6 posts sobre Roma
1.Rita Maria e os Romanos
A ideia de entrar no Senado e pisar os mesmos mosaicos que os meus deputados e conspiradores romanos favoritos era suficiente para me fazer suspirar. Ao planear a minha viagem de um dia livre, sabia que, se quisesse ver a cidade, teria de prescindir ou dos Romanos ou da Arte. Com o que descobri que sou muito mais politica do que estética (ou que estarei a aprender a ver museus a dois, o que é melhor não considerar ainda muito provável). No entanto a argentina que conheci na poussada da Juventude tinha razão: o Fórum e o Palatino exigem algum esforço de imaginação. Pelos doze euros que paguei, bem que me podiam ter dado um mapa.
2. Rita Maria e a lei de Rita
Chegada a Sexta Feira, tudo me parecia correr mal. Não quero entrar muito em detalhes, não vão vocês começar uma campanha de solidariedade, mas as coisas não estavam a ir bem para o meu lado e começava a parecer provável que eu não conseguisse nunca chegar a Pisa, ficando antes a morrer à fome numa pousada de juventude decrépita (ou em berlinense:alternativa). De acordo com a velha lei de Rita (formulada num post a que voltaremos todos a ter acesso quando eu acabar de publicar o Boas Intenções primeiro, o que o Blogger assassinou), ou seja, podes sempre ter uma sorte do caraças, tudo correu lindamente, inclusive a minha passagem pela spaguetti party da pousada decrépita.
3. Rita Maria e o Catolicismo
Em jeito de nota muito pessoal e provavelmente algo precipitada, Roma pode ter alterado fundamentalmente a minha relação com a Igreja Católica. Talvez tenham sido as Igrejas, que por todo o lado facilitavam o contacto com a única pessoa de referência disponível, o imparável curso da lei de Rita que, convenhamos, tem o seu quê de suspeito ou, mais provavelmente o orador do jantar da conferência, o Abade Notker Wolf, um senhor muito prá frentex cujas posições não me terão convencido inteiramente, mas cuja cordialidade e presença, junto com a irreverência e abertura, me mostraram um mundo que podia ser de possibilidades e não de espartilhos. No dia seguinte rezei em provavelmente trinta e cinco Igrejas por tudo o que se mexia, descobri imenso sobre o que me move e o quero da vida e, na dúvida, agradeci a lei de Rita. Em jeito de rodapé: aquela parte de eu não saber se Deus existe, evidentemente, torna tudo isto muito precipitado. Talvez não seja a fé que procuro ou que me move, mas o conjunto de pessoas convictas da sua imperfeição e apostadas em ser melhores. Como vos digo, pode ter sido o início de qualquer coisa. Se descobrir, conto-vos.
4. Rita Maria e a Revolução
Com tanta Igreja, cheguei atrasada à Revolução. (que quantidade incrível de pano para analogias!) Queria ter ido participar na manifestação contra o Berlusconi, que ainda por cima era um perfeito walking tour pela Roma política, e acabei por só apanhar o fim. Mas tinha corrido lindamente e os participantes chegavam em magotes de gente com um ar satisfeitíssimo. As manifestações continuam e irão, esperemos, conseguir por termo a uma reforma do ensino apostada em reduzir o número de professores primários a um por turma com turmas maiores. Até a ler um dos jornais do Berlusconi se percebia que aquilo era um escândalo (para não comentar a intervenção da polícia nas universidades em greve, mas o que se pode ainda dizer sobre uma coisa dessas?).
5. Rita Maria e o Fascismo
Roma, Domingo, quatro da manhã, as pessoas vão-se juntando à espera que abra a estação. Incluindo um grupo de cidadãos do sexo masculino com pouco que fazer, muito cheios da sua pessoa e com muitas coisas para dizer, ou poucas coisas em muito palavreado. “Cambada de inúteis”", pensei eu, carregada de malas e só com quatro horas de sono, “não se pode mandá-los todos para algum lado?”. Fantástico. Preconceitos de todos os tipos juntos numa só frase combinados com uma solução fascizóide para um problema que só existia no meu mau humor. Depois de uma hora de sono no comboio, acordei para um dia lindo e o céu azul sobre o Mediterrâneo. Evidentemente, já me tinha deixado de pensamentos de direita.
6. E por último: Rita Maria e Roma
Roma é uma cidade fantástica, maravilhosa, cheia de cores lindas, luz deliciosa, romanos, arquitectura mediaval, renascentista, barrocca e vinte e três mais, italianos, Papas, gelados, Berlusconis e anti-berlusconis. Se fizermos de conta que falamos Italiano, eles acreditam, o que eu acho muito gentil. O ar não é grande coisa e há turistas a mais, mas no geral as pessoas foram sempre muitíssimo simpáticas e prestáveis. Não vi demasiados homens bonitos, mas muitos gatos verdadeiros, ao sol nos monumentos. Mais conto quando lá voltar. Vou tentar descobrir quando é o dia sem carros.

