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Friday, January 29, 2010

A Burqa, a França, o Ocidente e o Outro


8 primeiros pontos para uma discussao sobre a proibiçao da burqa no espaço público francês, nós, elas, o outro e o mundo.

1. A Liberdade. As geraçoes de mulheres que lutaram para que eu possa vestir mini-saias nao merecem que agora eu nao possa sair à rua de burqa se assim o entender. A liberdade nao é só a liberdade de ser como nós, parecer como nós e afirmar-se como nós o entendemos. A liberdade de vestir o que me apeteça é isso mesmo: a liberdade de vestir o que me apeteça. Face à sociedade sobre os talibans, onde nao permitiam às mulheres que saíssem sem burqa, o papel de um defensor de liberdade é o de defender a possibilidade de sairem, sozinhas, de mini-saia ou de fato-macaco. Perante o regime nazi que obrigava os judeus a andarem de estrela no braço, qualquer defensor da liberdade deveria insurgir-se. Face ao contrário, o dever nao muda. A liberdade é a liberdade. (também a propósito, descobri agora via arrastao este artigo do NYT).

2. A Segurança. A segurança do espaço público nao é um valor absoluto, é um valor relativo. Tal como achei grave que quisessem limitar com este argumento sweat-shirts com capuz nos centros comerciais ingleses, acho grave que escolham este argumento para me querer vender a ideia de que nao podemos vestir o que nos apeteça vestir ou até mesmo a ideia de que tenho de andar de cara descoberta, maos fora dos bolsos e de preferência afastadas do corpo. O recolher obrigatório também acabava certamente com os conflitos nas discotecas, mas obliterar o espaço público para que ele seja seguro nao é nenhuma soluçao.

3. A libertaçao(I). Lembro-me de ter chegado a Berlim anos antes de a discussao ter estalado e ver muito poucas mulheres de lenço. Era também bastante comum ver mulheres mais velhas de lenço na companhia das filhas, hiper-produzidas e sem deixar quaisquer dúvidas de que afirmavam o seu corpo e a sua identidade sexual. Houve, claramente, um retrocesso. Que é o retrocesso de uma comunidade que se sente ameaçada e atacada, e que é potencialmente influenciada por pais e irmaos, mas é também a resistência de cada uma delas. Compreendo-a muitíssimo bem, juro que considerava uns passeios de burqa se ela fosse proibida na Alemanha, adorava vê-los levar-me a um tribunal internacional e explicar por que é que a minha libertaçao exigia o fim da minha liberdade.

4. A libertaçao (II). Depois há, claro, aqui uma enorme ignorância, uma vez que ninguém falou nunca com estas mulheres, que aliás sao pouquíssimas. Elas usam uma burqa por ameaça do marido? Ou existe uma possibilidade, nao necessariamente pequena, de elas acreditarem naquilo que estao a fazer, no significado religioso do seu recato? E se acreditarem nisso e o decidirem expressar através da forma como se vestem, em que é que consiste exactamente a libertaçao quando as impedimos de fazê-lo?

5. A libertaçao (III). Mas voltando à possibilidade de elas serem obrigadas a usar burqa pelos maridos (altura em que, com elevada probabilidade, nao podem sair de casa sem a companhia de um membro masculino da família assim como assim). Proibimos-lhes o espaço público (ou, no caso da lei que está ser discutida, só os edifícios e transportes públicos). Garantimos que, se quiserem mesmo ceder à pressao do marido, se realmente sofrem, que o façam em casa, longe dos nossos olhos. Se se quiserem emancipar, que comecem necessariamente por comprar umas calças e uma t-shirt, nao pela cabeça, nao pelas ideias, nao pelos pequenos hábitos do dia a dia, nao pelas filhas, nao pela denuncia. E se quiserem apoio, que o peçam por telefone ou encomendem na Internet,nao vao ao hospital, nao tentem entrar numa esquadra. Sejam oprimidas, se quiserem mesmo, mas façam-no longe dos nossos olhos, nao tragam a vossa opressao para a nossa esfera pública, que isso nao fica bem, nao combina.

6. A libertaçao (IV). Há uns anos atrás, dei umas aulas sobre a UE e o alargamento nalgumas escolas alemas, muitas dos quais acabavam por ter por tema a história da Turquia. Uma rapariga em Aurich comentou que compreendia perfeitamente a ideia de usar um lenço e deixar automaticamente de ser um potencial objecto de desejo. Nao é algo que eu gostasse de implementar, mas a verdade é que mesmo na sociedade alema onde os piropos acontecem com a frequência dos elipses solares, a ideia de sair à rua privada da dualidade bonita/feia às vezes é muito atraente. Por um lenço e fazer desaparecer aquela questao, a do ser ou nao atraente, e ser, apenas. Esperta ou burra, engraçada ou aborrecida, bondosa ou malvada, com mais ou menos jeito para a música ou a conduçao de pesados. Às vezes, penso que a razao pela qual a burqa ou mesmo um simples lenço incomodam a nossa sociedade é pelo facto de tocarem naquilo que cada vez mais é o seu modus operandi, o centro da cultura, o valor mais alto que se alevanta: o culto das aparências. O que nos manda ir trabalhar maquilhadas, rapar os pelos das pernas e esforçar-nos por sermos bonitas, em todo e qualquer momento (veja-se o choque público com as pernas da outra senhora nos Awards nao sei quê ou a celeuma sobre a Clara Ferreira Alves, que no fundo, numa sociedade cheia de sexo na publicidade, cinema, revistas, é toda sobre esta interrogaçao "ela nao sabe que é ridículo publicar fotos em que nao esteja bonita?").

7. O Laicismo. Já disse tudo o que pensava sobre o laicismo à francesa um dia lá para os lados do blogue da Helena. Uma coisa é o Estado ser laico. Um Estado laico é, para mim, em última análise, condiçao quase sine qua non da liberdade religiosa (para nao falar da de pensamento). Outra coisa é o estado laico proibir expressoes de religiosidade no espaço público, seja porque acha que os preconceitos morais das religioes oprimem os cidadaos, porque duvida da inteligência das crianças que educa nas escolas ou para garantir o seu próprio laicismo. Isto é uma limitaçao inaceitável da liberdade religiosa, mas também um sinal perigosíssimo de limitaçao da sociedade civil e do próprio Espaço Público. Se a sociedade civil e o espaço público devem ser aquilo que o Estado é (e digamos laico, ou digamos religioso, ou estalinista) entao só há o Estado. E para o totalitarismo, é ali à frente, nem dois passos.

8. A relaçao com o outro. Esta relaçao com o outro terá de ser objecto de muitos posts e nao apenas deste pequeno ponto, mas acho sempre interessante o que estes debates (ou o que decorre em paralelo, sobre a "identidade francesa") dizem sobre a nossa relaçao com o outro. Aparentemente, só conseguimos ver o outro como folclore (índios americanos, tribos canibais, etc), plenos de romantismo (os tibetanos) ou como ameaça. Nao há meios termos. Os muçulmanos, claramente, caíram na gaveta da ameaça e nao parece que alguém os esteja a planear tirar de lá tao cedo. Nao tenho a menor dúvida de que a igualdade entre mulheres e homens deva ser garantida a todo o custo nas sociedades ocidentais e até exportada na medida dos possíveis. A grande questao é se queremos libertar as mulheres muçulmanas para que sejam como bem entenderem ou se queremos libertá-las para que sejam iguais a nós. Porque nós sabemos, nós somos, nós achamos, nós acabamos. Porque nós estamos no fim da História e os outros ainda no princípio.

E aqui chegados depois de tantos pontos tao cheio de certezas, gostava de vos convidar a partir para esta outra discussao, onde para compensar nao tenho senao dúvidas.

(a foto estava aqui)