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Sexta-feira, 21 de Maio de 2010

Quando a realidade supera a ficção mais extravagante...

Domingo, 3 de Agosto de 2008

Viver e aprender

Outro dia, a pretexto de já não sei bem o quê, lá fui novamente jantar ao "Le P'tit Canon" (nova morada: 36, rue Legendre, XVII arrondissement, Paris). Desta vez o grupo era maior. Vá-se lá saber porquê calhou-se a responsabilidade de escolher o vinho. Quer dizer, pensavam eles. Eu já sabia que a responsabilidade ia cair no Christian (patrão do P'tit Canon), cuja competência em matéria de vinhos só tem rival na simpatia da sócia, Isabelle. Eu ainda tentei, só por questão de manter as aparências:

(diálogo original em francês, traduzido livremente, assim mo permita a memória vaga dos acontecimentos, para português, correndo um pequeno risco de ser levemente romanceada - os links de hipertexto não constam do diálgo original)

(eu) - Então..., pode ser o Madiran.
(e ele) - Madiran, lamento mas não temos, ainda vem a caminho.
(e eu) - Ah bom?
(e ele) - Sim, mas temos um Saint-Chinian que é uma maravilha, é mesmo melhor que o Madiran.
(e eu armado em entendido) - Ah bom? E isso que cepagem é que é?
(e ele, com paciência) - É principalmente Mourvèdre, com um pouco de Syrah.
(e eu) - Ah, e tal, Mourvèdre não conheço. [e lá se foi a aura de entendido] Venha o Saint-Chiniant.
- seis garrafas mais tarde -
(eu) - Era mais uma garrafa do Saint-Chinian, svp.
(e ele) - Saint-Chinian acabou-se, vocês beberam a última garrafa*.
(e eu) - Ah bom?
(e ele) - Sim, mas tenho uma garrafa de Côtes du Marmandais, da propriedade Château de Beaulieau, 1995. É uma maravilha, digamos que é já uma divisão acima do Saint-Chinian [ou seja, estávamos já na luta pela Liga dos Campeões].
(e eu) - Côtes du Marmandais?
(e ele) - Sim é ali entre o Languedoc e Bordeaux.
(e eu) - Venha o Côtes du Marmandais.

E de momento não consigo fazer uma avaliação dos vinhos mais exacta do que o que se pode depreender do post, mais algum trabalho de campo será necessário para esse efeito. Excepto que o facto de "Côtes de Marmandais" se encontrar entre o Languedoc e Bordeaux, é muito mais, mas muito mais do que uma simples circunstância geográfica. Do que me lembro o "Château de Beaulieu" é um excelente vinho porque sem ser nem Languedoc nem Bordeaux, consegue ser Bordeaux e Languedoc ao mesmo tempo.

* É a primeira vez, de que me lembre, que consigo tal proeza.

Quinta-feira, 10 de Julho de 2008

Mudar de vida para não mudar de hábitos


Não obstante algum (ligeiro) desencantamento com Paris, a que a eleição de Sarkozy não será alheia, nem alguns parisienses tampouco, há algo que continuo a fazer com prazer nesta cidade: subir de bicicleta a rue Froidevaux. Aliás mereceu um dos meus primeiros posts, que estava até escrito na minha cabeça antes que me lançar na blogosfera. Entretanto mudei de casa, mas a Froidevaux continuou no meu caminho quotidiano. E eis que senão quando o meu chefe resolveu mudar de local de trabalho, e com ele toda a equipa. A ideia até era que eu o mudasse com ele, mas inenarráveis proezas de que só a napoleónica burocracia é capaz fizeram com que a história mudasse o curso. Pelo menos assim reza a versão oficial. Na realidade talvez o meu inconsciente, se é que ele existe, não tenha perdoado a alteração do trajecto de e para o trabalho, que por mais boa-vontade que tivesse não contemplava a Froidevaux. Mudei de emprego. Voltei a poder subir essa rua pela manhã, e que nesta altura do ano está tã' verde, tã linda. Sei também que o novo instituto onde trabalho agora vai mudar de instalações em breve. Tive o cuidado de verificar antecipadamente: a Froidevaux vai continuar no caminho. O único senão é que o trajecto vai ficando cada vez mais longo, seja...

Sábado, 7 de Junho de 2008

Jornalismo preguiçoso

A taxa de acidentes com ciclistas em Paris está longe de ser um dos mais prementes problemas da humanidade, mas por estes dias serve muito bem como exemplo do que é o jornalismo preguiçoso. O comissariado da Polícia de Paris lança um comunicado dando conta de um aumento de 21% dos acidentes no primeiro trimestre de 2008, comparando com o mesmo período de 2007. Logo pululam pela imprensa francesa notícias alarmistas de uma "explosão" (sic) de sinistralidade velocipédica em Paris (por exemplo aqui, aqui, aqui e até no respeitável Libération), e de caminho associa-se a coisa ao Vé'lib (iniciativa do município de Paris que disponibiliza qualquer coisa como 20 mil bicicletas de aluguer). Até que finalmente um jornalista, do rue89 (só podia...) faz o seu trabalho. Os acidentes aumentaram 21% mas a circulação em bicicleta aumentou 33% no mesmo período. Tal como em 2007 os acidentes aumentaram em 37% comparando com 2006, enquanto que a circulação em bicicleta aumentou em 70%. Ou seja, na realidade, se a taxa de acidentes aumentou muito abaixo do aumento da circulação, o risco de um ciclista ter um acidente em Paris diminuiu substancialmente nestes últimos tempos. Exactamente o contrário do que nos dizem as notícias. Seria interessante perceber porque razão o risco diminui quando aumenta a circulação, mas a discussão ainda não chegou a esse nível. Para começar seria bom que mais jornalistas aprendessem a ler números, e a colocar um mínimo de questões relevantes antes de reproduzirem comunicados de imprensa. Enfim, que aprendessem a fazer o seu trabalho.

Sábado, 8 de Março de 2008

Aux Grandes Femmes, la Patrie Reconnaissante



A Mairie de Paris teve uma iniciativa notável por ocasião do dia internacional da mulher, que se comemora hoje. Paris decidiu honrar a memória de nove mulheres que marcaram a História de França. Já que a Pátria não o fez, fê-lo Paris em nome da Pátria (como se diz aqui). São nove figuras do feminismo, não só marcaram a história, como se bateram todas, em diferentes contextos, e de diferentes maneiras, pelos direitos das mulheres. A Mairie de Paris afixou um retrato de cada uma destas mulheres, acompanhado de uma citação. Diz o Maire de Paris, Bertrand Delanöe, a igualdade dos géneros faz-se também pela história e pelo trabalho de memória, e tem razão. A iniciativa é particularmente feliz em vários aspectos. A escolha do local onde as fotografias das mulheres homenageadas é excelente: o Panthéon. Do ponto de vista visual as fotografias na fachada são imponentes, o que tem que ver com a arquitectura do edifício, e da própria praça do Panthéon. Mais importante ainda, do ponto de vista simbólico a escolha do Panthéon é importantíssima, é o lugar para onde vão os heróis da Pátria, é onde estas mulheres deveriam estar. Das nove apenas uma está de facto (Marie Curie). Ainda do ponto de vista simbólico a escolha da frase que dá o título a esta homenagem (e a este post): "Aux Grandes Femmes, la Patrie Reconnaissante", ou seja "Às grandes mulheres, a Pátria Reconhecida" quando precisamente no Panthéon está gravado a ouro, na fachada "Aos Grandes Homens, a Pátria Reconhecida"..., enfim, pequenos pormenores.

As nove mulheres são: Olympe de Gouges, Simone de Beauvoir, Marie Curie, Colette, Georges Sand, Solitude, Louise Michel, Charlotte Delbo e Marla Deresmes. Confesso que só conhecia duas ou três, mas isto serviu-me para aprender mais um pouco. Simone de Beauvoir, ao centro, e de quem se comemora do centésimo aniversário do nascimento este ano, dispensa apresentações. Marie Curie ganhou dois prémios Nobel, pouca gente, homem ou mulher conseguiu esse feito. Abriu o caminho para as mulheres entrarem no mundo da Ciência. Olympe Gouges, uma das primeiras feministas francesas, autora da Declaração dos Direitos da Mulher nos tempos da revolução francesa. Foi condenada à morte pelo Tribunal Revolucionário em 1793. Louise Michel, militante anarquista revolucionária, lutou durante a Comuna de Paris. Foi deportada e morreu no exílio. Charlotte Delbo, participou na Resistência Francesa durante a segunda Guerra, e foi uma das poucas mulheres a sobreviver a Auschwitz.

A minha preferida, mesmo que não faça sentido estabelecer preferências, é Solitude. Na realidade o seu nome não é conhecido, embora a sua história seja, o nome Solitude foi-lhe dado pelas circunstâncias da sua morte. Solitude era uma mulata escrava da ilha da Guadeloupe. Filha de uma escrava violada por um branco a bordo de um barco negreiro, ainda no caminho de África para as antilhas. Tornou-se mulher livre quando a Revolução Francesa aboliu a escravatura, e lutou para manter a sua liberdade quando Napoleão decidiu re-estabelecer a escravatura, e fazer todos os negros e mulatos tornados livres regressar à condição de escravo. Nunca é demais relembrá-lo, esse grande homem que foi Napoleão Bonaparte fez a França regressar ao regime esclavagista quase dez anos depois da Revolução o ter abolido. Uma das consequências foi a independência do Haiti, no que foi a primeira (de muitas) derrota militar de Napoleão, e logo contra um exército de negros ex-escravos. Na ilha da Guadeloupe os escravos não lograram esse sucesso (ainda hoje faz parte de França), mas combateram as tropas de Napoleão vindas para repor a ordem esclavagista na ilha. Nesse combate destacou-se como líder o mulato Louis Delgrès, que havia já sido da militar da Revolução Francesa. Solitude combateu ao lado de Delgrès, chegando a combater grávida. Foi capturada e condenada à morte por enforcamento, tendo sido executada no dia seguinte a ter dado à luz o seu filho. Tem uma estátua erigida em sua memória na Guadeloupe, em que é representada grávida (foto em baixo). As suas últimas palavras são a citação que acompanha o seu retrato no Panthéon, e que foi o grito dos que lutaram ao lado de Delgrès: "Viver livre ou morrer!"


Mais informações sobre a homenagem às nove mulheres no Panthéon aqui. Programa das comemorações do dia Internacional da Mulher em Paris aqui. Foto de Solitude retirada daqui.

Segunda-feira, 26 de Novembro de 2007

A suivre

Ontem ao fim da tarde dois adolescentes morreram num acidente com um carro de polícia, num "bairro sensível" dos subúrbios norte de Paris, não muito longe de onde começaram os tumultos de 2005. A moto onde seguiam os dois jovens foi abalroada pelo carro de polícia, mas não se conhecem ainda as circunstâncias do acidente, apenas que os jovens seguiam sem capacete. Menos de uma hora depois do acidente ocorreram confrontos violentos entre jovens e a Polícia. Tudo muito semelhante ao que aconteceu há dois anos, excepto que a violência da primeira noite de confrontos foi maior ontem do que em 2005. Provavelmente as autoridades estão também mais preparadas agora do que estavam na altura. A seguir com atenção o que vai acontecer nas próximas noites nas banlieues. Uma coisa parece óbvia, o mal-estar entre os jovens dos "bairros sensíveis" e a Polícia é tão grande ou maior do que em 2005. Dois anos passaram sem quaisquer progressos. Notícias no Le Monde e no Libération.

Sábado, 24 de Novembro de 2007

Com isto das greves o estacionamento em Paris está cada vez mais difícil

Segunda-feira, 6 de Agosto de 2007

Paris em Julho

Parece que vem aí o Verão..., mas por enquanto é só chuva. Ah, cá está o sol, é tão bom não foi? Chuva. Não, agora é que é, sol, calor. Nuvens, chuva. A culpa é do Sarkozy, afinal antes das eleições esteve muito bom tempo. Bom, finalmente começou o Verão. Mau, já acabou o Verão? Não, é este fim-de-semana que começa. Piquenique! Estamos já em Agosto. Acabou-se o fim-de-semana. Acabou-se o Verão. Talvez para a semana. Talvez para o ano.

Segunda-feira, 9 de Julho de 2007

O cosmopolitismo começa no estômago (em jeito de adenda)

Em jeito de adenda ao meu post anterior:
O que dizer de uma Tapenada de Anchovas (receita vagamente italiana) comprada no mercado de domingo (na banca do vendedor aparentemente magrebino) à qual se junta um pouco de piment das Antilhas e se barra numa faita de Pão Saloio?

Adenda à adenda:
E o que dizer daquela Crèperie da rue Mouffetard que de bretã tem muito pouco? O patrão é sul-americano, os empregados falam todos espanhol excepto uma senegalesa. Os recheios dos crepes variam entre a Ratatouille (que sendo francesa é mediterrânica), o Salmão fumado do Mar do Norte, e o Chilecito (que do pouco que sei parece ser um guisado da Argentina). Para que o desrespeito pela tradição bretã não seja total, pode sempre beber-se uma cidra.

Sexta-feira, 6 de Julho de 2007

Cosmopolitismo: Os Libaneses e as Sanduíches

Uma nota prévia: Como já foi referido algures aqui no Peão, Cosmopolitismo e Multiculturalismo não são a mesma coisa (encontrei uma boa explicação da diferença aqui). Eu próprio confundi os dois em posts anteriores, fica aqui o esclarecimento, entre um e outro prefiro sem hesitações o Cosmopolitismo. O Cosmopolitismo cria pontes onde o Multiculturalismo ergue barreiras. Aliás, até mais do que pelo Cosmopolitismo sou mesmo é pela Misturas, pela Miscigenação.

E nas minhas deambulações (sobretudo por Paris, mas não só) cheguei à conclusão que o Cosmopolitsmo começa pelo estômago, ou se quiserem pelas papilas gustativas. Não conheço maneira mais fácil de começar a criar pontes entre comunidades do que a gastronomia. Veja-se o exemplo das Sanduíches Libanesas no Quartier Latin. Há várias casas que se dedicam ao negócio, mas a mais aconselhável é "Au Vieux Cèdre" (187 rue St. Jacques, ou 2 rue Blainville). Como quem não quer a coisa as sandes são baratinhas. Kefta ou Mahkaneke, ou melhor ainda Chiche Taouk (frango marinado em alho e lima), enrolado em pão tipo pita com salada e molho, e para quem quiser - o que é definitavamente uma boa ideia - um complemento de batata à la Libanaise. A sandes é depois tostada tipo panini - uma delícia! Em momentos de não rara simpatia o cliente tem o direito a um chá libanês - com menta e tomilho e mais alguns ingredientes, estamos em negociações para obter a receita - oferta da casa para compensar a espera (que é, em média, de 3m42s). Há ainda sobremesas como a irresitível Balohria, à base de flor de laranjeira. "Au Vieux Cèdre" é também um local de encontro com um pouco, por pouco que seja, da cultura libanesa, pelo menos a música, que toca em permanência. Mas pode ser também um ponto de contacto com a vida política do Líbano. Durante a Guerra do ano passado fez-se circular muita informação sobre as acções de solideriedade para com o Líbano decorridas em França, e blogues libaneses. Rentemente o "Au Vieux Cèdre" lançou uma nova sanduíche, a Fajita. E agora pergunta o leitor: Fajita? Mas isso não é mexicano? E responde este vosso bloguer: é mexicano, mas numa sandes libanesa é daqui (e aperta o lóbulo da orelha direita entre o polegar e o indicador), uma maravilha!

Sendo a concorrência na área das sanduíches libanesas díficil, uma outra família de libaneses decidiu diversificar. Abriram o "Pains, Salades et Fantesies" (22 rue Gay Lussac, mesmo ao pé do Jardin du Luxembourg). O nome diz tudo quanto ao tipo de comida que servem. Não se pode é dizer que seja um tipo de gastronomia calssificável pelos padrões canónicos. Não é libanês, nem francês, nem outra qualquer etnicidade, é uma misturada, e da boa. Paninis de salmão fumado, ou frango, ou vegetariano à base de beringela. Saladas "Californianas" ou de marisco, ou "Tropical". Uma variedade de escolha apreciável, e a confecção muito boa (só é pena ser tudo muito saudável). Nas sobremesas é absoulutamente imperdível o "Fraicheur", iogurte natural, com folhas e menta e passas. Tudo isto num ambiente muito tranquilo onde se ouve um Jazz muito "select" a décibeis reduzidos, numa decoração neo-eco soft vegi-friendly e onde se podem ler jornais escritos em árabe. Os preços são mais do que acessiveis, e o serviço é rápido (excepto quando a clientela bcbg exagera na especificações pós-modernas da condimentação; é um risco real), a degustação essa convém que seja lenta e "sur place".

Quarta-feira, 20 de Junho de 2007

À atenção do futuro edil de Lisboa (e dos ladrões de bicicletas)


Vai iniciar-se em breve (15 de Julho) em Paris o serviço Velib "oferecido" pela Marie de Paris. Estão a ser instaladas pela cidade toda estações "self-service" de bicicletas, haverá uma estação a cada 300 metros, e para começar vão estar disponíveis 10000 bicicletas (dez mil!). As bicicletas são alugadas, mas a primeira meia-hora é gratuita. Pode obter-se uma subscripção ao ano, à semana ou ao dia (tudo baratinho), e é gratuito para quem tem o passe para os transportes públicos (NaviGo). Uma boa ideia que pode bem ser aproveitada noutras cidades.
Sim, eu sei que Lisboa é uma cidade com colinas, não plana é como Paris ou Amesterdão, etc... etc... Lyon também é uma cidade com bastante relevo e um sistema semelhante já existe há dois anos, onde aliás Paris se inspirou. E pelos vistos funciona.

(pequena video-reportagem aqui)

Quinta-feira, 17 de Maio de 2007

La Démocratie du Sandwich

Nota prévia: este post provavelmente é compreensível apenas para os padeçam ou tenham padecido de uma patologia denominada Seinfeldependência, ou requer no mínimo que estejam familiarizados com esse síndrome.
A Boulangerie Moderne (16 rue des Fossés de Saint Jacques, 5émé arrondissement, na realidade é na place de l'Estrapade) é uma padaria em Paris, que se dedica principalmente a vender sanduíches ao almoço. Escrevo este post porque a Boulangerie Moderne é verdeiramente o oposto do The Soup Nazi. Sendo rigoroso, em Sein-Language é a versão Bizarro World do Soup Nazi (mais sobre o Bizarro World aqui).
No Soup Nazi (também tem direito a uma entrada na Wikipedia) para que o serviço se faça de forma ordeira e eficaz o Chef estabelece uma série de regras draconianas a que os clientes têm de se submeter: respeitar a fila, fazer a encomenda de forma expedicta quando chega a sua vez, avançar para a caixa depois de fazer a encomenda, ter o dinheiro pronto etc... Quem não respeita estas regras é severamente punido. Na Boulangerie Moderne é totalmente o oposto. Não são excelentes sopas que se vendem, são magníficas sanuíches (e.g. Sicilian Poulet). As regras de conduta para um serviço ordeiro e eficaz não são ditadas pelo Chef antipático e autoritário, logo à partido porque não há um Chef antipático e autoritário mas três simpatissímas senhoras a atender os clientes. As regras de conduta existem mas não estão escritas em lado nenhum, é um código ético tacitamente aceite pelos clientes (quase todos habitués): 1) entra-se pela porta à direita, ou faz-se fila no exterior se for caso disso; 2) mais ou menos depois de se ter passado um metro da porta virá uma das senhoras solicitamente perguntar ao cliente o que deseja, é nesse momento deve ser feita a encomenda; 3) o pagamento é feito logo após a ecomenda; 4) caso seja necessário esperar que a sanduíche seja aquecida, o que é quase sempre o caso, e é neste ponto que podem ocorrer mais perturbações à ordem pública devido à escassez de espaço (a padaria é sobre o comprido, basicamente um corredor estreitinho de uma porta à outra), há um mini balcão do lado da janela, mais parece um parapeito, ao qual o cliente se deve encostar enquanto espera que a sua sandes esteja pronta, se o balcão estiver completamente ocupado a solução de recurso é encontrar um cantinho na esquina junto à caixa; 5) uma vez servido o cliente deve sair o mais rapidamente e graciosamente possível, sem pisar os demais clientes.

Nunca ninguém foi punido por desrespeitar estas regras. Muito menos as simpáticas senhoras ao balcão alguma vez fizeram reparos quanto à conduta dos clientes. O mais que pode acontecer é a quem entra pela porta da esquerda não ser servido porque a sua vez nunca chega. Não que isso seja intencional mas por uma simples falta de referencial (é o que se chama a coacção passiva). Claro que por exemplo uns jovens turistas alemães, que não estejam familiarizados com o código de conduta, terão tendência a colocar um sem-número de questões antes fazer a sua encomenda, e colocar-se no meio do corredor enquanto esperam pelas suas sanduíches, impedindo o normal fluxo dos demais utentes do serviço. A prática corrente neste tipo de situações é a da mais pura tolerância, espera-se pacientemente que os prevaricadores abandonem o local, depois de servidos, para que a vida regresse à normalidade. Há também uma prática instituida de tolerância relativamente aos compradores-de-baguetes-à-hora-de-almoço, considera-se razoável que passem à frente de toda a gente na fila e saiam rapidamente, por vezes tolera-se até que entrem pela porta da esquerda. No final de contas chega-se à conclusão que na versão Bizarro World do Soup Nazi a coisa funciona também de forma ordeira e eficaz, a qualidade do serviço e do produto são excelentes, e porventura a experiência é mais agradável (bizzarre...).

P.S. - Depois de escrever isto assalta-me uma dúvida: o título do post não deveria ser antes "L'Anarchie de la Sandwich"?

Domingo, 25 de Março de 2007

Multiculturalismo (I)

Há ali um restaurante turco onde aqui o tuga vai amiude comer uma sanduiche grega (discutivelmente a melhor Donner "sauceblanchesaladetomateongion" de Paris), e não é apenas o tuga, também lá vão a amiga antilhesa, o vizinho argelino do supermercado e mais uma rapaziada daqui do bairro de diversas origens africanas, entre outros. O restaurante tem um empregado novo, que é do Bangladesh e fala muito pouco francês, o pouco francês que fala é o patrão (turco) que lhe vai ensinado, mas a maior parte do tempo falam em inglês.