post do Cristóvão de Aguiar.
(O título acima foi retirado de um comentário ao post aqui mencionado.)
Para um breve mas certeiro tratado do analfabetismo televisivo, leiam este post do Cristóvão de Aguiar.
(O título acima foi retirado de um comentário ao post aqui mencionado.)
16.7.05
Retrato robô do terrorista
Tipo sossegado. Trato afável. Temente a Deus. Ambiente familiar equilibrado. Muito caseiro. Funcionário diligente. Bom pai de família. Amigo das crianças. Não joga nem bebe. Não é mulherengo. Joga cricket.
Entenderam? Agora, é só localizá-lo e prendê-lo antes que possa fazer mal.
Entenderam? Agora, é só localizá-lo e prendê-lo antes que possa fazer mal.

Murakami.
15.7.05
Um deus menor
Visitando o frescos, fico a saber que, hoje, a palavra do dia é «Deus».
Intrigado com esta súbita inclinação teológica da lusa blogoesfera, procuro saber a que propósito foi invocado o santo nome.
Não tarda um minuto, está tudo esclarecido: afinal, este Deus de que tanto se fala é o Moita, esse mesmo, o de O Acidental!
(Espero que o Rodrigo não se ofenda por lhe chamar «Deus menor». É só por comparação com o Outro, é claro!)
Intrigado com esta súbita inclinação teológica da lusa blogoesfera, procuro saber a que propósito foi invocado o santo nome.
Não tarda um minuto, está tudo esclarecido: afinal, este Deus de que tanto se fala é o Moita, esse mesmo, o de O Acidental!
(Espero que o Rodrigo não se ofenda por lhe chamar «Deus menor». É só por comparação com o Outro, é claro!)

Murakami: Cogumelos.
Business bullshit
A discussão filosófica da moda gira em torno das origens, alcance e significado da conversa da treta (bullshit).
Durante muitos anos, os políticos foram o grande centro de difusão e promoção de conversa da treta, mas eis que agora os gestores se esforçam por roubar-lhes a primazia nessa área.
Leiam, a esse propósito, este delicioso artigo do John Kay, publicado no Financial Times da passada 3ª feira.
Durante muitos anos, os políticos foram o grande centro de difusão e promoção de conversa da treta, mas eis que agora os gestores se esforçam por roubar-lhes a primazia nessa área.
Leiam, a esse propósito, este delicioso artigo do John Kay, publicado no Financial Times da passada 3ª feira.
14.7.05
Bobby Previte: Madame Previte.

Anselm Kiefer: A mulher de Lot, 1989.
Ousem compreender
Têm toda a razão no que dizem, o Terras do Nunca e o Quase em Português.
O que Pacheco Pereira hoje faz no Público é a apologia da estupidez. Enfim, mais tarde ou mais cedo alguém haveria de se saír com este argumento, mas é pena que tenha sido ele...
É nestas alturas que se percebe que a exigência do Iluminismo - «ousa saber!», pedia Kant - continua a fazer todo o sentido.
O que Pacheco Pereira hoje faz no Público é a apologia da estupidez. Enfim, mais tarde ou mais cedo alguém haveria de se saír com este argumento, mas é pena que tenha sido ele...
É nestas alturas que se percebe que a exigência do Iluminismo - «ousa saber!», pedia Kant - continua a fazer todo o sentido.
Guerra de sombras
É estranho que os mesmos que acham fazer sentido falar-se de guerra contra o terrorismo (ou, pior ainda, de guerra contra o terror, ou seja, de guerra contra um sentimento) percam as estribeiras quando alguém lhes fala de negociação.
Ora negociar é uma arma que ninguém pode pôr liminarmente de lado quando trava uma guerra. A negociação pode vir ou não a revelar-se necessária, mas o que não faz sentido é alguém auto-limitar-se à partida jurando que jamais negociará. Bravatas e gabarolice não têm lugar na estratégia militar.
Há, todavia, um excelente argumento contra a negociação neste caso concreto. Consiste em fazer ver que só se pode negociar quando há algo para negociar, ou seja, quando ambas as partes querem algo e é possível imaginar-se um processo no final do qual ambas cedem qualquer coisa para obterem uma parte do que inicialmente reclamavam.
Ora, nesta luta contra o terrorismo, sabe-se o que nós queremos. Mas não se sabe o que quer a outra parte, porque ela, precisamente, não quer nada. Dito de outra maneira, ela quer o nada, ou seja, a aniquilação total de toda e qualquer pessoa, instituição ou ideia que se lhe oponha. É a isso que, algo pomposamente, se chama niilismo.
Não vejo como isso se pode negociar, pela mesmíssima razão que não vejo como se poderá travar uma guerra contra um isso tão vago e incaracterístico.
A guerra contra o terrorismo é algo tão irracional como o próprio terrorismo que se propõe combater.
Ora negociar é uma arma que ninguém pode pôr liminarmente de lado quando trava uma guerra. A negociação pode vir ou não a revelar-se necessária, mas o que não faz sentido é alguém auto-limitar-se à partida jurando que jamais negociará. Bravatas e gabarolice não têm lugar na estratégia militar.
Há, todavia, um excelente argumento contra a negociação neste caso concreto. Consiste em fazer ver que só se pode negociar quando há algo para negociar, ou seja, quando ambas as partes querem algo e é possível imaginar-se um processo no final do qual ambas cedem qualquer coisa para obterem uma parte do que inicialmente reclamavam.
Ora, nesta luta contra o terrorismo, sabe-se o que nós queremos. Mas não se sabe o que quer a outra parte, porque ela, precisamente, não quer nada. Dito de outra maneira, ela quer o nada, ou seja, a aniquilação total de toda e qualquer pessoa, instituição ou ideia que se lhe oponha. É a isso que, algo pomposamente, se chama niilismo.
Não vejo como isso se pode negociar, pela mesmíssima razão que não vejo como se poderá travar uma guerra contra um isso tão vago e incaracterístico.
A guerra contra o terrorismo é algo tão irracional como o próprio terrorismo que se propõe combater.

Makoto Aida.
Caridade
«D. Duarte [filho do marquês de Marialva] (...) pendurou-se do peitoril da varanda e esteve suspenso alguns instantes (...). Os pobres, que não tinham nada que fazer enquanto não chegava Sua Majestade, pareciam deleitar-se muitíssimo com estes rasgos de agilidade.
«Deram eles logo comigo e, dois alentados matulões, que uma desgraçada combinação de bexigas com escrófulas tinha privado da vista, informados, sem dúvida pelos seus companheiros, de tudo o que se ia passando, começaram um curioso diálogo com vozes mais roucas e ásperas do que as dos sagrados corvos:
«- O céu dê prosperidade a suas nobres excelências, o senhor D. Duarte Manuel e o senhor D. Pedro, e a todos os Marialvas, e que possam os caríssimos meninos sempre gozar dos seus olhos e de todos os seus membros! Aquele que está na sua amável companhia é o caridoso inglês?
«- É, sim - respondeu o outro cego.
«- O quê? - replicou o primeiro. - É aquele generoso devoto do gloriosíssimo senhor Santo António?
«- Sim, é ele.
«- Oh, tivesse eu os meus preciosos olhos para poder contemplar o seu rosto! - exclamaram eles ao mesmo tempo.
«Foi crescendo assim o dueto com o tempo, e coxos, mancos e sarnentos, atando os ensebados barretes no extremo de compridas varas, meteram-nos pelas grades da varanda, clamando em altas vozes: - Esmola por amor do Santo de Lisboa!
«Nunca tive diante de mim a contemplar-me uma tão disforme e medonha colecção de fisionomias!
«Apressei-me a lançar-lhes uma mancheia de moedas de cobre, antes que D. Duarte sacudisse para fora os paus e os barretes - travessura que de forma alguma eu queria provocar, porque deitaria a perder a reputação que tínhamos, de atender pronta e polidamente os pedidos feitos em nome de Santo António.
«No momento em que os oradores estavam recebendo a sua porção de vinténs e de cinco reis, os gritos de - Aí vem a rainha! Aí vem a princesa! - levaram aquela hedionda multidão para outro ponto.»
William Beckford: Viagens a Portugal, 1787.
«Deram eles logo comigo e, dois alentados matulões, que uma desgraçada combinação de bexigas com escrófulas tinha privado da vista, informados, sem dúvida pelos seus companheiros, de tudo o que se ia passando, começaram um curioso diálogo com vozes mais roucas e ásperas do que as dos sagrados corvos:
«- O céu dê prosperidade a suas nobres excelências, o senhor D. Duarte Manuel e o senhor D. Pedro, e a todos os Marialvas, e que possam os caríssimos meninos sempre gozar dos seus olhos e de todos os seus membros! Aquele que está na sua amável companhia é o caridoso inglês?
«- É, sim - respondeu o outro cego.
«- O quê? - replicou o primeiro. - É aquele generoso devoto do gloriosíssimo senhor Santo António?
«- Sim, é ele.
«- Oh, tivesse eu os meus preciosos olhos para poder contemplar o seu rosto! - exclamaram eles ao mesmo tempo.
«Foi crescendo assim o dueto com o tempo, e coxos, mancos e sarnentos, atando os ensebados barretes no extremo de compridas varas, meteram-nos pelas grades da varanda, clamando em altas vozes: - Esmola por amor do Santo de Lisboa!
«Nunca tive diante de mim a contemplar-me uma tão disforme e medonha colecção de fisionomias!
«Apressei-me a lançar-lhes uma mancheia de moedas de cobre, antes que D. Duarte sacudisse para fora os paus e os barretes - travessura que de forma alguma eu queria provocar, porque deitaria a perder a reputação que tínhamos, de atender pronta e polidamente os pedidos feitos em nome de Santo António.
«No momento em que os oradores estavam recebendo a sua porção de vinténs e de cinco reis, os gritos de - Aí vem a rainha! Aí vem a princesa! - levaram aquela hedionda multidão para outro ponto.»
William Beckford: Viagens a Portugal, 1787.

Makoto Aida: Grand plan... (detalhe 4).

Makoto Aida: Grand plan... (detalhe 3)

Makoto Aida. Grand plan... (detalhe 2)

Makoto Aida: Grand plan... (detalhe 1).
Criadagem e comezainas
«Havia hoje em volta da nossa mesa ao jantar maior número de servidores do que é costume, e as enormes e maciças iguarias eram trazidas por uma longa comitiva de cavalheiros e capelães, alguns condecorados com as ordens de Avis e de Cristo. Esta corte tinha um aspecto inteiramente feudal, e transportava a nossa imaginação às épocas da cavalaria, quando os grandes chefes eram servidos, como os reis, pelos seus nobres vassalos.
«Devem os portugueses ter estômagos de avestruz para digerirem a grande quantidade de saborosas viandas com que se empanturram. Os seus vegetais, o seu arroz, as suas aves, são todos estufados, cozidos na substância do presunto e tão fortemente temperados com pimenta e cravo, que uma colher de ervilhas ou a quarta parte de uma cebola são suficientes para nos deixar a boca a arder. Com uma tal dieta e o contínuo gulosar de doces não me surpreende que se queixem tantas vezes de dores de cabeça e de ataques de nervos.»
William Beckford: Viagens a Portugal, 1787.
«Devem os portugueses ter estômagos de avestruz para digerirem a grande quantidade de saborosas viandas com que se empanturram. Os seus vegetais, o seu arroz, as suas aves, são todos estufados, cozidos na substância do presunto e tão fortemente temperados com pimenta e cravo, que uma colher de ervilhas ou a quarta parte de uma cebola são suficientes para nos deixar a boca a arder. Com uma tal dieta e o contínuo gulosar de doces não me surpreende que se queixem tantas vezes de dores de cabeça e de ataques de nervos.»
William Beckford: Viagens a Portugal, 1787.

Makato Aida: Grand plan to alter Shinjuku-Gyoen, 2001.
13.7.05
Modas
A avaliar pelo vestuário, o que hoje mais se valoriza nas mulheres é o golpe de rins.
E nos homens? - A inocência...
E nos homens? - A inocência...

Makoto Aida: Air raid on New York City, 1996.
Novos ricos
«Vimos a nova casa, recentemente acabada com enorme dispêndio por João Ferreira, que, de humilde negociante de sola a retalho, se elevou, pelo valimento do arcebispo confessor [o grande inquisidor], à posse de um dos mais lucrativos contratos em Portugal. Nunca vi aposentos mais horrendamente dispostos do que os que o pobre homem dos couros delineou para si. As cortinas são de cetim azul ferrete e do mais vigoroso e enxofrado amarelo, e os estuques dos tectos foram ornados com pinturas alegóricas, mediocremente executadas, e cobertos de ornamentos dourados no estilo daquelas esplêndidas tabuletas que eram, há anos, a glória de High Holborn e de St. Gile’s.»
William Beckford: Viagens a Portugal. 1787.
William Beckford: Viagens a Portugal. 1787.
Beatos
«Marialva tremia todo, tanta era a devoção, e o mesmo fazia o seu companheiro, cujos joelhos estão calejados do frequente ajoelhar, e que, se dermos crédito a Verdeil, acabará os seus dias num eremitério, ou doido, ou talvez ambas as coisas. Pretende ele também que este velho frade é que tem contribuído para aumentar o devoto zelo de Marialva, e que os dois, animando-se mutuamente, devem em breve produzir frutos dignos de Bedlam [hospício londrino para alienados], senão do Paraíso. O que é certo é que este religioso pode-se gabar de ter um aspecto conspicuamente beato, e uma forma vigorosíssima de bater nos peitos; porém isto não o deve desvanecer muito: há em Lisboa pelo menos cinquenta ou sessenta mil boas almas que, sem terem viajado tanto, castigam-se tão ruidosamente como ele. Esta manhã na [igreja da] Boa Morte, um velho pecador permaneceu durante toda a missa com os braços abertos, na posição e com a inflexível rigidez dos antigos candeeiros de braços, e outro contrito personagem comoveu-se tanto, no momento da consagração, que assentou o nariz no pavimento e lambeu a espessa camada de pó e lama de que ele estava coberto.»
William Beckford: Viagens a Portugal, 1787.
William Beckford: Viagens a Portugal, 1787.

Anselm Kiefer: Mar Vermelho, 1984-5.
Uma comparação inadequada
Vital Moreira compara o entusiasmo que rodeou em Espanha a aprovação do "Plano de Infra-Estruturas e Transportes" com a vaga de críticas dirigidas entre nós contra os projectos do TGV e do aeroporto da Ota.
Mas parece-me que seria mais adequado perguntar onde está o "Plano de Infra-Estruturas e Transportes" nacional em que se enquadram a Ota e o TGV. Obviamente, não existe. Por conseguinte, não se sabe em bom rigor que propósito nacional anima esses dois projectos. É esse o problema.
Mas parece-me que seria mais adequado perguntar onde está o "Plano de Infra-Estruturas e Transportes" nacional em que se enquadram a Ota e o TGV. Obviamente, não existe. Por conseguinte, não se sabe em bom rigor que propósito nacional anima esses dois projectos. É esse o problema.