Sexta-feira, Janeiro 20, 2012

VASCO GRAÇA MOURA NO CCB


Vasco Graça Moura vai ocupar o cargo de presidente da Fundação Centro Cultural de Belém, sucedendo a António Mega Ferreira, que cessou o seu mandato. Social-democrata não filiado, sucede a um socialista de mérito (ao menos no CCB, a fasquia não desce). Autor de uma obra literária de proporções homéricas, na poesia, na ficção, no teatro e no ensaio, tradutor de Dante, Shakespeare, Racine, Corneille, Rilke, etc., homem de vasta erudição, ocupou diversos cargos, tais como: secretário de Estado em dois governos (1975-76), director da RTP-2 (1978), administrador da Imprensa Nacional (1979-89), comissário-geral de Portugal para a Exposição Universal de Sevilha (1988-92), presidente da Comissão dos Descobrimentos Portugueses e director da revista Oceanos (1988-95), director do serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura da Fundação Calouste Gulbenkian (1996-99). Eleito como independente nas listas do PSD, foi deputado ao Parlamento Europeu durante dez anos (1999-2009). Nunca foi ministro da Cultura porque não quis. Parabéns, Vasco.

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LÁ COMO CÁ


Fazendo uso de um fundo de 265 mil milhões de libras, a China Investment Corporation comprou por montante não divulgado cerca de 9% do capital da Thames Water, o equivalente britânico das Águas de Portugal. Foi Osborne, o chanceler do Tesouro, quem fechou o negócio. Detalhes aqui.

Nos dias que correm, 55 Days at Peking (1963), o clássico de Nicholas Ray, tem de ser visto como parábola do futuro a haver.

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Quinta-feira, Janeiro 19, 2012

RUI COSTA 1972-2012


Rui Costa foi dado como desaparecido há dias. O seu corpo terá sido encontrado entretanto no rio Douro.  Poeta jovem, chamou a atenção da opinião pública por duas vezes: em Maio de 2005, ao vencer o prémio de poesia Daniel Faria com o livro A Nuvem Prateada das Pessoas Graves; e em Janeiro de 2009, quando, ao lado dos poetas Rui Lage e Rui Cóias, apresentou uma lista alternativa à direcção do PEN Clube Português. A imagem foi tirada daqui.

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E ELES VÃO


Merkel tem andado a receber os chefes das tribos. Monti, o primeiro-ministro italiano, teve naturalmente direito a audiência individual. Mas o pessoal menor vai em grupo. Passos Coelho, que foi convocado para hoje ao fim da tarde, é recebido em simultâneo com os primeiros-ministros austríaco e sueco (a Suécia não faz parte da zona euro mas não está isenta de trabalhos de casa). Simplesmente obsceno.

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RUBEM FONSECA


Hoje na Sábado escrevo sobre A grande arte, de Rubem Fonseca (n. 1925). Rubem, que foi polícia durante seis anos, entre 1952 e 1958, tornou-se escritor em 1963. É hoje o maior escritor brasileiro vivo. Publicou trinta livros, sendo A grande arte (1983) uma indiscutível obra-prima. O romance voltou às livrarias portuguesas com o prefácio que Francisco José Viegas escreveu para esta edição. A servir de posfácio, um ensaio de Mario Vargas Llosa, inédito em Portugal. O romance é sobre a arte de matar com faca. Triângulo fatal: Rio de Janeiro, Pantanal, cartéis bolivianos da droga. Mosaico da sociedade carioca com enfoque no bas-fond do crime e suas ramificações na alta sociedade, tem como narrador o advogado criminalista Mandrake, que os leitores de Rubem conhecem de outras obras (a HBO fez a partir dele uma série de televisão). No meio do crime e da sacanagem, surge Edith Wharton, ela-mesma. Se ler, percebe porquê.

Escrevo ainda sobre Minha querida Inês, de Margarida Rebelo Pinto. A Inês em pauta é a que foi rainha depois de morta. MRP podia ter escrito um romance naïf que ninguém levava a mal, mas a tentação da monografia histórica deu cabo do projecto.

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Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

O ESTADO A QUE ISTO CHEGOU


Teixeira dos Santos foi crucificado por ter deixado chegar aos 7% os juros da dívida pública. Carlos Moedas, negociador do PSD junto da troika, disse mesmo que bastava mudar o governo (i.e., afastar Sócrates) para fazer descer as taxas de juro. Disse mais: por causa das reformas que o PSD faria no governo, as agências de notação iriam subir o rating da República. Foi esse o mote da campanha eleitoral. O PSD ganhou as eleições. Carlos Moedas tornou-se secretário de Estado adjunto do primeiro-ministro.

E então? Nos últimos seis meses, o governo aumentou o IVA, as propinas, a electricidade, o gás e os transportes; reduziu as prestações sociais (subsídio de desemprego, RSI e outras); impôs um imposto extraordinário de 50% sobre o subsídio de Natal de 2011; reduziu em 15% o rendimento anual bruto dos pensionistas, funcionários públicos e trabalhadores do sector empresarial do Estado; introduziu portagens nas Scuts; eliminou deduções em sede de IRS nas despesas de habitação, saúde e educação; aumentou em mais de 100% o valor dos actos médicos e das taxas moderadoras; facilitou os despedimentos; prepara-se para aprovar um novo Código de Trabalho, etc. Há mais, mas isto chega. Aconteceu o quê?

Por duas vezes, nos últimos seis meses, as agências de notação baixaram o rating da República. E os juros romperam a barreira dos 14%.

Afastado Sócrates, a culpa é naturalmente da Grécia.

[Imagem: Público.]

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Terça-feira, Janeiro 17, 2012

TRAPALHADA


Lendo a imprensa de hoje ninguém percebe nada do que terá ficado acordado ontem em sede de concertação social.

Dois exemplos.

Público: «Na proposta que durante a manhã de ontem o Governo apresentou aos parceiros penalizam-se os trabalhadores que faltem sem justificação junto do fim-de-semana ou dos feriados. No documento fica claro que “a falta injustificada a um ou meio período normal de trabalho diário imediatamente anterior ou posterior a dia de descanso ou a feriado” implica a perda de retribuição relativamente ao dia de descanso ou feriado imediatamente anterior ou posterior

Diário de Notícias: «As faltas injustificadas antes ou imediatamente a seguir às folgas ou feriados vão traduzir-se na perda do correspondente a dois dias de salário, o da falta e o do feriado ou folga. Esta foi uma das medidas que o Governo introduziu na proposta de acordo [em] reunião da Concertação Social

Os dois jornais têm como denominador comum o conceito de “falta injustificada”. Aparentemente, os jornalistas desconhecem que uma “falta injustificada” determina sempre a perda de remuneração (e, no Estado, ao fim de três, obrigam mesmo à abertura de processo disciplinar). Se a culpa não é dos jornalistas, i.e., se os jornalistas se limitaram a citar cábulas, então alguém anda a tramar o Álvaro.

O DN até introduz o conceito de “folga”. Não imagino o que possa ser.

No Económico, a síntese omite a “injustificação” da ausência: «Quando o trabalhador faltar num dia anterior ou posterior a um dia de descanso ou feriado vai perder também a retribuição desse dia de descanso. E isto também acontece quando o trabalhador só falta meio dia

Não sei se as pessoas estão cientes, mas o Código do Trabalho que Bagão Félix fez aprovar em 2003, quando, no governo Barroso, era ministro da Segurança Social e do Trabalho  —  é o Código que está em vigor  —, majora as férias em três dias (de 22 para 25) desde que se verifique total ausência de faltas. Total. Se o trabalhador perder uma manhã ou uma tarde no médico, com conhecimento prévio e autorizado da entidade patronal, fica logo sem um dos dias da majoração. É isto que a lei diz e é isto que se pratica nas grandes empresas, com as excepções informais que sempre houve e haverá. A norma acaba? Não é por aqui que o gato vai às filhós.

A fazer fé na imprensa, tudo isto em troca da famosa meia hora diária de trabalho a mais. Patético!

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Segunda-feira, Janeiro 16, 2012

PARA MEMÓRIA FUTURA


West Wing à portuguesa. O quadro é do Público. Clique.

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Sexta-feira, Janeiro 13, 2012

SEXTA-FEIRA NEGRA


Não há coincidências. Clique na imagem.
O quadro é do Le Monde.

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DUMPING


Durante seis anos consecutivos (a Era Sócrates), dezenas de bloggers da direita rasgaram as vestes contra a ASAE. Na versão moderada, promovida por alguns dos actuais membros do governo, a Autoridade de Segurança Alimentar e Económica era um sintoma de autoritarismo do Estado. Na versão radical, promovida por gente que está hoje a assessorar ministros e secretários de Estado, era um sucedâneo da Pide. Ainda me lembro de Portas a bramar no Parlamento contra a proibição dos galheteiros. Hoje, o regime não passa sem a ASAE, que não foi uma invenção de Sócrates.

Sócrates apenas mudou o nome à Inspecção-Geral das Actividades Económicas, entidade com mais de 70 anos nas suas diversas encarnações: em 1931 chamava-se Inspecção-Geral dos Serviços de Fiscalização dos Géneros Alimentícios, a seguir (1965) Inspecção-Geral das Actividades Económicas, depois (1984) Direcção-Geral de Inspecção Económica, depois (1993) outra vez IGAE, etc. Durante a campanha eleitoral, lembro-me de ouvir um tonto dizer que era preciso votar no PSD para correr com o Pinto Monteiro, acabar com as Novas Oportunidades e extinguir a ASAE.

Vem isto a propósito da operação ontem desencadeada pela ASAE junto dos hipers Continente e Pingo Doce, os quais estavam a vender leite abaixo do preço de custo, ou seja, a praticar dumping.  Mas tudo isto é hoje música celestial para os tais bloggers que arrancavam as vestes.

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A CASTA


Depois um dia aparece um Viktor Orbán qualquer e fica toda a gente muito admirada. A imagem é do i.

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Quinta-feira, Janeiro 12, 2012

GABRIEL GARCÍA MÁRQUEZ


Hoje na Sábado escrevo sobre Contos Completos de Gabriel García Márquez (n. 1927). Estes contos andavam dispersos por quatro colectâneas e podem agora ser lidos em sequência. A edição mantém a estrutura original dos volumes autónomos. O autor criou um universo capaz de provocar a reverberação da terra, como ficou demonstrado nessa obra-prima absoluta que é Cem Anos de Solidão (1967). Duas evidências: o virtuosismo semântico faz com que literatura e realidade se confundam, e o prazer da leitura é alheio ao conhecimento prévio do Leitmotiv ficcional. Os quarenta contos são traduzidos por Luís Nazaré, Pedro Tamen, Maria da Piedade Ferreira e Miguel Serras Pereira.

Escrevo ainda sobre Quando o Diabo Reza, vadiário lisboeta de Mário de Carvalho (n. 1944), que entra com o pé direito no catálogo da Tinta da China. A malta mais nova é capaz de ficar desorientada com o vocabulário: basófio, narigonço, camandro, belfas, trambolho, serrazina, niquices, beque, facha, palheta, frosques, cassa, os verbos abichar e afincar, etc. Ainda bem. A literatura não pode ficar confinada a autores que fazem livros à volta de cinco palavras. Quando o Diabo Reza é um thriller contemporâneo sobre a malandragem portuguesa.

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Quarta-feira, Janeiro 11, 2012

ABOMINÁVEL


Não vi o debate da SICN em directo, vi hoje uma gravação do programa de Ana Lourenço. À questão de saber se o Serviço Nacional de Saúde deve garantir tratamento por hemodiálise a doentes com 70 anos, Manuela Ferreira Leite afirmou: Tem sempre direito se pagar. António Barreto, António Vitorino e Manuel Sobrinho Simões reagiram com incredulidade. Barreto classificou a questão como abominável e Vitorino obrigou a antiga líder do PSD a reformular a questão, levando-a a dizer, sem convicção, que «racionamento não é exclusão». Em abono da tese, MFL insistiu: «O país não produz riqueza para manter o SNS tal como está.» Mas produz o suficiente para permitir acumulação de pensões do Estado com chorudas remunerações no privado!

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Terça-feira, Janeiro 10, 2012

TWILIGHT ZON


Depois de amanhã começa o apagão analógico, que vai afectar muita gente. Quem não tem televisão por cabo ou satélite terá de fazer opções. Os descodificadores não são acessíveis a pessoas de baixos rendimentos (os mais baratos que vi custam 46 euros), nem podem ser vendidos como quem vende laranjas. Já sei que a rapaziada é toda muito esperta, diria mesmo Android, mas o ponto são os pais e avós da rapaziada, vivendo sozinhos em Castramenha da Serra ou em Rabaçal de Avintes. Homens e mulheres de 80 e muitos anos, que nunca viram um router na vida, são agora forçados à imersão digital.

Nada contra a televisão digital terrestre. Pelo contrário. Tudo a favor.

Mas convinha explicar. Os sketches do Nicolau Breyner devem ter custado uma pipa de massa e pouco ou nada adiantarão. Em seu lugar, os deputados deviam ir aos círculos que representam explicar às pessoas, por A+B, o que é preciso fazer. É também para isso que foram eleitos. Infelizmente, não passa pela cabeça de suas excelências perder tempo com ninharias.

Vejamos um caso que acompanhei. Numa freguesia (com 25 mil habitantes) do concelho de Almada, os filhos da senhora A chegam à conclusão de que, despesa por despesa, é preferível que a mãe adira à ZON ou ao MEO. Optam pela ZON porque viram na televisão anúncios de Pacotes ZON a 9,99 euros. Vão portanto a uma loja ZON: Não temos conhecimento. Telefonam para a ZON: Nessa rua não temos cabos. Mas, num breve inquérito à vizinhança, os filhos da senhora A verificam que na mesma rua há clientes ZON por cabo. Novo contacto com a ZON: Ah! Mas isso tem de ser através do serviço de telemarketing. Esses pacotes são um exclusivo telemarketing. A senhora A tem dois filhos teimosos, que perderam tempo a investigar e telefonar. E quem não tem ninguém que o faça?

Já agora, por que carga de água a empregada ZON foi tão afoita a afirmar que naquela rua não havia televisão por cabo?

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ATÉ QUANDO?


Dez dias depois de tomar posse como primeiro-ministro, Passos Coelho, o homem que antes e durante a campanha eleitoral disse que “mexer no subsídio de Natal seria um disparate”, anunciou com estrondo a criação de uma taxa especial de IRS sobre o subsídio de Natal de 2011. Todos sentimos no bolso a sua aplicação.

Duas semanas passadas, descobriu um desvio colossal nas contas públicas. Nunca ninguém, nem o ministro das Finanças, conseguiu explicar a natureza de tal desvio. Estribado nele, o governo aumentou em Agosto os transportes públicos: aumento médio de 15%, embora, em valores absolutos, algumas tarifas tivessem subido 25%. O aumento do IVA sobre a electricidade e o gás natural, em vigor desde o Verão passado, fez disparar o preço no consumidor. Por mim falo: a tarifa mensal fixa que tenho contratada passou de 91 para 106 euros com efeitos a 1 de Setembro.

A 13 de Outubro, à laia de preâmbulo do OE, o primeiro-ministro comunicou ao país uma série de medidas de austeridade. Destaco três: 1. novo aumento do IVA (aumentando de 6% para 23% dezenas de produtos de alimentação); 2. eliminação dos subsídios de férias e de Natal para pensionistas, funcionários da Administração Pública e trabalhadores do sector empresarial do Estado que aufiram pensões ou remunerações de valor igual ou superior a mil euros por mês (as pensões e remunerações de valor situado entre 485 e 1000 euros serão sujeitos a uma taxa de redução progressiva); 3. eliminação das deduções fiscais em sede de IRS para os escalões contributivos superiores, ou seja, a partir de um rendimento anual bruto de 66 mil euros (exemplo: um casal em que marido e mulher sejam professores há 25 anos).

Nos hospitais e centros de saúde, as taxas moderadoras e os actos médicos tiveram aumentos superiores a 100%. E os transportes públicos vão aumentar outra vez a partir de 1 de Fevereiro.

Agora, com a desculpa de que o défice de 2012 deverá ser de 5,4% (uma parte do fundo de pensões da banca teria sido desviado para pagar dívidas dos hospitais), estão na calha novas medidas de austeridade. Dito de outra forma: desde que tomou posse, não houve mês em que o governo não tivesse anunciado medidas cada vez mais gravosas. Até quando?

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Segunda-feira, Janeiro 09, 2012

O DECLÍNIO DA EUROPA


Este quadro do Eurostat que o Público hoje divulga é eloquente. O desemprego alastra na Europa e a quota de desempregados jovens (i.e., com menos de 25 anos) é cada vez maior. Nos 27 países da UE, o desemprego atinge hoje 5,6 milhões de indivíduos com menos de 25 anos. Só em Espanha, onde o desemprego atinge 22,9% da população activa, a percentagem de jovens é de 49,6% (em Portugal são 30,7%). Presumidamente, toda esta gente saiu de universidades, como há cem anos os avós da instrução primária. Verdade que o mundo mudou muito depressa nos últimos quinze anos. Mas alguém falhou. Aqui e lá fora.

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Sábado, Janeiro 07, 2012

OUTING


Em directo na SICN, Fernando Nobre assumiu ontem à noite a sua qualidade de maçon. Só lhe fica bem. Não tenho nenhuma simpatia por Nobre, mas é louvar a tomada de posição nesta altura de caças às bruxas. Ainda ontem, num almoço em que dividi a mesa com personalidades ligadas aos media, o tema foi tratado com relativa aspereza. Há maçons sacanas? Claro que sim. Como há médicos, jornalistas, advogados, escritores, banqueiros e ministros sacanas. Quem diz sacanas diz corruptos. A venalidade não é património de nenhum grupo social. Por isso me faz confusão a fronda anti-maçónica que varre a imprensa. Os líderes parlamentares do PSD, do PS e do CDS-PP são maçons? E daí? Alguém está a ver o New York Times a exigir declaração de interesses à elite de Washington ou de Wall Street?

Contudo, a Skull & Bones tem lugares cativos na West Wing (Casa Branca), Departamento de Estado, Senado, Congresso, Supremo Tribunal, Reserva Federal, FMI, Forças Armadas, NASA, CIA, universidades da Yvy League, administrações dos grandes bancos, etc. Et pour cause...

[Um dos cavalheiros da imagem chegou a Presidente dos Estados Unidos. Clique.]

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Sexta-feira, Janeiro 06, 2012

TAMBÉM FOI A TROIKA?


Isto é uma anedota de mau gosto? É verdade? Em caso afirmativo, com base em que legislação? É mentira? Alguma razão para a deadline dos 600 euros? A manchete é do jornal i. A imprensa de referência é omissa.

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Quinta-feira, Janeiro 05, 2012

DIPLOMACIA ECONÓMICA


Consta que o MNE tem como prioridade a diplomacia económica (o AICEP não existe por capricho). Mas não parece. A Imprensa Nacional, uma empresa do Estado, vai fechar a Livraria Camões do Rio de Janeiro. A decisão deixou perplexa a comunidade académica que no Brasil acompanha a literatura portuguesa. Alguém explica?

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RODRIGO LACERDA


Hoje na Sábado escrevo sobre Outra Vida, o romance mais recente do brasileiro Rodrigo Lacerda (n. 1969), com acção centrada às primeiras horas da manhã no terminal rodoviário de uma cidade não nomeada. Os personagens também não têm nome. São o homem, a mulher e a filha, com sogra, amante e deputado ao fundo. Plot: suborno vs culpa. Podia ser um croqui para teatro: é patente o domínio da coreografia. A história mistura passagens muito bem esgalhadas (o conflito, primeiro latente, depois explícito, entre marido e mulher) com reflexões pomposas acerca do mundo actual: impasses da política brasileira, fontes não-identificadas, fome e guerra global, informação atrelada a vozes sem dono («ou de um dono sem caráter»), exploração mediática da miséria, etc. Rodrigo Lacerda é neto do lendário Carlos Lacerda (1914-1977), jornalista e político, fundador do jornal Tribuna da Imprensa e da editora Nova Fronteira, governador do Estado da Guanabara e líder civil do golpe militar de 1964 que provocou a demissão do presidente João Goulart.

Escrevo ainda sobre Impressões de África, o romance de Raymond Roussel (1877-1933) que passou despercebido à data da publicação (1910). Roussel, que influenciou os surrealistas, os dadaístas, os autores do futuro Nouveau Roman, bem como os artistas e poetas da Escola de Nova Iorque (Kooning, Ashbery e outros), era de opinião que o livro podia, e talvez devesse, ser lido de forma arbitrária, embora aconselhasse os amigos a começar pelo décimo capítulo. Edição Relógio d’Água.

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Quarta-feira, Janeiro 04, 2012

PRÉMIO D. DINIS


Pelo romance As Luzes de Leonor, sobre a vida da marquesa de Alorna, o Prémio Literário D. Dinis, da Fundação da Casa de Mateus, foi atribuído a Maria Teresa Horta. Decisão unânime do júri, composto por Vasco Graça Moura, Nuno Júdice e Fernando Pinto do Amaral. Parabéns, Maria Teresa.

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MOZARTIANOS


Nas últimas 24 horas, o prato de resistência da televisão tem sido o affaire Secretas: conferências de imprensa em directo por causa dos relatórios da deputada social-democrata Teresa Leal Coelho; divulgação de “segredos de Estado” à margem do governo; eventual filiação de Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, à loja maçónica Mozart, etc. O imbróglio começou há seis meses, com a revelação de que teriam sido feitas escutas telefónicas a um jornalista do Público, escândalo entre todos. Afinal, o tipo de coisa que os serviços secretos americanos, ingleses, franceses, alemães, espanhois, italianos, etc., nunca fazem.

Tudo apimentado com a possibilidade de Jorge Silva Carvalho, director do Serviço de Informações Estratégicas de Defesa até Dezembro de 2010, continuar a jogar em dois tabuleiros: no SIED, informava a Ongoing; a partir do momento em que foi trabalhar com Nuno Vasconcellos, passou a informar o SIED.

No Verão passado, os jornais rivalizaram entre si para ver qual descobria os episódios mais escabrosos relacionados com o antigo patrão dos espiões. Jorge Silva Carvalho foi mesmo chamado ao Parlamento. Em Agosto, anunciou-se com estrondo a hipotética demissão de Júlio Pereira, secretário-geral do Sistema de Informações da República. A história foi vendida como peça da campanha anti-Sócrates, factor-Viagra da opinião trauliteira, tendo como pano de fundo a guerra entre a Ongoing e a Impresa. (O grupo de Balsemão: Expresso, SIC, Visão, Caras, Exame, Blitz, etc.) Agora que a poeira assentou, está à vista o resultado da tranquibérnia: Júlio Pereira continua no cargo, tendo visto os seus poderes reforçados com as mudanças operadas no SIRP, e foram afastados os operacionais que tentaram tramar Jorge Silva Carvalho, em quem a Ongoing mantém toda a confiança. Cadê as “práticas ilegais”...?

Sobra a revelação de que Luís Montenegro, líder parlamentar do PSD, pertencerá à loja maçónica Mozart, a mesma de Jorge Silva Carvalho. E daí? Salvo meia-dúzia de excepções, quem em Portugal foi alguém (nos últimos 120 anos) à revelia da Maçonaria?

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Terça-feira, Janeiro 03, 2012

TABU DESFEITO


Acabou o tabu. Pantelis Kapsis, porta-voz do governo grego, deixou claro que a Grécia terá de receber este mês uma nova tranche de 130 mil milhões de euros: «A transferência tem de ser autorizada. Caso contrário, estaremos fora dos mercados e fora do Euro.» Dito de outro modo, Atenas precisa de dinheiro vivo. (Além de não chegar, o eventual perdão de 75% da dívida é irrelevante.) Merkozy corre contra o inevitável, mas pode ser tarde. Antes de ser porta-voz do actual governo grego, Pantelis Kapsis era director do jornal Ta Nea, o mais lido na Grécia, e um dos colunistas mais influentes do país. Leia aqui um dos seus últimos editoriais, e compare com a água-pé indígena.

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CITAÇÃO, 398


Paulo Pedroso, Um capitalista como os outros

«Alexandre Soares dos Santos é um capitalista como outros. Busca racionalmente maximizar os seus lucros dentro do que a lei lhe permite. A notícia da sua “passagem” fiscal para a Holanda não aumenta nem diminui o respeito que me merece. Não é o primeiro nem será o último a fazê-lo. Esta sua decisao é uma boa oportunidade para que António Barreto encomende agora um estudo sobre as razões e a lógica de desvinculação do grupo Pingo Doce  —  e de outros  —  em relação aos países em que emergiram. Era prova de independência do exigente think-tank português financiado por este grupo holandês de distribuição

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CITAÇÃO, 397


José Vítor Malheiros, Retrato de grupo com o país ao fundo, hoje no Público. Excerto final, sublinhado meu:

«[...] seja qual for a razão, será que os jornalistas da televisão se dão conta do retrato que fazem do país? Um país resignado, onde o único discurso pertence ao Governo, onde não há opções políticas, reais discordâncias, debates em pé de igualdade, alternativas, revolta, indignidades, hipocrisias? Onde há apenas assaltos para justificar o medo, acidentes para emocionar, pobres para justificar a caridade e governantes tão generosos que dão sete euros por mês aos mais pobres e que nos explicam que não sobra dinheiro para o SNS depois de pagar o juro das dívidas que meteram nos bolsos dos seus amigos?»

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Segunda-feira, Janeiro 02, 2012

A GOLPADA


A família Soares dos Santos, principal accionista (56,14%) da rede de supermercados Pingo Doce e Recheio, transferiu o seu capital para a Holanda. Dito de outro modo: deixa de pagar impostos em Portugal. Lembrar que, no 1.º semestre de 2011, o lucro da rede de supermercados foi de 144 milhões de euros.

Em comunicado hoje tornado público, a administração da Jerónimo Martins revela que, em 30 de Dezembro de 2011, as 353.260.814 acções da Jerónimo Martins SGPS foram vendidas à sociedade Francisco Manuel dos Santos BV, com sede na Holanda. Com este estratagema, a holding familiar mantém o capital e o direito de voto.

Alexandre Soares dos Santos, patriarca da família, o homem que nos últimos anos não fez outra coisa senão dar lições de moral aos portugueses, em sucessivas entrevistas e programas de televisão («Plano Inclinado», etc.) pagos com os nossos impostos, mandou às urtigas o interesse nacional. O povo que suporte o agravamento fiscal. Ele foi pastar para outra freguesia.

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TESTORI POR SILVA MELO


Giovanni Testori pelos Artistas Unidos, no Teatro da Politécnica, em Lisboa. Encenação de Jorge Silva Melo. Elmano Sancho, of course. O texto, traduzido por Miguel Serras Pereira, faz parte de Três Prantos  —  Tre Lai: Cleopatràs, Erodiàs e Mater Stangosciàs  —, acabado de editar na Assírio & Alvim. Um duplo acontecimento.

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Domingo, Janeiro 01, 2012

TODOS IGUAIS, TODOS DIFERENTES


Nem tudo são desgraças no ano que hoje começa. Os pensionistas da Banca, cujos fundos de pensões foram transferidos para a Segurança Social, vão continuar a receber os subsídios de Natal e de férias, nos termos do decreto-lei ontem publicado em Diário da República: o Estado garante «a manutenção integral das prestações em causa, incluindo os valores relativos ao subsídio de Natal e ao 14.º mês.» Ele há pensionistas e pensionistas. Por uma vez, não vamos ouvir António Nogueira Leite a barafustar contra o nepotismo do Estado.

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Sábado, Dezembro 31, 2011

BOM ANO


Bom 2012 a quem o merecer.

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Sexta-feira, Dezembro 30, 2011

A LEI CRISTAS


O governo aprovou ontem o diploma que, depois de submetido e votado no Parlamento, dará corpo à nova Lei das Rendas. Conheço apenas o que li no Público e no Expresso. Não percebo o alarido dos senhorios, “indignados” com o facto de a futura lei não resolver o imbróglio dos contratos anteriores a 1990. Dizem eles que há 250 mil rendas congeladas. O INE diz que são só metade desse número. Seja como for, 250 ou 125 mil, tanta “indignação” traz água no bico. Quanto sei, as rendas muito baixas (estou a falar de Lisboa) praticam-se nos bairros “típicos”: Baixa, Chiado, Sé, Alfama, Mouraria, Bairro Alto, Bica, Madragoa, etc.

Melhor dito: nos edifícios degradados desses bairros. Porque ao lado desses em mau estado existem outros, também centenários, porém recuperados, e convertidos em propriedade horizontal (sendo proprietários a larga maioria dos seus ocupantes), onde os inquilinos pagam rendas de padrão europeu. As pessoas que pagam rendas de 40 e 60 euros vivem, passe a expressão, em pardieiros. Não é sério exigir-lhes que passem a pagar 200 ou 300 euros.

Vamos admitir, por hipótese macabra, que uma vaga de despejos esvaziava 90% das casas do centro histórico. Têm os proprietários capital para recuperar os edifícios? Têm a ilusão de poder substituir inquilinos idosos de baixos recursos por inquilinos jovens de recursos médios? Ou só os querem vazios porque sim?

O busílis parece estar nas Avenidas Novas, Alvalade, Areeiro, Campo de Ourique, Príncipe Real, Rato e zonas burguesas afins. É para aí, julgo eu, que a “indignação” dos senhorios faz pontaria. O mantra das casas de 200 metros quadrados alugadas a 400 euros é um clichê. Sucede que essas casas, quando foram alugadas, tinham uma renda alta. Conheço um caso de 1972, ano em que a renda de um T3 nas Avenidas Novas foi fixada em 16 contos (o equivalente a 80 euros), actualizada a partir de 1985, estando hoje, por força dessas actualizações, com uma renda de 560 euros. É verdade que, no mesmo edifício, há dois apartamentos iguais alugados a 800 euros cada, mas são contratos de 1999. Já agora, lembrar que, em 1972, um técnico superior da função pública com funções de chefia não ganhava 16 contos. Durante 30 anos, o senhorio desse T3 portou-se como um agiota siciliano.

Como os senhorios andam sempre com o mercado na boca, deviam começar por verificar se têm condições para cumprir as regras atinentes. A saber: nos termos da futura lei, se o senhorio do T3 de que falei quiser subir a renda de 560 para 800 euros, e o inquilino só aceitar 600, resolve o assunto com uma indemnização de 42 mil euros (700 euros vezes 60 meses). Tão simples como isso. A irritação dos senhorios não é com as rendas de 40 ou 50 euros. É com as 300 e 400.

Deviam, porém, pensar no óbvio: com meio milhão de apartamentos (em todo o país) por vender, é muito provável que dois terços dessas habitações tenha como destino o mercado do aluguer. Quando isso acontecer, a retórica das associações de senhorios é triturada pela expertise da Banca.

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NOSTALGIA DA FELICIDADE


Agora que o n.º 109, relativo a Janeiro de 2012, chegou às bancas e livrarias, deixo aqui a crónica Nostalgia da Felicidade, publicada no n.º 108 na minha coluna Heterodoxias:

A morte prematura de Tony Judt (1948-2010) abre um buraco na memória colectiva. Não é frequente um historiador tornar-se bestseller, mas foi o que sucedeu com Judt a partir de 2005, ano em que publicou Pós-Guerra. História da Europa desde 1945. Porquê, se dezenas de historiadores e romancistas escreveram sobre a Segunda Grande Guerra, tema de centenas de filmes e séries de televisão? É simples: por um lado, Judt escreveu a opus magnum depois da abertura dos arquivos austríacos e da Europa de Leste, o que só aconteceu no fim dos anos 1990. Nenhum dos seus predecessores, nem os melhores (Hobsbawm, Lichtheim, Taylor), teve acesso a essa informação.

Por outro, interpreta o passado de forma “declaradamente pessoal”. O reconhecimento planetário foi imediato. Quando, em 2008, O Século XX Esquecido chegou às livrarias, já o discreto director do Instituto Erich Maria Remarque e professor de Estudos Europeus na Universidade de Nova Iorque era uma celebridade dos dois lados do Atlântico.

Judt nasceu em Londres, deveio americano sem dar por isso («tinha-me tornado americano») e, aos 62 anos, vítima de uma variação da esclerose lateral amiotrófica, também conhecida por doença de Lou Gehrig, morreu em Nova Iorque. A doença gerou O Chalet da Memória.

Ponto prévio: «Os ensaios que figuram neste livrinho nunca foram escritos para publicação. Comecei a escrevê-los para minha própria satisfação...» Após o diagnóstico (em 2008), impedido de viajar, começando a perder a voz, pensando mais depressa do que conseguia formar palavras, corpo paralisado, correu contra a morte. Timothy Garton Ash e Eugene Rusyn criaram as condições do sprint. Ironia suprema: são textos “felizes”. O primeiro leva-nos a Chesières, estância de esqui na Suíça, onde Judt, então com 10 anos, se deliciava com a voz de barítono e as «imprecações irrepetíveis» de Rachel Roberts, a actriz galesa que se hospedava no mesmo hotel.

É comovente ver como este homem, que com tanta argúcia escreveu sobre a História da Europa e um punhado de autores que marcou o perfil do seu e nosso tempo (Camus, Sartre, Arendt, Said, Althusser, Levi, Foucault, outros), se deixou enredar com ironia e sageza no labirinto das mnemónicas: «Para um miúdo, o racionamento fazia parte da ordem natural das coisas.» Isto não é sobre a guerra, é sobre Londres nos anos 1950. Pequena folga para a coroação de Isabel II: «foi permitido a toda a gente mais 450 gramas de açúcar...» Falando da infância, Judt faz o retrato da sociedade inglesa no tempo de Attlee e Macmillan: «A seriedade moral na vida pública é como a pornografia, difícil de descrever mas imediatamente identificável quando a vemos.» No mesmo registo, o ensaio dedicado à comida baliza a fronteira entre necessidade e volupté.

Quando em 1975 chegou à América, a convite da Universidade da Califórnia, o choque foi brutal: «nenhum lugar no mundo se pode gabar de ter universidades públicas tão boas.» Isto, dito por quem vinha de dar aulas em Oxford. Antes da mudança definitiva para Nova Iorque em 1987, andou entre Berkeley e St Anne’s: «O ataque do governo Thatcher ao ensino superior britânico estava a começar...»

Sobre os anos da political correctness, a famosa asserção de Gertrude Stein numa conferência em Oxford acerca da “questão” da mulher: «Nem tudo pode ser sobre tudo.» E assim sucessivamente, porque O Chalet da Memória é sobre quase tudo: identidade judaica, solipsismo académico, lugar do intelectual francês, sistema escolar inglês, «incontinência retórica» em Zizek, New York Review of Books, elitismo, École Normale Supérieure, bibliotecas americanas, assédio sexual... Judt, afinal, não morreu.

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LER 109


A LER 109, relativa a Janeiro de 2012, chegou hoje às bancas e livrarias. Carlos Vaz Marques entrevista Manuel António Pina  —  «Não percebo que se possa valorizar mais a poesia do que a família, os amigos, o amor, a amizade.»  —  e Anthony Bourdain. Ambos dispensam apresentações. Rogério Casanova escreve sobre Vassili Grossman e entrevista Nina e Filipe Guerra, os tradutores de Vida e Destino. Carla Maia de Almeida escreve sobre Hélia Correia. José do Carmo Francisco entrevista Liberto Cruz. O resto, que é muito, inclui crónicas — a minha é sobre o silêncio da sida na literatura portuguesa —, recensões críticas, resenhas, artigos de vária índole, a coluna do Provedor, etc. Não perca.

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ANO EM REVISTA


Em 2011 escrevi sobre livros de:

No Público, entre Janeiro e Dezembro: Jonathan Ames, Christopher Isherwood, Ricardo M. Salmón, Pedro Vieira, Romain Gary, Andrew Sullivan, Milan Kundera, Lídia Jorge, Leonardo Padura, Sophia de Mello Breyner Andresen, Mário de Carvalho, Karen Blixen, Saul Bellow, Ruta Sepetys e, na escolha dos críticos, duas pequenas notas sobre Joyce Carol Oates e Guy de Maupassant.

Na revista Sábado, entre Maio e Dezembro: Christopher Isherwood, Dante, Ignácio de Loyola Brandão, José Oliveira Ribeiro, Adam Haslett, Hugo Gonçalves, Cristina Carvalho, Richard C. Morais, Peter Carey, William Trevor, Maria Teresa Horta, Raymond Chandler, Patti Smith, Paulo Bugalho, Aravind Adiga, Joseph Heller, Reinaldo Moraes, Filomena Marona Beja, Vladimir Nabokov, Paulo Castilho, Cormac McCarthy, Lars Kepler, Patrícia Reis, Darin Strauss, J. Rentes de Carvalho, Andrea Camilleri, Guy de Maupassant, Francisco Vaz da Silva, Evelyn Waugh, Ernesto de Sousa, Mons Kallentoft, Ali Smith, Liudmila Ulítskaia, Paulo José Miranda, Martin Amis, Samanta Schweblin, Herta Müller, Virginie Despentes, Colum McCann, Miguel Real, Penelope Fitzgerald, Christos Tsiolkas, Thomas Pynchon, Clara Pinto Correia, Lewis Carroll, Dulce Maria Cardoso, Edney Silvestre, Titus Müller, V.S. Naipaul, John Cheever, J.D. Salinger, José Saramago, Florbela Espanca, Alan Hollinghurst, Per Olov Enquist, John O’Hara, Vassili Grossman, Truman Capote, Ana Cristina Silva, Julian Barnes, João Pedro George, Vasco Graça Moura, Patrick Modiano, Joyce Carol Oates, Haruki Murakami, José Luís Peixoto, Gonçalo M. Tavares, Margaret Atwood e George Eliot.

[Imagem: caricatura da Round Table por Hirschfeld.]

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Quinta-feira, Dezembro 29, 2011

CITAÇÃO, 396


José Pacheco Pereira, O estado das artes, hoje na Sábado. Excerto, sublinhados meus:

«O PSD estando no governo está bem e recomenda-se, quase no inverso de como está mal na oposição. O seu conteúdo ideológico e programático está em extinção [...] O aparelho detém todo o poder e quase não há respiração fora dele. No Governo, mais do que o primeiro-ministro, funciona o ministro do aparelho em tudo o que é sensível, movimenta interesses e lugares, posiciona para o futuro. Muita gente pensa sempre com aquela complacência de achar que há quem faça e há quem seja enganado, ou não saiba, ou não conheça. No caso vertente, a formação do primeiro-ministro e do seu principal executor é exactamente a mesma. Podem ter a certeza absoluta de que ambos, ambos, ambos, sabem de tudo. Fizeram-se lá e sabem muito bem como se fizeram. [...]»

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QUEM LÊ JORNAIS?


Ranking dos jornais diários portugueses (vendidos em banca) entre Janeiro e Outubro de 2011:

Correio da Manhã  —  124.504 exemplares diários  —  menos 0,29%
Jornal de Notícias  —  78.574 exemplares diários  —  menos 1,81%
Público  —  26.163 exemplares diários  —  menos 5,84%
Diário de Notícias  —  17.940 exemplares diários  —  menos 23,55%
i  —  5.307 exemplares diários  —  menos 15,72%
Diário Económico  —  4.781 exemplares diários
Jornal de Negócios —  3.327 exemplares diários

Estes são os dados que o Público revela.

O Diário de Notícias tem uma tabela diferente, pois junta as assinaturas (11.440 exemplares diários) às vendas em banca, o que dá um aumento de 13,2%.

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MARGARET ATWOOD


Hoje na Sábado escrevo sobre O Ano do Dilúvio, de Margaret Atwood (n. 1939), que faz díptico com Órix e Crex (2003), embora a edição portuguesa omita essa relação. Ambos pertencem ao género “romance de antecipação”. Quem gosta de Philip K. Dick vai gostar deste novo livro de Atwood que faz a síntese entre ciência e teologia num universo Verde pós-punk... Jardineiros de Deus, dançarinas de varão, jogadores de Painball, prostituição organizada (sendo o nível mais baixo designado como Eurolixo), drogas sintéticas, protectores de biopelícula, alimentos geneticamente manipulados: a carne de frango é um legume que cresce em caules... Tudo isto e a sombra de Blake.

Escrevo ainda sobre Middlemarch, o clássico de George Eliot (1819-1880) sobre o tempo em que viveu, teses racionalistas, humanismo naturalista, comportamentos e relações humanas, política, arte, ciência e religião. Sir David Cecil, o crítico inglês, disse em 1934 que Middlemarch é o equivalente possível, em língua inglesa  —  «o que se pôde arranjar»  —, de Guerra e Paz de Tolstoi... José Miguel Silva e Miguel Serras Pereira, que assinam a nova tradução desta obra-prima do catálogo da Relógio d’Água, estão de parabéns.

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