Sexta-feira, Janeiro 20, 2012

É tudo uma questão de “pentelheira” laranja

O antigo ministro das Finanças, Eduardo Catroga, continua a não deixar os seus créditos por “pentelhos” (mais ou menos) alheios.

Hoje, com a sua habitual e internacionalmente (pelo menos na China) reconhecida perspicácia, propôs que seja criada uma troika  para o crescimento" que defina um programa para a competitividade e o emprego.

Mostrando a razão pela qual vai ganhar um salário de 45 mil euros/mês, ou seja mais de 639 mil euros anuais, como presidente do Conselho Geral e de Supervisão da EDP, Catroga explicou que "santos da casa não fazem milagres".

E se assim é, e ninguém ainda tinha pensado nisso, urge criar a tal segunda troika que, diz,  deve ser composta pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Económico (OCDE), pelo Banco Mundial e por um conjunto de "gurus" nacionais (certamente liderados por ele) e internacionais "que ajudem a definir um programa bem estruturado" que Portugal possa promover junto dos seus parceiros.

"Sozinhos não vamos lá", acrescentou Eduardo Catroga, destacando que já há muitos anos tem vindo a defender a ideia da necessidade de uma aposta no crescimento, uma vez que a "austeridade vai levar à contracção da actividade económica", sendo necessário um contraponto.

É claro que Pedro Passos Coelho vai aproveitar a ideia e, mais uma vez, ser criticado por dar cobertura a mais um génio cujo “pentelheira” cerebral não pára.

Recorde-se, como todos sabemos, que com este governo (cito Passos Coelho) os lugares nas empresas e instituições "serão preenchidos segundo uma escolha que esteja muito para além da questão da confiança política e que envolva o mérito, independentemente da área partidária" dos candidatos.

Convenhamos também que um factor decisivo tem a ver com o curriculum dos candidatos e que – como acontece nos mais evoluídos países – tem o cartão de militante do PSD como condição sine qua non para se ser o melhor.

Todos sabem que a Universidade do PSD é das mais cotadas quanto a garantir que todos os seus alunos terão boas saídas profissionais. Daí, creio, ser normal num país que quando emergir, se emergir, do pântano estará perto do Burkina Faso, escolher os melhores.

Não sei, por isso, porque razão os escravos estranham o que faz o dono do país. Já deveriam estar habituados. Aliás, certamente que se recordam que Passos Coelho disse que através do Orçamento de Estado para 2012, "o governo pede sacrifícios aos portugueses, a todos os portugueses".

E ele pediu. Os que têm força para não dar, não deram. Os outros, a grande maioria, como nem força têm para manter a barriga com qualquer coisa dentro…

Segundo Passos Coelho, o governo "teve a preocupação de proteger os mais vulneráveis", pedindo, por isso, "um esforço acrescido a quem mais pode" e, por outro lado, "ataca transversalmente a despesa supérflua das estruturas do próprio Estado, com a reestruturação dos seus organismo e dos seus procedimentos".

E quem são os mais vulneráveis? Não são com certeza os 800 mil desempregados, os 20 por cento de pobres e outros 20% que não dão uso aos pratos. Esses nem existem para o Governo.

Quando Passos Coelho se refere aos que mais podem, estará a pensar em quem? Não é certamente em Joaquim Pina Moura, Jorge Coelho, Armando Vara, Manuel Dias Loureiro, Fernando Faria de Oliveira, Fernando Gomes, António Vitorino, Luís Parreirão, José Penedos, Luís Mira Amaral, António Mexia, António Castro Guerra, Joaquim Ferreira do Amaral, Filipe Baptista, Ascenso Simões ou Duarte Lima.

Ou seja, todos vão ficar sem uma refeição por dia. Até nem está mal. Os que têm três ficam com duas, os que têm duas ficam com uma, os que tem uma ficam sem ela e os que já não têm nenhuma… não fazem falta.

Novo presidente do CCB ainda será contra o Acordo Ortográfico e dirá que a CPLP nada mais é do que uma organização fantasma?

O escritor Vasco Graça Moura foi nomeado o novo presidente do Conselho de Administração da Fundação Centro Cultural de Belém, em Lisboa, anunciou, hoje, fonte oficial da secretaria de Estado da Cultura. Substitui António Mega Ferreira, cujo segundo mandato de três anos termina no dia 22.

Vasco Graça Moura considerava (será que  agora ainda considera?) que a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) é uma espécie de organização fantasma, “que não serve para rigorosamente nada”, a não ser “ocupar gente desocupada”.

“O Instituto Internacional da Língua Portuguesa não está em funcionamento porque nenhum dos países membros da CPLP lhe dá meios para o fazer”, disse em Julho de 2010  o escritor e também poeta, a propósito da VIII Cimeira de chefes de Estado e de Governo da CPLP.

“Isto corresponde a uma coisa chamada CPLP, que é uma espécie de fantasma que não serve para rigorosamente nada, que só serve para empatar e ocupar gente desocupada”, acrescentou na altura em declarações à Lusa.

Para o escritor, o IILP “é uma entidade fantasma criada dentro de outra entidade fantasma.”

“Não se nota que exista qualquer espécie de política da língua da parte do Governo português e nota-se, da parte da mesma entidade, uma enorme estupidez na forma de tratar a língua, no que diz respeito ao Acordo Ortográfico”, disse (será que ainda diz?) o escritor.

Vasco Graça Moura, que é (ou era) uma das vozes contrárias ao Acordo Ortográfico por considerar que este tem deficiências e erros que lesam o Português, considera que o Governo está a cometer um crime contra a língua portuguesa.

“Os crimes que este Governo está a cometer e está em vias de cometer em relação à língua diz respeito ao Acordo Ortográfico. Portanto, não há política de língua digna deste nome. Há uma série de equívocos em que este Governo está a persistir”, sublinhou.

Segundo o escritor, “o acordo ortográfico é um atentado criminoso contra a língua portuguesa tal como se fala em Portugal, Angola, Moçambique, na Guiné-Bissau, Cabo Verde e São Tomé e Príncipe.”

“É um atentado que tenta desfigurar completamente a língua e é absolutamente irresponsável da parte de quem negociou e da parte de quem o aprovou”, disse.

“As pessoas falam português em qualquer parte do mundo e se entendem, seja no aspecto familiar, cultural, negocial, diplomático, isso nunca prejudicou ninguém (o facto de não haver um acordo ortográfico)”, referiu.

Graça Moura sublinhou também a importância dos países africanos lusófonos na projecção do português no âmbito internacional, além de Portugal e Brasil.

“Basta considerar o número de habitantes de todos os países que falam a língua portuguesa, não apenas o Brasil, não apenas Portugal. Se considerarmos os países africanos de língua portuguesa, temos mais 50 milhões de pessoas, pelo menos, a falar português”, indicou.

Para Graça Moura, nunca foi preciso um Acordo Ortográfico para a projecção internacional do português.

“A projecção do português pode passar pelas organizações internacionais, pode passar pela promoção da cultura da língua, pela promoção da aprendizagem. Neste momento, a melhor maneira de projectar a língua é acabar, pura e simplesmente, com o Acordo Ortográfico”, concluiu.

Aguardam-se os próximos capítulos.

Petição pública a favor de Cavaco Silva

A discrição da insuficiência alimentar

O primeiro-ministro de Portugal, Passos Coelho, abriu hoje o debate quinzenal no Parlamento com elogios aos parceiros sociais e distinguiu a intervenção “discreta mas importante” de Cavaco Silva.

Portugal não tem economia, mas tem ministro da Economia. Já não falta tudo. Não tem presente, não sabe se terá futuro mas (o que já não é mau) teve passado. Foi dos primeiros a acabar com a escravatura mas agora, na sua qualidade de protectorado, volta a instituir o regime esclavagista. Além disso tem um presidente “discreto”…

E por ser tão discreto é que os portugueses não sabem o que tem andado Cavaco Silva a fazer, pelo menos desde Março de 2002, para além de gozar com a miséria dos outros.

E, como se não bastasse aos portugueses estarem a aprender a viver sem comer, ainda têm de gramar com as teorias do actual presidente da República, Cavaco Silva, que quando deixa de ser discreto apenas consegue dizer que em Portugal existe “insuficiência alimentar”.

Dizer a quem passa fome que apenas padece de "insuficiência alimentar" é, digamos, uma poética forma de juntar à barriga vazia dos portugueses um atestado, em papel timbrado da Presidência da República, de menoridade ou estupidez.

Consta, aliás, que Cavaco Silva (que em termos vitalícios só tem direito a 4.152 euros do Banco de Portugal, a 2.328 euros da Universidade Nova de Lisboa e a 2.876 euros de primeiro-ministro) terá até decidido que, por solidariedade com os que sofrem de “insuficiência alimentar”, vai passar a fazer greve de fome… entre as refeições.

Que fique igualmente claro que Cavaco Silva nada tem a ver com o estado a que Portugal chegou. E não tem, registe-se, porque só foi primeiro-ministro  de 6 de Novembro de 1985 a 28 de Outubro de 1995, só venceu as eleições presidenciais de 22 de Janeiro de 2006 e só foi reeleito a 23 de Janeiro de 2011.

Sempre que fala ao país, directa ou indirectamente, de forma mais ou menos discreta, Cavaco Silva sacode a água do capote e continua (como se, para além de presidente da República, não andasse há um monte de anos na política portuguesa e sempre nos areópagos do poder) a esquecer-se de que quem não vive para servir não serve para viver.

"Eu disse que se devia ter em conta o limite que se pode exigir ao cidadão comum", e é relativamente a esses "que nós temos que pensar como, neste tempo de dificuldades, assegurar uma vida digna", diz o presidente.

O presidente da República defende, também, um "debate aprofundado" e "com muito bom senso" na Assembleia da República (AR) em matéria fiscal e de justiça fiscal, para evitar "erros" prejudiciais ao país.

"A competência exclusiva em matéria fiscal cabe à AR e o que eu aconselharia é que, nesse domínio, se faça um debate aprofundado, com muito bom senso, tendo presente todas as consequências para o desenvolvimento futuro do nosso país", disse.

O chefe de Estado lembrou que, "às vezes" se cometem "erros", como "já aconteceu noutros países no domínio fiscal", os quais "têm consequências muito negativas para o futuro do país, prejudicando as possibilidades de aproximação aos níveis de desenvolvimento da União Europeia".

Será que os portugueses se recordam que o mesmo Cavaco Silva afirmou que o mal da economia portuguesa estava nas finanças públicas, mas que o "medo" dos políticos dificultava a sua correcção, malgrado defender um quase poder de veto para o ministro das Finanças?

Recordam-se que o também ex-líder do PSD e  ex-primeiro-ministro considerava, em Março… de 2002, que Portugal tinha no máximo um ano e meio para inverter a tendência de degradação da situação económica?

Para o também economista, professor universitário e presidente da República, seria, contudo, "muito complicado" para o Governo resolver "o problema mais grave" que afecta a economia portuguesa: a crise nas finanças públicas. Recordam-se?

Será que também se recordam de ele ter dito que “os políticos, como pessoas normais que são, têm medo, e será precisa muita coragem política para adoptar políticas necessárias, mas cuja viabilidade política é duvidosa"?

Ou que Cavaco Silva dizia que a solução passava, necessariamente, por "reforçar os poderes do ministro das Finanças", que devia contar com o apoio incondicional do primeiro-ministro e dispor "de um poder quase de veto sobre os restantes ministérios"?

Recordam-se que também foi ele quem afirmou que o objectivo era assegurar a concretização de medidas que se antevêem impopulares, como as reformas da saúde - apostando na gestão privada dos hospitais públicos - e educação, a extinção de alguns serviços públicos, a contenção nas transferências para as autarquias, o equilíbrio das contas externas e o assegurar de "disciplina" nas empresas públicas?

Ou que era necessário acompanhar "quase à semana o endividamento de determinadas empresas públicas, nomeadamente no sector dos transportes e do audiovisual”?

Recordam-se ainda que Cavaco Silva defendia, quanto à evasão e fraude fiscais, como única solução viável "um claro levantamento do sigilo bancário" sustentando que, mesmo face ao risco de fuga de capitais, "em situação de crise" esta medida se impõe?

E então, se Cavaco Silva afirmava tudo isto há quase dez anos, é  caso para perguntar, para voltar a perguntar, para nunca deixar de perguntar, o que tem andado Cavaco Silva a fazer pelo menos desde Março de 2002, para além de gozar com a miséria dos outros?

Quinta-feira, Janeiro 19, 2012

Sindicato "junta-se" aos donos do país para pôr ainda mais jornalistas no desemprego...

Por muito que o Sindicato dos Jornalistas portugueses diga o contrário, o jornalismo que por aí se vê, ouve ou lê é feito sobretudo por analfabetos funcionais:  sabem ler e escrever, mas não lêem nem escrevem. E quando assim é…

O Sindicato dos Jornalistas (SJ) de Portugal considera que o chamado acordo de concertação social “representa um processo de inadmissível retrocesso na protecção do direito ao trabalho digno e com direitos, pelo que se compromete a combatê-lo por todos os meios”.

Não está mal. Desde logo porque, julgava eu, a tal “protecção do direito ao trabalho digno e com direitos” era uma peça de museu que, mesmo assim, ainda estaria arrumada lá no fundo da arrecadação da memória.

Em comunicado divulgado hoje, o SJ sublinha que o “Compromisso para o Crescimento, Competitividade e Emprego”, subscrito pelo Governo, pelas confederações patronais e pela União Geral de Trabalhadores (UGT), é um “retrocesso inaceitável na protecção do emprego e no desemprego, um recuo histórico na negociação colectiva e confisco ilegítimo da própria liberdade negocial entre sindicatos e associações patronais”.

Não estando em causa a razão do SJ, mas lembrando que a força da razão nada vale se comparada – como é o caso – com a razão da força, não adiante andar a dizer que o pão dos pobres quando cai ao chão tem sempre a manteiga voltada para baixo. E não adiante porque, em Portugal, os pobres (que são cada vez mais) já não tem pão e muito menos manteiga.

O documento, que analisa os aspectos “mais gravosos do "acordo", conclui que não resta ao SJ - organização independente e não filiada nas centrais sindicais -, outra alternativa a não ser lutar "por todos os meios contra o pacote legislativo iníquo que o Governo apresentará à Assembleia da República com a cobertura do “Acordo”, intervindo em todas as frentes possíveis”.

Nesse sentido, num devaneio ingénuo, o SJ apela aos jornalistas para que se "unam em torno da sua organização, reforçando-a, no combate aos novos ataques aos seus direitos e garantias".

O SJ sabe que os jornalistas são uma espécie em vias de extinção, existindo meia dúzia de exemplares que tentam, numa clausura quase franciscana, evitar o seu total desaparecimento. Também sabe que, pela barriga, não há espécie que resista aos seus donos e, é claro, aos donos dos seus donos.

Pedro Miguel Passos Relvas Coelho, na senda de José Sócrates e em consonância com Fernando Lima (o consultor político do Presidente da República de Portugal, e seu ex-assessor de imprensa, que considera que "uma informação não domesticada constitui uma ameaça com a qual nem sempre se sabe lidar") continua a sua vitoriosa luta em prol do fim, entre outras, da liberdade de imprensa.

Pedro Miguel Passos Relvas Coelho conseguiu, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, transformar jornalistas em criados de luxo do poder vigente.

Em Portugal Pedro Miguel Passos Relvas Coelho, enquanto primeiro-ministro, conseguiu, sem grande esforço e em muitos casos apenas por um prato de lentilhas, garantir que esses criados regressarão mais tarde ou mais cedo (muitos já lá estão) para lugares de direcção, de administração etc..

Pedro Miguel Passos Relvas Coelho deu carácter não só legal como nobre à promiscuidade do jornalismo com a política (sobram os exemplos de jornalistas-assessores e de assessores-jornalistas).

Pedro Miguel Passos Relvas Coelho deu carácter não só legal como nobre ao facto de que quem aceita ser enxovalhado pode a curto prazo – basta olhar para muitas das Redacções - ser director, administrador, assessor.

Pedro Miguel Passos Relvas Coelho deu carácter não só legal como nobre ao facto de a ética jornalística se ter tornado na regra fundamental que aparece a seguir à última... quando aparece.

Pedro Miguel Passos Relvas Coelho deu carácter não só legal como nobre ao facto de o servilismo ser regra para bons empregos, garantindo que esses servos vão estar depois a assessorar partidos, empresas ou políticos.

Assim, por muito que o Sindicato dos Jornalistas diga o contrário, o jornalismo que por aí se vê, ouve ou lê é feito sobretudo por analfabetos funcionais:  sabem ler e escrever mas não lêem nem escrevem. E quando assim é…

Portugal confirma. Quando o barco afunda o primeiro a pirar-se deve ser o... comandante!

A ideia de que o comandante deve ser o último a abandonar o navio em caso de naufrágio é um mito e não uma obrigação jurídica, afirmou, hoje, um antigo oficial da marinha britânica.

E de facto tem razão. Na política, por exemplo, quando um país se afunda não é obrigatório – pelo contrário – que seja o primeiro-ministro o último a abandonar o “navio”. Aliás, neste caso, funcionam como os ratos: são os primeiros.

"Não há bases na lei internacional para a noção de que o comandante deve ir ao fundo com o navio ou mesmo que deve ser o último a abandonar o navio", disse Alan Massey, numa conferência de imprensa em Londres organizada por representantes do sector dos cruzeiros.

Massey falava a propósito do naufrágio do paquete "Costa Concordia" na sexta-feira perto da ilha italiana de Giglio, resultando em pelo menos 11 mortos, enquanto 21 pessoas continuam desaparecidas.

É exactamente como na política. Sem tirar nem pôr. Embora no caso dos políticos existe a vantagem, pelo menos em Portugal, de nunca serem julgados por afundarem um país, muito menos por serem os primeiros a dar à sola.

Os islandeses, que nada têm a ver com os portugueses, pensam de maneira diferente e abriram um processo judicial contra o seu ex-primeiro-ministro, Geeir Haarde, acusado-o de negligência grave durante o seu mandato governativo.

Apesar da negligência grave dos governos portugueses dos últimos anos, nenhum dos comandantes vai a tribunal. Desde logo porque, se o ex-primeiro-ministro continua a ter na lapela o frase de que “está para nascer um primeiro-ministro que faça melhor do que eu", o actual, Passos Coelho, já é detentor, com todo o mérito – reconheça-se, da frase “está para nascer um primeiro-ministro que minta mais do que eu”.

Se hipoteticamente fosse julgado,  Passos Coelho poderia ainda tirar da cartola uma outra das suas grandes vitórias, ou seja aquela que diz: “Está para nascer um primeiro-ministro (eleito) que tanto tenha feito para transformar Portugal num estado esclavagista”.

Aliás, um pouco à semelhança de Francesco Schettino, o comandante do "Costa Concordia", Pedro Passos Coelho pode sempre argumentar que escorregou e caiu no Governo, não lhe faltando apoios judiciários, políticos,  económicos e jornalísticos para garantir que depois de D. Afonso Henriques o maior é ele próprio.

Referindo-se ao anterior comandante do já esburacado navio, José Sócrates, Passos Coelho disse que “estas medidas põem o país a pão e água”, acrescentando que “não se põe um país a pão e água por precaução”. 

E quando Sócrates abandonou o barcaça, o que fez o actual comandante? Substituiu o pão e a água por farelo e, mesmo assim, avisando que não permite contestações violentas.

 “Estamos disponíveis para soluções positivas, não para penhorar futuro tapando com impostos o que não se corta na despesa”, disse Passos Coelho enquanto candidato ao lugar de comandante. Chegado lá, penhorou o futuro dos vivos e dos que ainda poderão nascer com mais e mais impostos.

Para convencer os passageiros, Passos Coelho afirmou que “aceitaria reduções nas deduções no dia em que o Governo anunciar que vai reduzir a carga fiscal às famílias”. O pessoal, que está farto de uma navegação turbulenta, pô-lo na sala de comando e, imediatamente, ele  pegou no chicote e mandou as famílias às malvas, obrigando-as a comer (quando há comida) e a calar.

“Aqueles que são responsáveis pelo resvalar da despesa têm de ser civil e criminalmente responsáveis pelos seus actos”, disse o actual comandante do navio “Portugal”, apontando para o seu antecessor. Quando os passageiros descobrirem que deverá ser ele a ser civil e criminalmente responsabilizado pelos crimes que está a cometer, já ele estará fora do navio – eventualmente a estudar filosofia em… Luanda – e a rir-se a bandeiras despregadas.

“Ninguém nos verá impor sacrifícios aos que mais precisam. Os que têm mais terão que ajudar os que têm menos. Queremos transferir parte dos sacrifícios que se exigem às famílias e às empresas para o Estado”, afirmou o na altura candidato Passos Coelho. Como comandante não só faz o que antes considerava crime, como ainda lhe acrescenta mais umas doses de  outros crimes de lesa cidadãos.

“Para salvaguardar a coesão social prefiro onerar escalões mais elevados de IRS de modo a desonerar a classe média e baixa. Se vier a ser necessário algum ajustamento fiscal, será canalizado para o consumo e não para o rendimento das pessoas. Se formos Governo, posso garantir que não será necessário despedir pessoas nem cortar mais salários para sanear o sistema português. A ideia que se foi gerando de que o PSD vai aumentar o IVA não tem fundamento”, disse também o novo comandante português, na esperança de que – antes de ser o primeiro a abandonar o navio – ainda vai ter a comenda de “líder carismático”.

“Já ouvi o primeiro-ministro dizer que o PSD quer acabar com o 13º mês, mas nós nunca falámos disso e é um disparate”, disse também Passos Coelho, interrogando-se: “Como é possível manter um governo em que um primeiro-ministro mente?”

Pois é. O navio mete água por todos os lados e não tardará a ir ao fundo. E, não tenham dúvidas, quando isso acontecer, Passos Coelho e os pastéis de nata que o acompanham serão os primeiros a zarpar.

Quarta-feira, Janeiro 18, 2012

População do Alto Hama foge para a mata

Relata António Capalandanda, jornalista da Voz da América, que confrontos entre militantes do MPLA e da UNITA resultaram na morte de três pessoas na comuna do Alto Hama, província do Huambo.

Segundo relatos ouvidos pela Voz da América no local, duas pessoas morreram imediatamente e uma outra acabou por falecer no hospital. Dos três feridos graves da oposição, dois encontram-se detidos, na sequência de pancadaria entre os membros das principais forças políticas angolanas.

O clima é de tensão na localidade e há informações de que a população está a abandonarem as suas casas para se fixarem  nas matas, com medo de sofrerem represálias.

Em declarações à Voz da América, o secretário comunal da UNITA do Alto Hama, Evaristo Hosse (filho de um um Velho amigo de outros tempos), disse que os militantes do seu partido agiram em legítima defesa, contra a suposta agressão de um grupo afecto ao MPLA, acusando a administradora daquela comuna de ter orientado as estruturas locais da sua organização partidária a desencadear actos de violência:

"O secretário do MPLA do comité do sector da Bonga é quem organizou as pessoas, tendo transportado os indivíduos até ao Luvili," disse o Hosse, acrescentando que " chegado ao terreno, o secretário do Luvili organizou as pessoas e distribuiu o grupo em três bairros onde entraram em catanadas."

Domingos Albano Tchissanda uma das testemunhas alega que os supostos agressores invadiram as residências na calada da noite, tendo destruído todos os haveres dos populares da comunidade de Luvili: "Bateram às nossas portas com catanas, entraram. Partiram ascadeiras e mesas, todos os haveres das casas."

A Voz da América tentou ouvir a administradora  do Alto Hama, mas ela disse que falaria para imprensa estatal, enquanto que o comando provincial da polícia remeteu os seus pronunciamentos para as próximas ocasiões.

Como aqui tem sido dito, está em marcha o plano do regime angolano para se perpetuar no poder. Em várias frentes, os “bentos bentos” do MPLA estão no terreno.

De há muito, mas com clara tendência crescente,  está em curso a campanha contra a UNITA e os seus dirigentes nos órgãos de comunicação social. A par da sempre oportuna descoberta de paióis de armamento, os principais dirigentes do Galo Negro estão a ver a sua vida devassada. Notícias com carácter escandaloso, como contas bancárias no exterior, contactos com serviços secretos estrangeiros etc. não tardarão.

As autoridades vão avançar com processos criminais, sob denúncia de elementos da população, que podem compreender acusações de violações de menores, tráfico de influências em negócios ilegais e transacção ilegal de diamantes e indivíduos envolvendo figuras destacadas da Oposição.

Vai aumentar ainda mais a vigilância pessoal sobre os dirigentes da cúpula da UNITA, com escutas telefónicas e alargamento da rede de informadores no interior do Galo Negro.

Foram reactivadas as Brigadas Populares de Vigilância nos bairros de Luanda e nas capitais provinciais, estando tudo pronto para, inclusive, distribuir armamento ligeiro aos seus efectivos para defesa da população civil.

Afinal, na história recente (desde 1975) do regime angolano, nada se perde e tudo se transforma para que os mesmos continuem a ser donos do poder e, é claro, de Angola.

Quando o partido que governa Angola desde 11 de Novembro de 1975, que tem como seu líder carismático e presidente da República alguém que está no poder há 32 anos, sem ter sido eleito, sente necessidade de reeditar esta plano alternativo é porque, contra todos os ventos e marés da ditadura, as sementes da revolta estão a multiplicar-se.

Embora oficialmente o regime diga que tudo está calmo, a verdade é que o primeiro secretário do comité de Luanda do MPLA, Bento Bento, considera que a situação "inspira cuidados especiais", por ser "delicada".

Bento Bento acusa a UNITA, o maior partido da oposição, de ser o líder, em aliança com alguns partidos da oposição, nomeadamente o Bloco Democrático e alguns Partidos da Oposição Civil (POC's),  de um plano para "derrubar o MPLA e o seu líder, José Eduardo dos Santos".

"Têm como executivos mais dinâmicos nesta luta o secretário-geral da UNITA, Camalata Numa, o presidente da JURA, Mfuka Muzemba, o Presidente do Bloco Democrático, Justino Pinto de Andrade, e David Mendes, que têm outros executores, mas esses são os principais mentores", afirma Bento Bento.

“Quando um político entra em conflito com o seu próprio povo, perde a sua credibilidade no seu agir, torna-se um eterno ditador”, afirmou (recordam-se?) o bispo emérito de Cabinda, Paulino Madeca, falecido em 2008, numa carta dirigida a António Bento Bembe, mas que serve às mil maravilhas para este outro Bento Bento.

Segundo Bento Bento, o plano tem em vista unicamente "sabotar a realização das próximas eleições em Angola". "Infelizmente entre os executores dessa conjura consta um deputado, que de manhã à noite instiga a sublevação contra as instituições, contra as autoridades e contra o MPLA, o senhor Makuta Nkondo", acusou ainda o político.

Nesse sentido, Bento Bento pediu aos militantes do seu partido para que controlem "milimetricamente" todas as acções da oposição, em especial da UNITA, para não serem "surpreendidos". E se for necessário, como prevê o plano do MPLA, há armas à disposição dessas Brigadas Populares de Vigilância.

De acordo com o primeiro secretário de Luanda do MPLA, a oposição liderada pela UNITA decidiu enveredar por "manifestações violentas e hostis, provocando vítimas, inventando vítimas, incentivando a desobediência civil, greves e tumultos, provocando esquadras e agentes e patrulhas da polícia com pedras, garrafas e paus".

Sempre que no horizonte se vislumbra, mesmo que seja uma hipótese remota, a possibilidade de alguma mudança,  o regime dá logo sinais preocupantes quanto ao medo de perder as eleições e de ver a UNITA a governar o país.

Para além do domínio quase total dos meios mediáticos, tanto nacionais como estrangeiros, o MPLA aposta forte numa estratégia que tem dado bons resultados. Isto é, no clima de terror e de intimidação.

No início de 2008 (recordam-se?), notícias de Angola diziam que, no Moxico, “indivíduos alegadamente nativos criaram um corpo militar que diz lutar pela independência”.

E, na ausência de melhor motivo para aniquilar os adversários que, segundo o regime, são isso sim inimigos, o MPLA poderá sempre jogar a cartada, tão do agrado das potências internacionais que incendeiam muitos países africanos, de que há o perigo de terrorismo, de guerra civil.

Se no passado, pelo sim e pelo não, falaram de gente armada no Moxico, agora deverão juntar o Bié ou o Huambo.

Kundi Paihama, um dos maiores especialistas de Eduardo dos Santos nesta matéria, não tardará a redescobrir mais uns tantos exércitos espalhados pelas terras onde a UNITA tem mais influência política, para além de já ter dito que quem falar contra o MPLA vai para a cadeia, certamente comer farelo.

Tal como mandam os manuais, o MPLA começa a subir o dramatismo para, paralelamente às enxurradas de propaganda, prevenir os angolanos de que ou ganha ou será o fim do mundo.

Além disso, nos areópagos internacionais vai deixando a mensagem de que ainda existem por todo o país bandos armados que precisam de ser neutralizados.

Aliás, como também dizem os manuais marxistas, se for preciso o MPLA até sabe como armar uns tantos dos seus “paihamas” para criar a confusão mais útil. E, como também todos sabemos, em caso de dúvida a UNITA será culpada até prova em contrário.

Numa entrevista à LAC - Luanda Antena Comercial, no dia 12 de Fevereiro de 2008, o então ministro da Defesa, Kundi Paihama, levantou a suspeita de que a UNITA mantinha armas escondidas e que alguns dos seus dirigentes tinham o objectivo de voltar à guerra.

Kundi Paihama, ao seu melhor estilo, esclareceu, contudo, que os antigos militares do MPLA, "se têm armas", não é para "fazer mal a ninguém" mas sim "para ir à caça". Ora aí está. Tudo bons rapazes.

Quanto aos antigos militares da UNITA, Kundi Paihama disse que a conversa era outra e lembrou que mais cedo ou mais tarde vai ser preciso falar sobre este assunto. Pelos vistos chegou a agora a hora de se falar do que existe mas, sobretudo, do que não existe.

Legenda: Evaristo Hosse. Foto de António Capalandanda da VOA

Da economia aos bajuladores, dos pobres aos milionários, tudo cresce à grande em Angola!

O crescimento económico deverá acelerar até 2013 na África subsaariana e nos países africanos lusófonos, sobretudo Angola e Moçambique, mas é vulnerável à crise na zona euro, segundo o Banco Mundial.

Ora aí está a razão pela qual Portugal continua de mão estendida, sobretudo na direcção de Angola. Eles, não os angolanos mas sim os donos do país, têm e o país de Pedro Miguel Passos Relvas Coelho está com a corda na garganta. Portanto…

O relatório Perspectivas Económicas Globais 2012, intitulado "Incertezas e Vulnerabilidades", hoje divulgado pelo Banco Mundial, reviu em baixa as suas previsões, apontando para um crescimento económico global de 2,5% este ano e 3,1% no próximo.

Os economistas do Banco Mundial antecipam ainda um crescimento de 5,4% nos países em desenvolvimento, abaixo dos 6,2% previstos em Junho, mas a África Subsaariana será uma excepção, com o crescimento a escalar de 4,9% em 2011 para 5,3 este ano.

Pena é que, sobretudo em Angola, com a economia a crescer também cresçam as desigualdades sociais. Mas é mesmo assim. Os poucos que têm milhões continuam a ter mais milhões e, do outro lado, os milhões que têm pouco continuam a ter cada vez menos.

Angola, um dos donos de Portugal, deverá crescer 8,1% este ano e 8,5% no próximo, acelerando em relação aos 7% do ano passado, enquanto Moçambique acelerará de 7,4% para 7,6% este ano e 8,5% no próximo.

Para Cabo Verde, um caso de sucesso,  a aceleração prevista pelo Banco Mundial é de 5,8% em 2011 para 6,4% este ano e 6,6% no próximo, enquanto a Guiné-Bissau deverá atingir um crescimento de 5% em 2013 e 4,7% em 2012.

"No entanto", refere o relatório, "as exportações de mercadorias, receitas do turismo, preços dos produtos básicos, investimento estrangeiro directo e remessas na África Subsaariana são todos susceptíveis a uma recessão na zona Euro".

A União Europeia, refere o Banco Mundial, absorve 37% das exportações não-petrolíferas africanas e nas economias dependentes do turismo, como Cabo Verde, as chegadas de turistas europeus constituem o grosso deste total.

Em Cabo Verde, sublinha o relatório do Banco Mundial, 92% das exportações de mercadorias destinam-se ao Sul da Europa (Portugal, Espanha, Itália, Grécia) e Irlanda, tornando neste aspecto a economia cabo-verdiana a mais vulnerável na região a uma quebra económica a norte.

"Contudo, para a economia de Cabo Verde, orientada para serviços, os proveitos económicos dos fluxos turísticos serão mais importantes do que as exportações de mercadorias", sublinha.

Para contrariar o efeito da quebra da actividade económica na Europa, o Banco Mundial recomenda aos países africanos maior diversificação de exportações e de parceiros comerciais.

Outra ameaça ao crescimento africano, sobretudo em economias como a de Angola, altamente dependente do petróleo (grande parte roubado na sua colónia de Cabinda), é uma quebra do preço das mercadorias, que se traduzia em menores receitas e investimento.

Em Angola, refere o relatório, uma redução de 10% nos preços petrolíferos causaria uma quebra de 2,7% do PIB.

Por alguma razão, indiferentes aos problemas do povo angolano, mais de 7.000 empresas portuguesas venderem para Angola e cerca de 250 investirem neste mercado.

Angola é a 6ª maior economia de África e a 2ª maior potência da África Austral e tem vindo a registar, nos últimos anos, um crescimento económico acentuado, bem acima da média mundial e a um ritmo superior à generalidade das outras grandes economias africanas.

É certo que, a fazer fé em organismos internacionais, Angola é um dos países com elevados índices de corrupção, mas isso não impede, nunca impedirá, que o governo de Pedro Miguel Passos Relvas Coelho diga o contrário no seu visível processo de bajulação.

Na entrevista ao órgão oficial do regime, o Jornal de Angola, na altura da sua visita a Luanda, o sumo pontífice do governo português afirmou que vê com "muito bons olhos a participação do capital angolano na economia portuguesa e noutras privatizações que o Estado venha a realizar no próximo ano".

Se essa participação se faz com dinheiro de origem duvidosa, ou à custa de metodologias pouco transparentes, não interessa. O importante é que se faça. O resto ver-se-á na altura em que, provavelmente outros, terão de fechar a porta e pedir aos chineses que apaguem a luz.

Questionado pelo jornal Público sobre se iria abordar o tema da transparência em Angola à luz das mudanças internacionais, o primeiro-ministro respondeu através do seu gabinete: "A visita servirá para fazer o ponto de situação sobre os principais aspectos das relações políticas e económicas entre os dois países."

Portugal, tal como a restante comunidade internacional, sabe que é mais fácil, muito mais fácil, negociar com ditaduras do que com democracias. É mais fácil negociar com quem está, é o caso de Angola, há 32 anos no poder (sem ter sido eleito) do que com alguém que possa ter de abandonar o cargo pela escolha do povo.

Pedro Miguel Passos Relvas Coelho está, nesta fase, mais interessado em facturar sobre o facto de o “líder carismático” de Angola ser bestial, esperando que quando ele passar – como todos os ditadores – a besta, não tenha de prestar contas.

O petróleo, gerido pela empresa estatal Sonangol, representa 60% do Produto Interno Bruto e 98% do total das exportações angolanas, sendo a maioria explorado na colónia de Cabinda.

Recordou na altura o Público que, “embora tenha publicado as suas contas, a petrolífera foi acusada de "esconder" "milhares de milhões de dólares" pelas organizações Global Witness e Open Society Initiative for Southern Africa”.

Se o petróleo é o produto que Portugal mais importa de Angola, país que é o principal destino das exportações portuguesas, extra UE, se BES, Millennium bcp, Caixa Geral de Depósitos estão em força no reino de Eduardo dos Santos, se já há em força capital angolano no BCP, BPI, Banco BIC Português, se o BPN vai passar para mãos dos donos de Angola, porque carga de chuva irá o “africanista de Massamá” hostilizar o grande soba?

Mas há mais razões para a bajulação portuguesa: “A empresa portuguesa mais valiosa que lidera os investimentos portugueses em Angola, a Galp, é detida em 15% pela Sonangol por via da Amorim Energia (da qual a Sonangol detém 45%). O presidente da Sonangol, Manuel Vicente, é vogal da administração da Galp” e deverá passar a número dois do regime.

De facto, como há já alguns anos dizia o Rafael Marques, os portugueses só estão mal informados porque querem, ou porque têm interesses eventualmente legítimos mas pouco ortodoxos e muito menos humanitários.

Custa a crer, mas é verdade que os políticos, os empresários e os (supostos) jornalistas portugueses (há, é claro, excepções) fazem um esforço tremendo (se calhar bem remunerado) para procurar legitimar o que se passa de mais errado com as autoridades angolanas, as tais que estão no poder desde 1975. O último exemplo foi o programa da RTP transmitido a partir de Luanda.

Unidos até que a democracia os separe

O presidente executivo da Sonae, Paulo Azevedo, disse hoje que o projecto do grupo em Angola "está pronto para arrancar", que visa a expansão dos hipermercados Continente, já tendo localizações e equipas escolhidas.

Paulo Azevedo disse ainda que a Sonae está à espera da formalização da decisão do Conselho de Ministros angolano, o qual prevê a abertura de quatro hipermercados Continente em Luanda na primeira fase.
A expansão da marca Continente para Angola resulta de uma parceria que a Sonae fez com a empresária angolana Isabel dos Santos, estando a entrada em funcionamento dos hipermercados prevista para 2013.
Assim, em breve os hipermercados Continente vão estar em força em Angola. O dinheiro não tem pátria, e as pátrias que o querem ser… estão falidas.
A Sonae e a Condis, empresa maioritariamente detida pela empresária Isabel dos Santos (apenas, e por mera coincidência, filha do homem que é presidente de Angola há 32 anos sem nunca ter sido eleito) e pelo marido, Sindika Dokolo, aí estão unidas até que a democracia (quando a houver) as separe.
Segundo o grupo liderado por Paulo Azevedo, com esta parceria estratégica "alia-se o `know-how` técnico e experiência de retalho que a Sonae possui ao forte conhecimento do mercado angolano aportado pela Condis"-
Que a Condis conhece o mercado angolano como ninguém, é uma verdade indesmentível. Aliás, conhece o mercado como conhece tudo o resto. Por alguma razão a família Eduardo dos Santos representa quase 100 por cento do Produto Interno Bruto de Angola.
Sempre achei curiosa e hilariante a referência de que o projecto esteve sujeito à apreciação final das autoridades angolanas. Se Angola é o MPLA, se o MPLA é Eduardo dos Santos, porque carga de chuva se vem falar de autoridades angolanas?
Ser filha de quem é representa só por si a maior e única autoridade do país.
Angola é um dos países lusófonos com a maior taxa de mortalidade infantil e materna e de gravidez na adolescência, segundo as Nações Unidas.
Mas o que é que isso importa? Importante é saber de facto que a Sonae vai avançar com o lançamento dos hipermercados Continente em Angola, mesmo sabendo-se que o regime é um dos mais corruptos do mundo. Ou será por isso mesmo?
Seja como for, o que conta é o "Hello tomorrow" (olá amanhã), rapidamente e em força para... Angola.
Em cada mil crianças nascidas em Angola, 131 morrem antes de atingir o primeiro ano de vida, a taxa mais elevada entre os países lusófonos e de toda a África Austral.
De acordo com o relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), numa escala de 0 a 100, Angola apresenta um índice de desigualdade entre ricos e pobres de 58,6, os mais pobres (perto de 70% da população) têm uma taxa de consumo de 0,6 por cento enquanto a dos ricos é de 44,7 por cento.
45% das crianças angolanas sofrem de má nutrição crónica, uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos. 76% da população vive em 27% do território. Mais de 80% do Produto Interno Bruto é produzido por estrangeiros; mais de 90% da riqueza nacional privada foi subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população de cerca de 18 milhões de angolanos.
Mas o que é que isso importa? Sim! O que é que isso importa?
Aliás, muitos dos angolanos (70% da população vive na miséria) que raramente sabem o que é uma refeição, poderão certamente fazer incursões ao Continente, ou melhor, aos caixotes do lixo do Continente, e lá encontrar restos quase novos de comida. Portanto... não se queixem.
A Sonae não é uma empresa filantrópica e, por isso, negoceia com os donos do poder e, no caso de Angola, do país. E, como sempre, é muito mais fácil negociar com dirigentes vitalícios do que com os que resultam de uma vida democrática.
Também é verdade que se a comunidade internacional não se preocupa com o facto de, em Angola, poucos terem cada vez mais milhões e cada vez mais milhões terem pouco ou nada, porque carga de chuva deveria ser a Sonae a preocupar-se?

Terça-feira, Janeiro 17, 2012

RTP foi a Luanda branquear o regime

A RTP chamou-lhe "Reencontro" entre portugueses e angolanos. Lá estiveram, entre outros, Abraão Gourgel, Miguel Relvas, Albina Assis ou Zeinal Bava.

Foi, ao contrário do que disse Fátima Campos Ferreira (que tinha como convidado o ministro que a tutela e na assistência o presidente da RTP), não um encontro de portugueses e angolanos mas, antes, um encontro entre os donos dos dois países.

70% dos angolanos deveriam estar nessa altura à procura de comida nos caixotes do lixo do hotel Sana em Luanda. Mas o frete foi feito e, se calhar, ainda um dia destes a jornalista vai receber uma comenda do governo de Lisboa ou do MPLA, eventualmente dos dois.

Segundo escreve Mayra Prata Fernandes, no Sapo Notícias Angola, Fátima Campos Ferreira indagou os seus convidados sem reservas. Devo ter visto outro programa. Exceptuando uma ou outra questão mais jornalística, a RTP nada mais fez (incluindo as imagens que ia passando) do que uma acção de propaganda ao regime.

Quanto à questão da corrupção, a única questão válida embora colocada a medo, o ministro de economia de Angola, Abraão Gourgel, calou a jornalista da RTP ao lembrar-lhe que essa situação não é exclusiva de Angola.

Quanto ao resto, tudo como esperado. Digamos que, seguindo este exemplo da RTP,  se a TPA fosse a Portugal fazer uma reportagem sobre o parque automóvel, apresentaria certamente imagens de uma concentração de Ferraris. Ou, se fosse abordar o parque habitacional, apresentaria imagens da casa de Duarte Lima no Algarve.

Por falta de tempo, o programa da RTP nada disse sobre o facto de  68% dos angolanos serem afectados pela pobreza, de a taxa de mortalidade infantil ser a terceira mais alta do mundo, com 250 mortes por cada 1.000 crianças.

Ou ainda sobre o facto de: Apenas 38% da população tem acesso a água potável e somente 44% dispõe de saneamento básico;

- Apenas um quarto da população angolana tem acesso a serviços de saúde, que, na maior parte dos casos, são de fraca qualidade;

-  12% dos hospitais, 11% dos centros de saúde e 85% dos postos de saúde existentes no país apresentam problemas ao nível das instalações, da falta de pessoal e de carência de medicamentos;

- A taxa de analfabetos é bastante elevada, especialmente entre as mulheres, uma situação é agravada pelo grande número de crianças e jovens que todos os anos ficam fora do sistema de ensino;

-  45% das crianças angolanas sofrerem de má nutrição crónica, sendo que uma em cada quatro (25%) morre antes de atingir os cinco anos;

- A dependência sócio-económica a favores, privilégios e bens é o método utilizado pelo MPLA para amordaçar os angolanos;

- 80% do Produto Interno Bruto angolano é produzido por estrangeiros; que mais de 90% da riqueza nacional privada é subtraída do erário público e está concentrada em menos de 0,5% de uma população; que 70% das exportações angolanas de petróleo tem origem na sua colónia de Cabinda;

- O acesso à boa educação, aos condomínios, ao capital accionista dos bancos e das seguradoras, aos grandes negócios, às licitações dos blocos petrolíferos, está limitado a um grupo muito restrito de famílias ligadas ao regime no poder.

- O presidente do país, José Eduardo dos Santos, está há 32 anos no poder sem nunca ter sido eleito.