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sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Era uma vez

O Daniel Oliveira acha que é uma prova de coragem fazer piadas sobre os católicos, essa poderosa minoria. (Suponho que sejam uma minoria porque o post é sobre a cobardia de fazer piadas sobre minorias.)
Haveria muito a dizer. Haveria mas não digo, porque o Daniel Oliveira não iria responder.
Como não respondeu quando o acusei de cumplicidade ideológica com o ódio aos católicos - algo mais que umas piadas - na Guerra Civil espanhola.
Talvez ele não tenha respondido por medo da inquisitorial censura ao Arrastão, ao Expresso e ao Eixo do Mal.
Mas até isso mostra a cobardia das poderosas minorias.
Ou da poderosa maioria.
Enfim, de todos, menos do Daniel Oliveira.
Porque o Daniel Oliveira seria incapaz de censurar alguém.
Muito menos um católico.
Muito menos com uma piada cobarde.

Ao centro do Tratado

Pouco mais de um mês depois do acordo quanto ao Tratado Europeu, o debate sobre a Europa está sentenciado de morte.

A sentença assim ditada parece resultar duma evidência: o debate da Europa faz-se em Bruxelas e nós, cidadãos europeus, devemos conformar-nos com o que é superiormente ditado.

A execução da sentença apenas está suspensa diante dum dilema: como é que melhor se assegura a morte: com ratificação na AR ou por plebiscito referendário? Tal como na IVG, o que interessa é que a coisa seja higiénica, indolor e perca o carácter de clandestinidade a que todos já nos resignámos.

O PSD adiantou-se ao politicamente correcto e defende a ratificação na Assembleia. O CDS joga o xadrez do tacticismo, aguarda a jogada do adversário para assumir um posicionamento que lhe assegure algum protagonismo. O PS, claro, não tem posição. A responsabilidade de ser Governo não lhe permite tais devaneios. Bons tempos os da oposição...

Tudo isto sem convicções, sem qualquer compromisso com o eleitorado, sem a mínima percepção do que é ou não importante para o nosso futuro de portugueses e de europeus. Tudo se resume a calculismo politico-partidário.

Pouco mais de um mês depois da análise do Pedro Mexia, as suas palavras mantêm-se totalmente pertinentes: cheira mal, cheira a centrão. E faz falta uma direita mais infame - e convicta, acrescento eu.

Suspiro de alívio

Óptimas notícias: o Estado português exerceu o direito de compra sobre A Deposição de Cristo no Túmulo, o Tiepolo que vêem aqui em cima e foi ontem a leiloar.
Nem quero saber onde é que o Ministério da Cultura desencantou o milhão e meio necessário (que afirmou não ter). Ao que parece, terá havido intensos contactos ao mais alto nível nos últimos dias. Só me interessa que o quadro vai para o Museu de Arte Antiga e que se juntará ao único do mesmo autor até agora exposto ao público em Portugal.
Duas lições para o futuro.
A rábula sobre a sua classificação (está arrolado? classificado? em vias de?...) era totalmente dispensável. Esperemos que não haja outras obras nas mesmas condições e esperemos que o Instituto dos Museus possa garantir-nos isso. A bem do património nacional e dos nossos pobres corações.
Um milhão e meio de euros é o custo, por baixo, da exposição do Hermitage. Eu sei que não aparece todos os dias um Tiepolo no mercado, mas talvez não fosse má ideia manter um fundo de reserva para emergências semelhantes - em vez de estoirar orçamentos a exibir peças estrangeiras durante três meses.
E asseguro-vos que nenhuma delas é um Tiepolo...

Divirtam-se!

Discutem-se, ali para os lados do 31 da Armada e do 5 Dias, questões relacionadas com o aborto.

Discutam, pois. Hão-de discutir seguramente bem.
Pelo meu lado, deixo-me à parte.
Enchi a barriga de argumentos e contra-argumentos durante a campanha para o Referendo.
O resultado foi o que foi e para mim chegou. Feliz a hora em que regressaram o Marques Mendes, o Ribeiro e Castro e o Pinto de Sousa ao expediente da República. Foi um alívio.
Ás tantas, o confronto era essencialmente eleitoral: alegações e contraditórios, números e refutações, acertos e contradições, estatísticas e sondagens, rádios e televisões.
Um verdadeiro inferno.
Arrastada pela marabunta, ía ficando a vida, a verdade do dia-a-dia. O concreto, o doloroso, o que não se vê nem se ouve nem nos ecrans nem nos comícios.
Arrastadas pela euforia emanda das trincheiras, foram ficando as pessoas. Foi ficando o real.
O momento alto do debate de então foi, para mim, protagonizado entre Lídia Jorge e Laurinda Alves, quando uma falou de "coisa no ventre" e outra de "vida humana".
Depois falaram todos. Uns de crime e outros de hipocrisia.
Revelaram-se modos de ver a vida. E ganhou um desses lados. A palavra final há-de pertencer ao rumo que seguir a civilização, sendo certo que não somos os últimos dos homens nem está escrito o fim da História. Coisas que não dependem de referendos.
Quanto é que custa um aborto? Quantos se praticam hoje em Portugal?
Divirtam-se. Eu fico a assistir.

quinta-feira, 29 de Novembro de 2007

PS de novo arguido


Em Abrantes, nada será como dantes. E o PS, em coerência com o seu discurso do passado, terá que retirar a confiança política ao seu Presidente da Câmara - posição com que, aliás, também discordo.

Política à José António Saraiva


Ainda não li o livro. Mas se for tão polémico como os anteriores -com revelações pessoais sobre vários protagonistas políticos- então merece atenção. Já o sub-título era escusado: Fundamental para conhecer a história da política em Portugal. Estilo de "arquitecto".

Era Dezembro e chovia


"Era uma vez um país, pela beira-mar prolongado, que deparou um dia pela manhã com uma Revolução. Uma daquelas a sério, com flores nas espingardas, crianças sem escola e milhares de mirones nas ruas a assistir em directo aos confrontos. Ficou conhecida pela "Revolução dos Bravos" e mudou Portugal para sempre. Foi numa manhã de Dezembro e ofereceu a Portugal a primavera que o país vive desde então.
O povo nunca esqueceu os seus destemidos soldados dos ídos de 70, que com sacrifício das próprias vidas e em clima altamente adverso - diz-se, ainda hoje, que alguns chegaram mesmo a deixar crescer a barba, tal era o frio que assolava então o país - lutaram com afinco e destreza pelo mundo que havia de vir.
Rezam as más línguas que um dos mentores da revolta foi até incompreendido, anos depois, por querer revolucionar mais ainda.
Olhando o Portugal de Novembro de 2007, dir-se-ía que muito se deitou a perder. Portugal anda triste, numa tristeza indigna das conquistas da Revolução de Dezembro.
Chateia-se o Presidente do Sporting, chateia-se uma deputada do PCP, chateiam-se comentadores habituais dos nossos media, chateia-se o Presidente da CML, há um clima de chateação que tudo invade.
Num programa de televisão, Rui Zink (um cidadão auto-mobilizado) constata que durante a gloriosa campanha da selecção nacional na fase final do Euro 2004 o número de acidentes nas estradas portuguesas se reduziu drasticamente. Lembrando que o facto não teria comprovação científica, sempre nos foi sendo dito que quando o português anda mais descontraído ou mais feliz, a sinistralidade rodoviária diminui por cá.
Ou seja, confirma-se: Portugal anda muito, muito triste, a julgar pelo que se assiste nas estradas nacionais.
Que se passa com este país, pouco antes de entrar em 2008?
Porquê tanta tristeza?"


(Identificação espacio-temporal de recém-iniciada obra escrita. Cumpre-me, no entanto, chamar a atenção para o facto de se tratar de um Romance Histórico, naturalmente).

Da série "Cachimbos de Lá"

Ingmar Bergman, Através de um espelho (1961)*

[*O actor é Max Von Sidow.]

quarta-feira, 28 de Novembro de 2007

Tiepolíticas

Afinal, o "caso Tiepolo" é ainda mais extraordinário do que parecia. Segundo o Público, a leiloeira, a poucas horas de levar o quadro à praça, garante ter um despacho de Isabel Pires de Lima informando que o quadro não está classificado, mas "em vias de classificação". Aquilo que os jornais descreveram como a classificação de 1939 terá sido simplesmente um mero arrolamento da obra, sem quaisquer efeitos legais desde a nova Lei do Património de 2001. Cenário que só se terá alterado com o início do processo de classificação como "bem de interesse nacional", depreende-se que por Pedro Roseta, há quatro anos, processo entretanto contestado em tribunal pelos proprietários.
Se isto é verdade, o quadro pode ser vendido para o estrangeiro, o que aumenta as hipóteses de amanhã ser comprado por um particular. Mesmo que o valor de base da licitação tenha já subido de 1 milhão e 250 mil euros para 1,5 milhões...
A Ministra nega e diz que o quadro está classificado, o que significa que alguém está enganado. Ou a mentir.
Se é a Ministra, então o Estado português não conseguiu concluir o processo de classificação de um Tiepolo em quatro anos (!) e, à conta disso, talvez o venha a perder definitivamente.
Se não é a Ministra, então seria bom chamar a leiloeira à razão pelas vias que os juristas da Ajuda entenderem mais convenientes.
De qualquer modo, espera-se que desta vez haja consequências políticas do imbróglio. E que Isabel Pires de Lima não venha atirar as culpas para cima de um contínuo que se esqueceu de meter uma carta no correio, ou qualquer coisa do género.
Há limites para a falta de vergonha.
Até num governo socialista.

Da série "A concorrência faz melhor"

Sobre os números do aborto, ler o que diz o Paulo Pinto Mascarenhas.
E os comentários.

Os Velhos Hábitos Nunca Morrem!

A "eurodeputada" Ana Gomes escreveu um texto no Courrier Internacional chamando a atenção para o facto de Portugal não ser um aliado de fiar na OTAN e na União Europeia. Chegou a esta conclusão pelo simples facto (em si mesmo muito grave) de Paulo Portas, ex. ministro da Defesa, ter guardado para si cópias de milhares de documentos (muitos deles secretos) produzidos pelo Ministério que tutelou durante um par de anos.
Faz bem Ana Gomes em chamar a atenção para estes factos e para a situação delicada em que, indiscutivelmente, Paulo Portas colocou o Estado português. Faz também muito bem em apelar para uma alteração na legislação portuguesa que seja capaz de evitar a repetição de atitudes como a de Paulo Portas e de as punir exemplar e duramente.
Mas convinha de igual modo que Ana Gomes fizesse um pequeno exercício de memória e de honestidade intelectual e política e o tornasse público. E o que é que esse exercício, honestamente feito, nos diria? Que, por exemplo, Veiga Simão e alguns deputados portugueses humilharam, quando António Guterres era primeiro-ministro, o Estado português ao terem (involuntariamente?) tornado pública uma lista com os nomes de agentes dos serviços secretos portugueses. Que muitos diplomatas e ministros dos Negócios Estrangeiros e da Defesa portugueses (e pelo menos estes) têm o hábito de levar para casa, ao cessarem funções, cópias ou originais de documentos oficiais de conteúdo muito delicado. Finalmente, podia ter lembrado que militantes do PCP, após o 25 de Abril de 1974, despacharam impunemente para Moscovo informação ultra-secreta até então à guarda da DGS e que nada tinha que ver com a perseguição política aos opositores do Estado Novo.
Por isso, o caso Paulo Portas só interessa por ajudar a demonstrar que os velhos hábitos nunca morrem e que a "eurodeputada" Ana Gomes "não pode vê-lo nem pintado"!
Quanto ao facto de Portugal, por estas e outras peripécias, ser um aliado "pouco fiável", parece que podemos garantir que não é coisa de hoje, como demonstrou, também e com grande veemência, a “eurodeputada” Ana Gomes na sua denúncia, ainda hoje por provar, acerca da existência e da natureza de certos voos da CIA que cruzavam o espaço aéreo português e aterrariam algures neste ou naquele aeródromo luso. Esperemos tão somente que esta falta de credibilidade, da “eurodeputada” e de Portugal, não dure para sempre.

Multiplicação do Risco

A forma mais simples de garantir que muitas das nossas escolhas pessoais não têm tradução na nossa situação profissional é garantir que a lei separe as esferas. As tentativas através de leis e regulação de incentivar a natalidade com artigos e mais artigos com influência directa no relacionamento laboral impede esta separação. Ela é certamente utópica, e alguma regulação e criação de direitos (como a licença de parto) é até consensual, se não mesmo unânime, mas tentativas de criar mais direitos específicos para a natalidade acaba por ser não só uma discriminação positiva de legitimidade discutível como, sobretudo, bastante contraproducente.

A título de exemplo, um dos indicadores para dar luz verde a muitos tipos de recrutamento é a continuidade no exercício de funções. Ao alargar os termos da licença de parto para os avós, como, a confiar na comunicação social, sugere o CDS, aquilo que na prática se faz é adicionar uma componente de risco laboral nova a quem é avô. Esta componente de risco tem de ser calculada, e para o fazer é necessário saber se a pessoa tem filhos, se estão casados, calcular a probabilidade de terem filhos e colocar um factor risco. Triste, mas ninguém se deveria importar se para um dado recrutamento alguém com 50 ou 60 anos tem 1, 2 ou 5 filhos, e que idade têm, e quantos filhos tem cada um. Acontece que é precisamente este tipo de leis que transformam opções pessoais em indicadores válidos para escolhas profissionais. Talvez os autores da proposta possam afirmar que têm tudo isto presente e que não se importam de sacrificar estas situações em prol de um bem alegadamente maior, neste caso a natalidade. Que, a confiar na comunicação social, os autores da proposta sejam incapazes de quantificar o impacto exacto na empregabilidade dos avós, ou no número adicional de crianças que nasçam devido a esta medida talvez lance as dúvidas de sempre sobre o amadorismo e voluntarismo com que este tipo de questões são normalmente tratadas nos partidos.

Numa economia em que a empregabilidade dos mais velhos tem as dificuldades conhecidas, em que a saúde dos mesmos lhes rouba mais e mais tempo e qualidade de vida e trabalho, em que é cada vez mais difícil manterem-se tecnologicamente actualizados, em que o diferencial de produtividade em relação aos mais novos cresce, talvez não fosse boa ideia adicionar componentes de risco a quem já tem bem mais risco do que pode suportar.

Para (...)

Para... para... não sei que título dê ao post, confesso.
Para conhecimento? Para constrangimento? Para divertimento? Para desfalecimento?
Para rir por um momento?
Da minha parte me confesso: sou virgem, nestas coisas da identificação objectiva dos ideiais do socialismo moderno. Mas aceito propostas de títulos para este post. Não me sentirei profanado, garanto!

Silêncio


Estranho. Vários dias passaram sem declarações polémicas de Pinto Monteiro sobre as novas leis da República. Será que o PGR anda a estudar a separação de poderes ou simplesmente à espera do fim-de-semana?

terça-feira, 27 de Novembro de 2007

Há que reconhecer...

...que tem piada.

O Fim da Linha


A Reuters converteu o índice de Desenvolvimento Humano elaborado anualmente pela ONU num ranking dos países mais apetecíveis para habitar. O índice de Desenvolvimento Humano da ONU já é de si um pouco apatetado, mas esta coisa de declarar que a Islândia é o melhor sítio para viver em todo o mundo é de doidos. Pergunto-me se não haverá quem troque um bocadinho de "Desenvolvimento Humano" escandinavo pelo contacto com a energia da vida humana, no que tem de desordem, displicência, perigo, imprevisto, brilho. Em doses moderadas, claro. Mas, apesar de tudo, sempre há umas diferenças entre os homens e as plantas.

Eu tento

Eu tento.
A sério que tento.
Em nome da lealdade orgânica, da unidade do partido, do futuro da direita e até do bem da nação.
Finjo que não vejo. Finjo que não oiço. Finjo que emigrei durante dois anos para uma ilha no Pacífico. Ou que me tornei budista. No Tibete.
Se me cruzo com ele no jornal, mudo de página. Se me aparece na televisão, mudo de canal. Se o encontro na rua, mudo de passeio. Para não ver, não ouvir, não me dar conta de mais um dislate, de outra contradição, de novo soundbite a disfarçar o vazio.
Mas não consigo. Ele não deixa.
É mais forte do que ele.
É mais forte do que eu.
Depois do partido-empresa, das comitivas com dois ou três carros pretos para ganhar pose de Estado, de confiar as declarações programáticas a um jovem de grande futuro que não sabe quais são as nossas bandeiras porque "ainda não temos bandeiras" (sic), hoje ele vem dizer que os altos funcionários públicos não deviam falar à imprensa.
Talvez em nome da lealdade orgânica, etc.
Eu tento.
A sério que tento.

segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

Os maquiavéis da cevada

Por que razão a campanha do "orgulho hetero" é tão ridícula?
Porque não há nenhum motivo de orgulho em ser hetero ou em ser gay. Também não há nenhum motivo de orgulho em gostar mais do Inverno ou do Verão.
Todos conhecemos donjuans de bairro que narram as suas conquistas como a fundação de um império. Mas que esta autoglorificação hormonal sirva de mote a uma campanha, ganha alturas de ópera bufa.
O mesmo se diga da simétrica reacção de repúdio por parte do movimento gay.
Estão a colher o que semearam.
O ridículo "orgulho hetero" apenas parodia o ridículo "orgulho gay. "

Parabéns a você

O 31 da Armada fez ontem um ano de contra-revolução.
A gente não diz nada, mas gosta de ler.

Cultura de fachada (3)

O quarto museu que Isabel Pires de Lima quer inaugurar em 2008 é o do multiculturalismo, na estação do Rossio (em Lisboa). Aparentemente - porque a última notícia que li, no Público de 20 de Agosto, dava como certa a abertura do museu em finais do presente ano. Não vejo como.
Aliás, dos quatro cavaleiros do apocalipse museológico, este parece ser o mais misterioso. Vale a pena conhecer a sua paradigmática evolução, descrita aqui por Alexandre Pomar.
O eventual museu nasce para ocupar um espaço vazio. Literalmente. Terá sido Carmona Rodrigues a impedir que a Refer transformasse em escritórios parte da nova estação (em obras, recorde-se, desde que o túnel começou a abrir rachas, já nem sei porquê), invocando a história do lugar. Depois de várias hipóteses, entre as quais a do famoso Museu da Língua Portuguesa que foi parar a Belém, o Ministério da Cultura engendrou uma solução brilhante. Sendo 2008 o "ano europeu do diálogo intercultural" e sendo que na linha de Sintra moram muitos africanos, juntou as duas coisas.
A sério: é mesmo isto o que se lê nas entrelinhas da notícia. Pensando bem, é a solução perfeita. Mete a Europa, mete o diálogo, mete a interculturalidade (ou o que seja) e mete a estação. Só não lhe chamo ouro sobre azul porque seria uma imagem demasiado ariana. Vexas hão-de conceder-me, porém, que um museu assim nascido não corresponde a qualquer necessidade urgente da pátria. É apenas um remendo urbanístico coberto pelo manto diáfano do multiculturalismo. Que tem, no Rossio, a mesma função decorativa da lusofonia em Belém: um pretexto simpático para arrumar o jardim. E pela mesma razão. O favor do multiculturalismo ou da lusofonia assemelha-se aos "untaught feelings" (sentimentos pouco reflectidos, digamos assim) que, segundo Burke, caracterizam a nossa era demótica. O poder conta com eles para chegar ao coração das massas.
Mas há mais. De acordo com o Expresso (14/10/06), alugar os 900 m2 do tal espaço vazio à Refer custaria ao Ministério da Cultura cerca de 70 mil euros por mês.
Não sei se é verdade.
Não sei se é muito ou é pouco.
Sei que esse dinheiro dava para pagar um certo Tiepolo em ano e meio.
Adenda: Nos comentários, Alexandre Pomar informa que, afinal, já não vai ser feito um museu do multiculturalismo no Rossio, mas um centro de actividades sobre o multiculturalismo. Agradeço a notícia, que desconhecia por completo. O MC mudou de ideias em menos de seis meses. Suponho que se mantenha o preço a pagar por elas.

O PS até é de esquerda, mas

a realidade é de direita, disse (versão traduzida) Vitalino Canas, num momento de comovente transparência da enorme confusão que abunda bem lá em cima no Governo.

Para desconstruir isto é necessário ter uma insensatez igual à demonstrada quando in another moment down went Alice after it, never once considering how in the world she was to get out again. Boa sorte então para quem quiser entrar nos labirínticos caminhos das tocas ideológicas dos socialistas, mas recomendo fiquem à porta. Se os nossos socialistas são óptimos a pintar a realidade, tudo se vai passar à superfície. Diz-se (má-língua, mal-agradecido) que em ano de eleições vai haver pintura nova. Poderá é não haver cajado.

Faladores II


Andam por aí alguns que falam de mais, diz-se.

Maçadas que por vezes se resolvem e por vezes não.
Tem dias.

Faladores


Mário Soares entende que andam por aí alguns que falam de mais.


Mas isso, o Governo já sabia.

Convicções à la carte


À sugestãozinha de Mário Soares de que o Governo devia governar um «bocadinho mais» à esquerda, responde Vitalino Canas que o Governo tem governado tão à esquerda quanto o permitem as dificuldades do país.

Esteve bem Vitalino, provando que o socialismo moderno, não constituindo uma ideia, há-de ser, afinal, pouco mais que uma circunstância...

Muito simplesmente, o melhor disco do ano


É verdade. O melhor disco do ano: "Song of the New Heart". Um vocalista e compositor de excepção (Shahryar Mazgani, cuja caraça podem ver aqui na capa do CD). Guitarrista (Sérgio Mendes) e baterista (Rui David Luís) do melhor que há no nosso país. Acho que ainda vamos ouvir falar muito destes MAZGANI. Não precisam de se fiar na minha palavra. É só vir aqui e aqui e escutar.

domingo, 25 de Novembro de 2007

Os Loucos Anos 80 (26)


A melhor estação de rádio portuguesa, a Rádio Radar - cujo lema é "O Som que marcou uma Geração" -, recordou uma banda new wave dos anos 80 chamada The House of Love. Ainda me lembro de com 15 anos vir a Lisboa, mais exactamente ao Coliseu dos Recreios, acompanhado pelo rapaz do post acima, assistir ao concerto memorável dos House of Love, apesar da casa estar meio vazia. Quando apareceram em 1988, três temas os notabilizaram: "Christine", "Destroy the Heart" e "Fisherman's Tale". Pelo menos, para mim.

Os anos 80 foram assim: foi uma época de sons inconfundíveis. Que apareciam e desapareciam. Sem despedidas, nem tragédias. Mas com gosto e alguma ingenuidade. E que, por alguma razão, tinham o condão de mudar a vida das pessoas.

Da série "Cachimbos de Lá"


Norman Rockwell, Willie Gillis in College (1946)

O Futuro do Sistema Educativo?


sábado, 24 de Novembro de 2007

Das duas uma

Isabel Pires de Lima voltou a mostrar ontem a sua lealdade estalinista aos subordinados, acusando o Instituto dos Museus de não lhe ter dito nada sobre "o interesse do Estado em comprar" o Tiepolo que vai a leilão na próxima Quinta-feira, segundo a Lusa, bem como sobre "o processo e os montantes" em causa.
Acho absolutamente extraordinária tal ignorância, embora seja a segunda vez que acontece nos últimos dias.
Há uma semana, quando os contratos de tarefa dos vigilantes dos museus não foram renovados a tempo, Bairrão Oleiro também serviu de bode expiatório.
Das duas uma.
Ou a Ministra o demite.
Ou a Ministra se demite.
Já não é uma questão política - é uma questão de vergonha na cara.

Very Important Difference



Da série "Grandes Momentos Televisivos", e a propósito disto.

sexta-feira, 23 de Novembro de 2007

New blogs on the block

Via Luís M. Jorge, fico a saber que o Augusto M. Seabra (serão parentes pelo mesmo M.?) é desde há dias um participante activo da blogosfera. Tive algumas belas polémicas com ele na Mão Invisível, no tempo em que as polémicas valiam a pena, e já me tinha perguntado por onde andaria depois de ter deixado as páginas do Público.
Aí está resposta, em Letra de Forma.
Aproveito para deixar nota do blogue de outro crítico não menos atento da cultura indígena, Alexandre Pomar. Mais um que deixou de aparecer na imprensa de referência, vá-se lá saber porquê.
Bendita internet.
Adenda: O Luís informa-me que a origem da notícia é o Da Literatura. Fica a rectificação.

É sempre a mesma (falta de) cantiga

Há dois dias, um projecto de lei sobre os contratos de trabalho dos chamados "intermitentes", os profissionais das artes do espectáculo, foi aprovado na Assembleia da República com os votos da maioria socialista.
PCP e Bloco apresentaram projectos alternativos.
PSD e CDS aos costumes disseram nada.
Como sempre, a direita continua a reduzir o debate sobre a cultura ao património (e sabe Deus...).
Não tem discurso nem estratégia para a criação, o que lhe custa uma derrota por falta de comparência de cada vez que vai a jogo na matéria, antes de mais porque aceita que o jogo seja no campo do adversário. Não vê, ou não quer ver, que isto é uma questão vital de legitimação simbólica que a esquerda tem monopolizado, tal como sucede, de resto, com a ecologia ou a imigração.
Não tenho a mais pequena dúvida de que o tão discutido futuro da direita passa por aqui.
A menos que esta insista na velha "política cultural" que consiste em vilipendiar os artistas - e a malandragem conexa - de subsidiodependência, parasitagem do Estado e outras jeremíadas pavlovianas.

Dúvida não metódica, claro

Na polémica do dia, só uma coisa me preocupa.
Não gosto de Tagus.
Meu Deus! Será que...?

Mas teremos sempre o Hermitage (2)

O caso do Tiepolo português que vai a leilão na próxima Quinta-feira, e que o Estado não tem dinheiro para comprar depois de ter classificado, serve de perfeita ilustração à nossa política cultural de fachada.
Recordo a notícia. Uma Deposição de Cristo no Túmulo do pintor italiano Giovanni Tiepolo, na posse de particulares, foi objecto de classificação pública em 1939, não podendo, portanto, sair do país. Um pormenor que, só por si, diminui o seu valor de mercado. Em 2003, os proprietários, querendo legitimamente vendê-la, pediram ao Ministério da Cultura para levantar a classificação ou, em alternativa, para exercer o direito de preferência na compra. O ministro Pedro Roseta não fez nem uma coisa nem outra. Pelo contrário, reforçou a classificação, que passou a ser de "bem de interesse nacional", esperando reunir depois, não se sabe por que artes mágicas, o vil metal necessário à compra da obra. Entretanto, e depois de levar o upgrade classificativo a tribunal, os proprietários desesperaram de uma resposta e entregaram o negócio a uma leiloeira.

Que fixou a base de licitação em 1 250 000 euros.

Bairrão Oleiro, presidente do Instituto dos Museus, já fez saber que não tem o dinheiro - nem tempo, até Quinta-feira, para apelar ao mecenato.

Uma fatalidade a que daremos o devido peso lembrando que:

a) a obra está classificada há 68 anos;

b) a última proposta ao Estado português foi feita há quatro anos;

c) a exposição do Hermitage, durante três meses e meio no Palácio da Ajuda , custa 1 500 000 euros pagos por mecenas.

Serei eu o único a ver onde pára o capital que nos permitiria ter mais um Tiepolo nas Janelas Verdes?







Nota: A imagem acima não reproduz a Deposição, mas o Sacrifício de Abraão, uma outra obra do pintor.

PS recorre a receitas extraordinárias


Para fazer face ao défice.

quinta-feira, 22 de Novembro de 2007

Hip Hip


Há champagne no Corta-Fitas.

Parabéns!

Ricos e pobres nas presidenciais americanas

Uma análise recente do Wall Street Journal fala de uma mudança do paradigma sócio-económico dos votantes norte americanos. Já não é tão óbvio que os ricos votem nos republicanos e os pobres nos democratas. O texto do WSJ de 16-11-2007 dá dois exemplos: uma mulher trabalhadora de um sindicato hispânico que vai votar nos republicanos essencialmente por serem "pró-vida" e um gestor que prefere o discurso mais ecológico dos democratas e discorda da postura republicana contra o casamento gay.

Ao mesmo tempo há outros dados interessantes. Uma sondagem da Newsweek (12-11-2007) indicia que se estão a esbater algumas diferenças religiosas -god gap- entre os dois partidos: os democratas que se consideram "anti-religiosos" desceram de 20% para 15%, num ano apenas.
Entretanto, a Conferência Episcopal católica norte americana publicou um interessante documento Forming Consciences for Faithful Citizenship onde, sem dar indicações concretas de voto, oferece orientações gerais sobre sete temas com relevância social e política: direito à vida, família, direitos e responsabilidades, opção preferencial pelos mais pobres e vulneráveis, direitos dos trabalhadores, solidariedade e ambiente.
A coisa aquece lá pelo outro lado.

Nonsense upon Stilts (*)

A médica Ana Matos Pires assina um artigo de opinião na edição de hoje do Público. Sobre a opinião, nada tenho a dizer: ela decorre do exercício do direito de liberdade de expressão. A determinada altura do texto, Ana Matos Pires pede licença para recordar algo que, na sua opinião, é elementar (sublinhado meu):
Deixem-me só recordar que Jeremy Bentham, com a introdução do termo "deontologia", pretendia conseguir uma alternativa mais liberal ao termo e ao conceito da palavra "ética", tendo em conta que esta última, ao ocupar na forma qualitativa de conceito laico o lugar do termo religioso "moral", se tinha moralizado.
Sobre isto já tenho algo a dizer. Esta frase não contém uma asneira: contém várias. Comecemos pela mais simples: A autora do texto atribui a Bentham a ‘introdução’ do termo deontologia. Em tese, é plausível: afinal de contas Bentham inventou diversas palavras (pannomion, panopticon, Ultramaria, são apenas algumas de que me recordo, assim de repente). Sucede que o termo deontologia não é um neologismo, nem foi inventado por Bentham. Seria apenas uma confusão se este equívoco não fosse a cortina diáfana que encobre –mal– a ignorância da autora na matéria sobre a qual cometeu um texto. É que Bentham foi um crítico da ética deontológica e o proponente de um discurso ético completamente distinto: o utilitarismo, uma forma de consequencialismo ético. Um conhecimento elementar da Ética permite saber que as abordagens éticas consequencialistas e deontológicas estão em visceral oposição filosófica no que se refere à natureza do Bem. É este 'detalhe' que confere gravidade ao disparate.

Claro que a autora tem uma 'escapatória' possível: sugerir que por 'lapso' confundiu Jeremy Bentham com Immanuel Kant -uma confusão perfeitamente compreensível, atendendo à semelhança dos nomes. Infelizmente isso só lhe resolveria o problema da aproximação da deontologia a um dos seus expoentes filosóficos. É que em seguida há a sugestão de Bentham como liberal. É uma sugestão extraordinária para quem se tenha dedicado ao estudo da história do pensamento político. Sem querer complicar muito, limito-me a referir que o utilitarismo é um produto de uma tendência radical da Aufklärung, que rejeita a existência (prévia) de uma ordem natural como base para o juízo ético e propõe em alternativa uma ética baseada numa concepção filosófica e psicológica do homem enquanto unidade autónoma e sensorial. Esta rejeição equivale à rejeição do jusnaturalismo, a base do liberalismo clássico. Os antepassados filosóficos e jurídicos de Bentham são positivistas como Helvécio e Beccaria; ou o racionalista e enciclopedista Diderot (l’homme est né pour penser de lui-même). Se a autora do texto descobrir em qualquer um deles o mais ténue vestígio de liberalismo, faça o favor de nos avisar. Uma vez mais, é possível desculpabilizar a autora argumentando que não disse exactamente que Bentham era liberal mas antes que... Uma vez mais: possível? Sim. Provável? Não.

Ainda me apetecia dizer algo sobre as origens do termo ‘moral’, de moeurs –hábitos, costumes e tradições de uma determinada comunidade– e a conotação estritamente religiosa que é sugerida. Mas não vale a pena. A avaliar pela tendência afoita para se aventurar por áreas de conhecimento que não domina minimamente, parece-me que a autora padece de um mal frequente em Portugal: a ligeireza opinativa. Não faço sugestões de terapêutica: seriam certamente barbaridades de ordem não inferior à sugestão de Bentham como deontológico e liberal.

(*) O título do post é o título de um panfleto de Bentham - uma crítica à Declaração francesa dos Direitos do Homem e uma rejeição total da existência de direitos naturais. Estranho, para um 'liberal'.

Abraços mortais

Não trouxe novidades o Relatório da ONU contendo números acerca da SIDA. É um murro no estômago, sempre. Principalmente quando falamos de Africa e quando os números referem tantas e tantas crianças.
Destaco, para a Europa Ocidental, a principal causa de transmissão do VIH: relações sexuais desprotegidas.
Falamos de quê? De ruptura de stocks? De falta de informação? De falta de trocos para a máquina? De "'bora aí e depois logo se vê"?
Repito, falamos de quê?
Não há direito.
E não me venham falar de João Paulo II e da posição da Igreja Católica sobre o uso de contraceptivos. Não me lixem.

quarta-feira, 21 de Novembro de 2007

O Portugal

Portugal apurou-se para o Campeonato da Europa. É verdade. Não venceu nenhum dos 6 jogos contra os 3 adversários que disputaram o apuramento connosco. Também é verdade. Acho que assim não vai dar. Que o diga a Inglaterra.

Ética Republicana II

Quando quiseres escrever um livro, vai ao Estado.

Ética Republicana I

O Estado alberga os seus.

O homem do momento

Conhecido do público como grande especialista em assuntos da Educação.

PCP, CGTP, ARCO e FLECHA

Pois é. Eu sabia que havia de chegar o dia em que me revelaria ainda mais. Vou falar dos desenhos animados e dos heróis do meu outro tempo. Viajo até à década de setenta, talvez inícios de oitenta.
Relembro a tv a preto e branco e a pantera côr-de-rosa, o Vickie, o Bonanza, Uma Casa na Pradaria, Fame, os filmes com o John Waine, o Bud Spencer e o Terece Hill e, para toda vida, a imagem do Vasco Granja a lembrar-me que havia momentos em que mais valia ir para o jardim jogar à bola. Animação, jogo de bola e heróis.
Hoje, sei que partilho memórias com um número limitado de leitores. Dirijo este post à meia dúzia de trintões finalistas ou de inexperientes quarentões que ainda perdem trinta segundos a lerem o que escrevo.

Relembro Robin Hood, um dos muitos heróis do meu tempo.
A coisa, para quem possa não estar lembrado, andava à volta de um verdadeiro guerrilheiro dos bosques. Alguém que, à força de flechas e marretadas, roubava aos ricos para dar aos pobres.
Pelo meio havia, é certo, uma história de amor, coisa impossível de reescrever, pois não metia sexo, nem erótico suor. Só lágrimas, coisa que para isto do amor, jamais faria bilheteiras na Europa dos Cidadãos Modernos.
Relembro o passado, portanto. Em exclusivo? Não. Não, porque tenho a sorte de poder reencontrar verdadeiras reminiscências da velha tv no toque de romantismo que o PCP insiste em impôr às suas iniciativas. Resumindo, a luta dos que menos têm e menos podem contra a prepotência dos poderes constituidos.
Olhando a coisa com olhos de agora, diria que José Sócrates será, na falta de outro, o actual Príncipe João e que a CGTP encarna a figura de Frei Tuck, sempre pronta a inflamadas homilias e a uma boa cena de pancadaria. Tudo em prol dos que menos isto e menos aquilo...
A coisa podia ser mais ou menos indiferente, não fora o facto de o incidente da "ponte" e do "buzinão" terem abalado, fatalmente, os alicerces do Cavaquismo. Bastões no ar contra a oprimida cidadania do contribuinte.
Os socialistas de serviço ganharam então, por essas e por outras, um tal de António Guterres, demasiado Crente para poder ser Primeiro-Ministro. Todos sabemos que a força do bastão contra o som do buzinão teve, então, definitivos efeitos nas urnas.
O PCP não o esqueceu. E é por isso que decidiu desenterrar os mercenários de todas as lutas e os militantes de todos os serviços, sempre prontos para serem escudos, arcos e flechas ao dispôr dos universais desígnios da demanda comunista
A estratégia do PC tornou a voltar-se para o grito dos que só gritam contra a força dos que só forçam: os fracos contra os poderosos, com marretadas pelo meio. Demonstram-no o afastamento de manifestantes perante um evento com o PM e os empurrões da autoridade de choque contra os manifestantes da Valorsul. Robin Hood tinha uma vantagem: era um personagem que vivia no mundo da fita, que ganhava todos os duelos.
O Partido Comunista Português tem uma batalha muito mais difícil: convencer os iniciados nas coisas da vida, os finalistas trintões e os inexperientes quarentões de que a Verdade revive em momentos tais como alguns dos outrora emanados dos estúdios de Holywood.
Se o conseguir, continuará para além dos iletrados septuagenários a quem prometeu amanhás que cantam. Se não o fizer, sabe muitíssimo bem que morrerá de vez.
E é por isso que lhe vale muito mais a pena uma vitória do PSD nas próximas legislativas, com vantagem para si próprio e para o BE, do que a manutenção deste endireitamento progressivo da esquerda de que se diz parte.
Esqueçam o Santana.
Chamem a GNR, o Corpo de Intervenção, uma bastonada ou outra e vamos a votos.

terça-feira, 20 de Novembro de 2007

Porque não te calas?

Na Câmara de Lisboa, o Bloco está diante de vários dilemas: o primeiro é saber se deve ser fiel aos interesses dos trabalhadores ou do vereador?
E quem é que manda: o BE ou os independentes ?
Será que os militantes se vão ficar com este "porque não te calas" do Rei Vai Nu ou vão abandonar a sala?
Em face disto, perguntamo-nos: o BE estará prisioneiro do poder ou estará a enfrentar uma crise de crescimento?

Da série "Posta Restante"

"The Sunni vigilantes, the divided police force and Rambo-style Iraqi army officers, along with the kidnapping, the crime and the tribal fighting: this is what victory looks like in Iraq. Next year, the Americans will declare it so, and some will start to come home."

Paul Wood, "The Sunni side of Tikrit: progress in Irak", in The Spectator, 17/11/07

Cultura de fachada (2)


Voltemos, por momentos, aos museus a inaugurar em 2008 por Isabel Pires de Lima.
Um deles, o do Côa, é hoje uma questão de elementar decência política. Foi promessa eleitoral do PS na primeira eleição de Guterres, foi em seu nome que não se construiu a famosa barragem, é uma das poucas esperanças de desenvolvimento para uma região pobre e periférica. Nada a apontar - excepto o facto, algo surrealista, de ainda não estar feito.
O outro museu prioritário é o do Douro. Quer ser, e pode ser, o rosto de uma das regiões do país com mais forte identidade cultural. Sofreu, no entanto, alguns acidentes de percurso devido à falta de entendimento entre os seus vários fundadores (autarquias, empresas, Estado). Dinheiros e pelouros, já se sabe. O Ministério da Cultura só tem que ajudar no que lhe pedirem, resistindo à tentação socialista de se substituir a quem está no terreno.
Em contrapartida, o Museu Mar da Língua Portuguesa (vai mesmo chamar-se assim?) fia mais fino. É ideológico, é polémico e é literalmente um museu de fachada, tão pomposo e vazio como o próprio nome. Inspirado no Museu da Língua Portuguesa de São Paulo, pretende ser um "centro interpretativo das Descobertas", de acordo com o DN (31/10/06) e "não terá acervo físico", "meios tecnológicos e de comunicação interactiva de ponta". Muito choque tecnológico, portanto, para dar à malta nova o que já tem: um contacto virtual com o Português. Bué fixe, mas seria preciso um museu para isso? E o "centro interpretativo das Descobertas", whatever that means, não poderia fazer-se no Museu da Marinha, que é ali ao lado e até tem uma vaga relação com as tais Descobertas?
Além de que a coisa vai instalar-se no antigo Museu de Arte Popular, um dos últimos vestígios (com o "espelho de água" de Belém e o Padrão dos Descobrimentos) da exposição do Mundo Português de 1940. Manter este de pé, como alertaram a tempo e horas a historiadora Dalila Rodrigues ou o antropólogo João Leal, teria o inestimável valor científico de mostrar in situ uma das últimas imagens da política cultural salazarista. Uma petição nesse sentido, assinada por 700 pessoas, chegou a ser entregue à Ministra.
Em vão, porém. O que está a dar no país de Sócrates é a lusofonia virtual.
Ironia das ironias, talvez a lusofonia virtual seja no país de Sócrates o que era o "Portugal do Minho a Timor" no Estado Novo. Os museus são animais de estimação dos políticos: um reflexo de quem os cria.

(cont.)

Da série "Cachimbos de Lá"

Art Spiegelman, [After Seurat], s.d.

As correntes, as Magnólias e os Livros

Tenho andado a pensar como é que saio desta e não encontro maneira de sair bem. Eu explico. A Cristina Ferreira de Almeida, primeiro, e a Paula Faria, depois, desafiaram-me para uma corrente.
As correntes são para quem pedala e eu, bem se vê, tenho pedalado muito pouco. Por isso, não há volta a dar: quebrei a corrente.
Nada disto seria grave, não fora a a cfa e a PF serem duas pessoas que muito admiro e que, além do mais, considero duas das melhores bloggers que temos. Deixá-las sem resposta, é ingrato da minha parte.
Vai daí e confessada a minha culpa, proponho sair disto com uma flor. Ou com um texto sobre livros. Um dos melhores que conheço, da autoria do Daniel Faria:


«Sabes, leitor, que estamos ambos na mesma página
E aproveito o facto de teres chegado agora
Para te explicar como vejo o crescer de uma magnólia.
A magnólia cresce na terra que pisas – podes pensar
Que te digo alguma coisa não necessária, mas podia ter-te dito, acredita,
Que a magnólia te cresce como um livro entre as mãos. Ou melhor,
Que a magnólia – e essa é a verdade – cresce sempre
Apesar de nós.
Esta raiz para a palavra que ela lançou no poema
Pode bem significar que no ramo que ficar desse lado
A flor que se abrir é já um pouco de ti. E a flor que te estendo,
Mesmo que a recuses
Nunca a poderei conhecer, nem jamais por muito que a ame,
A colherei.

A magnólia estende contra a minha escrita a tua sombra
E eu toco na sombra da magnólia como se pegasse na tua mão.»

segunda-feira, 19 de Novembro de 2007

O fantasma

Para jornalistas e analistas, a pergunta “Por que no te callas?" dirigida pelo rei Juan Carlos a Hugo Chávez funcionou como uma injunção contrária e desataram todos a opinar sobre o sucedido. Mas afinal o que sucedeu? Será a leitura política do incidente tão óbvia quanto transparece da maioria das opiniões?

As imagens exaustivamente repetidas colocam-nos, espectadores, a olhar para o lado errado no momento errado. Para compreender é necessário observar o comportamento de uma terceira personagem: refiro-me a Daniel Ortega. Antes do incidente, o sandinista cedeu o seu tempo de intervenção a Chávez para que este arengasse sobre o ‘fascismo’ de Aznar. Depois, quando a troca de palavras entre Zapatero e Chávez parecia trazer o ambiente de regresso à normalidade soporífera, foi Ortega que retomou o ataque, acusando o embaixador de Espanha na Nicarágua de ter interferido na campanha eleitoral de 2006 e declarando que ‘já não eram súbditos do rei’, o que motivou o abandono da sala pelo rei espanhol.

Esta frase é a chave da rábula. Os insultos a Aznar eram um meio de convocar um fantasma: o fantasma de Simon Bolívar. Chávez imagina-se a incarnação de Bolívar, incumbido da missão histórica de libertação da América Latina do neo-imperialismo –americano, ça va sans dire. A mesma luta de Ortega desde que em 1979 tomou o poder na Nicarágua. Mas Chávez levou algum tempo para ‘compreender’ a oportunidade política proporcionada pelo incidente: após a diatribe de Juan Carlos, desvalorizou o episódio. Alguns dias mais tarde, uivava contra o ‘imperialismo’ espanhol, exigindo desculpas e ameaçando retaliações económicas. Entre um momento e outro alguém lhe terá explicado a utilidade da manobra: poderá ter sido uma epístola de Castro ao apóstolo da revolução, mas é mais provável que tenha sido Ortega a explicar a Chávez como utilizar os acontecimentos em seu benefício. Quem quer que tenha sido o 'conselheiro', Chávez revelou uma baixa inteligência: marrou abrutalhadamente e precisou de uma mão condutora para orientar a carga na direcção de um propósito político definido.

Ortega sabe que as eleições democráticas são um mecanismo falível para apontar o caminho da revolução: em 1990 foi derrotado quando ninguém o esperava –certamente a começar por ele. Foi reeleito presidente em 2006, mas o momento de Ortega passou, esgotou-se: a revolução já não passa por ali. O delfim do neo-bolivarismo é Chávez, Morales e Correa os novos cavaleiros (consta que Chávez lhes terá oferecido réplicas da espada de Bolívar nas respectivas investiduras presidenciais).

Chávez tem uma solução para evitar a ‘falibilidade’ das eleições democráticas: uma reforma constitucional, a referendar a 2 de Dezembro, que fará dele presidente vitalício e instituirá uma ditadura por meios democráticos. A bem da revolução. O fantasma de Bolívar serve para projectar a sombra do velho inimigo imperial na parede da caverna venezuelana e desse modo facilitar a vitória no referendo. A avaliar pelas sondagens, o fantasma pode ser insuficiente para ganhar o referendo. Não por o homem democrático ser capaz de distinguir as sombras da realidade, mas sobretudo porque a arte do demagogo de Caracas se revela insuficiente. Quanto ao rei Juan Carlos, se conhece os vícios do ditador venezuelano, então deve saber que cometeu um erro político e que lhe proporcionou uma ajuda inesperada, ainda que não intencional. Com tanto auto-proclamado ‘realista’ entre os analistas, estranho que nenhum o tenha notado.

Já cansa

Esta coisa do "populismo" já cansa. Agora, Durão Barroso avisa que o referendo, isto é, a "desvalorização dos parlamentos" é equivalente a um "populismo permanente". Já disse neste blogue, e num texto para a revista Atlântico, que há referendos mais iguais do que outros. Não sou apreciador de referendos sobre o aborto, ou de assuntos que não impliquem mudanças substantivas na Constituição. Mas esse não é o caso do tratado constitucional que está agora em discussão. Mas o que me interessa é saber a opinião de Durão Barroso sobre os referendos que tivemos no passado. É verdade que Durão Barroso sempre se opôs a referendos sobre tratados internacionais. Foi essa a sua posição enquanto Secretário de Estado, e, posteriormente, Ministro. Porém, agora, refiro-me aos referendos que foram realizados em Portugal. Faziam parte do "populismo permanente" que ele agora denuncia? E foi ele um colaborador (passivo ou activo, pouco importa) desse infeliz "populismo permanente"?

Cultura de fachada (1)

O artigo de Zita Seabra no Público de Quinta-feira passeou por aí incógnito, e é pena. A deputada do PSD chamava a atenção para o paradoxo grave de o Ministério da Cultura não ter meios para impedir que o Museu de Arte Antiga e o Museu de Arqueologia encerrem ao almoço por falta de vigilantes, como chegou a acontecer - e ter um milhão e meio de euros, sem contar com obras e despesas de manutenção, para trazer a exposição do Hermitage ao Palácio da Ajuda.
Bem sei que o dito milhão e meio é pago por mecenas, embora a PT e o Turismo de Portugal sejam "mecenas" públicos. O que eu não sei é por que milagre o dinheiro aparece para ver durante três meses as sobras de um museu russo - excelentes sobras de um excelente museu, pois claro -, mas já não aparece para o funcionamento mínimo dos museus indígenas, mesmo dando de barato, se me permitem a ironia literal, que os indígenas não serão tão excelentes como o excelente russo.
E não venha a Ministra responder que esta questão "é de um provincianismo atroz", como fez há dias no Parlamento. Provincianismo, e pior, é abrir a mostra do Hermitage com dois chefes de Estado e fechar salas nas Janelas Verdes por falta de tostões.
Já agora, talvez a oposição pudesse fazer o trabalho de casa antes de levar a Ministra a exame. Isabel Pires de Lima tem proclamado que o orçamento do Ministério da Cultura para 2008 é de 245 milhões de euros e subiu 9,2%, o que significa que aumentou cerca de 20 e poucos milhões de euros. Do total, 107 milhões são para o património. Um número impressionante. Espera-se, portanto, que os problemas menores com os tarefeiros dos museus sejam resolvidos. O que a Ministra não diz, nem diz o orçamento do seu Ministério (que consultei ingloriamente durante uma tarde de trabalhos forçados), é qual a fatia dos 20 milhões a destinar à exposição do barroco português que irá a Moscovo e São Petersburgo como moeda de troca pela vinda das peças do Hermitage. (Ou vocês julgavam que na cultura, lá por ser cultura, há almoços grátis?) Para não falar dos museus que pretende abrir em 2008: o do Côa, o do Douro, o do Mar da Língua Portuguesa no antigo Museu de Arte Popular - contestadíssimo, aliás -, e o do inefável "multiculturalismo" na Estação do Rossio.
Eu nunca fundei museus, admito, mas tenho sérias dúvidas de que os vinte milhões cheguem para tanta festa. A menos que Isabel Pires de Lima não queira, afinal, inaugurar isto tudo em 2008. Ou que as novas cigarras acabem por pedir o sustento às velhas formigas. Cá para mim, ainda vamos ouvir falar de tarefeiros na próxima Páscoa...
Senhores deputados do PSD e do CDS, custava assim tanto perguntar o óbvio?

Enfiar o barrete

Ó meus amigos, não há volta a dar.
A gente lê a crónica do Rui Tavares hoje no Público - e o homem tem razão do princípio ao fim. A invasão do Iraque, que eu e muitas outras pessoas aceitámos ou defendemos em nome da democracia, foi um fracasso histórico. Não apenas porque o Iraque está ainda longe da tal democracia, o que se poderia atribuir a um problema cultural do Islão, mas porque se legitimou aos olhos do mundo inteiro com uma mentira.
Esta é a crítica mais forte que se pode fazer ao desprezo pelos direitos da realidade. Esta, e a questão nunca verdadeiramente debatida da "guerra preventiva". Não é o ridículo, e desmentido pelos factos, "eles mentem, eles perdem".
Perdemos todos.
E muito antes.
Adenda: a crónica já está no Cinco Dias.

Pergunta

Mais uma entrevista a Vasco Pulido Valente. O mesmo problema. VPV volta a confirmar o carácter secundário e paroquial da história do Portugal moderno. Mas enquanto historiador foi à história portuguesa que se dedicou. Nesta entrevista, VPV explica que, quando era aluno, nas Universidades portuguesas não se aceitavam teses sobre a Europa. Dir-se-ia que não teve alternativa. Contudo, doutorou-se em Inglaterra, não em Portugal. Se sempre manteve este julgamento sobre a história de Portugal, porquê insistir toda uma vida no mesmo assunto? Em Inglaterra teriam aceite uma tese sobre outro tema qualquer, por exemplo a tal "Europa". O mesmo se poderia dizer dos anos que entretanto passou em Portugal, período em que tudo o que escreveu vendeu que nem pão. Só VPV poderia vender centenas de cópias de um livro maçador como a biografia de Henrique Paiva Couceiro. Em suma, teve tudo para escrever sobre a história dos palcos onde se decidiu o destino do mundo, e não o fez. Pergunta: porquê?

sábado, 17 de Novembro de 2007

Os Loucos Anos 80 (25)

Tinha 13 tenros anos quando saíu o álbum If I Should Fall from Grace with God, dos irlandeses Pogues. Não conhecia nada dessa banda, nem sequer, para ser sincero, da Irlanda. Desde então, a admiração pela banda diminuiu, mas cresceu a atracção pela narrativa irlandesa da sua nação.

De resto, ainda hoje ouço duas faixas de If I Should Fall from Grace with God. Não a maluqueira de "Fiesta" - esgotada na minha cabeça por repetições excessivas -, mas os inesquecíveis "Thousands are sailing", cujo refrão canta assim:

Thousands are sailing
Across the western ocean
To a land of opportunity
That some of them will never see
Fortune prevailing
Across the western ocean
Their bellies full
Their spirits free
They'll break the chains of poverty
And they'll dance

e "Medley Song", que começa assim:
As i was walking down the road
A feeling fine and larky oh
A recruiting sergeant came up to me
Says he, you'd look fine in khaki oh
For the king he is in need of men
Come read this proclamation oh
A life in flanders for you then
Would be a fine vacation oh
That may be so says i to him
But tell me sergeant dearie-oh
If i had a pack stuck upon my back
Would i look fine and cheerie oh
For they'd have you train and drill until
They had you one of the frenchies oh
It may be warm in flanders
But it's draughty in the trenches oh
... Well i winked at a cailin passing by
Says i, what if it's snowing oh
Come rain or hail or wind or snow
I'm not going out to flanders oh
There's fighting in dublin to be done
Let your sergeants and your commanders go
Let englishmen fight english wars
It's nearly time they started oh
I saluted the sergeant a very good night
And there and then we parted oh

sexta-feira, 16 de Novembro de 2007

Por que não te calas?!

A actual responsável da Casa Pia deu ontem uma entrevista à Judite de Sousa, que estranhamente não provocou grandes reacções, mas que me deixou intranquilo e um travo amargo.

A Dra Joaquina Madeira não só usou vários termos infelizes - como «abuso ou uso indevido» de crianças - como revelou uma atenção descentrada das vítimas. Por exemplo, quando manifestou desconforto e apelidou de «desproporcionados e infelizes» os alertas públicos (de Pedro Namora e Catalina Pestana) para indícios de abusos que, primeiro, negou e depois verificou, afinal, existirem.

Revelou maior preocupação em não acusar os abusadores («porque têm os seus direitos») do que inquietação e identificação com as vítimas. Maior empenho em tranquilizar os funcionários, do que em assegurar protecção às vítimas. Um esforço mais persistente em silenciar o escândalo do que em solicitar apoios para pôr fim ao drama. Enfim, uma mãe muito zelosa talvez da sua carreira, mas demasiado fria em face do drama dos seus.

"O processo que ameaçou o regime" começou por levar à não recondução do Procurador-Geral da República; levou, depois e segundo dizem, a uma alteração da Lei Penal cirurgicamente pensada para aliviar arguidos; tem conduzido, finalmente, à colocação de peças cirúrgicas em torno de todo o processo. Todos os responsáveis parecem ir num único sentido: o silêncio.

Serve para servir os seus

Em jeito de resposta ao camarada Paulo Marcelo:
"People of the same trade seldom meet together, even for merriment and diversion, but the conversation ends in a conspiracy against the public, or in some contrivance to raise prices.

It is impossible indeed to prevent such meetings, by any law which either could be executed, or would be consistent with liberty and justice. But though the law cannot hinder people of the same trade from sometimes assembling together, it ought to do nothing to facilitate such assemblies; much less to render them necessary."
Adam Smith
Por mim, obviamente demito-a.

Luís Filipe Às Vezes

Menezes é uma lufada de ar fresco na política portuguesa.
Um furacão de ar fresco.
Ontem de manhã estava contra o pacto para a Justiça com o Governo, à tarde já estava a favor.
Ou vice-versa, não me lembro.

Para que serve a Ordem dos Advogados?

A Ordem dos Advogados, a mais antiga ordem profissional do país (1926), tem eleições marcadas para o final de Novembro. Dois caminhos se colocam para o futuro: assumir os interesses corporativos e ser uma força de bloqueio às reformas do sistema de justiça; ou, pelo contrário, perceber a necessidade dessas reformas e assumir um papel construtivo e liderante da mudança.
A Ordem serve, essencialmente para ser um auto-regulador da profissão, garantindo a qualidade técnica e deontológica dos serviços jurídicos prestados aos cidadãos. Só isso justifica os poderes públicos em que está investida. Isto porque o mercado por si só não funciona: é necessário regulação para compensar os desequilíbrios existentes. E quais são eles?
O principal é o excesso de advogados. Em Portugal existe um advogado por cada 360 habitantes, o que é superior à média europeia. Para evitar que a massificação conduza à perda de qualidade, a Ordem deve seleccionar e fiscalizar. É inevitável um exame de acesso ao estágio de advocacia – compatível com a liberdade de escolha da profissão (art. 47.º CRP).

Para ler mais vejam o meu texto no Diário Económico.

quinta-feira, 15 de Novembro de 2007

Coisas viradas p'rá lua

Já me havia perguntado por onde andaria o Presidente da CML. E eis que, antes mesmo de me permitir publicitar esta minha curiosidade, o senhor (re) aparece.
Está vivo, afinal, e parece que de saúde.
Surge, no entanto, para anúncios arriscados. Trocas de cadeiras, nas empresas municipais, o que é sempre susceptível de acusações de amiguismo, de aparelhismo ou, no limite, de socialismo.
Se assim fosse, a primeira hipótese seria desmentida, a segunda refutada e a terceira "de gargalhada" pois o socialismo já está esquecido e a troca de cadeiras é coisa de toda a gente.
Assim sendo, o senhor Presidente dá finalmente a cara e logo, como dizia, para anúncios arriscados. Acontece que o momento não podia ter sido melhor, mercê da actuação do Minstério Público.
O futuro nos dirá se havia ou não papéis «fechados à chave» na SRU Oriental e se, para além disso, outras irregularidades se revelarão.
O que quero destacar é esta espantosa coincidência de agendas, que me levam a crêr que António Costa nasceu, de facto, com a carreira virada para a lua. Só não sei como descrever a coincidência:
Foi a Câmara que agendou a deliberação para momento coincidente com a actuação do MP ou foi o MP que decidiu agir no momento em que a CML se dispôs a deliberar?
Não interessa, não é? Coincidências são coincidências. E ponto final.

quarta-feira, 14 de Novembro de 2007

Não Há Como Escondê-lo.

Imagem: Liceu Salazar em Lourenço Marques, Moçambique.

Passou ontem na RTP1 o 5.º episódio da série documental A Guerra. Mais uma vez ficou provada a sua qualidade. No entanto, queria deixar uma nota. Parece óbvio aos nossos olhos de hoje, como aos de muita gente nas décadas de 1950 e 1960, que o colonialismo português foi extremamente violento [porque usava e abusava da violência física e psicológica e porque era racista (em si mesmo uma violência atroz)]). Mas sendo verdadeira e indiscutível esta avaliação, não deixei de pensar enquanto via o documentário, como, comparativamente, e como reconheceu ao menos um entrevistado angolano negro, o colonialismo português foi, afinal, pouco violento e pouco racista.
Se analisarmos a experiência do colonialismo português em Moçambique e em Angola no pós-Segunda Guerra Mundial e o compararmos com colonialismos de feição e natureza idêntica como foi o da França na Argélia, o da Bélgica no Congo, o do Reino Unido no Quénia ou nas duas Rodésias (actuais Zâmbia e Zimbabwe) ou o da África do Sul na própria África do Sul ou na Namíbia, é indiscutível que a experiência colonial portuguesa foi uma brincadeira de crianças. Isto será ainda mais evidente se em algum episódio da série se analisar a partir de factos a obra colonizadora portuguesa produzida naqueles dois territórios a partir da década de 1950. Não me refiro apenas às obras públicas, à industrialização, aos índices do comércio externo, à modernização dos sectores agrícolas e pecuário ou às elevadas taxas de crescimento económico. Refiro-me, por exemplo, à riqueza da vida cultural, à dinâmica e à mobilidade social ou à qualidade dos cuidados de saúde prestados. Como se não bastasse, em tudo isto e muito mais, Angola e Moçambique dos dias de hoje estão a anos luz da realidade que os portugueses de lá e de cá deixaram para trás em 1974 e 1975. Quanto ao racismo e à violência, já para não falar na miséria material e moral dos povos angolano e moçambicano, é óbvio que qualquer um destes fenómenos é hoje muito grave e dramático do que aquilo que era há 40 ou 50 anos. A história faz com que andemos. Muitas vezes porém, faz com que andemos para trás. Foi isso que aconteceu e ainda está a acontecer em Angola e em Moçambique nos dias de hoje. E não há como escondê-lo!

Da série "Cachimbos de Lá"

Georges-Pierre Seurat, Domingo à Tarde na Ilha de La Grande-Jatte (1886)

O voo dos abutres

Among the calamities of war may be jointly numbered the diminution of the love of truth, by the falsehoods which interest dictates and credulity encourages.
Samuel Johnson, 1758.
Está nas primeiras páginas do The New York Times, o registo sepulcral e oráculo das desgraças vindouras da guerra civil iraquiana (retreat, retreat!). É anunciado nos escritos de Seymour Hersh, cego pela luz do horror que há-de vir, que escapou por uma estreita fenda no muro da Grande Conspiração Militarista. É ingrediente habitual nas colunas de Maureen Dowd, as sopas azedas que alimentam a paranóia histérica dos castrati de East Village. É a certeza de um ataque militar ao Irão, acto último da hubris americana, a vertigem fatal que antes da eleição presidencial de 2008 arrastará para o abismo o Golfo Pérsico e levará consigo o mundo civilizado, por retaliação e estrangulamento no abastecimento petrolífero.

Sabemos, porque de tal somos diariamente ‘informados’, que a administração Bush Jr./Cheney é ‘militarista’. Certamente é-o o suficiente para os dirigentes políticos iranianos tomarem a ameaça de uma acção militar preventiva como credível. Sabemos, pelos fazedores de opinião liberais, que o ‘militarismo’ presidencial é um prenúncio de desgraças para o mundo.

Sucede que o almirante William Fallon deu, há dois dias, uma entrevista ao Financial Times, onde: a) garantiu que não há nenhum ataque preventivo ao Irão em preparação; b) referiu a acentuada diminuição do número de ataques terroristas e do número de mortos civis deles resultante no Iraque –um facto estatisticamente indesmentível. Era de supor, pelo amor extremo que os liberais americanos têm à paz, que declarações tão significativas feitas pelo comandante do CENTCOM teriam amplo destaque nas primeiras páginas dos principais jornais norte-americanos. Dois dias depois, apenas um enorme silêncio. É caso para colocar a clássica interrogação de Lenine: quem beneficia com isto?

Não é difícil perceber que o ‘mal do mundo’ dará aos Democratas a eleição presidencial de 2008. Num cenário de dificuldades no abastecimento petrolífero e de activação das células terroristas controladas pelos iranianos, a eleição presidencial estaria decidida e ganha à partida. Por antítese, o mais ténue vislumbre de melhoria na guerra civil iraquiana diminui a eficácia do libelo Democrata à condução actual da política externa –e retira-lhes o único argumento nessa matéria decisiva.

Ironicamente, o ódio histérico com que a imprensa ocidental trata, por atacado, a actual presidência americana, poderá ter exercido uma influência importante sobre os dirigentes iranianos, levando-os a tomar como credível a ameaça de uma acção militar preventiva –uma ameaça irracional, se for considerado o dano que uma tal operação causaria nesta fase ao partido republicano, aos EUA e ao ocidente. Ao fazê-lo, levou a liderança iraniana a moderar politicamente o terrorismo xiita em território iraquiano. A resposta política americana veio agora, pela voz do almirante Fallon. Os militares, sobretudo as mais altas patentes, não têm agenda política própria: o ‘recado’ é de Washington para Teerão e o transmissor foi cuidadosamente escolhido. Por agora, a ameaça de uma acção militar contra o Irão está afastada.

Aliás, é provável que sempre tenha estado, mas ao ser colocada na mesa serviu um propósito útil, aos EUA e ao mundo, trazendo os iranianos para uma negociação indirecta e criando, pela primeira vez desde 2003, uma perspectiva de melhoria da situação no Iraque e no Golfo Pérsico. Os próximos passos nesta elaborada (e fascinante) dança política serão interessantes, talvez mesmo surpreendentes.

O voo dos abutres assinala a presença de um cadáver e atrai predadores interessados. Desta vez os abutres Democratas foram enganados pelo falso cadáver político da presidência Bush. Na década de 80, quando os Democratas perceberam que a política de Reagan face à URSS corria o sério ‘risco’ de ser bem sucedida, entraram em pânico. São conhecidas as viagens de Edward Kennedy a Moscovo, bem como as propostas de ‘colaboração’ que levou ao Kremlin. Nancy Pelosi já voou até Damasco. Não parece ter sido suficiente. Veremos se voará ainda mais longe, até Teerão. São determinados, os abutres. E nunca devem ser esquecidos.

O Picoito errou

No post de boas vindas ao Fernando Martins, esqueci-me de dizer que ele tem um blogue muito recomendável e merecedor da vossa visita. Chama-se Desconcertante.
(Espero que o link esteja certo, ou é desta que me põem a andar.)

Democracia em directo

O problema resolveu-se de ontem para hoje.
De acordo com o Público, o Ministério das Finanças já disponibilizou a verba para renovar os tais contratos de tarefa que permitem ao Museu de Arte Antiga e ao Museu de Arqueologia não fechar salas ou não encerrar ao almoço.
É um remendo, porque se mantém a falta de pessoal (e não falemos de outros museus com menos visibilidade), mas tapa os buracos durante uns meses. Depois logo se vê, como de costume.
Os milagres que uma notícia de jornal opera sobre a burocracia...

terça-feira, 13 de Novembro de 2007

Mas teremos sempre o Hermitage

A notícia não é nova e a minha renovada surpresa também não: o Museu Nacional de Arte Antiga e o Museu de Arqueologia vão fechar salas temporariamente, ou fechar pura e simplesmente à hora do almoço, por falta de funcionários. Será "catastrófico" para o esforço de captação de público que tem vindo a ser feito, como diz o director do museu de Belém, Luís Raposo. A Ministra da Cultura, com a sua célebre lealdade estalinista aos subordinados, já veio dizer que a culpa é de Manuel Bairrão Oleiro, director do Instituto dos Museus. Este abstém-se de comentar.
O problema, ao que parece, é que os contratos de tarefa de muitos dos ditos funcionários chegaram ao fim e o Instituto dos Museus não se lembrou de os renovar a tempo. Deveria ter pedido autorização ao Ministério da Cultura, que por sua vez encaminharia o processo para o Ministério das Finanças, o qual nunca responderia em menos de uma semana.
Burocracias.
Afinal, Dalila Rodrigues tinha alguma razão quando pedia autonomia...

"A Visão Depois do Sermão"

O João Gonçalves e Pacheco Pereira acertam em cheio: o "puxão de orelhas" (adoro esta expressão e vamos admitir, por momentos, que foi isso) de Bento XVI aos bispos portugueses recorda aos mais distraídos que vivemos tempos novos. Tempos em que a fé já não é apenas uma tradição, mas o passaporte para uma minoria.
Tempos interessantes, portanto. As minorias são sempre mais combativas, porque estão sob ameaça, e mais criativas, porque lhes falta o número. Agora não se trata de perder por poucos, mas de começar do zero. O horizonte é uma civilização pós-cristã. "Vai ser uma luta rua a rua, porta a porta", diz com graça e razão o Filipe Nunes Vicente .
Pode ser que a próxima batalha não seja perdida por falta de comparência.