
Ao menos esta falta de vergonha ainda me fez rir bastante. A outra, a que anda para aí, é absolutamente miserável.

Cemitério do Pére-Lachaise (Paris). Imagem "emprestada" da net. Não por um qualquer pensamento tétrico (internacional, nacional, local ou pessoal), mas pela singularidade do espaço. E porque me apetece.
A propósito do
Pritzker de Souto Moura (grande malha e motivo de profundo regojizo), a imagem e recordação de um dos meus edifícios favoritos:

Um monumento ao engenho, capacidade e também à mudança e capacidade de adaptação da Humanidade. Lembrança para os tempos que correm.

É o melhor da série Allon, mas só o é por toda a bagagem que tem. Comecei com Daniel Silva da forma mais banal possível: um paperback antes de uma viagem, porque na contracapa misturava a Segunda Guerra Mundial (pois) e o Vaticano. E quando dei por ela tinha ido tudo de rajada, a terminar com este último (que deverá ser mesmo o último). Merecia filme(s), mas agentes secretos da Mossad, tirando o Zohan, não devem ter muita sorte. Mesmo que ao longo dos 3 ciclos dos livros (nazis, fundamentalismo islâmico e a emergência da Rússia) se aborde, muitas vezes sem outra agenda que não a de um escritor que pensa pela própria cabeça, temas "filmáveis" e sobretudo discutíveis. A melhor parte: não só Gabriel Allon por vezes se engana e é enganado como, por vezes, a coisa acaba mal. Chamemos-lhe realismo possível. A ler.

Mais um regalo para os olhos este filme canadiano sobre um jovem que acha que é a encarnação de Trotsky. Verdadeiramente corrosivo, nada moralista e muito assertivo, a pretexto de uma quase-paranóia (notável papel de Jay Beruchel), temos direito a um excelente filme político, com teenagers, feito com consciência suficiente para, passe o pleonasmo, alertar consciência. Há momentos hilariantes (a obsessão com a imitação fiel da vida de Trotsky, a família de Bronstein), há momentos bem apanhados (o desfazamento entre a política dos "mais velhos" e a percepção dos teenagers do dia de hoje). Para quem gosta de Política e quem não desdenha uma comédia inteligente, uma obra que pode não ficar para a História, mas que bem podia ser vista como material didáctico.

Woody Allen foi muito feliz em Londres. Mas isso foi uma vez. Agora regressou e a coisa, aparentemente, não correu nada bem. Para além de ver Brolin, Hopkins e Banderas a imitar os tiques de Allen, o argumento, com meia-dúzia de momentos bem conseguidos, parece que não consegue descolar e, pior, parece que se contenta em andar à voltas na pistas. Mas é preciso voltar à citação de Shakespeare que justifica o filme e as coisas começam a encaixar:"a vida é uma história contada por um idiota, cheia de som e fúria, e que não significa nada". Todos os protagonistas (uns mais conseguidos que outros), falam, falam ou deixam-se enfurecer, mas no fim, nada do que possam fazer contraria aquilo que a vida lhes reservou. Ou seja, voltando ao início, e sem esta deixar de ser uma obra menor de Woody Allen, não deixa de merecer alguma atenção. Não pela composição de personagens (sobressaí Naomi Watts), mas sobretudo pela premissa do argumento e, pensando melhor, pelos minutos finais e pelas suas inconclusivas conclusões.

Adaptação muito livre da realidade, mas nem por isso deixa de ser um thriller soberbo. A grande surpresa é, obviamente, Kusturica, que compõe um anti-herói de antologia que ofusca todos os demais. E ainda há um pequeno bónus com a Diane Kruger. Mas fora esses apontamentos (e a caricatura americana de Reagan), o Caso Farewell prende-nos bem a uma história sólida, com reviravoltas credíveis qb. A não perder.

Para lá do mainstream americano há muita qualidade. Sundance normalmente é uma excelente montra. E este Cyrus é um excelente exemplo. Argumento simples, elenco de qualidade e reconhecido e uma história sobre relações sem piadolas mas com muita piada. Vale bem a pena.

Porque um clássico é sempre um clássico. E este é um dos filmes da minha vida. Tem o cenário perfeito, o argumento irrepreensível, as interpretações sem mácula, a banda sonora ideal e tudo funciona. Não há momento que seja mau, não há maus/bons, há uma história terrivelmente humana sobre a dignidade, a honra, o amor e a amizade, tudo feito como nunca tinha sido feito antes e nunca voltou a ser feito depois. E já lá vão 70 anos. E foi mesmo o início de uma bela amizade. A esse propósito, a comprovar a universalidade do filme, lembrem-se de uma cena de "Gato Preto, Gato Branco", quando dois dos protagonistas mais velhos do filme imitam o imortal final do filme. O que vale é que teremos sempre Casablanca.
I
lsa: I wasn't sure you were the same. Let's see, the last time we met...Rick: Was La Belle Aurore.Ilsa: How nice, you remembered. But of course, that was the day the Germans marched into Paris.Rick: Not an easy day to forget.Ilsa: No.Rick: I remember every detail. The Germans wore gray, you wore blue. Yvonne: Where were you last night?Rick: That's so long ago, I don't remember.Yvonne: Will I see you tonight?Rick: I never make plans that far ahead. Ilsa: I can't fight it anymore. I ran away from you once. I can't do it again. Oh, I don't know what's right any longer. You have to think for both of us. For all of us.Rick: All right, I will. Here's looking at you, kid.Ilsa: [smiles] I wish I didn't love you so much. Captain Renault: What in heaven's name brought you to Casablanca?Rick: My health. I came to Casablanca for the waters.Captain Renault: The waters? What waters? We're in the desert.Rick: I was misinformed. Rick: Louis, I think this is the beginning of a beautiful friendship.

Toma lá e embrulha para as vezes que disseste mal do Ben Affleck!Thriller muito bem conseguido (recomendo a versão longa - são minutos que ajudam ao embrulho) e que mostra que o jovem, apesar do enervante sotaque de Boston à frente da câmara, atrás dela soube contar uma história com pés e cabeça (argumento notável), sem cair nem no choradinho, num registo que lembra a contenção de Bank Job bem como a intensidade dramática de Infliltrados, embora não seja tão bom como estes dois, mas não envergonhando. a "herança" Seja como for, recomendo vivamente aquele que está, por mérito próprio, na galeria vintage de 2010.

Quando, no fim, se vê Traudl Junge a dizer que, se calhar, deveria ter feito outra escolha e que, se calhar, podia ter sabido mais, vi este filme de um prisma completamente diferente daquele com que o vi da primeira vez. As excelentes interpretações estão lá (excepcional Bruno Ganz), o ambiente surreal também (e este é daqueles filmes para se ver em cinema), mas houve mais desde a primeira vez que o vi. Talvez mais livros sobre o quotidiano da Alemanha Nazi, sobre as responsabilidade de todos numa comunidade. E no fim, perante aquela meia-assumpção de culpa, de responsabilidade, senti-me ligeiramente incomodado. Com o facto de ter sido, de ter passado e de quem estava ao lado de Hitler, mesmo sem poderes, poder negar que conhecia ou que sabia a monstruosidade que aquele regime representava. Quanto à humanização do Monstro, continuo a não a sentir. Não é por se mostrar Hitler a sorrir, a chorar, entregue aos mais variados sentimentos que deixo de sentir que há ali um homem. Um monstro, por certo, mas um homem que, com o poder que ele procurou e lhe sancionaram, fez a cicatriz mais horrenda da História da Europa. Indispensável.

Hundertwasserhaus, Viena, Fevereiro de 2008. Desde que vi "Antes do Amanhecer" e mesmo antes de ler, com olhos de ler, "O Terceiro Homem", Viena estava na lista de destinos a visitar. Aliás, só não casei lá, porque Roma foi mais lesta a responder (nalguma coisa os latinos haviam de funcionar bem). Quanto à cidade, e para além do frio absolutamente doentio, da descoberta que um panado pode ter um nome fino, do facto de espalharem obras do Klimt por vários museus e dos cafés (meu ser que supostamente está lá em cima e comanda a vida), os cafés, ficam algumas coisas curiosas: o roteiro do "Antes do Amanhecer", com a excepção do cemitério e o parque de Augarten, de onde sobressai uma gigantesca torre anti-aérea, herança da 2ª Guerra Mundial. O resto é Ópera, palácios e o esplendor dos Habsburgos numa cidade que, volto a dizer, nunca mais foi a mesma desde que a conheci pelos olhos de duas personagens de ficção. (Há voos baratos para Bratislava - e o pequeno-almoço do Hotel Kyev que podem ser uma hipótese para uma escapada diferente para o centro da Europa. Longe do Inverno.)

A premissa é interessante: a incapacidade de ver o mal (na reacção com a diferença) como mal mas apenas como devaneio, curável com medidas mais ou menos brutais, em termos comunitários é coisa para dar mal resultado (a ligação dos acontecimentos à adesão ao nazismo, embora ténue, está lá). No entanto, não eram precisas mais de 2 horas de preto e branco para explorar a ideia. Reconhece-se a mais valia da fotografia mas pouco mais para uma história que sendo boa, não deixa de resistir a uns toques de pretensiosismo. O filme, em si, não é mau. Mas há que ter uma bela dose de paciência.