Sábado, Julho 02, 2011

O arte bruta dos Art Brut


O nome fica-lhes bem. Que é como quem diz: há nos Art Brut (banda anglo-germânica sediada em Berlim) uma nostalgia primitiva do rock que lhes confere a energia própria de um som não alinhado, cru e desencantado, ainda que recheado de pequenas utopias românticas.
Brilliant! Tragic!, opus 4 da banda, é a confirmação das promessas acumuladas desde Bang Bang Rock & Roll (2005), além do mais com uma capa que fica, desde já, como uma das melhores do ano — é seu autor o brilhante Jamie McKelvie. Como cartão de visita, eis o teledisco de Lost Weekend, dirigido por Alex De Campi.


>>> Site oficial dos Art Brut.
>>> Site oficial de Jamie McKelvie.
>>> Site oficial de Alex De Campi.

Reportagens de televisão: que linguagens?

GERHARD RICHTER
Fotografia pintada - Sem título, 1994
1. Um dos efeitos mais correntes da rotina televisiva é o bloqueio de qualquer reflexão sobre as próprias linguagens televisivas [este texto integra parte de uma crónica de televisão publicada no Diário de Notícias, 1 de Julho]. Em boa verdade, querem fazer-nos crer que a televisão possui uma espécie de acesso cândido e incontestável à "verdade" do que quer que seja... Porquê? Apenas porque alguém colocou uma câmara "à frente" de algum evento, como tal nomeado e registado.

2. Por exemplo: porque é que se continuam a fazer “reportagens” com duas ou três pessoas, algures no meio da rua, dizendo-se que “fomos ouvir a opinião dos portugueses”?... Como? E porque é que, quase sempre, se tratam essas pessoas como se tivessem 4 ou 5 anos de idade mental? Que jornalismo é este?

3. Na prática, a maioria dos discursos televisivos não pára de proclamar a necessidade moral (quase sempre obscenamente moralista) de julgar & punir os outros. Quando se trata de pensar os modos televisivos de representar o mundo e, mais do que isso, ocupar os seus circuitos de comunicação, aí a televisão assume-se como uma imanência. No limite, uma religião mediática.

Discos Voadores hoje, no Incógnito


Os Discos Voadores regressam hoje ao Incógnito. A música começa a ouvir-se depois da meia noite e tal... Até mais logo!

PM Dawn, 1991


Formados por dois irmãos, os PM Dawn chamaram atenções em 1991 com um álbum que circulava entre os caminhos do hip hop e os da música pop. Of the Heart, of the Soul and of the Cross: The Utopian Experience teve no single Set Adrift On Memory Bliss, que samplava o clássio True, dos Spandau Ballet o seu principal cartão de visita. Mas hoje recordamos aqui outro single que se fez ouvir há 20 anos e no qual as vitaminas pop tiveram novamente claro protagonismo.

Mais um volume...

Discografia Brian Eno - 20
'Ambient 4 - On Land' (álbum), 1982


Brian Eno editou em 1982 o volume 4 da série Ambient. O disco desenvolve e aprofunda as demandas encetadas em títulos anteriores, procurando definir uma mais expressivca ideia de tensão. As teclas dos sintetizadores e sons captados na natureza sugerem linhas e texturas num espaço onde Brian Eno contou com uma série de importantes colaborações. Entre os músicos que participam no disco contam-se nomes como os de Jon Hassell, Bill Laswell, Michael Brook ou Daniel Lanois.

Sexta-feira, Julho 01, 2011

O "western" nunca existiu


Dir-se-ia que o western nunca existiu... Ou, pelo menos, a sua mitologia redentora. O Atalho (título original: Meek's Cutoff) começa por ser um western de inspiração clássica: um grupo de pioneiros atravessa uma paisagem agreste, tentando encontrar o lugar exacto da sua fixação. E, no entanto, tudo parece diferente: primeiro, porque a paisagem se repete no mesmo enigma sem transcendência; depois, porque a viagem não tende para nenhum sentido transcendental; enfim, porque as relações humanas existem numa espécie de limbo dramático tecido de muitas solidões.
Kelly Richardt consegue, assim, a proeza de refazer o western como uma impossibilidade de si mesmo, um género através do qual contemplamos a história, tanto quanto o sentido de irrisão que pode habitar as suas lendas. É um filme fora de tudo, alheio a modas ou tendências, genuinamente independente.

Ao vivo (mas em estúdio)


Foi uma das grandes revelações de 2010. Twin Shadow regressa hoje ao Sound + Vision com uma sessão ao vivo gravada recentemente no Rad Studio, em Brooklyn, da qual chegam imagens de Tyrant Destroyed, a faixa de abertura do seu álbum de estreia. A realização coube a Josh Ascalon.

Sobre as lojas de discos...


Esta semana a coluna no site Dinheiro Vivo fala das lojas de discos. Partindo concretamente de vivências em viagem e de como, num intervalo de alguns anos, pedir a um amigo que traga um disco quase deixou de ser coisa que faça sentido...

Podem ler aqui.

Novas edições:
Jean Michel Jarre, Essentials & Rarities


Jean Michel Jarre
“Essentials and Rarities”
Les Disques Dreyfus
3 / 5

O nome de Jean Michel Jarre atravessou já várias etapas de relacionamento com diversos públicos. Pioneiro numa forma pop de encarar as electrónicas nos setentas viu-se, nos anos 80, transformado ora no artista que fez de Music For Supermarkets um disco editado com uma só cópia, ora no protagonista de grandes eventos de som e luz. A partir dos noventas perdeu contudo, e progressivamente, alguma visibilidade... À medida que se ia reinventando enquanto autor, foi espaçando a edição de nova música entre registos ao vivo e uma série de ‘best of’... Ao longo da sua discografia são já várias as antologias que Jean Michel Jarre assinou. Mas desta vez, porém, propõe um “pacote” diferente. Essentials and Rarities é um dois em um. O primeiro dos discos é um simples ‘best of’ evocando sobretudo os tempos históricos de Oxygene, Equinoxe, Magnetic Fields ou Zoolook, juntando depois uma discreta representação de composições posteriores. Rarities, como o título sugere, é um percurso por caminhos menos visitados. Na verdade o segundo CD desta antologia (também disponível separadamente) permite-nos (re)descobrir o Jean Michel Jarre pré-Oxygene, através de uma sucessão de gravações originalmente efectuadas entre 1968 e meados dos anos 70, algumas das mais remotas correspondendo ao período em que trabalhou ao lado de Pierre Schaeffer, um dos mais importantes pioneiros da música electrónica. Do single La Cage (diálogo para percussões e electrónicas) de 1971 à banda sonora de Les Granges Brûlées (1973), de vários fragmentos do álbum Deserted Palace (1972) a Black Bird (lado B de um single que editou em 1972 sob a designação Jammie Jefferson and the Popcorn Orchestra), Rarities soma ainda ao passado duas novas remisturas de Vitalic. Mais interessante enquanto memória da uma pré-história de uma identidade (que só emergiria devidamente estruturada em 1976) que como espaço de deleite musical, Rarities é contudo o elemento que justifica a pertinência de mais esta antologia de Jean Michel Jarre.

Uma casa 'indie'


Na cidade que viu desaparecerem as grandes lojas de discos (como a Tower Records ou a Virgin Megastore), cabe hoje a pequenos espaços, essencialmente vocacionados para nichos, a vitalidade de um mercado que outrora fazia de Novca Iorque uma das capitais mundias da agitação discográfica. E se há paragem obrigatória para o melómano, desde que em comprimento de onda indie, é certo, ela chama-se Other Music.

Fica na rua 4, entre a Broawday e a Lafayette Street. Não é muito grande, mas a oferta é atenta não apenas à novidade mas também aos fundos de catálogo que importam aos clientes dos gostos que serve. Noah Lennox, o Panda Bear dos Animal Collective, trabalhou ali em tempos.


Desde 2007 a Other Music juntou ao espaço da loja um serviço online para venda de música digital. O site apresenta ainda uma zona para venda postal de discos em vinil e CD.

Podem consultar o site oficial da loja aqui.

Pelas ruas de Nova Iorque (7)

New York City Boy
dos Pet Shop Boys (1999)


A vida nocturna nova iorquina foi maternidade para um dos mais importantes fenómenos na história da música de dança: o disco (que ali surgiu nos setentas). São muitas as heranças e os herdeiros desses ensinamentos. Entre eles os Pet Shop Boys, que revisitaram ecos das formas originais do disco num single que, de certa forma, evoca essas memórias formadoras do género, prestando homenagem à cidade que viu nascer esta música. Segundo single do álbum Nighlife, New York City Boy foi editado em Setembro de 1999.

Quinta-feira, Junho 30, 2011

"Transformers 3": para matar o cinema


São várias as razões que podem contribuir para que o cinema morra de uma morte mais ou menos prolongada e angustiada. Lembremos três:
1 - uma (des)educação de base, isto é, eminentemente social e política, que menospreza o cinema e se entrega à formatação televisiva.
2 - uma cultura televisiva que celebra a vacuidade de telenovelas e afins, secundarizando tudo o que tenha a ver com a especificidade cinematográfica.
3 - um tipo de jornalismo, em que se incluem algumas formas grosseiras de crítica, que reduz o cinema a um fenómeno anedótico e pitoresco, apenas caracterizado pela acumulação arbitrária de efeitos especiais.

* * * * *

Claro que, para além de tais factores, outros há que se empenham no mesmo assassinato cultural? Que factores? Pois bem, alguns filmes!!! Transformers 3 é um desses filmes: uma avalanche de ruído (visual e propriamente sonoro) que menospreza qualquer gosto narrativo e que, ao longo de 150 minutos, mais não faz do que repetir a lógica pueril de gratificação instantânea do seu próprio trailer.
Como é que um espectador formado (?) apenas a ver filmes como este se pode alguma vez interessar por um épico de Griffith, um drama de Bergman ou uma comédia de Jerry Lewis? A resposta é simples: não pode. Porquê? Porque não sabe e, sobretudo, porque foi educado para não querer saber.

Para fazer a festa


Os Belle and Sebastian viram um dos temas do seu mais recente álbum de originais ser remisturado por Richard X... E eis que I Didn't See It Coming surge devidamente acompanhado por um teledisco com animação de Bruce Cameron, Matt Saunders e Lesley Barnes. A realização é também de Leslie Barnes.

Novas edições:
You Can't Win Charlie Brown, Chromatic


You Can’t Win Charlie Brown
“Chromatic”
Pataca Discos
4 / 5

O panorama da música portuguesa, departamento pop/rock e periferias, conhece de vez em quando, frequentemente entre vagas de silêncios, episódios que transpiram sorrisos que contrastam um uma certa falta de auto-estima que muitas vezes cruza um falar muito local sobre o que por aqui se faz... E é ao som dos You Can’t Win Charlie Brown que se assinala, neste momento, um caso que começa a conquistar a dimensão de raro entusiasmo. Já por aí andam há algum tempo (longe ainda de coisa veterana, é certa). Estrearam-se com um EP que cativou algumas atenções. Ampliaram a formação, expandiram o quadro de identidades. E chegam agora a Chromatic com uma mão cheia de canções que faz deste um dos melhores álbuns de estreia que o panorama local viu nascer nos últimos anos. Aqui há diálogos entre o dedilhar das cordas das guitarras e as electrónicas, entre ecos de heranças folk e vicvências urbanas, entre a placidez de uma voz que canta histórias e climas mais coloridos que noutros instantes sugerem a festa. No pequeno texto com que se apresentam no Facebook fala-se de referências como Sufjan Stevens, Nick Drake, Bon Iver ou Grizzly Bear. Podem juntar o nome dos Animal Collective (embora pareçam buscar um lugar que não o da lógica circular em clima tribal dessa que foi a mais influente das bandas da primeira década deste século). Chromatic é um disco que mostra uma banda confiante e entusiasmada. É um pequena paleta feita de cores e belas canções. Como lembramos das histórias da personagem criada por Schulz que dá nome à banda, aqui se cruzam melancolias e sorrisos. Aparentes opostos que a revista francesa Les Inrockputibles apontou ao elogiar o disco, juntando mais um instante ao momento de polegar lecvantado que, merecidamente, o grupo vive neste instante.

Um parque com história


É o pulmão do Greenwich Village. Não que seja o único espaço verde no mais aprazível dos bairros de Manhattan. O Washington Square Park não só é um belo jardim como respira histórias e vivências feitas de música, palavras e ideais. Nos anos 60 foi palco para inúmeras apresentações de músicos folk. E ainda recentemente, durante a campanha das últimas presidenciais, espaço para um comício de Barack Obama.

Washington Square Park mora onde começa a 5ª Avenida e tem por base a rua 4. Em seu redor muitos dos edifícios pertencem hoje à NYU, a New York University.


Um aspecto geral do Washington Square Park em dia de acolher um evento. É frequente vermos muitos dos pequenos jardins de Nova Iorque a receber festas, concertos, encontros, sobretudo aos fins de semana.


Três olhares aqui em volta do Washington Square Park. O primeiro passando pelo arco que é talvez o seu mais característico ex libris. A imagem do meio corresponde a um dos edifícios da NYU.


O arco que domina a zona central do Washington Square Park abre passagem para o largo com o mesmo nome e define, à sua frente, a entrada na 5ª avenida. Criado à imagem do Arco do Triunfo de Paris, é a versão definitiva, datada de 1892, de um outro arco, em gesso, que ali fora levantado em 1889, a assinalar o centenário da tomada de posse de George Washington como primeiro presidente norte-americano.

Pelas ruas de Nova Iorque (6)

Manhattan
de Woody Allen (1979)


Um dos mais belos dos filmes de Woody Allen, Manhattan é um entre os muitos títulos da sua filmografia em que a cidade de Nova Iorque acolhe as suas histórias e personagens. A trama vivencial cruza-se aqui com uma série de olhares sobre a cidade, que vão da sequência que abre o filme à mítica cena ridada junto à Queensbroo Bridge. O famoso banco que a imagem registou já ali não está, o lugar agora acolhendo um espaço de estacionamento no início da rua 59. Mas uma rua abaixo (na 58, portanto), há um pequeno espaço de repouso entre casas, com um banco que quase faz a vez deste que Woody Allen imortalizou.

Lisboa entre as melhores cidades


Lisboa voltou a subir no ranking das cidades “mais habitáveis” do mundo que a revista Monocle apresenta todos os anos por esta altura. Depois de surgir classificada em 24º lugar em 2009 e de ter descido para 25º no ano passado, na edição deste ano Lisboa sobe para o 23º lugar. Este top, que avalia anualmente a qualidade de vida das cidades do mundo inteiro refere que os habitantes de Lisboa, em tempo de recessão “podem ser desculpados por nem sempre terem a disposição mais solarenge”. Fala-se de um panorama difícil para o comércio, mas com contraponto no bom clima. Refere-se uma subida de propostas ao ar livre, nomeadamente o reaparecimento dos quiosques e o mapa de novas esplanadas. O texto que apresenta o 23º lugar lisboeta aponta ainda o projecto de instalação de postos de carregamento para veículos eléctricos como outra das razões para a subida da cidade no ranking.

Helsínquia, a capital finlandesa, é este ano a melhor cidade do mundo, destronando assim Munique que, por sua vez, tinha há um ano tirado a posição mais alta da tabela a Zurique. O top ten inclui, depois de Helsínquia, Zurique (Suíça), Copenhaga (Dinamarca), Munique (Alemanha), Melbourne (Austrália), Viena (Áustria), Sydney (Austrália), Berlim (Alemanha), Tóquio (Japão) e Madrid (Espanha). A mais bem classificada das cidades americanas é Portland, no 18º lugar. Da Península Ibérica, além de Lisboa e Madrid está ainda classificada a cidade de Barcelona, em 14º lugar. Abaixo dos dez primeiros estão ainda referidas duas capitais europeias: Estocolmo (11º), Paris (12º).

Harry Potter, adulto


O filme final da saga de Harry Potter — Harry Potter e os Talismãs da Morte - Parte II (estreia: 14 de Julho) — tem uma magnífica frase promocional: "Tudo acaba". Não apenas porque nela se assume um redentor alívio, mas também porque o seu desejo de finitude contraria a lógica repetitiva de muitas sequelas. Em boa verdade, a frase consegue lidar com aquilo (o poder simbólico da morte) que os filmes contornaram sempre de forma mais ou menos pitoresca, saturada de pueris efeitos especiais.
Dito de outro modo: é no momento em que, finalmente, se revela capaz de integrar algo de friamente adulto (a certeza do fim) que Harry Potter nos abandona. What a pity... Como se prova, vivemos num mundo em que é perigoso crescer — o amor da infância desapareceu, dando lugar à infantilização militante.

Quarta-feira, Junho 29, 2011

Como se fosse um sonho


Depois da melancolia que assombrara o seu segundo álbum, os Noah and The Whale reinventaram-se ao som do álbum editado este ano. Life Is Life é o novo single. Aqui fica o teledisco.

Discos Voadores este sábado no Incógnito


Este sábado os Discos Voadores regressam ao Incógnito. A música começa a escutar-se depois da meia noite... E no comprimento de onda de sempre.

Novas edições:
Keren Ann, 101


Keren Ann
“101”
EMI
4 / 5

Tem ascendência israelita, holandesa e javanesa. Cresceu em Paris (onde deu os primeiros passos na música), mas acabou reclamada por Manhattan... Keren Ann tem discografia editada desde o ano 2000, tanto a solo como através do projecto Lady & Bird. Começou por cantar em francês, mas é em inglês que tem registado a etapa mais recente da sua obra, o novo 101 não fugindo por isso à norma. Tendo como cartão de visita o belíssimo My Name Is Trouble tudo poderia indicar que estaríamos perante um álbum pensado para um relacionamento com as electrónicas... A canção é, de facto, uma elegante trova pop, pincelada a teclas que acolhem a voz sempre tranquila de Keren Ann... Mas basta caminhar para lá da faixa de abertura (lançada antes do álbum como single de apresentação), para reconhecermos que outros são os destinos procurados por aqui. Se a pop marca presença, por exemplo, em Blood on My Hands ou Suger M**a, é contudo de uma eloquência baladeira que vive a o alinhamento de um disco que, acima de tudo, traduz um sentido de elegância. Já houve quem traçasse comparações com o recente (e muito recomendável, acrescente-se, Queen Of Denmark, de John Grant)... Há de facto em comum um gosto pela procura de uma ideia de moldura quase sinfonista, embora nunca sumptuosa, que acolha as canções, e um alinhamento que define percursos feitos de melancolia e tons menores. Canções como Strange Wether (com um piano na melhor escola Lennon), Song From a Tour Bus (que evoca mais de perto as experiências dos Lady & Bird), Run With You (em clima cinematográfica) ou Daddy You’ve Been On My Mind (que abre uma janela a ecos folk para voz e guitarra acústica) asseguram horizontes largos a um disco que confirma em Keren Ann como uma das grandes vozes reveladas pela França dos anos zero. Tudo isto, com cereja sobre o bolo na contagem decrescente que escutamos no tema-título, enumeração de números que passa por 90 isótopos estáveis... 79 episódios de Star Trek... 78 rotações por minuto, 49 noites de meditação... 35 soldados... 15 minutos de fama... 9 anéis de Júpiter... 7 dias da criação... 1 Deus...

Sound + Vision Magazine (2)

Foto: Flávio Gonçalves

Correu da melhor forma possível a segunda edição do Sound + Vision Magazine. Foi ontem ao fim da tarde, na Fnac Chiado. Como tema de abertura a recente actuação em Nova Iorque dos The Gift. Foi exibido o teledisco que acompanha o tema RGB e, presente na plateia, Miguel Ribeiro, elemento da banda, ajudou a completar o retrato. Nova Iorque foi, de resto, cidade visitada em algumas das outras escolhas de uma sessão em que foi ainda mostrado o teledisco de The Drowners dos Suede, chamando a atenção para a reedição dos álbuns da banda. As "escolhas" do mês foram, depois, as seguintes:

Discos
'Murder Ballads', de Nick Cave & The Bad Seeds (JL)
'Lupercalia', de Patrick Wolf (NG)

Livros
'Miral', de Rula Jebreal (JL)
'Sou Todo Ouvidos', de Joseph Mitchell (NG)

DVDs
'Nova Iorque Fora de Horas', de Martin Scorsese (JL)
'Somewhere', de Sofia Coppola (NG)

Brevemente anunciaremos aqui a data da edição de Julho.

Água sobre os telhados


Três olhares sobre a cidade... E basta uma breve passagem dos olhos sobre estas imagens para sabermos que estamos em Nova Iorque, tão característica que é a presença de depósitos de água sobre os edifícios da cidade. É já antiga a ordem que exige a sua presença em todos os edifícios com mais de seis andares, o seu objectivo sendo um assegurar o bom funcionamento da distribuição de água através da canalização dos vários andares, sem que tal exija uma ainda maior pressão na rede. As três imagens mostram depósitos de água na baixa de Manhattan, entre a Houston Street e a Bowery. Entre Greenwich Village e o East Village.

Pelas ruas de Nova Iorque (5)

Sou Todo Ouvidos
de Joseph Mitchell


Deve ser de perder conta o número de livros que tomam a cidade de Nova Iorque por cenário ou mesmo protagonista das suas atenções. A ter de escolher um primeiro para folhear e ler, passamos por Sou Todo Ouvidos, livro de crónicas assinado por Joseph Mitchell. São pequenos textos, que nos levam a caminhar por entre as outras faces da cidade, os bares menos falados, os aldrabões, os palcos secundários, as ruas menos iluminadas onde, acima de tudo, escutou histórias. Jornalista, com parte significativa do seu trabalho publicado na New Yorker, recorda aqui cenários da cidade que descobriu por alturas do ‘crash’ de 1929 e que viveu e descreveu em textos que publicou nos anos seguintes, alguns deles aqui reunidos. A sua é uma escrita rica em figuras, histórias e imagens, mas sob uma contenção que sabe, com pouco, dizer muito. Porque, dizia ele mesmo, ““não pode haver mais praga para um jornal que um jornalista que se põe a tentar escrever literatura”.

Podem ler mais sobre Joseph Mitchell aqui.

Um sapato e a sua dignidade


A imagem de um sapato excede a sua funcionalidade. E não se esgota na beleza que lhe possamos atribuir. Ou seja: a maneira como está fotografado garante (ou não) uma verdade que não é estranha à insubstituível dignidade da forma. Este integra um conjunto divulgado no site Fashionising e pertence a uma colecção do designer Alexander Wang — não é preciso usá-lo para reconhecermos uma promessa de ficção.

Terça-feira, Junho 28, 2011

Elaine Stewart (1930 - 2011)


Foi um dos símbolos do glamour de Hollywood na década de 50, em especial no melodrama e no género musical: Elaine Stewart faleceu no dia 27 de Junho em sua casa, em Beverly Hills — contava 81 anos.
De seu nome verdadeiro Elsy Steinberg, estreou-se em Marujo, O Conquistador (1952), uma comédia de Jerry Lewis & Dean Martin. O seu primeiro papel de algum relevo foi em The Bad and The Beautiful (1952), de Vincente Minnelli, com Lana Turner e Kirk Douglas, uma das obras-primas clássicas sobre os bastidores do cinema. Entre os títulos mais importantes da sua filmografia incluem-se Take the High Ground!/Como se Fazem Heróis (1953), comédia dramática de Richard Brooks, Brigadoon/A Lenda dos Beijos Perdidos (1954), referência mitológica do musical, de novo sob a direcção de Minnelli, e The Rise and Fall of Legs Diamond (1960), filme de gangsters com assinatura do mestre da "série B" Budd Boetticher. Trabalhou depois em algumas produções em Itália e também em séries de televisão (incluindo Perry Mason), acabando por se retirar em meados dos anos 60.

>>> Obituário em The Hollywood Reporter.

As madrugadas de "The Office"


A versão americana da série The Office está a passar na televisão portuguesa depois das 2 horas da madrugada: às 02h11, na melhor das hipóteses; nalguns dias, às 02h45 (TVI). Surpresa? Nenhuma. A ditadura da telenovela implica uma política brutal de marginalizações, desaparecimentos e ausências. Em todo o caso, sublinhemos a nossa singularidade cultural: somos o país que consegue tratar o mais popular dos géneros como se fosse telescola para universitários (e sonâmbulos). Entretanto, fica sempre bem proclamar que os críticos, esses perigosos intelectuais, não gostam de comédias... Tal como a pretensiosa NBC que, nos EUA, programa a mesma série às nove da noite. 

A IMAGEM: Helmut Newton, 1983

HELMUT NEWTON
X-ray with chain, Paris
1994

"A Árvore da Vida": a galáxia da água



A certa altura, em A Árvore da Vida, impelido pela deambulação de um dos filhos, o filme mergulha, literalmente, na água. Passagem para o lado do sonho?... Seria uma explicação demasiado mecânica para um objecto que está para além (em boa verdade: aquém) de qualquer maniqueísmo do género. Desde logo porque, no interior da água, se "repetem" os elementos do lar: a criança, os móveis, uma porta, até mesmo o urso de peluche... Tudo se passa como se Terrence Malick filmasse o espaço familiar como uma derivação terrestre da imensidão da galáxia, existindo tudo tocado pela mesma imponderabilidade formal e, apetece dizer, aquática: tudo paira numa sensualidade em que tudo toca em tudo. Dir-se-á o mesmo das cenas em que a mãe corre e dança com os filhos: são felizes como peixes.

Ficção científica


John Maus em filme de ficção científica? É o que parece que vemos perante as imagens que acompanham Head For The Country. A realização do teledisco é de Jennifer Juniper Stratford.

Sound + Vision Magazine (2)
hoje às 18.30 na Fnac Chiado


É já hoje, pelas 18.30, no auditório da Fnac Chiado, em Lisboa. João Lopes e Nuno Galopim passam pelos discos, os filmes e os livros do último mês na segunda edição do Sound + Vision Magazine.

Novas edições:
Jay Jay Johansson, Spellbound


Jay Jay Johansson
“Spellbound”
Universal
3 / 5

Já vimos Jay Jay Johansson a caminhar por vários trilhos... Já foi voz de belas canções em clima herdado de espaços de placidez trip hop ao som de Whiskey, quando se revelou em 1996. Ou estrela pop feita de cor e apelo a electrónicas dançáveis, com maquilhagem electroclash, nos dias de Antenna (2003)... Spellbound mostra-o em busca de outros caminhos, a sua voz frágil (e invariavelmente melancólica) seguindo agora entre a presença de um piano, o dedilhar de uma guitarra acústica, pontuais percussões de alma jazzy e ocasionais arranjos convocando outros instrumentos. Não se trata contudo de um disco de jazz, os pontuais climas que visita nesses universos sendo antes transportados para territórios com afinidades com uma ideia de canção magoada, mas herdada de vivências pop, que revela frequentes linhas de afinidade com episódios anteriores na obra do músico sueco. De resto, a balada para voz e piano que escutamos em On The Other Side, a aproximação ao livro de estilo de um Nick Drake em Shadows ou a versão de Suicide Is Painless (original da banda sonora de M.A.S.H.) deixam claro que há horizontes vários a viver ao caminhar por Spellbound. Se a instrumentação é aqui o elo mais diferente face a títulos anteriores, na verdade estamos num terreno que traduz de certa forma uma familiaridade  (e o travo lounge de Blind ajuda em caso de dúvidas)... A forte personalidade da sua voz acaba, no final, por manter firme essas ligações, a alma de Spellbound afirmando-se como tudo menos um episódio de ruptura numa obra que gosta, como de resto já nos mostrara antes, de experimentar novas sensações.

Livros e mais livros...


É certamente a maior livraria de Nova Iorque e uma das maiores do mundo. Chama-se The Strand, usa o slogan “18 miles of books” como cartão de visita, e basta entrar pelo numero 828 da Broadway (no East Village, poucos quarteirões abaixo de Union Square) para reconhecer que estamos a entrar num pequeno mundo à parte feito de livros e mais livros.

São três andares, com arrumação por grandes áreas, convidando o visitante a ali passar algum tempo. Muitos dos títulos são usados ou sobras de colecções e os preços frequentemente bem convidativos.


A história da The Strand, ainda hoje um negocio familiar, cruza-se com a vida de alguns artistas que em tempos passaram pelo East Village, entre os seus antigos funcionários contando-se figuras como Patti Smith ou Tom Verlaine.

Em tempos a The Strand chegou a ter uma segunda livraria, primeiro em Front Street (no South Sea Port), mais tarde ali não muito distante, em Fulton St (loja entretanto fechada em 2008). Hoje mantém contudo uma presença regular num quiosque no canto do Central Park definido pela rua 60 e a 5ª avenida.


A fama mundial que a livraria entretanto atingiu junta hoje à extensa oferta em livros (e é particularmente extensa e bastante completa, até mesmo com espaço para surpresas, a secção de cinema) uma zona de merchandising, com sacos e outros recuerdos da loja...

Podem consultar o site da livraria aqui.

Pelas ruas de Nova Iorque (4)

The Only Living Boy In New York
pelos Everything But The Girl (1993)


Na origem foi uma das canções reveladas pelo alinhamento do álbum Bridge Over Troubled Water, de Simon & Garfunkel (1970), por essa altura surgindo também no lado B do single Cecilia.

Podem ouvir aqui a versão original.


Corria o ano de 1993 quando os Eevrything But The Girl lançaram um EP que mostrava como tema central a canção The Only Living Boy In New York, versão de um clássico de inícios dos anos 70 da dupla Simon & Garfunkel. O single surgiu pouco depois integrado no alinhamento de Home Movies, uma antologia de canções dos Everything But The Girl. E fez-se acompanhar, desde logo, por um belíssimo teledisco realizado por Hal Hartley, visivelmente rodado num edifício na baixa de Manhattan.