(este parto)(enfim, muito curtinhas se lerem sem parêntesis)

1. Quão privado é o blogue de cada um é com cada qual.
(eu não vou nada à bola com a teoria do "ai, o blogue é meu, digo o que quiser, quem não gosta vá-se embora", soa-me muito a "eu sou assim e não mudo, se quiser sou uma miúdinha mimada e ninguém tem nada a ver com isso, quem gostar gosta". Acho que sim, que quem escolhe a praça pública escolhe a crítica pública e se há situação que me enoja é ver como as fãs lincham colectivamente qualquer pessoa que critique a autora de um blogue, quanto mais popular a dita autora mais histérico o linchamento. This much said, se há crítica imbecil é aquela que decide ir aos outros blogues definir onde está a fronteira da privacidade e da exposição. Há blogues de moda, de opinião, blogues-personagem, blogues-atitude e blogues pessoais, alguns dos quais são só blogues-personagem ou blogues-atitude disfarçados. Uns revelam muito, outros revelam menos. Há privados, públicos, anónimos e pseudónimos daqueles que toda a gente conhece. Eu acho que o anonimato deve ser extenuante e tenho mais do que fazer, escolho muito conscientemente que parte de mim partilho e faço dessa uma escolha pessoal. Tão pessoal que mesmo que me desse para a perspinetice, não era bitola que soubesse emprestar ou recomendar a ninguém. É uma boa definição da geração 2.0: não abdicamos da nossa privacidade, gerimo-la criticamente, de forma totalmente consciente)
2. A fronteira do bom gosto e da intimidade é infinitamente discutível.
(Qual é o problema? Ser um acto físico, meter dor, sangue, suor? É ir sair uma criancinha? A criancinha poder ler na internet sobre o seu parto, parece-vos mais privado do que as histórias da infância, as traquinices, os castigos, as historietas que se contam blogosfera fora? Ou é ser uma vagina, sinal de stop à entrada da vulva, a partir daqui só se fala de sexo e só se for muito bom? Logo ficavam igualmente chocados se eu falasse de uma candidíase como falo de torcer pés? Ou o que vos incomoda é que em vez de sofrer calada, especialidade feminina desde tempos imemoriais, ou negar ter medo do parto e da maternidade, que é coisa que não se diz nem a brincar, se tenha posto a blogar como se não tivesse mais que fazer? E então não tinha? E se não tivesse?)
3. Quem não tenha pensado "tenho de contar ao blogue" que atire a primeira pedra.
(Às vezes acontecem-me coisas que acho que tenho de contar à minha mãe. Outras a um colega de trabalho, outras ao meu irmão Pechisbeque Felismino, outras ao blogue. Quais são? São aquelas que eu defini como fazendo parte do blogue que escrevo, com o acordo tácito dos meus leitores. E a definição vai mudando, os leitores também, raramente são os mesmos de ano para ano, tal como o blogue e, aliás, eu mesma)
4. Quem são os nossos públicos?
(Se conto durante três meses que trabalho para uma conferência, conto como correu. Se acabo uma relação que foi conhecida de quem lê o blogue, conto também. Conto projectos que só começo, dissabores irrelevantes, historietas tontas, gaffes, vitórias e derrotas. Escolho como conto, defino fronteiras. Mas conto, não tenho um blogue só para ter opiniões (embora tenha imensas opiniões). Podia ter, não havia mal nenhum nisso, mas também não acredito que exista algo de errado no seu contrário. Falando então apenas de pessoas que têm blogues onde contam a sua vida, nalguns casos só a vida-personagem noutros uma versão mais ou menos real (por falar nisso, e isto pede muito mais do que um parêntesis, no meu caso pelo menos o efeito é o reverso, não invento uma Rita para o blogue, mas a Rita do blogue influencia pelas memórias a percepção que tenho da Rita que fui, e portanto da Rita que sou), enfim, falando destas: têm públicos que as acompanham e com o qual escolhem partilhar acontecimentos. Mais ou menos íntimos, de acordo com o blogue e as pessoas. Mas estes públicos tornam-se tanto parte da sua vida como os amigos, os vizinhos, os colegas (escolher de acordo com o grau de intimidade desejado) e isto não tem nada de mau nem nada de estranho: sentimo-nos rapidamente parte das histórias que partilhamos (Serge Halimi contava, a respeito da Princesa Diana, que ao fim de muitos anos a saber todos os detalhes da sua vida pela imprensa, eles não lhe eram irrelevantes - ela era-lhe bem mais próxima que muitos tios e primos). Num blogue muito lido, anónimo e de grande sucesso, alguém que tem vindo a partilhar a sua gravidez partilha também, com o mesmo público, os momentos que antecedem o parto, os receios que provoca. E depois?)
Em resumo: Estão chocados? Eu não. Eu contava o meu parto? Se calhar não, mas não garanto nada, se torcer o pé ao rebentarem as águas e o médico for giro, nunca se sabe. Já ouvi histórias de muitos partos, ricas em detalhes, de pessoas com quem não tenho grande intimidade? Toneladas. Fiquei chocada? Não. Só não fiquei porque não foi na internet? Ah...não. Só não fiquei porque não foi em directo? Ah...não. Se calhar devia chocar-me porque está a dar andar pela internet a fazer de conta que achamos degradante, triste e de mau gosto que se ande pela internet? Desculpem, não dou para esse peditório.