terça-feira, 23 de Janeiro de 2007

Blade Runner

Há 25 anos, Ridley Scott estreou um dos filmes mais extraordinários de sempre. Blade Runner, uma combinação de produção futurista/distópica com o género do film noir dos anos 40, tem ao seu serviço recursos aparentemente inesgotáveis: uma estética própria, uma banda sonora histórica, interpretações homéricas (refiro-me à do gigante Rutger Hauer, não necessariamente à de Harrison Ford) e um argumento que aborda questões profundas sem pieguices (bem, sem pieguice excessiva) - assim teria de ser quando se escolheu um Philip K. Dick como texto original, e se permitiu que o próprio autor acompanhasse a produção do filme.



Roy Batty: "I've seen things you people wouldn't believe. Attack ships on fire off the shoulder of Orion. I watched C-beams glittering in the dark near the Tannhauser Gate. All those moments will be lost in time, like tears in rain. Time to die."

3 comentários:

JLP disse...

Sem dúvida um grande filme. Em conjunto com o Alien, o ponto alto da carreira do Ridley Scott, com o condão, como filme de ficção científica, se manter actual 25 anos depois, quer visualmente, quer principalmente (cada vez mais), sobre as problemáticas tratadas. Melhor em longevidade, quanto a mim, só o 2001: Odisseia no Espaço.

Pessoalmente (e apesar de simpatizar bastante com o Philip K. Dick), acho que é um dos grandes exemplos de transposição de um livro para o cinema, em que contrariamente ao que geralmente acontece, o último fica largamente a ganhar. Aliás, considero o livro de Dick bastante mediano, e em boa hora sofreu os cortes que sofreu na transposição.

Com o director's cut, quanto a mim os defeitos mais criticáveis do original foram ultrapassados, e a narrativa ganhou em substância e em força.

E teremos sempre o recorrente (e alimentado pelos protagonistas) dilema sobre se Deckard é ou não um replicant...

Miguel Morgado disse...

É verdade. Até esse dilema persiste. De resto, o próprio Ridley Scott nunca se decidiu definitivamente quanto à questão. O filme está cheio de indícios de que Deckard é, de facto, um replicant, mas, por uma razão ou por outra, nunca são suficientes para se tirar uma conclusão irrefutável. A verdadeira questão, no fundo, é saber o que distingue uma vida especificamente humana de outra forma de vida... bem, muito semelhante. O que diferencia Deckard de Roy? Esta questão está presente em várias obras de Philip K. Dick. É que no filme, as diferenças mais óbvias são todas orgânicas ou biológicas, o que significa que não há diferença substantiva alguma.

JLP disse...

Bem, as últimas declarações do Ridley Scott, e algumas diferenças narrativas entre a versão "original" e o director's cut, são no sentido de sim, ele ser um replicant. Mas o Harrison Ford continua a dizer que nunca foi levado numa ou noutra direcção, também dando a entender que é mais partidário na direcção da "humanidade".

Quanto à questão da consciência, é sem dúvida a grande obcessão literária do Philip K. Dick . Completamente recorrente. Mas, na minha perspectiva, contrariamente a achar que se debruça sobre distinguir a consciência de se ser humano de outras formas de vida, para mim é mais sobre a questão da autonomia da consciência humana sobre a sua forma material, o corpo. Uma espécie de corolário do problema filosófico clássico do "brain in a vat". A perspectiva de que a consciência é o que nos faz verdadeiramente humanos, e que pode existir dissociada do corpo, ou integrada em outras materializações físicas.

Sem dúvida que soube explorar essa questão como nenhum outro, em múltiplas perspectivas e levantado os vários problemas éticos e de noção do que é ser humano que daí advêm.

Também é curioso que, na transposição do livro, os seus temas principais deste tenham sido cortados em prol do protagonismo da questão dos replicants, e da questão da "humanidade natural" vs. "humanidade sintética". Afinal, lendo o livro, a tónica é essencialmente colocada no papel dos animais de companhia (e das suas réplicas, do que é "verdadeiro por ser natural" e do que é uma "mera cópia", numa sociedade em que se perdeu o contacto com o "natural"), e a questão da religião (Mercerismo), espécie de consciência colectiva. Fica a dúvida sobre como teria sido se a transposição tivesse sido fiel. Quanto a mim, bastante mais pobre.