Agora que o n.º 109, relativo a Janeiro de 2012, chegou às bancas e livrarias, deixo aqui a crónica
Nostalgia da Felicidade, publicada no n.º 108 na minha coluna Heterodoxias:
A morte prematura de Tony Judt (1948-2010) abre um buraco na memória colectiva. Não é frequente um historiador tornar-se
bestseller, mas foi o que sucedeu com Judt a partir de 2005, ano em que publicou
Pós-Guerra. História da Europa desde 1945. Porquê, se dezenas de historiadores e romancistas escreveram sobre a Segunda Grande Guerra, tema de centenas de filmes e séries de televisão? É simples: por um lado, Judt escreveu a
opus magnum depois da abertura dos arquivos austríacos e da Europa de Leste, o que só aconteceu no fim dos anos 1990. Nenhum dos seus predecessores, nem os melhores (Hobsbawm, Lichtheim, Taylor), teve acesso a essa informação.
Por outro, interpreta o passado de forma “declaradamente pessoal”. O reconhecimento planetário foi imediato. Quando, em 2008,
O Século XX Esquecido chegou às livrarias, já o discreto director do Instituto Erich Maria Remarque e professor de Estudos Europeus na Universidade de Nova Iorque era uma celebridade dos dois lados do Atlântico.
Judt nasceu em Londres, deveio americano sem dar por isso («
tinha-me tornado americano») e, aos 62 anos, vítima de uma variação da esclerose lateral amiotrófica, também conhecida por doença de Lou Gehrig, morreu em Nova Iorque. A doença gerou
O Chalet da Memória.
Ponto prévio: «
Os ensaios que figuram neste livrinho nunca foram escritos para publicação. Comecei a escrevê-los para minha própria satisfação...» Após o diagnóstico (em 2008), impedido de viajar, começando a perder a voz, pensando mais depressa do que conseguia formar palavras, corpo paralisado, correu contra a morte. Timothy Garton Ash e Eugene Rusyn criaram as condições do
sprint. Ironia suprema: são textos “felizes”. O primeiro leva-nos a Chesières, estância de esqui na Suíça, onde Judt, então com 10 anos, se deliciava com a voz de barítono e as «
imprecações irrepetíveis» de Rachel Roberts, a actriz galesa que se hospedava no mesmo hotel.
É comovente ver como este homem, que com tanta argúcia escreveu sobre a História da Europa e um punhado de autores que marcou o perfil do seu e nosso tempo (Camus, Sartre, Arendt, Said, Althusser, Levi, Foucault, outros), se deixou enredar com ironia e sageza no labirinto das mnemónicas: «
Para um miúdo, o racionamento fazia parte da ordem natural das coisas.» Isto não é sobre a guerra, é sobre Londres nos anos 1950. Pequena folga para a coroação de Isabel II: «
foi permitido a toda a gente mais 450 gramas de açúcar...» Falando da infância, Judt faz o retrato da sociedade inglesa no tempo de Attlee e Macmillan: «
A seriedade moral na vida pública é como a pornografia, difícil de descrever mas imediatamente identificável quando a vemos.» No mesmo registo, o ensaio dedicado à comida baliza a fronteira entre necessidade e
volupté.
Quando em 1975 chegou à América, a convite da Universidade da Califórnia, o choque foi brutal: «
nenhum lugar no mundo se pode gabar de ter universidades públicas tão boas.» Isto, dito por quem vinha de dar aulas em Oxford. Antes da mudança definitiva para Nova Iorque em 1987, andou entre Berkeley e St Anne’s: «
O ataque do governo Thatcher ao ensino superior britânico estava a começar...»
Sobre os anos da
political correctness, a famosa asserção de Gertrude Stein numa conferência em Oxford acerca da “questão” da mulher: «
Nem tudo pode ser sobre tudo.» E assim sucessivamente, porque
O Chalet da Memória é sobre quase tudo: identidade judaica, solipsismo académico, lugar do intelectual francês, sistema escolar inglês, «
incontinência retórica» em Zizek,
New York Review of Books, elitismo, École Normale Supérieure, bibliotecas americanas, assédio sexual... Judt, afinal, não morreu.