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sexta-feira, 8 de junho de 2018

A Europa não se entende, por Agostinho da Silva

Ela Yeşildoğan- Detail shot of an Upper West Side cathedral

"... A Europa não presta para nada, a Europa não se entende, porque está a querer fazer uma coisa nova com uma trapalhada velha... [...] O que se deve é chegar a outra coisa muito importante: à liberdade cultural de cada homem! 
Já não se trata de esta região ou aquela ser desta ou daquela maneira: trata-se de ser à sua maneira cada pessoa! Temos de levar o mundo a um tal tipo de organização que permita a identidade cultural de cada homem, sem sofrer nenhuma espécie de atropelo. 
A liberdade cultural do Minho, ou da Catalunha, ou da Andaluzia, ou de qualquer coisa dessas, é apenas um degrau para passarmos ao último andar da casa, que é cada homem ter a sua plena liberdade cultural! 
Como se costuma dizer, fazer aquilo que lhe der na cabeça, ou no coração, ou nos pés, se preferir andar. Rumar exactamente como quiser rumar; e o mundo estar organizado de tal maneira que daí não resulte o caos, mas uma nova espécie de cosmos, isto é uma espécie de nova ordem. 
Que resulte um mundo que continue a ser mundo. As pessoas não se lembram que "mundo" é a palavra contrária de "imundo". [...] Mundo é um adjectivo, é o contrário de imundo. 
Nós não queremos um mundo imundo, queremos conservar o mundo cada vez mais mundo, cada vez mais puro... É preciso que cada pessoa seja cada vez mais pura. E o que é ser cada vez mais puro? É ser cada vez mais ele." 

- Agostinho da Silva, "Ir à Índia sem abandonar Portugal" in "Ir à Índia sem Abandonar Portugal, Considerações e Outros Textos", Assírio & Alvim, 1994, p. 44

quarta-feira, 6 de junho de 2018

Cartas de Agostinho da Silva para António Telmo

Arthur Pinjian

"Fui a Krishnamurti mais para o ver do que para o ouvir, e uma vez; acho que ele representa o melhor do pensamento indiano, ou oriental, se quiser, o princípio de que a reforma que vale é a reforma do indivíduo; os ocidentais vão pela reforma do exterior; a terceira posição é a dos ibéricos: as duas coisas ao mesmo tempo; os místicos eram conquistadores e os conquistadores místicos. 
Acresce ainda que ocidentais – indo-europeus – e orientais indo-europeus também (estou falando das fontes indianas) têm ambos a ideia de acção, interior ou exterior; aqui entra português, como o mais refinado dos ibéricos: temos a acção – dupla, ocidental e oriental – e o para além da acção (teologia do Espírito Santo); agir e em cada momento da acção estar inteiramente fora dela, olhá-la apenas como um dos fenómenos do universo, eis o que é português; ter fidelidade a uma coisa que é ao mesmo tempo destino e liberdade; recusar o que não seja tudo; não aceitar isto contra aquilo. 
Os portugueses hoje, coitados, acho que nem sabem que existem como portugueses; esperemos que ainda acordem no nosso tempo; dependerá de acordarmos nós plenamente primeiro, e de lhes dar depois uns bons gritos para os acordar a eles"


- Carta IX (12.10.68), in Cartas de Agostinho da Silva para António Telmo, p.53.

domingo, 3 de junho de 2018

É demasiado Tarde? Por Anthony Weston


É demasiado Tarde?

«Talvez esta Terra não precise da nossa salvação, de qualquer modo pode ser que mais uma vez, os seres humanos sejam resgatados no derradeiro acto , usando o seu distintivo cérebro para endireitar as coisas. Porém, nós nem sequer possuímos o maior cérebro das redondezas: essa honra vai para as baleias, algumas das quais têm cérebros seis vezes maiores do que o nosso, com regiões inteiras de cortex que ainda nem sequer começámos a entender. Por isso, pode ser, que se nós, de facto , estamos a viver alguma espécie de drama global, não sejamos os heróis, apesar de todas as odisseias espaciais e as nossas trepidantes cidades e tudo o mais. Talvez apenas sejamos extras.
O papel mais adequado e circunspecto seria o de olhar para nós mesmos. Quem precisamos, REALMENTE, de salvar somos NÓS PRÓPRIOS. Eu não quero dizer com isto que precisamos simplesmente de cuidar da nossa salvação, embora isso não fosse má ideia. A nossa tarefa agora, com alguma consciência ecológica, é a de APRENDER A VIVER COMO CO-HABITANTES NESTE PLANETA.(...) 
Precisamos de acabar com a destruição que pudermos - certamente. Reciclar e tudo o mais - certamente. Mas o trabalho a fazer, e que é mais difícil de reconhecer, consiste nas mudanças necessárias que dizem respeito aos padrões diários de atenção. Olhar as aranhas. Olhar os céus. Passear. Fazer jardinagem. Alimentar os pássaros. Escutar os pássaros. Falar com os animais.. (...) Esta é a espécie de “etiqueta” de que eu falo: não reivindicar todo o espaço para nós mesmos, aprender a ouvir, aprender a acolher um maior mundo, outras presenças, re-equacionar as nossas vidas. 
É demasiado tarde? »
Anthony Weston , Is it too late?, “An Invitation to Environmental Philosophy

terça-feira, 29 de maio de 2018

Eduardo Punset entrevista Matthieu Ricard- A ciência da compaixão (legendado em português)



Para além de meditar sobre a compaixão, temos que levá-la à ação~ Matthieu Ricard


O biólogo e monge budista francês Matthieu Ricard, um dos nomes mais conhecidos que vem colaborando nas pesquisas científicas sobre meditação e compaixão, membro do Mind & Life Institute, é o entrevistado de Eduardo Punset no programa 60 intitulado “A Ciência da Compaixão“, da espanhola Redes Educación, com produção da Agencia Planetaria para a TVE da Espanha e transmitido originalmente em maio de 2010. O tema é a compaixão e o altruísmo verdadeiro como natureza humana intrínseca, que Matthieu Ricard defende contra a crença que as pessoas são intrinsecamente más, um dogma não apenas de parte da ciência, mas de campos da psicologia e da economia, como explica Ricard na entrevista. “Dizer que o altruísmo verdadeiro não existe é uma tolice“, afirma ele.

Abaixo, um dos trechos transcritos em português da entrevista: 

Eduardo Punset: Para grande parte da ciência ocidental o ser humano é intrinsecamente mau.

Matthieu Ricard: O que existe é um culto ao egoísmo. E me parece muito estranho, porque não se encaixa com os dados científicos. Se trata de uma caso de distorção, em princípio. Podemos ver na economia, e também em alguns aspectos da evolução, e também em alguns aspectos da psicologia. Há toda uma escola de filosofia chamada egoísmo psicológico, e inclui algo denominado egoísmo ético, que postula que somos egoístas e que está bem assim, que devemos sê-lo, “porque preocupar-nos?”, 

Punset: Temos que sobreviver… 

Matthieu Ricard: …e porque nos sentirmos culpados se não ajudamos os outros? Me parece a receita perfeita para chegarmos à catástrofe completa. Não só porque é profundamente enganoso, mas porque pressupõe que qualquer conduta ou motivação que parece altruísta tem sempre por trás uma motivação egoísta. 

Punset: Uma motivação subjacente… 

Ricard: … e se converte numa espécie de dogma. Ademais, na Psicanálise, praticamente tudo que temos está motivado pelo “eu”, “eu”, “eu”. Se tentamos ser bons, é à custa de algo, que não é muito bom para seu estado mental. Essa negação do lado bom da natureza humana me parece terrível. Para qualquer um que queira ver, os dados sociológicos demonstram que o altruísmo verdadeiro existe, claro. Também somos egoístas às vezes, e há pessoas mais egoístas que altruístas, mas dizer que o altruísmo autêntico não existe é uma tolice.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Petição: Refundar os Serviços Florestais e Aquícolas em Portugal Continental

Azinhal (Quercus rotundifolia)


Nós, cidadãos, que nos preocupamos com o futuro da floresta nacional, considerando que:

• A área florestal com gestão pública, responsabilidade do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), é de 525.400 ha. São património público, e por isso têm gestão plena do ICNF, apenas 55.000 ha. Chamam-se Matas Nacionais e estão sob o Regime Florestal Total. As restantes áreas são constituídas essencialmente por terrenos comunitários (baldios), bem como alguns terrenos particulares e autárquicos, que estão no Regime Florestal Parcial e são geridas pelo ICNF através desse regime num sistema de gestão partilhada com os seus legítimos proprietários.

• O Regime Florestal, “consciencializado e assumido como princípio de Direito e plasmado na lei [notável] em 1901 e 1903”, e que define o uso florestal como uso imperativo (PARDAL 2014), tem sido a base de uma política florestal esclarecida que se quedou nos 525.400 ha referidos, porém, embora a legislação esteja em vigor e toda área de gestão pública atual se enquadre nele, ele tem vindo a ser incorretamente desconsiderado e pouco promovido.

• Portugal é um dos países do mundo com menor percentagem de floresta pública (2% e 55 mil ha, ou 0,055 milhões ha), e definitivamente aquele que tem menos floresta pública na Europa. Manda o bom senso perguntar aos nossos vizinhos espanhóis (27% e 7,396 milhões ha) e franceses (11% e 1,702 milhões ha) porque lhes convém que o Estado disponha de uma percentagem elevada da área florestal.

• Os Serviços Florestais já haviam sido criados em 1886, todavia, foi no âmbito da grande reforma de 1901 que os modernos Serviços Florestais e Aquícolas (SFA) foram criados. Estes serviços fizeram um trabalho notável durante quase um século, com muitos períodos áureos e outros não tão felizes. Importa referir alguns bons um pouco esquecidos: a partir dos finais dos anos 30 do século passado começavam a estruturar-se no seu seio as competências para a conservação da natureza. Tendo surgido em 1956, dentro dos SFA, o Serviço de Caça, Pesca, Regime Florestal e Protecção da Natureza, que cria a primeira área protegida de Portugal Continental (Reserva Ornitológica do Mindelo). Nos finais da década de 60, fez-se a identificação das principais áreas a proteger, a maior parte das quais veio a estar na origem na constituição de parques naturais e foi ainda no interior dos SFA que surgiu a iniciativa da criação, em 1970, do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Nesses tempos, em 1948, surge na sociedade civil um silvicultor, Prof. Carlos Baeta Neves, que cria a Liga para a Protecção da Natureza (LPN). Tendo sido a primeira Organização Não Governamental de Ambiente a ser criada na Península Ibérica. Por falta de estratégia e visões esclarecidas, as competências nas áreas da conservação da natureza foram, sem medo da sua ineficiência, retiradas dos serviços florestais até que “em 1996 a estrutura [da instituição florestal] foi desmantelada e regionalizada, com o pressuposto de criação de uma empresa pública [ENGEF] para a gestão das áreas a cargo do Estado” (AFN 2012). “A proposta viria a ser submetida pelo Governo a parecer do Conselho Económico e Social, entidade que ‘rejeita frontalmente a alienação do património florestal do Estado, ainda que a favor de uma empresa pública’ e que questiona os objetivos marcadamente produtivistas da abordagem seguida no Projeto” (AFN 2012). Conclusão: foi em 1996 que se destruiu por fim os Serviços Florestais centenários de Portugal Continental para se criar o NADA.

• Temos consciência que o futuro da floresta em Portugal não se resolve exclusivamente por alcançar a boa gestão das áreas de Regime Florestal existentes atualmente. A maior parte da área florestal em Portugal é privada, pelo que, noutro âmbito, terão de ser encontradas soluções para o ordenamento dessa floresta. Entendemos que, se voltarmos no imediato a gerir efetivamente no terreno 525.400 ha de área florestal, estaremos no caminho certo e um pouco mais próximos de resolver o problema da floresta em Portugal.

• A Comissão Técnica Independente no seu relatório “Avaliação dos incêndios ocorridos entre 14 e 16 de outubro de 2017 em Portugal Continental”, de março de 2018, faz uma total razia à atuação do ICNF (e designações anteriores) em Portugal Continental desde, pelo menos, 1981 até aos dias de hoje (CTI 2018).

• A CTI (2018) refere que o ICNF está numa grave situação; que não assegura a proteção das Matas Nacionais; que as áreas florestais sob sua responsabilidade ardem ainda mais que as restantes; que o facto de ter ardido 34% da totalidade da área de Matas Nacionais em 2017 é demasiado evidente e grave; que a instituição é um constrangimento para o setor florestal quando deveria ser o seu principal promotor; que esta nunca assumiu a degradação de um património público [e comunitário] de ½ milhão de hectares; que a má gestão de um bem público [e de um bem comunitário] constitui um péssimo serviço; que é nas florestas sob sua responsabilidade que é mais grave o problema das invasoras lenhosas [acácias] em Portugal.

• Deveria ser ainda mais crescente a importância da caça e da pesca desportiva em águas interiores como atividades económicas de relevo no interior do país, nomeadamente na vertente turística, porém, muitas dos nossos rios e albufeiras encontram-se depauperados por falta de gestão aquícola efetiva, nomeadamente devido à inexistência de regras de pesca específicas e dinâmicas, para cada massa de água, conjugada com uma total falta de fiscalização. A gestão da caça, embora tendo melhorado muito nas zonas de gestão privada, está longe da capacidade que poderia representar e, sobretudo no aspeto turístico, não houve capacidade para organizar e desenvolver um turismo cinegético capaz de valorizar realmente o potencial existente em muitas regiões do interior do país.

• O problema da instituição florestal em Portugal não é exclusivamente político. A situação só chegou a este estado de extrema gravidade devido também à evidente incúria de seus dirigentes que nunca se insurgiram e que, por acomodação, a deixaram apodrecer.

• A existência de áreas florestais sob gestão pública faz sentido. Dada a sua natureza ecológica, não foi encontrada até agora nenhuma forma melhor de explorar florestas de baixa produtividade senão transformando-as num uso imperativo florestal de utilidade pública. Todos os países com governos democráticos bem sucedidos nesta matéria, sejam de esquerda ou de direita, chegaram à mesma conclusão (PEDRO BINGRE com. pessoal). O facto da nossa instituição florestal em Portugal ter sido desmantelada nos últimos 40 anos e se encontrar atualmente ao nível da de um Estado Falhado fará parecer lógico alegar que o serviço público florestal não funciona e que a gestão pública florestal em Portugal deve ser de vez entregue a privados. Ocorre que temos a vantagem de termos uma recente história florestal rica e bem sucedida, temos ainda o mundo à nossa volta com excelentes exemplos do que é um bom serviço público florestal. Portugal tem-se fechado sobre si mesmo e se revelado ignorante em politicas florestais; devemos antes procurar copiar aquilo que funciona lá fora e atualizar aquilo que já funcionou entre nós. Temos de assumir humildemente que somos atualmente um dos piores países do mundo em termos de políticas e governança florestal - os factos estão aí, duros, mas reais: 112 pessoas mortas e 442 mil ha ardidos apenas em 2017. Alternativas, provenientes da ignorância e do imediatismo, nos parecem por isso aventureirismos por testar ou fracassos a não repetir.

Requeremos à Assembleia da República:

1.  Que refunde um novo Serviço Florestal e Aquícolas (ou outra designação) em Portugal Continental, criando no seu seio uma estrutura com capacidade idêntica à que tiveram os Serviços Florestais e Aquícolas em Portugal nomeadamente no que respeita: 1) à efetiva capacidade de gestão, plena e partilhada, das áreas de Regime Florestal, com serviços próximos das comunidades locais, com dinamismo e célere capacidade de decisão, com técnicos, guardas florestais e operacionais qualificados e motivados, com estrutura, equipamento, capacidade de investimento alargada e autonomia financeira; 2) à efetiva gestão de recursos aquícolas dos nossos rios e albufeiras, com viveiros, repovoamento piscícola adequado, e fiscalização; 3) ao efetivo apoio à gestão dos recursos cinegéticas, estimulando e garantindo o apoio a um verdadeiro turismo cinegético internacional; 4) que desenvolva o sector da silvopastorícia, promovendo o desenvolvimento de uma atividade moderna capaz de contribuir para a criação de espaços resistentes aos incêndios através de áreas de pastagens renovadas com capacidade de sustentar uma economia pastoril; 5) que desenvolva e aperfeiçoe os serviços de gestão dedicados à conservação da natureza, que garantam o desenvolvimento da biodiversidade e em especial a recuperação das espécies ameaçadas e em risco de extinção, que sejam harmonicamente complementares da economia dos espaços rurais, do turismo de natureza e, sobretudo, para a melhoria das condições de vida das respetivas populações; 6) que sirva para apoiar permanentemente (extensão rural) as áreas de Regime Florestal Parcial e nomeadamente, nas áreas comunitárias, dinamizar e apoiar a constituição de assembleias de compartes e respetivos conselhos diretivos; 7) que reponha a Estação Florestal Nacional (pesquisa aplicada à floresta) e que, entre outras linhas de pesquisa, retome urgentemente os programas de melhoramento florestal, articulando-se com o CENASEF (Centro Nacional de Sementes Florestais); 8) que se dedique à correção de regimes torrenciais (controlo de erosão) e por fim ao lazer e recreio nomeadamente através da reabilitação dos parques de merendas.

2. Que, tendo em vista a refundação dos referidos serviços, promova um profundo debate que envolva um pequeno grupo, a requerer pela AR, de pensadores de políticas florestais, de pensadores de planeamento regional, de silvicultores experientes e com mundo, e de representantes das áreas comunitárias. Que discutam várias alternativas de modelos de gestão pública (benchmarking) tendo como premissa que “não pode haver uma condução correta da floresta e da conservação dos recursos naturais sem serviço público, mas este, para existir, tem de estar aplicado à exploração rentável dos recursos naturais, tendo nessa rentabilidade o principal alicerce da sua existência” (PARDAL 2014).

3. Que sejam feitas estimativas dos investimentos necessários nas várias áreas de gestão de recursos naturais. Em particular, na área de produção florestal sejam feitos, no imediato, inventários florestais (se não os houver recentes) e a finalização do mapeamento dos 525.400 ha de terrenos de Regime Florestal, para servir de base de trabalho para que os melhores técnicos, a requerer pela AR, de planeamento florestal, de SIG e de economia florestal, possam calcular as reais necessidades financeiras dos novos Serviços Florestais, tendo em conta as despesas (estrutura e investimentos) e as receitas (cortes e demais recursos naturais).

4. Que se cubram as necessidades financeiras deste imperativo projeto de investimento florestal recorrendo ao Orçamento de Estado, à União Europeia e/ou ao Banco Mundial (o que já ocorreu em anterior projeto florestal, de 1980 a 1987, lançado pelo então Secretário de Estado das Florestas Prof. António Azevedo Gomes).

5. Que garanta que a orgânica que vier a ser definida seja resultado de um amplo consenso político, capaz de garantir a sua estabilidade a muito longo prazo (100 anos).

6. Que garanta que os prédios rústicos em estado de abandono e pertencentes a proprietários desconhecidos, e que não respondem à chamada, sejam integrados nas Matas Nacionais em Regime Florestal Total (publique-se uma nota - ad perpetuam rei memoriam - que sirva de base à negociação caso futuramente apareçam os legítimos proprietários) (PARDAL 2017). Desta forma “ampliando o património público” conforme “compete ao Estado” pelo artigo 8.º da Lei de Bases da Política Florestal (Lei n.º 33/96). Segundo BEIRES (2013) o problema não está quantificado, porém sugere uma estimativa grosseira de 10% do território se encontre nesta situação, e refere ainda: “importa deixar claro que estas terras sem dono conhecido ocorrem quase sempre em zonas marginais ou de incultos florestais, sendo muito raras ou inexistentes em terras agrícolas”. Os vários trabalhos em curso, nomeadamente o Cadastro Simplificado, legislado recentemente, vos permitirá a localização desses prédios rústicos, de forma a seguirem a política referida.

7. Que assegure que se os proprietários de uma ZIF, que viram todo o seu património florestal ardido e que por isso ficaram sem recursos financeiros para alavancar novamente a gestão florestal, possam recorrer ao Governo para submeter a mesma ao Regime Florestal Parcial. Tendo o Estado a obrigação (conforme lei do Regime Florestal) de arborizar e explorar através dos Serviços Florestais (ou, liberdade nossa, de entregar os apoios financeiros necessários ao mesmo fim), de dar apoio contínuo técnico e de polícia à ZIF, salvaguardando para o Estado uma parte dos lucros líquidos da mata. A gestão manter-se-á privada e em sede de ZIF sendo supervisionada pelos Serviços Florestais com base no plano de exploração aprovado, num sistema de gestão partilhada que garantirá, a muito longo prazo, a utilidade pública florestal.

8. Que rejeite a privatização ou municipalização das Matas Nacionais e a municipalização dos terrenos comunitários, no todo ou em parte, a não ser a devida à expropriação por motivos de utilidade pública.

9. Que entenda que refundar é promover uma mudança radical. A instituição que nascerá deve ser transparente e responsável pelo cumprimento de objetivos, devendo a escolha dos seus novos dirigentes ocorrer por meritocracia.

10. Que assegure que as áreas de Regime Florestal geridas pelos Serviços Florestais voltem a ter a capacidade própria de proteção, deixando de fazer depender a extinção do fogo apenas em terceiros (CTI 2018).

11. Que garanta que nas áreas de Regime Florestal geridas pelos Serviços Florestais sejam rentabilizadas através da produção de lenho, da resinagem (nomeadamente à vida), da produção de cogumelos, da caça, da pesca desportiva, da apicultura, da silvopastorícia e/ou outros recursos naturais numa óbvia gestão harmoniosa com a conservação da natureza. E que se recuperem, e se tire proveito, das Casas dos Guardas Florestais e outro importante património construído (sem alienação) para o apoio a essa gestão.

12. Que assegure que as receitas das licenças de caça e de pesca e as receitas da gestão das Matas Nacionais revertam na totalidade para os Serviços Florestais, bem como a parte da receita que lhe é devida nas áreas Regime Florestal Parcial, e que estas sejam aplicadas na gestão do Regime Florestal e no seu fomento.

13. Que reponha os Guardas Florestais no Ministério da Agricultura, com as funções de polícia, fiscalização e apoio à gestão dos recursos florestais, como sempre sucedeu desde, pelo menos, 1886 até 1998/2006 (respetivamente: competência exclusiva de polícia / transferência para a GNR no Ministério da Administração Interna).

14. Que invista na reflorestação das vastas áreas ardidas e áreas atualmente incultas do Regime Florestal, sobretudo com espécies autóctones, incluindo o pinheiro bravo, promovendo as espécies folhosas sempre que tecnicamente aconselhável e promovendo a erradicação de espécies invasoras lenhosas exóticas, nomeadamente as acácias.

Resumo: que a Assembleia da República dote com urgência o país de uns novos Serviços Florestais e Aquícolas (ou outra designação), com a mais conveniente estrutura orgânica, apoiado num corpo técnico competente desde o nível dos guardas florestais até aos seus mais altos dirigentes, que seja capaz de, adotando uma visão moderna de conservação dos recursos naturais e da biodiversidade, dirigir e coordenar a gestão dos recursos florestais de Portugal Continental de modo a que estes contribuam na sua plenitude para a nossa economia e para o desempenho das funções sociais e do bem estar das populações rurais que deles dependem. Para tanto, será necessário que ocorra um investimento elevado para recuperar as perdas dos últimos anos e um orçamento anual capaz de suportar tal estrutura, dentro do Ministério da Agricultura, podendo-se recorrer não apenas aos recursos disponíveis no Estado português, mas também a outras fontes de financiamento existentes para estes fins.

Com respeitosos cumprimentos, os peticionários.

(atenção: deve obrigatoriamente colocar o seu nome COMPLETO e o nº do seu BI).

BIBLIOGRAFIA:


BEIRES, R. S.; GAMA AMARAL, J.; RIBEIRO, P., 2013. Ocadastro e a propriedade rústica. Fundação Francisco Manuel dos Santos. Páginas 83 e 84 

CTI, 2018. Avaliação dos incêndios ocorridos entre 14 e 16de outubro de 2017 em Portugal Continental. Comissão Técnica Independente. Páginas 195-201 e 239-240 

PARDAL, SIDÓNIO, 2014. A Politíca Florestal no Nosso País.In Questões Atuais de Direito Local. AEDRL – Associação de Estudos de Direito Regional e Local. 

PARDAL, SIDÓNIO, 2017. Apontamento para uma políticaflorestal

segunda-feira, 26 de março de 2018

Não podemos confiar que as empresas nos salvem da mudança climática (em castelhano)

Las exigencias de descarbonización radical chocan con los imperativos de lucro y valor para los accionistas, escriben Christopher Wright y Daniel Nyberg.

Este artículo apareció originalmente en el blog LSE Business Review, de la London School of Economics y está basado en la investigación de los autores, publicada en el artículo Una Verdad Incómoda: Cómo las organizaciones traducen el cambio climático en normalidad, publicado en octubre de 2017 en la Revista de la Academia de Gestión.

No podemos confiar en que las empresas nos salven del cambio climático
Activistas y voluntarioss de 350.org en un acto en Australia para pedir la retirada de inversiones en el sector de los combustibles fósiles. Foto: 350.org / CC BY-NC-SA 2.0.
Christopher Wright y Daniel Nyberg // El cambio climático es ya una realidad presente en la experiencia humana. El año pasado presenciamos cómo una sucesión de enormes huracanesazotaba Estados Unidos y el Caribe, los mayores incendios jamás registrados en California, y en Australia, a pesar de la muerte de hasta la mitad de la Gran Barrera de Coral en consecutivos eventos de de blanqueo, vemos apoyo político para nuevas mega minas y plantas energéticas de carbón. Aunque ya hay un consenso científico claro de que el mundo se dirige a incrementos de temperatura de hasta 4 grados centígrados para fin de siglo (lo que amenaza la viabilidad de la propia civilización humana), nuestros amos políticos y económicos siguen doblando sus apuestas por los combustibles fósiles, transformando lo que es quizás la mayor amenaza para la vida en este planeta en normalidad.
Una respuesta a los fallos de los gobiernos ha sido la creencia de que los mercados y la innovación corporativa darán con la solución a la crisis climática. Como decía el magnate Richard Branson, “nuestra única opción de parar el cambio climático es que la industria gane dinero con ello”. De esta manera, las corporaciones, que son vistas como grandes contribuidoras a las emisiones de gases de efecto invernadero, suelen ser presentadas al mismo tiempo como proveedoras de formas innovadoras para descarbonizar nuestras economías. Pero, ¿cuánta fe podemos depositar en que las corporaciones nos salven del cambio climático?
En un estudio publicado recientemente, hemos explorado cómo las grandes corporaciones traducen el desafío del cambio climático en estrategias, políticas y prácticas en un periodo extendido de tiempo. Nuestra investigación ha incluido un análisis cruzado de cinco grandes empresas con operaciones en Australia durante diez años (de 2005 a 2015). En este periodo, el cambio climático se convirtió en una cuestión central en el debate político y económico, llevando a una serie de oportunidades y riesgos tanto físicos como de regulación y de mercado. Cada una de estas compañías eran líderes en la promoción de su compromiso con el tema.
Sin embargo, y a pesar de que procedían de diferentes industrias (banca, manufactura, seguros, medios de comunicación y energía), hallamos un patrón común conforme avanzaba el tiempo, según el cual sus declaraciones iniciales sobre liderazgo climático degeneraban en preocupaciones más mundanas sobre la actividad empresarial convencional. Un factor clave para este deterioro de las iniciativas medioambientales de las empresas fue la crítica de los accionistas, los medios, los gobiernos y otras corporaciones y ejecutivos. Esta “crítica de mercado” reveló continuamente las tensiones subyacentes entre las demandas de descarbonización radical y los imperativos de empresa básicos de beneficio y valor para los accionistas.
La transformación corporativa del cambio climático en negocio tradicional implica tres fases. En laprimera, llamada de “enmarcado”, ejecutivos de alto rango presentaron el cambio climático como una cuestión estratégica de negocios, y planearon cómo podían sus empresas ofrecer innovación y soluciones. En esta fase, los ejecutivos asociaban el cambio climático con significados específicos y con temas como “innovación”, “oportunidad”, “liderazgo” y “resultados en que todos ganan”, al tiempo que desechaban otras connotaciones más negativas o amenazadoras (por ejemplo “pesimismo”, “regulación” o “sacrificio”). En una expresión clásica de este ethos de victoria para todos, el director global de sostenibilidad de una de las organizaciones estudiadas (y una de los mayores conglomerados industriales del mundo), argumentaba: “Estamos eliminando la falsa elección entre una gran economía y el medio ambiente. Buscamos productos que tengan un impacto positivo y poderoso sobre el medio ambiente y sobre la economía”.
Al tiempo que estas declaraciones de intenciones generales respondían a la tensión inherente entre intereses corporativos y medioambientales, convencer a los accionistas de los beneficios de iniciativas verdes nunca fue sencillo, y las críticas crecieron entre estos y entre clientes, que sentían que los esfuerzos ambientales de sus organizaciones carecían de sinceridad o no satisfacían motivos de lucro.
En una segunda fase, de “localización”, los ejecutivos intentaron hacer relevantes estos marcos de referencia iniciales mediante la implementación de prácticas de eco-eficiencia mejorada, productos y servicios “verdes” y la promoción de la necesidad de acción climática. Se desarrollaron medidas internas de valor corporativo para demostrar los “argumentos de negocio” de las respuestas climáticas (por ejemplo, la satisfacción y el compromiso, cifras de ventas de nuevos productos y servicios “verdes” y mecanismos de precio de carbono). Las empresas también trataron de comunicar los beneficios de estas iniciativas tanto a empleados a través de cambios de cultura corporativa, como a personas interesadas de fuera de la organización, como clientes, ONGs y partidos políticos.
Sin embargo, según pasaba el tiempo, estas prácticas atrajeron más críticas de otros ejecutivos, accionistas, medios de comunicación y políticos en una tercera fase, llamada de “normalización”. En esta fase se rompen los compromisos temporales entre el mercado y los discursos sociales y medioambientales, y los ejecutivos de las empresas trataron de realinear las iniciativas climáticas con la lógica empresarial dominante de maximizar el valor para los accionistas. Algunos ejemplos incluyen la disminución de las fortunas empresariales y nuevos consejeros delegados que promovieron una estrategia de “regreso a lo básico”, el contexto político cambiante que instauró políticas climáticas como las leyes de energía limpia, nuevas oportunidades de negocio relacionadas con los combustibles fósiles y la disolución de iniciativas climáticas en programas más amplios y menos específicos, con etiquetas como “sostenibilidad “ y “resiliencia”. Como reconocía un directivo de alto rango en una gran compañía de seguros: “Eso estuvo bien en los buenos tiempos, pero ahora vienen duras. Tenemos que volver a lo básico”.
Así, nuestro análisis subraya las limitaciones políticas de confiar en las respuestas corporativas y de mercado a la crisis climática. Tenemos que imaginar un futuro que vaya más allá de las cómodas asunciones de autorregulación corporativa y “soluciones de mercado”, y aceptar que se necesitarán regulaciones en la extracción y uso de combustibles fósiles. En una era en la que el neoliberalismo aún domina las imaginaciones políticas en todo el mundo, nuestra investigación remarca así una “verdad incómoda” para las élites políticas y empresariales, el sinsentido de la sobre-dependencia de las corporaciones y los mercados para enfrentarse a la que es, quizás, la amenaza más grave para nuestro futuro colectivo.
Christopher Wright es profesor de de Estudios de Organización de la Escuela de Negocios de la Universidad de Sydney y co-autor, junto a Daniel Nyberg, de Climate Change, Capitalism and Corporations: Processes of Creative Self-Destruction.
Daniel Nyberg es profesor de gestión en la Escuela de Negocios de la Universidad de Newcastle, e investiga cómo los fenómenos sociales como el cambio climático se traducen en situaciones de organización local.

segunda-feira, 12 de março de 2018

Essay - Unified theory of evolution


The unifying theme for much of modern biology is based on Charles Darwin’s theory of evolution, the process of natural selection by which nature selects the fittest, best-adapted organisms to reproduce, multiply and survive. The process is also called adaptation, and traits most likely to help an individual survive are considered adaptive. As organisms change and new variants thrive, species emerge and evolve. In the 1850s, when Darwin described this engine of natural selection, the underlying molecular mechanisms were unknown. But over the past century, advances in genetics and molecular biology have outlined a modern, neo-Darwinian theory of how evolution works: DNA sequences randomly mutate, and organisms with the specific sequences best adapted to the environment multiply and prevail. Those are the species that dominate a niche, until the environment changes and the engine of evolution fires up again.
But this explanation for evolution turns out to be incomplete, suggesting that other molecular mechanisms also play a role in how species evolve. One problem with Darwin’s theory is that, while species do evolve more adaptive traits (called phenotypes by biologists), the rate of random DNA sequence mutation turns out to be too slow to explain many of the changes observed. Scientists, well-aware of the issue, have proposed a variety of genetic mechanisms to compensate: genetic drift, in which small groups of individuals undergo dramatic genetic change; or epistasis, in which one set of genes suppress another, to name just two.
Yet even with such mechanisms in play, genetic mutation rates for complex organisms such as humans are dramatically lower than the frequency of change for a host of traits, from adjustments in metabolism to resistance to disease. The rapid emergence of trait variety is difficult to explain  just through classic genetics and neo-Darwinian theory. To quote the prominent evolutionary biologist Jonathan B L Bard, who was paraphrasing T S Eliot: ‘Between the phenotype and genotype falls the shadow.’
And the problems with Darwin’s theory extend out of evolutionary science into other areas of biology and biomedicine. For instance, if genetic inheritance determines our traits, then why do identical twins with the same genes generally have different types of diseases? And why do just a low percentage (often less than 1 per cent) of those with many specific diseases share a common genetic mutation? If the rate of mutation is random and steady, then why have many diseases increased more than 10-fold in frequency in only a couple decades? How is it that hundreds of environmental contaminants can alter disease onset, but not DNA sequences? In evolution and biomedicine, the rates of phenotypic trait divergence is far more rapid than the rate of genetic variation and mutation – but why?
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art of the explanation can be found in some concepts that Jean-Baptiste Lamarck proposed 50 years before Darwin published his work. Lamarck’s theory, long relegated to the dustbin of science, held, among other things, ‘that the environment can directly alter traits, which are then inherited by generations to come’. Lamarck, a professor of invertebrate zoology at the National Museum of Natural History in Paris, studied many organisms including insects and worms in the late 18th and early 19th centuries. He introduced the words ‘biology’ and ‘invertebrate’ into the scientific lexicon, and wrote books on biology, invertebrates and evolution. Despite this significant academic career, Lamarck antagonised many of his contemporaries and 200 years of scientists with his blasphemous evolutionary ideas.
At the start, Lamarck might have been pilloried as a religious heretic, but in modern times, it is the orthodoxy of science – and especially Darwin’s untouchable theory of evolution – that has caused his name to be treated as a joke. Yet by the end of his career, Darwin himself had come around; even without the benefit of molecular biology, he could see that random changes were not fast enough to support his theory in full.
The question is this: if natural selection isn’t acting on genetic mutations alone, then what molecular forces create the full suite of variation in traits required for natural selection to finish the job? One clue came almost a century after Darwin proposed his theory, in 1953, just as James Watson and Francis Crick were unravelling the mysteries of DNA and the double helix. In that year, the developmental biologist Conrad Waddington of the University of Edinburgh reported that fruit flies exposed to outside chemical stimulus or changes in temperature during embryonic development could be pushed to develop varying wing structures. The changes the scientists induced in that single generation would, thereafter, be inherited by progeny down the lineage. Waddington coined a modern term – ‘epigenetics’ – to describe this phenomenon of rapid change. Notably, before Watson and Crick had even revealed their DNA structure, Waddington recognised the potential impact his discovery could have on the theory of evolution: the single-generation change in the fruit-fly wings were supportive of the original ideas of the heretic Lamarck. It appeared that the environment could directly impact traits.
The regulation of biology will never involve a ‘genetic-only process’, nor an ‘epigenetic-only process’. They are completely integrated
Although Waddington described the general role of epigenetics, he was no more aware of the molecular elements or mechanisms involved than Lamarck or Darwin. But the more molecular biology decodes the workings of life, the more Waddington’s concepts – and Lamarck’s – make sense. Indeed, although the vast majority of environmental factors cannot directly alter the molecular sequence of DNA, they do regulate a host of epigenetic mechanisms that regulate how DNA functions – turning the expression of genes up or down, or dictating how proteins, the products of our genes, are expressed in cells.
Today, that is the precise definition of epigenetics: the molecular factors that regulate how DNA functions and what genes are turned on or off, independent of the DNA sequence itself. Epigenetics involves a number of molecular processes that can dramatically influence the activity of the genome without altering the sequence of DNA in the genes themselves.
One of the most common such processes is ‘DNA methylation’, in which molecular components called methyl groups (made of methane) attach to DNA, turning genes on or off, and regulating the level of gene expression. Environmental factors such as temperature or emotional stress have been shown to alter DNA methylation, and these changes can be permanently programmed and inherited over generations – a process known as epigenetic transgenerational inheritance.
Another major epigenetic process discovered in recent years is ‘histone modification’. Histones are proteins that attach to and alter the structure of DNA, which in turn wraps around the histones like beads on a string. The combination of DNA and histone together has been called ‘chromatin structures’ – and the coils, loops and twists in chromatin structures in response to environmental stress can permanently alter gene expression as well.
More recently, researchers have documented ‘RNA methylation’ in which methyl groups attach to the genetic helper molecules, in the process altering gene expression and subsequent protein production for generations down the line. Likewise, the action of so-called ‘non-coding RNA’, small RNA molecules that bind to DNA, RNA and proteins, also alter the expression of genes, independent of DNA sequence.
All of these epigenetic mechanisms are critical and have unique roles in the molecular regulation of how DNA functions. The regulation of biology, it follows, will never involve a ‘genetic-only process’, nor an ‘epigenetic-only process’. Instead, the processes of epigenetics and genetics are completely integrated. One does not work without the other.
For epigenetics to have a significant impact on evolution, its alterations must be inherited by subsequent generations, just like DNA sequences and gene mutations. But epigenetic inheritance does not follow many of the Mendelian rules that apply to classic genetics and the neo-Darwinian theory of evolution. These rules hold that DNA sequences and genes function discretely, like particles; upon reproduction, the ‘particles’ from each parent unite at random with a matching pair from the other parent, leading to a new DNA sequence and new expression of inherited traits.
Epigenetic transgenerational inheritance, by contrast, occurs when the germline (sperm or egg) transmits epigenetic information between generations, even in the absence of continued direct environmental exposures. Environmental stress and exposure is especially impactful during germline development – for instance, when foetal sex organs develop into testis for men or ovaries for women to produce sperm or eggs later in life. Indeed, environmental exposure during this critical time can trigger permanent epigenetic changes via DNA methylation, histone modifications and alteration of non-coding RNA.
Evidence for this non-genetic form of inheritance, which my team at Washington State University identified in 2000, is persuasive. Findings published by my group in Science in 2005 showed the ability of environmental chemicals to promote inheritance of disease in rats through three generations, to great-grand offspring and beyond, in the absence of any continued exposures. The phenomenon has been further documented by many labs in a number of different species over the past decade. An example is when Graham Burdge and his team at the University of Southampton in the United Kingdom reported that excessive nutrition in rats created epigenetically induced metabolic abnormalities three generations out.
In other work, Sibum Sung and his colleagues at the University of Texas Austin found that drought and changes in temperature induced epigenetic evolution in plants, leading to alterations in growth and flowering traits, generations out. More recently, a number of studies have indicated that environmental stress can promote epigenetic alterations that are transmitted to and induce pathologies in subsequent generations. A recent study by Gerlinde Metz and her colleagues at the University of Lethbridge in Canada demonstrated that restraining pregnant rats or, alternatively, forcing them to swim, produced epigenetic damage that put newborns at risk. This ancestral stress also promoted the epigenetic transgenerational inheritance of abnormalities in the great-grand offspring of the exposed gestating female. Several studies now support the role of environmental stress in promoting the epigenetic transgenerational inheritance of disease.
Environmentally induced epigenetic transgenerational inheritance has now been observed in plants, insects, fish, birds, rodents, pigs and humans. It is, therefore, a highly conserved phenomenon. The epigenetic transgenerational inheritance of phenotypic trait variation and disease has been shown to occur across a span of at least 10 generations in most organisms, with the most extensive studies done in plants for hundreds of generations. One example in plants, a heat-induced flowering trait first observed by Carl Linnaeus in the 18th century, was later found to be due to a DNA methylation modification that occurred in the initial plant, and has been maintained for 100 generations. In worms, traits altered by changes in nutrition have been shown to propagate over 50 generations. In mammals with longer generation times, we have found toxicant-induced abnormal traits propagated for nearly 10 generations. In most of these studies, the transgenerational traits do not degenerate but continue. Even Waddington’s experiment with flies was taken out to 16 generations, and the altered traits have been propagated and continue to exist today.
Three generations after exposure to the fungicide, we saw abnormalities in the testis, ovaries, kidneys, prostate, mammary glands and brain
Much as Lamarck suggested, changes in the environment literally alter our biology. And even in the absence of continued exposure, the altered biology, expressed as traits or in the form of disease, is transmitted from one generation to the next.
The environment plays an essential role in evolution. In a Darwinian sense, it determines which individuals and species will survive through the inexorable engine of natural selection. But a large number of environmental factors can also impact evolution and biology more directly, through epigenetic means: traits can shift through exposures to temperature and light or in response to nutritional parameters such as high fat or caloric restriction diets. A host of chemicals or toxins from plants and the general environment can impact phenotypic variation and health.
One example that we studied in our lab involved the impact of environmental chemical exposure on trait variation and disease. In our study, we set out to investigate the ability of an environmental toxicant – vinclozolin, the most commonly used fungicide in agriculture today – to alter traits through epigenetic change. First, we briefly exposed a gestating female rat to the fungicide; then we bred her progeny for three generations, to great-grand-offspring, in the absence of any continued exposures. For nearly all males down through the lineage, we observed a decrease in the number and viability of sperm and an associated incidence of infertility with age. And we observed a variety of other disease conditions in both males and females three generations removed from the direct exposure, including abnormalities in the testis, ovaries, kidneys, prostate, mammary glands and brain. Corresponding epigenetic alterations in the sperm involve changes in DNA methylation and non-coding RNA expression.
Our research showed that ancestral exposure to the toxicant vinclozolin also affected sexual selection in animals three generations down the lineage. Considered a major force in evolution since Darwin first posed his theory, sexual selection – also known as mate preference  was assessed by allowing females from other litters to choose between either descendants of exposed or unexposed males. Females overwhelmingly selected those who lacked the transgenerational epigenetic alterations and whose ancestors had not been exposed. In conclusion, exposure to the fungicide permanently altered the descendant’s sperm epigenetics; that, in turn, led to inheritance of sexual selection characteristics known to reduce the frequency with which their genes might propagate in the broader population and directly influence evolution on a micro-evolutionary scale.
In another recent study, we examined evolution on the macro-evolutionary scale – speciation. One of the classic examples of speciation involves Darwin’s finches in the Galapagos Islands. A group of finches radiated out from a single species to become 16 different species of varying size and with different traits such as altered beak structure. Our team and collaborators set out to examine the DNA from five of those distinct species. We observedDNA sequence mutations from one species to the next, but the epigenetic changes in DNA methylation (epimutations) were higher in number and more correlated with the phylogenetic (family tree) distance between the species. Although the field of evolution is currently focused on neo-Darwinian genetic concepts, our findings suggest that epigenetics also has a role in the speciation and evolution of Darwin’s finches.
Support for an epigenetic role in evolution continues to mount. One interesting study compares Neanderthal and human DNA, where genetic differences are significantly less pronounced than the epigenetic ones, which involve alterations in DNA methylation in the genomes. In short, integration of neo-Lamarckian and neo-Darwinian concepts into a unified theory provides a far more efficient molecular basis for how evolution works.
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eo-Darwinian and neo-Lamarckian mechanisms both drive evolution, and they appear to be intertwined.  Indeed, because environmental epigenetics can increase trait variation within a population, it empowers natural selection, which works by promoting adaptive traits over others. Classic neo-Darwinian evolution involves genetic mutation and genetic variation as the main molecular mechanisms generating variation. Add to these mechanisms the phenomenon of environmental epigenetics, which directly increases trait variation, and you enhance the ability of the environment to mediate natural selection and evolution.
Table 1. Evolution Theory Components
A critical additional consideration for our lab involves the ability of epigenetics to alter genome stability and, thus, to directly induce the kind of genetic mutations observed in cancer biology. The gene mutations we’ve found here include copy number variation (the number of times a short DNA sequence is repeated) and point mutations (alteration of a single nucleotide within the DNA sequence) in later generations. Nearly all types of genetic mutations are known to have a precursor epigenetic change that increases the susceptibility to develop that mutation. We observed that direct environmental exposure in the first generation had epigenetic changes and no genetic mutations but, transgenerationally, an increase in genetic mutations was identified. Since environmental epigenetics can promote both trait variation and mutations, it accelerates the engine of evolution in a way that Darwinian mechanisms alone cannot.
Figure 1. Unified Theory of Evolution
The unified theory of evolution has many skeptics, especially in light of the genetic determinism paradigm that has influenced the biological sciences for more than 100 years. Genetic determinism sees DNA as the basic building block of biology, and the DNA sequence as the ultimate molecular control.
Perhaps the key pentacle of genetic determinism was the sequencing of the human genome, which was to provide the ultimate proof of the primacy of the gene. Genome-wide association studies were predicted to provide biological marks for normal and abnormal phenomena of life and reveal the underpinnings of disease. But in the wake of that sequencing, the major prediction of genetic determinism – that the majority of human biology and disease could be understood through the lens of genetics – has not borne out.
Generations of scientists and the public have been taught genetics, but few have been exposed to the relatively new science of epigenetics – in fact, inclusion of epigenetics into the molecular elements of biology and evolution has been met with opposition. Watson, who played a role in the discovery of the DNA structure, and Francis Collins, who played a significant role in sequencing the human genome and is the director of the US National Institutes of Health, both initially questioned the significance of epigenetics beyond a few common measurements, but today are more supportive. It is no surprise that, after 100 years of genetic determinism, resistance to a paradigm shift is strong.
It was Thomas Kuhn who suggested that when a current paradigm reveals anomalies then new science needs to be considered – that is how scientific revolutions are born
A month after I suggested this unified theory of evolution and it was published in Genome Biology and Evolution in 2015, David Penny of Massey University in New Zealand suggested that epigenetics was largely an ancestral feature of genetics and simply a component of genetics. Other recent publications, including one from Emma Whitelaw of La Trobe University in Australia, have disputed the concept of Lamarckian epigenetic inheritance in mammals.
Despite the pushback, I’m convinced that we have reached the point where a paradigm shift is due. Accepting that epigenetics plays a role in evolution does not topple the science of genetics; embracing neo-Lamarckian ideas does nothing to challenge classic neo-Darwinian theory. The accepted sciences are essential and accurate, but part of a bigger, more nuanced story that expands our understanding and integrates all our observations into a cohesive whole. The unified theory explains how the environment can both act to directly influence phenotypic variation and directly facilitate natural selection, as shown in the diagram above.
With a growing number of evolutionary biologists developing an interest in the role of epigenetics, there are now some mathematical models that integrate genetics and epigenetics into a system, and the work has paid off. Consideration of epigenetics as an additional molecular mechanism has assisted in understanding genetic driftgenetic assimilation (when a trait produced in response to the environment ultimately becomes encoded in the genes); and even the theory of neutral 

evolution, whereby most change happens not in response to natural selection, but by chance. By providing an expanded molecular mechanism for what biologists observe, the new models provide a deeper, more nuanced and more precise roadmap to evolution at large.

Taken together, these findings demand that we hold the old standard, genetic determinism, up to the light to find the gaps. It was Thomas Kuhn who in 1962 suggested that when a current paradigm reveals anomalies then new science needs to be considered – that is how scientific revolutions are born.

A unified theory of evolution should combine both neo-Lamarckian and neo-Darwinian aspects to expand our understanding of how environment impacts evolution. The contributions of Lamarck more than 200 years ago should not be discounted because of Darwin, but instead integrated to generate a more impactful and insightful theory. Likewise, genetics and epigenetics must not be seen as conflicting areas, but instead, integrated to provide a broader repertoire of molecular factors to explain how life is controlled.

domingo, 20 de agosto de 2017

Livro do Mês: Levadas da Madeira- Uma Antologia Literária

No passado dia 11 de Maio, veio a lume Levadas da Madeira: uma antologia literária, organizada por Thierry Proença dos Santos, com fotografias de Francisco Correia e publicada pela Imprensa Académica. Segundo o editor, Luís Eduardo Nicolau, constitui objectivo deste livro «dar a conhecer aos leitores uma relação pouco explorada entre o texto literário e essa obra única da nossa natureza, construída e moldada ao longo dos séculos e cuja marca, na vida dos madeirenses e de todos os que nos visitam, é indelével.»

Thierry Proença dos Santos, professor da Faculdade de Artes e Humanidades da Universidade da Madeira, tem, nos últimos anos, dedicado a sua investigação à produção literária madeirense e contribuído de forma notável para a sua divulgação no contexto académico nacional e internacional, através de muitos artigos e ensaios em revistas e actas de colóquios, e ainda de alguns livros, dos quais salientamos Comeres e beberes madeirenses em Horácio Bento de Gouveia (2005) e a edição crítica de Canga, (2008). Foi também co-organizador de Crónica madeirense: 1900-2006 (2007) e Cadernos de Santiago 1: colectânea de poesia (2016).
Em Levadas da Madeira: uma antologia literária, Thierry Proença dos Santos reuniu contos, crónicas e poemas, excertos de diários, cartas, romances e reportagens sobre as levadas da nossa ilha.

Surgem assim autores de diferentes épocas e correntes literárias e estéticas. O primeiro texto apresentado é de Gaspar Frutuoso, extraído do Livro Segundo das Saudades da Terra, obra escrita por volta de 1584. Isabella de França, João de Nóbrega Soares, Luzia, Alberto Artur Sarmento, António Ferreira, Assis Esperança, Maria Lamas, Ferreira de Castro, António Marques da Silva, Horácio Bento de Gouveia, João França, Carlos Martins, Alberto Figueira Gomes, Maria do Carmo Rodrigues, Jorge Sumares, António Ribeiro Marques da Silva, Clemente Tavares, Irene Lucília Andrade, Dalila Teles Veras, Fátima Pitta Dionísio, José António Gonçalves, Nelson Veríssimo, Lília Mata, Fernando Bessa são os autores seleccionados. Apenas um viajante estrangeiro foi antologiado. Trata-se do francês Léon Manchon, cujo relato de uma caminhada ao Rabaçal foi traduzido para português, pela primeira vez.

Os discursos sobre as levadas figuram dispostos sob nove temáticas que dão origem a igual número de capítulos. Assim: Os construtores de levadas; Águas passadas, Disputa de água; O silêncio das levadas; O prazer da água (de rega); Ao sabor da levada; A levada que corre dentro de mim; A fonte de lendas, Tornadoiro de poemas. No final, são apresentadas notas bibliográficas dos autores escolhidos, seguindo-se um glossário e um breve posfácio com o enquadramento histórico das levadas madeirenses.

As fotografias de Francisco Correia, que acompanham os textos, não assumem o papel de mera ilustração, sem menosprezo dessa importante função da representação do real. Neste livro, as bonitas imagens captadas são uma espécie de texto visual que anuncia, rodeia ou prolonga o texto literário, envolvendo o leitor no amplo processo de fruição da levada, enquanto obra insular e produto da Natureza. Trata-se, portanto, de uma antologia literária e fotográfica, mas um objecto com unidade, criado com palavras e registos da paisagem.

No processo em curso sobre a candidatura das levadas da Madeira a Património da Humanidade, junto da UNESCO, esta edição constitui mais uma importante achega para valorização de um legado cultural, que remonta aos tempos do povoamento da ilha.

Nesta antologia, narrativas, poemas e fotografias fixam imagens bem diversas das levadas e da sua paisagem, da rega e dos levadeiros, do quotidiano agrícola, de superstições e crendices, quando na noite não existia luz elétrica para iluminar as encostas, dos recorrentes e indómitos conflitos em torno da água de rega, de relatos de caminhadas e de visões inspiradas.

Com a chancela da Imprensa Académica, da Associação Académica da Universidade da Madeira, disponibiliza-se um novo e diferente instrumento para a compreensão das levadas como obra da cultura madeirense.


Funchal Notícias. 17 Maio 2017