Um dos problemas que vejo em toda esta discussão sobre a economia, politica e sociedade é a recusa das pessoas, de ambos os lados da barricada ideológica (e os centristas, que vão todos para o inferno), em aceitar a realidade de que algo fundamental está a mudar. Seja qual for a orientação política, a maioria tende a culpar o “outro” pelo estado atual do país, numa retórica que visa unicamente voltar aos bons tempos do passado, quando as coisas eram supostamente melhores (ou seja, por volta do reinado de D. Manuel I) …
O estado atual da sociedade portuguesa e as causas deste descalabro, não são propriamente uma revelação para a maioria. Sentimos na pele e vemos com os nossos próprios olhos diariamente, no entanto existe um sentimento sufocante de irreversibilidade a permear a psique nacional. As frases que mais ouço são: “O pior ainda está para vir”, e “não há nada a fazer”.
Vou tirar alguns minutos aqui para ser honesto com o leitor, algo que nunca sou quando escrevo neste espaço (afinal de contas os tachos são para se manter) … proponho que tratemos os nossos problemas como axiomas, e que arranjemos maneira de os tornar em novas oportunidades e não nos “asteroides em rota de colisão” que atualmente são.
Vejam a economia, tanto a direita como a esquerda falam desta como se não fosse possível ou desejável voltar atrás no tempo, para uma era utópica de expansão industrial, comercial e social. Tanto o modelo capitalista como o socialista ocidental, são baseados num modelo de economia de mercado cada vez menos relevante.
Porque devemos nós continuar dependentes do sector privado ou público para nos resolver os problemas? Porque não voltar a um conceito de economia de pequena escala, sustentada por bases económicas locais e regionais sólidas? De facto, deveríamos abandonar por completo o conceito de economia de mercado e voltar a um tempo mais simples e mais baseado pelo que realmente produzimos.
Admito que qualquer “downsizing” da economia, e a possibilidade da fila do centro de desemprego é assustadora, no entanto (e sejamos honestos)… quantos de nós querem trabalhar numa fábrica ou cubículo? No entanto são esses os empregos que nos são oferecidos pela economia de mercado, são esses os empregos que o nosso governo idealiza e procura como solução para escaparmos da crise.
Independentemente da ideologia política no poder, a estrutura do emprego é puramente baseada na hierarquização, na produção em grande escala, no centralismo e na conformidade. Conceitos e valores que nos levam pela mão num círculo de estagnação económica e social.
Está mais do que na altura de questionar as grandes “verdades” da sociedade moderna… a empresa, a educação, a saúde, o modelo de estado-nação e acima de tudo, o modelo monetário. Não defendo a completa abolição dos modelos atuais… numa gloriosa revolução neomarxista. Estes já estão a morrer pela própria mão, simplesmente devemos promover uma mutação destes modelos para algo mais apropriado aos tempos que correm, mais sustentável, mais pequeno.
Concluo este post, não com soluções concretas (não sou suficientemente bem pago para tal), mas com a simples proposta de que olhemos para a “crise”, não como o fim do mundo… mas como o fim de um “paradigma” desatualizado.