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terça-feira, 10 de julho de 2018

As florestas tropicais perderam 40 campos de futebol de árvores por minuto em 2017

Além de causas naturais como os furacões ou os incêndios, os autores de um novo estudo mundial atribuem a perda de área florestal a práticas como a agricultura, a exploração mineira, a extracção ilegal de madeira ou as plantações de óleo de palma.

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O ano de 2017 foi o segundo pior ano de que há registo (imediatamente atrás de 2016) no que à redução de florestas tropicais diz respeito, com 15,8 milhões de hectares de árvores devastados, segundo novos dados obtidos por satélite da Universidade de Maryland revelados nesta quarta-feira.

No total, as florestas tropicais de todo o mundo sofreram uma perda de cobertura vegetal de 15,8 milhões de hectares – que praticamente corresponde à área geográfica do Bangladesh –, divulgou em comunicado o World Resources Institute, de acordo com dados do Global Forest Watch, uma ferramenta de monitorização das áreas florestais em tempo real. Posto de outra forma: o equivalente a perder cerca de 40 campos de futebol (0,73 hectares por campo) de árvores a cada minuto, durante um ano.

Apesar de esforços no sentido da reflorestação e dos alertas dos ambientalistas, as perdas superam os ganhos e o abate de árvores nos principais países tropicais tem vindo a aumentar exponencialmente nos últimos 17 anos (o estudo analisou dados entre 2001 e 2017). As causas são, por um lado, desastres naturais como incêndios e tempestades tropicais – cuja frequência e severidade estão directamente relacionadas com as alterações climáticas, e por outro, as actividades humanas que continuam a causar um desflorestamento em larga escala.

A Colômbia foi um dos países mais afectados, com mais 46% de área florestal devastada face ao ano anterior, registada maioritariamente em três províncias do país: Meta, Guaviare e Caquetá (parte da região amazónica colombiana). E se o acordo estabelecido em 2016 entre o Governo colombiano e as Forças Armadas Revolucionárias da Colômbia (FARC) trouxe paz ao país, trouxe também aspectos negativos. De acordo com os investigadores, a ex-guerrilha mantinha um controlo rígido daquelas áreas e impunha limites à exploração dos recursos para fins comerciais, pelo que a desmobilização das FARC permitiu o acesso a zonas anteriormente remotas e conduziu à apropriação e limpeza ilegal dos terrenos por outros grupos armados, que agora são utilizados para outros fins como a plantação de cocaína, a extracção de madeira e mineral e a criação de gado. Face a um pedido de reforço das medidas de combate à desflorestação na Amazónia pelo Supremo Tribunal Federal (a mais alta instância do poder judiciário brasileiro), o Governo colombiano mostrou-se empenhado: anulou o projecto de uma auto-estrada que ligava a Venezuela e o Equador; expandiu a área do Chiribiquete National Park (parque natural em Guaviare) em mais de um milhão de hectares; e lançou uma iniciativa chamada "Green Belt" para proteger e reflorestar uma área de 9,2 milhões de hectares.

O Brasil registou a maior perda de área florestal em 2016 mas foi no ano seguinte que a Amazónia sofreu o maior número de incêndios desde 1999, que levaram a uma redução de 31% das florestas e contribuíram para o aumento das emissões de dióxido de carbono. Um ciclo vicioso, uma vez que a falta de árvores aliada às alterações climáticas e à acção humana aumentam a prevalência de períodos de seca que, por sua vez, tornam os terrenos mais vulneráveis aos fogos. A falta de fiscalização e a instabilidade política e económica que assolou o Brasil nos últimos tempos, assim como a desvalorização por parte do actual Governo em relação às políticas de conservação ambiental poderão estar na base deste problema, dizem os investigadores.

Indonésia, um caso de sucesso 

A Indonésia, por outro lado, tornou-se o exemplo a seguir. Viu a sua perda de floresta diminuir em 2017, com um declínio de 60% no que diz respeito às florestas primárias (as florestas antigas que mantém o seu estado natural sem sinais de exploração), com algumas províncias de Samatra como excepção à regra. Os cientistas atribuem estes resultados a uma moratória nacional, em vigor desde 2016, sobre a drenagem das turfeiras (zonas de solos orgânicos com elevada concentração de humidade e dióxido de carbono) levadas a cabo pelos agricultores nas últimas décadas por causa das plantações de óleo de palma. Nestas zonas, a perda de florestas primárias diminuiu 88% entre 2016 e 2017, atingindo o nível mais baixo de sempre. Além disso, em 2017 não houve sinais do El Niño (fenómeno cíclico de aquecimento das águas do oceano Pacífico), o que proporcionou condições mais húmidas e menos incêndios. 

Na República Democrática do Congo, a perda de cobertura vegetal aumentou 6% desde 2016, devido essencialmente à agricultura, extracção ilegal de madeira para fins artesanais e a produção de carvão. A intensificação das práticas agrícolas faz com que os períodos de pousio sejam cada vez menores, o que dificulta a regeneração natural da vegetação. Já nas Caraíbas, os furacões que assolaram a região em 2017 (Irma e Maria), causando a morte a várias pessoas e inúmeros danos materiais, também tiveram impacto negativo nas florestas daquela região, com a Ilha Dominica (conhecida como "a ilha da Natureza") a registar uma diminuição de 32% na sua área florestal. Porto Rico viu a sua área verde reduzida em 10% com perdas significativas na Floresta Nacional de El Yunque.

"A principal razão pela qual as florestas tropicais estão a desaparecer não é um mistério: vastas áreas continuam a ser desflorestadas para soja, carne bovina, óleo de palma, madeira e outros produtos comercializados globalmente", disse Frances Seymour, porta-voz do World Resources Institute citada pelo diário britânico Guardian. "Grande parte dessa limpeza é ilegal e está ligada à corrupção", acrescentou. Apenas 2% do financiamento internacional para o combate às alterações climáticas é direccionado para a preservação das florestas. "Estamos a tentar apagar um incêndio em casa com uma colher de chá", disse Seymour. Perante os resultados, os investigadores alertaram para o facto de a biodiversidade estar também em risco. As florestas tropicais são ainda fundamentais na regulação do clima e para a qualidade da água e do ar, sendo que o abate de árvores leva à libertação de dióxido de carbono de volta para a atmosfera. De acordo com estimativas do diário New York Times, a desflorestação é responsável por mais de 10% das emissões de dióxido de carbono todos os anos. O mesmo jornal avança que, nesta semana, ministros de várias nações reúnem-se em Oslo para debater formas de intensificar os esforços de conservação das florestas tropicais em todo o mundo.
Texto editado por Maria Paula Barreiros

segunda-feira, 9 de julho de 2018

Movimento pela Abolição da Caça à Raposa

Petição Já Assinaste? >> então, Assina e  Partilha🦊


A RAPOSA

-> Segundo o seguinte estudo realizado na vizinha Galiza, este pequeno canídeo, que inclui frutas na sua dieta, está a prestar um importante serviço à Natureza, ajudando na dispersão de sementes de até 40 espécies de árvores, gerando assim por sua vez, casa e alimento a muitos outros animais. Chega a percorrer até 7Km/dia, de montanhas a matas e a terrenos abandonados, onde prepara o caminho para a floresta madura.

-> Como sabemos, este predador menor é altamente perseguido em Portugal (e noutros países), de forma cruel e insustentável - sem dados populacionais que comprovem a necessidade do dito "controlo cinegético" e interferindo com os Princípios de Conservação da espécie ao ser caçada aquando se reproduz. Temos que encarar este assunto, somando-lhe os conhecimentos que a ciência nos traz, evoluir, perceber que a caça à raposa não deve continuar. PROTEGER, É PRECISO! 

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sexta-feira, 6 de julho de 2018

Poluição acústica está a ensurdecer cetáceos no Mediterrâneo

Todos os sons emitidos debaixo de água são amplificados e os ruídos dos motores dos barcos desorientam e ensurdecem golfinhos, cachalotes e baleias, entre outras espécies.


Trata-se de um problema crescente para alguns elementos da fauna marinha, como é o caso dos golfinhos, cachalotes e baleias-piloto, que habitam o mar entre os continentes europeu e africano.

Entre as milhares de espécies que vivem no habitat marítimo mediterrânico, encontramos os cetáceos - mamíferos que comunicam entre si através do som. Estas espécies debatem-se atualmente com um inimigo comum: o ruído produzido pelos seres humanos.

Diferentes estudos sugerem que as funções vitais das espécies marinhas são cada vez mais dificultadas pelas atividades como o tráfego marítimo ou obras nos portos, embora a informação sobre as áreas e os animais afetados seja escassa. Motivo que levou alguns países da região mediterrânica a desenvolver um projeto conjunto. 

Para a primeira fase do programa, que será financiado pela Comissão Europeia e liderado pelo Centro de Tecnologia Naval e Marinha de Múrcia (CTN), está prevista a colocação de sondas acústicas em alguns pontos do Mediterrâneo, que vão utilizar a técnica de geolocalização sonora, a tratar online.

Noelia Ortega, diretora do CTN, explica que "o som debaixo de água tem uma velocidade de propagação muito superior à do ar e atinge uma distância maior", motivo pelo qual todo o ruído provocado num determinado ponto pode ser escutado pelos seres marinhos a dezenas ou mesmo centenas de quilómetros.

Entre as diferentes fontes de poluição sonora no mar Mediterrâneo, bem no topo da tabela surgem os sons provenientes do tráfego marítimo, que corresponde a 30 por cento do volume mundial, de acordo com os dados compilados ao abrigo do Accobams - Acordo para a Conservação de Cetáceos do Mar Negro, Mediterrâneo e Atlântico contíguo.

O barulho causado pelos barcos é um ruído de tipo contínuo, explica ainda Noelia Ortega. Mas além deste ruído, principal fonte emissora, a poluição sonora surge das mais variadas formas, entre as quais os barulhos causados por obras em portos e instalações de óleo ou aerogeradores. Ocasionalmente, devido a atividades militares neste mar interior, "os sons provocados são mesmo autênticas explosões sonoras que poderiam deixar qualquer ser humano debaixo de água surdo", nas palavras da responsável pelo CTN. 

Comunicar é cada mais vez mais difícil

A comunicação é uma consequência evolutiva dos seres vivos, visando informar onde estão os alimentos, onde está o perigo, rituais de acasalamento ou simplesmente por diversão. 

Entre seres humanos, é um ato que pode ser interrompido devido a elementos externos, como por exemplo a passagem de um avião, música alta ou obras. Imagine-se agora a conviver 24 sobre 24 horas com os sons de uma discoteca ou de um aeroporto. 

É a uma experiência análoga que os cetáceos do Mediterrâneo estão sujeitos. Um problema agravado pelo facto de o sistema de comunicação particular destes seres se basear em ondas sonoras reproduzidas debaixo de água.

A comunicação dos golfinhos divide-se em dois sistemas. Um deles é a ecolocalização, em que os golfinhos emitem chiados que funcionam como o sonar de um navio. Sistema natural que permite aos cetáceos saber a que distâncias se encontram dos objetos, além do tamanho, da forma, da textura e da densidade.

Os assobios ultrassónicos que os golfinhos emitem - inaudíveis para o ser humano - chocam com os objetos em redor e devolvem um eco percetível. Graças a isto podem guiar-se pelo mar e evitar serem a refeição de um predador. 

Marta Sánchez, responsável pelo ambiente marinho do CTN, explica que outras funções vitais desses animais, como a fase reprodutiva ou de alimentação, são afetadas pelo ruído. No Mediterrâneo, 11 espécies de cetáceos vivem em base regular, de acordo com a última resolução do Accobams. 

Mas não são só estes os animais afetados pelo ruído. Uma deles é a lula, cuja capacidade de flutuação depende do sentido da audição.

A comunidade científica sabe que o nível de pressão sonora no mar aumentou, porque há muito barulho antropogénico, mas quanto aumentou? 

A diretora do CTN argumenta que, para melhor enfrentar o problema, é necessário saber onde e com que intensidade o ruído está a ocorrer, calcular a abundância e distribuição geográfica e temporal das espécies marinhas no Mediterrâneo e medir os limiares de significado, isto é, um registo de dados para localizar o ruído, como o efetuado pelo programa QuietMED.

O CTN é responsável pelo QuietMED, um programa para reduzir a poluição sonora no Mediterrâneo. Este projeto, financiado pela Comissão Europeia, abarca todos os países da UE que têm costas mediterrânicas, exceto Chipre. 

"Os gestores públicos terão uma ideia de que áreas estão a sofrer o maior impacto, é uma ferramenta para propor medidas de mitigação e saber onde agir primeiro", afirma Marta Sánchez. A responsável acredita que a comunidade científica poderá também aproveitar esse registo, que conterá dados compilados de acordo com os padrões de qualidade estabelecidos pela União Europeia. 

As ações de proteção do mar dos países participantes do QuietMED são reguladas pela Diretiva Marinha Europeia, aprovada em 2008.

A colaboração internacional é um instrumento fundamental para enfrentar o inimigo comum dos golfinhos e de muitas outras espécies marinhas, segundo os responsáveis pelo projeto QuietMED. Para facilitar o seu desenvolvimento, o CTN e as outras entidades que nele trabalham querem incorporar no mapa os dados sobre os cetáceos coligidos na estrutura Accobams. 

Os 20 países que assinaram este acordo trabalham há algum tempo na questão da poluição sonora marítima. Num estudo publicado por esta organização internacional em 2016, a parte italiana do Mar Adriático, o mar Jónico, as costas da Campânia (Itália), as águas do sul de França e a noroeste da Córsega e o Golfo de Valência foram indicadas como as áreas mais ruidosas do Mediterrâneo.

quinta-feira, 7 de junho de 2018

Entrevista a André Barata: "A maior transformação que podemos produzir é começar a desacelerar"

Como se entrevista um filósofo? Divaga-se sobre questões existenciais? Discute-se o sentido da vida? Percorrem-se os conceitos filosóficos? Talvez isto tudo e o seu contrário, partindo de uma palavra que toda gente percebe, mas que temos dificuldade em definir: o tempo.

“Quem poderá explicá-lo clara e brevemente? Quem o poderá apreender, mesmo só com o pensamento, para depois nos traduzir por palavras o seu conceito? E que assunto mais familiar e mais batido nas nossas conversas do que o tempo? Quando dele falamos, compreendemos o que dizemos. Compreendemos também o que nos dizem quando dele nos falam. O que é, por conseguinte, o tempo? Se ninguém mo pergunta, eu sei; se o quiser explicar a quem me fizer a pergunta, já não sei…”. Santo Agostinho, “Confissões, Livro XI”.


A radicalidade expressa nesta nova publicação bebe doutros teóricos, mas submete-se sempre à ideia de que tudo se organiza pela velocidade do tiquetaque que dá ritmo à nossa existência. Essa "ditadura" tem, segundo o autor, efeitos sobre tudo:
O sistema económico
“A aceleração do tempo social serve um propósito muito objectivo de industrialização do acontecimento, tornando-o estruturalmente rentável, comercializável, unidade de troca e, uma vez isso, já assimilado ao sistema produtivo, tornando-o uma necessidade produtiva, a que os mecanismos de pressão social através dos media e da cultura hão-de atender. Não como quem diz tempo é dinheiro, com um sentido de urgência, mas com um sentido extractivista de exploração de todo o capital de medida e troca de acontecimentos existente numa porção de tempo.”
O trabalho
“O que vivemos hoje é realmente uma esquizofrenia. De um lado, a necessidade de trabalhar, compulsória; do outro, a inacessibilidade crescente a oportunidades de trabalho. O que seria razoável e justo era o trabalho ser mais livremente escolhido, por um lado, e mais acessível, por outro. Paradoxalmente, passa-se exatamente o oposto. Tornado tão inacessível e tão necessário ao mesmo tempo, as pessoas são pressionadas a aceitar qualquer trabalho e a não fazerem caso da diferença estimável entre trabalho desejável e trabalho indesejável, comprando uma competição absurda, e depressa perdida, com máquinas.”
A propriedade

"São, cada vez mais, bens cujo estatuto de realidade é mais resultado de uma delimitação jurídica do que de uma existência material. São bens com tempo de existência mas sem espaço, ou com informação mas sem corpo. Compramos experiências, uma estadia num airbnb por exemplo, compramos licenças de leitura de um livro ou de audição de uma música. Mas à conta de minuciosas interdições urdidas nas licenças de utilização, deixamos de poder dá-los, emprestá-los, ou largá-los num café para quem os quiser ler. Não somos proprietários dos livros que trazemos no Kindle como somos dos livros que guardamos na estante de casa."

“Enquanto proprietários, deixamos de ter o direito — e a possibilidade — de mobilizar a nossa propriedade contra a lógica de mercado desenhada. Os quadros jurídicos não o autorizam, as plataformas não o permitem.”
O Planeta
“Não será altura de nos perguntarmos o que nos empurra colectivamente para uma crescimento imparável e, assumindo que o sistema capitalista não se sustenta de outra forma, de nos perguntarmos sobre mexer nele alguma coisa?
Não é só estarmos a levar ao limite a capacidade do planeta, sentados nele com um peso muito acima do que recomendaria o Ikea que o tivesse construído. É a necessidade permanente de crescimento ser em si mesma fortemente anti-ecológica.”
As redes sociais
“Há uma aceleração da relação social com o tempo que se verifica de duas maneiras — por um lado, as durações encurtam, desde logo com bens e artefactos consumíveis submetidos à obsolescência programada; por outro, as mudanças multiplicam-se, desde logo com uma intensificação de estímulos que, no limite, procura preencher todos os momentos da existência, dando uma nova actualidade à velha ideia aristotélica de que a natureza tem horror ao vazio. Só não será tanto a natureza, mas uma natureza humana fabricada, de pessoas condicionadas a abominar o vazio quando a todo o instante têm de dar notícia de si numa rede social.”
Serão estas ideias anarquistas, comunistas, revolucionárias, marxistas, socialistas, libertárias, liberais? Haja tempo para as questionar e discutir. Foi o que fizemos.

domingo, 3 de junho de 2018

É demasiado Tarde? Por Anthony Weston


É demasiado Tarde?

«Talvez esta Terra não precise da nossa salvação, de qualquer modo pode ser que mais uma vez, os seres humanos sejam resgatados no derradeiro acto , usando o seu distintivo cérebro para endireitar as coisas. Porém, nós nem sequer possuímos o maior cérebro das redondezas: essa honra vai para as baleias, algumas das quais têm cérebros seis vezes maiores do que o nosso, com regiões inteiras de cortex que ainda nem sequer começámos a entender. Por isso, pode ser, que se nós, de facto , estamos a viver alguma espécie de drama global, não sejamos os heróis, apesar de todas as odisseias espaciais e as nossas trepidantes cidades e tudo o mais. Talvez apenas sejamos extras.
O papel mais adequado e circunspecto seria o de olhar para nós mesmos. Quem precisamos, REALMENTE, de salvar somos NÓS PRÓPRIOS. Eu não quero dizer com isto que precisamos simplesmente de cuidar da nossa salvação, embora isso não fosse má ideia. A nossa tarefa agora, com alguma consciência ecológica, é a de APRENDER A VIVER COMO CO-HABITANTES NESTE PLANETA.(...) 
Precisamos de acabar com a destruição que pudermos - certamente. Reciclar e tudo o mais - certamente. Mas o trabalho a fazer, e que é mais difícil de reconhecer, consiste nas mudanças necessárias que dizem respeito aos padrões diários de atenção. Olhar as aranhas. Olhar os céus. Passear. Fazer jardinagem. Alimentar os pássaros. Escutar os pássaros. Falar com os animais.. (...) Esta é a espécie de “etiqueta” de que eu falo: não reivindicar todo o espaço para nós mesmos, aprender a ouvir, aprender a acolher um maior mundo, outras presenças, re-equacionar as nossas vidas. 
É demasiado tarde? »
Anthony Weston , Is it too late?, “An Invitation to Environmental Philosophy

quarta-feira, 30 de maio de 2018

Os seres humanos são apenas 0,01% de toda a vida, mas já destruíram 83% dos mamíferos silvestres - diz estudo

Humans just 0.01% of all life but have destroyed 83% of wild mammals – study


A cattle farm in Mato Grosso, Brazil. 60% of all mammals on Earth are livestock. Photograph: Daniel Beltra/Greenpeace


Humankind is revealed as simultaneously insignificant and utterly dominant in the grand scheme of life on Earth by a groundbreaking new assessment of all life on the planet.

The world’s 7.6 billion people represent just 0.01% of all living things, according to the study. Yet since the dawn of civilisation, humanity has caused the loss of 83% of all wild mammals and half of plants, while livestock kept by humans abounds.

The new work is the first comprehensive estimate of the weight of every class of living creature and overturns some long-held assumptions. Bacteria are indeed a major life form – 13% of everything – but plants overshadow everything, representing 82% of all living matter. All other creatures, from insects to fungi, to fish and animals, make up just 5% of the world’s biomass.

Another surprise is that the teeming life revealed in the oceans by the recent BBC television series Blue Planet II turns out to represent just 1% of all biomass. The vast majority of life is land-based and a large chunk – an eighth – is bacteria buried deep below the surface.

I was shocked to find there wasn’t already a comprehensive, holistic estimate of all the different components of biomass,” said Prof Ron Milo, at the Weizmann Institute of Science in Israel, who led the work, published in the Proceedings of the National Academy of Sciences.


“I would hope this gives people a perspective on the very dominant role that humanity now plays on Earth,” he said, adding that he now chooses to eat less meat due to the huge environmental impact of livestock.

The transformation of the planet by human activity has led scientists to the brink of declaring a new geological era – the Anthropocene. One suggested marker for this change are the bones of the domestic chicken, now ubiquitous across the globe.

The new work reveals that farmed poultry today makes up 70% of all birds on the planet, with just 30% being wild. The picture is even more stark for mammals – 60% of all mammals on Earth are livestock, mostly cattle and pigs, 36% are human and just 4% are wild animals.

“It is pretty staggering,” said Milo. “In wildlife films, we see flocks of birds, of every kind, in vast amounts, and then when we did the analysis we found there are [far] more domesticated birds.”

The destruction of wild habitat for farming, logging and development has resulted in the start of what many scientists consider the sixth mass extinction of life to occur in the Earth’s four billion year history. About half the Earth’s animals are thought to have been lost in the last 50 years.


But comparison of the new estimates with those for the time before humans became farmers and the industrial revolution began reveal the full extent of the huge decline. Just one-sixth of wild mammals, from mice to elephants, remain, surprising even the scientists. In the oceans, three centuries of whaling has left just a fifth of marine mammals in the oceans.

“It is definitely striking, our disproportionate place on Earth,” said Milo. “When I do a puzzle with my daughters, there is usually an elephant next to a giraffe next to a rhino. But if I was trying to give them a more realistic sense of the world, it would be a cow next to a cow next to a cow and then a chicken.”

Despite humanity’s supremacy, in weight terms Homo sapiens is puny. Viruses alone have a combined weight three times that of humans, as do worms. Fish are 12 times greater than people and fungi 200 times as large.

But our impact on the natural world remains immense, said Milo, particularly in what we choose to eat: “Our dietary choices have a vast effect on the habitats of animals, plants and other organisms.

“I would hope people would take this [work] as part of their world view of how they consume,” he said. ”I have not become vegetarian, but I do take the environmental impact into my decision making, so it helps me think, do I want to choose beef or poultry or use tofu instead?”

The researchers calculated the biomass estimates using data from hundreds of studies, which often used modern techniques, such as satellite remote sensing that can scan great areas, and gene sequencing that can unravel the myriad organisms in the microscopic world.

They started by assessing the biomass of a class of organisms and then they determined which environments such life could live in across the world to create a global total. They used carbon as the key measure and found all life contains 550bn tonnes of the element. The researchers acknowledge that substantial uncertainties remain in particular estimates, especially for bacteria deep underground, but say the work presents a useful overview.

Paul Falkowski, at Rutgers University in the US and not part of the research team, said: “The study is, to my knowledge, the first comprehensive analysis of the biomass distribution of all organisms – including viruses – on Earth.

“There are two major takeaways from this paper,” he said. “First, humans are extremely efficient in exploiting natural resources. Humans have culled, and in some cases eradicated, wild mammals for food or pleasure in virtually all continents. Second, the biomass of terrestrial plants overwhelmingly dominates on a global scale – and most of that biomass is in the form of wood.”

sexta-feira, 18 de maio de 2018

Recuperar as variedades tradicionais de fruta portuguesa

Raul Rodrigues investigador variedades de maçã. FotoVida-Rural

Há mais de 100 variedades de maçãs identificadas na região do Minho que são praticamente desconhecidas e muitas em vias de extinção. Raul Rodrigues, professor na Escola Agrária de Ponte de Lima, está há 10 anos a recuperar este património e a plantar todas estas variedades regionais, num pomar com cerca de 1000 árvores que serve de base para o seu trabalho experimental. O próximo passo é replicar este trabalho numa outra fruta: as peras.

Já são mais de 100 as variedades de maçã identificadas na região do Minho. A grande maioria é desconhecida dos portugueses. São árvores, muitas em vias de extinção, que guardam tradições e histórias das terras minhotas. Abandonadas, como tem sido apanágio de muitas culturas em Portugal, as variedades de maçã do Minho oferecem potencialidades gastronómicas, culturais e económicas.

Raúl Rodrigues, professor da Escola Superior Agrária de Ponte de Lima, tem sido um acérrimo defensor deste património. Há cerca de dez anos começou um trabalho de levantamento e catalogação das variedades regionais de macieiras do Minho. Percorreu a região, conversou com as gentes locais, fotografou as árvores, registou as coordenadas e recolheu o material vegetal. Tudo com base numa pesquisa altruísta de fim-de-semana. Atualmente tem plantadas mais de 100 espécies regionais de maçã num terreno da ESA de Ponte de Lima. Mais de metade está já registada aos níveis morfológico e fenológico.

Valorizar o património

As maçãs do Minho têm nomes tão particulares como Porta da loja (porventura a mais conhecida e com mais potencialidades económicas), Pipo de Basto, Três ao prato, Sangue de boi, Victória, Camoesa, Malápio, maçã dos Namorados, Beijo da rainha, maçã da Boa vontade, Abadia, entre muitos outros. Junto com as designações populares trazem histórias e lendas. A maçã Três ao prato deve o nome ao tamanho, grande ao ponto de três maçãs encherem um prato. A maçã Camoesa (há a de Coura, do Biribau, Rosa, Verde, Fina e outras mais) era apanhada em setembro ainda verde e colocada a amadurecer no cimo dos armários, perfumando o interior das casas. Há a maçã da Abadia, que amadurece em agosto, por altura da Nossa Senhora da Abadia.


Já a maçã Porta da loja está intrinsecamente ligada às tradições de Natal. Em terras minhotas, o costume ditava assar na noite de Natal o fruto ao borralho (nas cinzas quentes da lareira) e depois misturá-lo com vinho verde tinto e açúcar. Na Páscoa, numa clara demonstração da capacidade de conservação da maçã que era apanhada no mês de outubro, era habitual oferecer maçãs Porta da loja ao padre. E Porta da loja porque eram guardadas na loja das casas, espaço térreo onde, em tempos mais antigos, se colocavam alimentos e outros produtos domésticos.

Diz Raúl Rodrigues que estas tradições se estão a perder, fruto da massificação do consumo que, no que se refere às maçãs, está muito centrado nas variedades Golden, Gala, Starking, Granny-Smith, Reineta ou Fuji. Mas não só. Os Planos de Fomento Frutícola do Estado Novo assumiram um papel fulcral na produção de novas variedades de maçãs e no abandono das macieiras regionais. Os agricultores foram orientados a investir no cultivo de espécies de maçãs mais procuradas pelos mercados externos, que aparentemente lhes traria mais riqueza e prosperidade.

Estas idiossincrasias dos tempos levaram ao quase esquecimento da diversidade vegetativa do Minho e à perda de património cultural e ambiental. Raúl Rodrigues assumiu assim um papel determinante quer na tentativa de preservação dessa herança, quer na divulgação dessa riqueza endógena. O professor da ESA de Ponte de Lima tem sensibilizado as instituições locais para a importância da classificação das variedades regionais de fruteiras como Património Vegetal de Interesse Municipal e como Património Vegetal Municipal.

Na sua opinião, o património vegetativo da região é uma herança cultural com potencialidades económicas. Certo é que já conseguiu que municípios como Ponte de Lima, Braga, Famalicão e Barcelos, que está na fase final do processo, reconhecessem as variedades como património de interesse municipal. Mas o projecto de Raúl Rodrigues é bem mais vasto.

Como frisa, há empresas internacionais que estão a ameaçar esta diversidade varietal e genética. Algumas destas variedades de fruta regional, que englobam também as peras e laranjas, estão a ser patenteadas por empresas externas ao país, perdendo-se assim o património e obrigando ao pagamento de royalties para plantação dessas espécies a entidades estrangeiras. Como refere, as variedades autóctones estão em risco de serem registadas nos catálogos nacional e europeu de frutas por empresas sem ligações à região e ao país.

Criação de riqueza

A preservação das variedades regionais de fruta do Minho deve ser encarada como uma mais-valia económica da região aos níveis da agricultura, e indústrias adjacentes, e turismo. O objectivo de Raúl Rodrigues é que se valorize os produtos que só existem na região, que são a sua autenticidade, e que permitam um desenvolvimento sustentável da região do Minho.

As variedades que ainda sobrevivem foram seleccionadas e cruzadas ao longo dos séculos pelo homem, construíram a paisagem e adaptaram-se às condições morfológicas da região. Para Raúl Rodrigues, isso significa que são espécies bem preparadas para viver e fortificar neste ambiente de alterações climáticas e desejáveis num sistema de agricultura biológica, pelas suas capacidades de resistir a pragas e doenças. Mas precisam de quem aposte na sua plantação.

“Não podemos dar uma perspectiva romântica a estas variedades, temos de lhes dar uso”, diz. A maçã Porta da loja é a variedade que actualmente tem maior aceitação no mercado. A campanha de 2017 esgotou. Raúl Rodrigues sublinha que os agricultores já estão a receber um preço justo, cerca de 1,25 euros por quilo, que compara com os cerca de 30 cêntimos pagos pelo quilo da maçã convencional.

No Minho, a safra anual da Porta da loja ronda as 80 a 100 toneladas. Um pomar de Porta da loja está em plena produção no 4º ano após a plantação, que deve ser feita no inverno, e num sistema de agricultura biológica tem capacidade para produzir 20 a 25 toneladas por hectare. Raúl Rodrigues garante que o escoamento é garantido. Um pomar tem uma vida útil de 20 anos.


O trabalho deste professor já se materializou na criação de uma pequena empresa em Ponte de Lima, constituída por duas antigas alunas da ESA. As jovens empreendedoras apostaram na produção de sidra artesanal, recuperando a tradição desta bebida que era fabricada pelos agricultores limianos para celebrar as colheitas, quando já não restava vinho nas pipas. A Corrupia, marca desta sidra artesanal, já foi agraciada com a medalha de prata no VI Salão Internacional de Sidras de Gala, em Espanha, na classificação de sidra de mesa semi-seca. As jovens empreendedoras aproveitaram o elã do prémio e, pouco depois, lançaram no mercado um espumante de sidra. Uma das prioridades da Corrupia é exactamente dar um uso económico às variedades regionais de maçã. Um dos projectos é produzir um lote especial de sidra só com maçã Porta da loja.

Raúl Rodrigues salienta que há outras soluções para obter valor acrescentado com as maçãs minhotas. Recuperar a tarte de maçã Porta da loja, a produção de pão com fermento desta variedade, a comercialização da maçã desidratada… Todo este potencial está a ser trabalhado na ESA, com o pomar de mil árvores que serve de campo de experimentação ao professor e aos alunos. As variedades são também estudadas tem em vista a sua aceitação no mercado, seja para consumo a fresco seja transformadas. A ESA, em conjunto com a Universidade de Trás dos Montes e a Universidade do Minho, estão também a fazer a caracterização genético molecular das macieiras regionais.

Novos projetos

Ao mesmo tempo que aguarda a instalação de um sistema de rega automático no campo experimental da ESA, Raúl Rodrigues já preparou um terreno para a plantação de variedades regionais de pêra. Neste momento, já fez o levantamento a mais de uma dúzia de variedades de pêras e tem já referenciadas mais de 40, que é só ir buscar para enxertar. O trabalho seguirá os mesmos passos que o feito com as maçãs.

E também com estas árvores de fruta não tem dúvidas. Há viabilidade económica. O exemplo é o Gin tinto, o primeiro gin tinto do mundo. Esta bebida, lançada no mercado em 2015 pelo empresário de Valença João Guterres, é produzida à base de 14 ingredientes e um dos que garante mais autenticidade é o perico de Fontoura, uma pereira singular, que é vendida a 5 euros o quilo e que está quase esquecida no Minho e em risco de desaparecer. Mas há mais, a diversidade varietal é grande. Há a pêra D. Joaquina (ou de água), a Amorim, a Arratel, de Lanhezes, a Bojarda, a Porta de Forno…

Esta região portuguesa guarda ainda duas variedades únicas de laranjas: a laranja de Amares e a laranja do Ermelo. O património é vasto e algum já perdido. Em tempos idos, foram identificadas 11 cerejeiras em terras minhotas. Na ESA, a colorir o jardim, encontra-se uma árvore de lima doce, tipicamente portuguesa, que Raúl Rodrigues quer reproduzir.

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Escola Superior Agrária de Ponte de Lima tem colecção de mais de 60 maçãs in Porto Canal, 27.01. 15

terça-feira, 15 de maio de 2018

O deserto do Sara está a expandir-se

 Willi Baumeister , 1889 - 1955

Estudada a evolução das fronteiras do deserto do Sara num período de 93 anos. Concluiu-se que o deserto aumentou cerca de 10% e entre as causas estão as alterações climáticas de origem humana.

O maior deserto (árido) do planeta ainda está a ficar maior. Esta é uma das principais conclusões de um estudo sobre o deserto do Sara feito por dois cientistas dos Estados Unidos e publicado dia 29 de Março na revista científica Journal of Climate. Por um lado, se olharmos para as dinâmicas anuais, este deserto expandiu-se cerca de 10% desde 1920. Por outro lado, se virmos só o Verão, o crescimento é de cerca de 16%. Os cientistas estimam que as alterações climáticas, agora de origem humana, tenham contribuído para um terço dessa expansão.

Os desertos quentes e secos são regiões que têm uma baixa precipitação anual. Normalmente, chove lá cerca de 100 milímetros por ano ou menos. O deserto do Sara é uma dessas regiões e ocupa a maior parte do Norte do continente africano. E, tal como todos os desertos, as fronteiras do Sara mudam de acordo com as estações, expandindo-se no Inverno e contraindo-se no Verão. Isto é contra-intuitivo, mas como o Inverno é a estação mais seca na região do Sahel (a sul do Sara) o deserto parece maior porque se expande para sul. E contrai-se no Verão porque esta é a estação das chuvas no Sahel e, desta forma, o deserto fica mais estreito.

Aliás, vários registos paleoclimáticos e geológicos mostram-nos que os desertos têm uma dinâmica própria, causada por alterações climáticas naturais, que aumentam ou diminuem a sua extensão e fazendo-os aparecer ou desaparecer. “No último período glacial, o Sara era mais extenso do que actualmente, mas com o início do período interglacial o clima tornou-se relativamente húmido naquela região e o deserto retrocedeu”, explica o físico Filipe Duarte Santos no livro Alterações Globais: Os Desafios e os Riscos Presentes e Futuros (Fundação Francisco Manuel dos Santos, 2012). “Entre 8000 a.C. e 4000 a.C., grande parte do deserto do Sara estava coberto por savanas, em consequência de modificações nos padrões de circulação geral da atmosfera, e há cerca de 5000 anos adquiriu a configuração actual.” Este processo de desertificação foi natural, sem a intervenção humana, algo que não acontece actualmente.
Os cientistas da Universidade de Maryland quiseram então saber quais as fronteiras actuais do deserto do Sara. Para isso, analisaram dados observacionais ou simulações climáticas históricas, incluindo dados da precipitação, num período entre 1920 e 2013. “Esta investigação é a primeira avaliação a uma escala secular das mudanças das fronteiras do maior deserto do mundo”, lê-se num comunicado da Universidade de Maryland.

Analisando uma área de sete milhões de quilómetros quadrados (a área climatológica média anual considerada como deserto), os cientistas viram que o Sara se tinha expandido globalmente cerca de 10% desde 1920 – o que corresponde a cerca de 700 mil quilómetros quadrados, ou seja, quase oito vezes a área territorial de Portugal e as suas ilhas. Consoante as estações, observou-se que o deserto pode aumentar entre 11% e 18%.

Numa tabela que acompanha o artigo destacam-se alguns países afectados por esta expansão: a nível anual, salienta-se o impacto na Mauritânia, no Mali, no Chade e no Sudão; no Inverno são mais afectados a Líbia, os Camarões e a República Centro-Africana; e no Verão são a Mauritânia, o Níger e o Chade.
“Entre 1920 a 2013, a expansão foi mais considerável no Verão, quando a área do deserto se expandiu cerca de 16%”, diz ao PÚBLICO Natalie Thomas, uma das autoras do trabalho. “A expansão no Verão foi maior no Sul porque está relacionada com a diminuição da precipitação na região do Sahel.”

Ora, o Sul do Sara encontra-se com o Sahel, uma zona de transição semiárida que está entre esse deserto e as savanas férteis (a sul). “O Sara expande-se à medida que o Sahel recua, destabilizando os frágeis ecossistemas da região e sociedades”, refere-se no comunicado. E um dos “termómetros” usados pelos cientistas para perceberem essas mudanças climáticas foi o lago Chade. “A bacia do Chade diminuiu na região onde o Sara avança para sul. E o lago está a secar”, explica Sumant Nigam, outro dos autores do artigo. “É muito visível que a pegada deixada pela diminuição da precipitação não é só local, mas em toda a região.

Situação grave em África
O que causa esta expansão do Sara? Os cientistas estimam que a variabilidade normal do clima seja responsável por dois terços da expansão. Por exemplo, um regime de correntes conhecido como Oscilação Multidecadal do Atlântico (AMO, na sigla em inglês) – no qual as temperaturas oscilam entre fases quentes e frias num ciclo de 50 a 70 anos ao longo de uma grande faixa no Norte do oceano Atlântico – afecta as precipitação no Sahel e causa a expansão do Sara. Uma grande seca entre os anos 50 e 80 no Sahel – que levou a situações graves de fome e a grandes movimentos migratórios – é atribuída a esse fenómeno. A Oscilação Multidecadal do Pacífico (PDO), em que há diferenças de temperatura no Norte do oceano Pacífico num ciclo de 40 a 60 anos, também tem o seu papel no crescimento do Sara.

Já as alterações climáticas de origem humana – devido ao aumento dos gases com efeito de estufa na atmosfera – são responsáveis por um terço da expansão do Sara. “Geralmente, estes desertos formam-se nos subtrópicos por causa da célula de Hadley [modelo de circulação atmosférica], através do qual o ar sobe no equador e desce nos subtrópicos”, explica Sumant Nigam. “As alterações climáticas aumentam a circulação da célula de Hadley, causando o avanço para norte dos desertos subtropicais. Mas o avanço para sul do Sara sugere que estejam a funcionar também mecanismos adicionais, incluindo ciclos climáticos como o AMO.”

Fonte: Púbico, 30.03.2018

sábado, 12 de maio de 2018

Curta-Metragem: Bright Spots - Stunning Animated Exploration of Island Conservation



PT
Um retrato poético do cientista Nick Holmes e seu trabalho evitando extinções em ilhas. Documentário parcialmente de natureza, parte de conto de fadas. Uma curta-metragem repleto de ciência incrivelmente bela e de grande coração. Narrado por Nick Holmes da Island Conservation


EN
A poetic portrait of scientist Nick Holmes and his work preventing extinctions on islands. Part nature documentary, part fairy tale and chock full of blindingly beautiful, big-hearted science. Narrated by Nick Holmes from Island Conservation.

Music by the wonderful Nicole Reynolds and Holy Coast from Athens, Georgia.

Castelhano
El cortometraje Bright Spots de la animadora Jilli Rose presenta a Nick Holmes, Director de Ciencia en Island Conservation y comparte una historia de esperanza para los conservacionistas actuales y futuros.
Bright Spots cuenta una historia de esperanza para el mundo de la conservación.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Descoberta a origem da água?

Fonte: Notícias ao Minuto
Apontada como um dos bens mais imprescindíveis à vida humana, a água é matéria de estudo a inúmeros cientistas que a desvendam por diversos meios, entre eles, a forma como chegou ao planeta terra. É essencial para qualquer ser vivo do nosso planeta, sendo também necessário para a evolução dos planetas”. Por toda esta importância, e como forma de antecipar qualquer possível cenário que se preveja com a global poluição desta matéria, torna-se imprescindível para a ciência conhecê-la.

Sabemos desde há algum tempo que os asteroides e cometas carregam água e foi provavelmente desta forma que a mesma chegou à Terra”,refere Terik Daly, geólogo planetário, que acrescenta, “mas os detalhes de todo este processo têm estado numa caixa fechada”. Atuais estudos, publicados esta semana, parecem garantir que a ciência está mais perto de conhecer tais respostas.

Para conhecer o processo da chegada da água à Terra, é necessário ver o referido processo. Contudo, a chegada de asteroides é totalmente imprevisível, por isso os cientistas criaram um artificial, com apoio do AVGR, da NASA – ferramenta usada em 1960, para se conhecer e estudar a superfície lunar, e que é usada também noutras experiências em que seja necessário simular a alta velocidade e posterior impacto que um corpo tem, em pequena escala.

O instrumento foi aquecido a uma temperatura superior a 1500 graus, valor mais que suficiente para fazer evaporar qualquer água presente no instrumento (e asteroide que se pretendia recriar). Contudo, o resultado demonstrou que parte da água presente no objeto preserva-se e resiste à temperatura e velocidade ao ficar ‘presa’ entre os materiais que são expostos às condições de impacto do meteorito.

Na recriação deste processo natural, verificou-se o efeito do impacto entre dois meteoros. Para testar o impacto de um meteorito em algo de uma escala bem superior, como a própria terra, seriam necessários outros meios – não existentes – contudo, as atuais observações já permitem confirmar alguns dados que permitem sugerir uma possível teoria para a chegada da água ao nosso planeta.

segunda-feira, 7 de maio de 2018

Petição: Refundar os Serviços Florestais e Aquícolas em Portugal Continental

Azinhal (Quercus rotundifolia)


Nós, cidadãos, que nos preocupamos com o futuro da floresta nacional, considerando que:

• A área florestal com gestão pública, responsabilidade do Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), é de 525.400 ha. São património público, e por isso têm gestão plena do ICNF, apenas 55.000 ha. Chamam-se Matas Nacionais e estão sob o Regime Florestal Total. As restantes áreas são constituídas essencialmente por terrenos comunitários (baldios), bem como alguns terrenos particulares e autárquicos, que estão no Regime Florestal Parcial e são geridas pelo ICNF através desse regime num sistema de gestão partilhada com os seus legítimos proprietários.

• O Regime Florestal, “consciencializado e assumido como princípio de Direito e plasmado na lei [notável] em 1901 e 1903”, e que define o uso florestal como uso imperativo (PARDAL 2014), tem sido a base de uma política florestal esclarecida que se quedou nos 525.400 ha referidos, porém, embora a legislação esteja em vigor e toda área de gestão pública atual se enquadre nele, ele tem vindo a ser incorretamente desconsiderado e pouco promovido.

• Portugal é um dos países do mundo com menor percentagem de floresta pública (2% e 55 mil ha, ou 0,055 milhões ha), e definitivamente aquele que tem menos floresta pública na Europa. Manda o bom senso perguntar aos nossos vizinhos espanhóis (27% e 7,396 milhões ha) e franceses (11% e 1,702 milhões ha) porque lhes convém que o Estado disponha de uma percentagem elevada da área florestal.

• Os Serviços Florestais já haviam sido criados em 1886, todavia, foi no âmbito da grande reforma de 1901 que os modernos Serviços Florestais e Aquícolas (SFA) foram criados. Estes serviços fizeram um trabalho notável durante quase um século, com muitos períodos áureos e outros não tão felizes. Importa referir alguns bons um pouco esquecidos: a partir dos finais dos anos 30 do século passado começavam a estruturar-se no seu seio as competências para a conservação da natureza. Tendo surgido em 1956, dentro dos SFA, o Serviço de Caça, Pesca, Regime Florestal e Protecção da Natureza, que cria a primeira área protegida de Portugal Continental (Reserva Ornitológica do Mindelo). Nos finais da década de 60, fez-se a identificação das principais áreas a proteger, a maior parte das quais veio a estar na origem na constituição de parques naturais e foi ainda no interior dos SFA que surgiu a iniciativa da criação, em 1970, do Parque Nacional da Peneda-Gerês. Nesses tempos, em 1948, surge na sociedade civil um silvicultor, Prof. Carlos Baeta Neves, que cria a Liga para a Protecção da Natureza (LPN). Tendo sido a primeira Organização Não Governamental de Ambiente a ser criada na Península Ibérica. Por falta de estratégia e visões esclarecidas, as competências nas áreas da conservação da natureza foram, sem medo da sua ineficiência, retiradas dos serviços florestais até que “em 1996 a estrutura [da instituição florestal] foi desmantelada e regionalizada, com o pressuposto de criação de uma empresa pública [ENGEF] para a gestão das áreas a cargo do Estado” (AFN 2012). “A proposta viria a ser submetida pelo Governo a parecer do Conselho Económico e Social, entidade que ‘rejeita frontalmente a alienação do património florestal do Estado, ainda que a favor de uma empresa pública’ e que questiona os objetivos marcadamente produtivistas da abordagem seguida no Projeto” (AFN 2012). Conclusão: foi em 1996 que se destruiu por fim os Serviços Florestais centenários de Portugal Continental para se criar o NADA.

• Temos consciência que o futuro da floresta em Portugal não se resolve exclusivamente por alcançar a boa gestão das áreas de Regime Florestal existentes atualmente. A maior parte da área florestal em Portugal é privada, pelo que, noutro âmbito, terão de ser encontradas soluções para o ordenamento dessa floresta. Entendemos que, se voltarmos no imediato a gerir efetivamente no terreno 525.400 ha de área florestal, estaremos no caminho certo e um pouco mais próximos de resolver o problema da floresta em Portugal.

• A Comissão Técnica Independente no seu relatório “Avaliação dos incêndios ocorridos entre 14 e 16 de outubro de 2017 em Portugal Continental”, de março de 2018, faz uma total razia à atuação do ICNF (e designações anteriores) em Portugal Continental desde, pelo menos, 1981 até aos dias de hoje (CTI 2018).

• A CTI (2018) refere que o ICNF está numa grave situação; que não assegura a proteção das Matas Nacionais; que as áreas florestais sob sua responsabilidade ardem ainda mais que as restantes; que o facto de ter ardido 34% da totalidade da área de Matas Nacionais em 2017 é demasiado evidente e grave; que a instituição é um constrangimento para o setor florestal quando deveria ser o seu principal promotor; que esta nunca assumiu a degradação de um património público [e comunitário] de ½ milhão de hectares; que a má gestão de um bem público [e de um bem comunitário] constitui um péssimo serviço; que é nas florestas sob sua responsabilidade que é mais grave o problema das invasoras lenhosas [acácias] em Portugal.

• Deveria ser ainda mais crescente a importância da caça e da pesca desportiva em águas interiores como atividades económicas de relevo no interior do país, nomeadamente na vertente turística, porém, muitas dos nossos rios e albufeiras encontram-se depauperados por falta de gestão aquícola efetiva, nomeadamente devido à inexistência de regras de pesca específicas e dinâmicas, para cada massa de água, conjugada com uma total falta de fiscalização. A gestão da caça, embora tendo melhorado muito nas zonas de gestão privada, está longe da capacidade que poderia representar e, sobretudo no aspeto turístico, não houve capacidade para organizar e desenvolver um turismo cinegético capaz de valorizar realmente o potencial existente em muitas regiões do interior do país.

• O problema da instituição florestal em Portugal não é exclusivamente político. A situação só chegou a este estado de extrema gravidade devido também à evidente incúria de seus dirigentes que nunca se insurgiram e que, por acomodação, a deixaram apodrecer.

• A existência de áreas florestais sob gestão pública faz sentido. Dada a sua natureza ecológica, não foi encontrada até agora nenhuma forma melhor de explorar florestas de baixa produtividade senão transformando-as num uso imperativo florestal de utilidade pública. Todos os países com governos democráticos bem sucedidos nesta matéria, sejam de esquerda ou de direita, chegaram à mesma conclusão (PEDRO BINGRE com. pessoal). O facto da nossa instituição florestal em Portugal ter sido desmantelada nos últimos 40 anos e se encontrar atualmente ao nível da de um Estado Falhado fará parecer lógico alegar que o serviço público florestal não funciona e que a gestão pública florestal em Portugal deve ser de vez entregue a privados. Ocorre que temos a vantagem de termos uma recente história florestal rica e bem sucedida, temos ainda o mundo à nossa volta com excelentes exemplos do que é um bom serviço público florestal. Portugal tem-se fechado sobre si mesmo e se revelado ignorante em politicas florestais; devemos antes procurar copiar aquilo que funciona lá fora e atualizar aquilo que já funcionou entre nós. Temos de assumir humildemente que somos atualmente um dos piores países do mundo em termos de políticas e governança florestal - os factos estão aí, duros, mas reais: 112 pessoas mortas e 442 mil ha ardidos apenas em 2017. Alternativas, provenientes da ignorância e do imediatismo, nos parecem por isso aventureirismos por testar ou fracassos a não repetir.

Requeremos à Assembleia da República:

1.  Que refunde um novo Serviço Florestal e Aquícolas (ou outra designação) em Portugal Continental, criando no seu seio uma estrutura com capacidade idêntica à que tiveram os Serviços Florestais e Aquícolas em Portugal nomeadamente no que respeita: 1) à efetiva capacidade de gestão, plena e partilhada, das áreas de Regime Florestal, com serviços próximos das comunidades locais, com dinamismo e célere capacidade de decisão, com técnicos, guardas florestais e operacionais qualificados e motivados, com estrutura, equipamento, capacidade de investimento alargada e autonomia financeira; 2) à efetiva gestão de recursos aquícolas dos nossos rios e albufeiras, com viveiros, repovoamento piscícola adequado, e fiscalização; 3) ao efetivo apoio à gestão dos recursos cinegéticas, estimulando e garantindo o apoio a um verdadeiro turismo cinegético internacional; 4) que desenvolva o sector da silvopastorícia, promovendo o desenvolvimento de uma atividade moderna capaz de contribuir para a criação de espaços resistentes aos incêndios através de áreas de pastagens renovadas com capacidade de sustentar uma economia pastoril; 5) que desenvolva e aperfeiçoe os serviços de gestão dedicados à conservação da natureza, que garantam o desenvolvimento da biodiversidade e em especial a recuperação das espécies ameaçadas e em risco de extinção, que sejam harmonicamente complementares da economia dos espaços rurais, do turismo de natureza e, sobretudo, para a melhoria das condições de vida das respetivas populações; 6) que sirva para apoiar permanentemente (extensão rural) as áreas de Regime Florestal Parcial e nomeadamente, nas áreas comunitárias, dinamizar e apoiar a constituição de assembleias de compartes e respetivos conselhos diretivos; 7) que reponha a Estação Florestal Nacional (pesquisa aplicada à floresta) e que, entre outras linhas de pesquisa, retome urgentemente os programas de melhoramento florestal, articulando-se com o CENASEF (Centro Nacional de Sementes Florestais); 8) que se dedique à correção de regimes torrenciais (controlo de erosão) e por fim ao lazer e recreio nomeadamente através da reabilitação dos parques de merendas.

2. Que, tendo em vista a refundação dos referidos serviços, promova um profundo debate que envolva um pequeno grupo, a requerer pela AR, de pensadores de políticas florestais, de pensadores de planeamento regional, de silvicultores experientes e com mundo, e de representantes das áreas comunitárias. Que discutam várias alternativas de modelos de gestão pública (benchmarking) tendo como premissa que “não pode haver uma condução correta da floresta e da conservação dos recursos naturais sem serviço público, mas este, para existir, tem de estar aplicado à exploração rentável dos recursos naturais, tendo nessa rentabilidade o principal alicerce da sua existência” (PARDAL 2014).

3. Que sejam feitas estimativas dos investimentos necessários nas várias áreas de gestão de recursos naturais. Em particular, na área de produção florestal sejam feitos, no imediato, inventários florestais (se não os houver recentes) e a finalização do mapeamento dos 525.400 ha de terrenos de Regime Florestal, para servir de base de trabalho para que os melhores técnicos, a requerer pela AR, de planeamento florestal, de SIG e de economia florestal, possam calcular as reais necessidades financeiras dos novos Serviços Florestais, tendo em conta as despesas (estrutura e investimentos) e as receitas (cortes e demais recursos naturais).

4. Que se cubram as necessidades financeiras deste imperativo projeto de investimento florestal recorrendo ao Orçamento de Estado, à União Europeia e/ou ao Banco Mundial (o que já ocorreu em anterior projeto florestal, de 1980 a 1987, lançado pelo então Secretário de Estado das Florestas Prof. António Azevedo Gomes).

5. Que garanta que a orgânica que vier a ser definida seja resultado de um amplo consenso político, capaz de garantir a sua estabilidade a muito longo prazo (100 anos).

6. Que garanta que os prédios rústicos em estado de abandono e pertencentes a proprietários desconhecidos, e que não respondem à chamada, sejam integrados nas Matas Nacionais em Regime Florestal Total (publique-se uma nota - ad perpetuam rei memoriam - que sirva de base à negociação caso futuramente apareçam os legítimos proprietários) (PARDAL 2017). Desta forma “ampliando o património público” conforme “compete ao Estado” pelo artigo 8.º da Lei de Bases da Política Florestal (Lei n.º 33/96). Segundo BEIRES (2013) o problema não está quantificado, porém sugere uma estimativa grosseira de 10% do território se encontre nesta situação, e refere ainda: “importa deixar claro que estas terras sem dono conhecido ocorrem quase sempre em zonas marginais ou de incultos florestais, sendo muito raras ou inexistentes em terras agrícolas”. Os vários trabalhos em curso, nomeadamente o Cadastro Simplificado, legislado recentemente, vos permitirá a localização desses prédios rústicos, de forma a seguirem a política referida.

7. Que assegure que se os proprietários de uma ZIF, que viram todo o seu património florestal ardido e que por isso ficaram sem recursos financeiros para alavancar novamente a gestão florestal, possam recorrer ao Governo para submeter a mesma ao Regime Florestal Parcial. Tendo o Estado a obrigação (conforme lei do Regime Florestal) de arborizar e explorar através dos Serviços Florestais (ou, liberdade nossa, de entregar os apoios financeiros necessários ao mesmo fim), de dar apoio contínuo técnico e de polícia à ZIF, salvaguardando para o Estado uma parte dos lucros líquidos da mata. A gestão manter-se-á privada e em sede de ZIF sendo supervisionada pelos Serviços Florestais com base no plano de exploração aprovado, num sistema de gestão partilhada que garantirá, a muito longo prazo, a utilidade pública florestal.

8. Que rejeite a privatização ou municipalização das Matas Nacionais e a municipalização dos terrenos comunitários, no todo ou em parte, a não ser a devida à expropriação por motivos de utilidade pública.

9. Que entenda que refundar é promover uma mudança radical. A instituição que nascerá deve ser transparente e responsável pelo cumprimento de objetivos, devendo a escolha dos seus novos dirigentes ocorrer por meritocracia.

10. Que assegure que as áreas de Regime Florestal geridas pelos Serviços Florestais voltem a ter a capacidade própria de proteção, deixando de fazer depender a extinção do fogo apenas em terceiros (CTI 2018).

11. Que garanta que nas áreas de Regime Florestal geridas pelos Serviços Florestais sejam rentabilizadas através da produção de lenho, da resinagem (nomeadamente à vida), da produção de cogumelos, da caça, da pesca desportiva, da apicultura, da silvopastorícia e/ou outros recursos naturais numa óbvia gestão harmoniosa com a conservação da natureza. E que se recuperem, e se tire proveito, das Casas dos Guardas Florestais e outro importante património construído (sem alienação) para o apoio a essa gestão.

12. Que assegure que as receitas das licenças de caça e de pesca e as receitas da gestão das Matas Nacionais revertam na totalidade para os Serviços Florestais, bem como a parte da receita que lhe é devida nas áreas Regime Florestal Parcial, e que estas sejam aplicadas na gestão do Regime Florestal e no seu fomento.

13. Que reponha os Guardas Florestais no Ministério da Agricultura, com as funções de polícia, fiscalização e apoio à gestão dos recursos florestais, como sempre sucedeu desde, pelo menos, 1886 até 1998/2006 (respetivamente: competência exclusiva de polícia / transferência para a GNR no Ministério da Administração Interna).

14. Que invista na reflorestação das vastas áreas ardidas e áreas atualmente incultas do Regime Florestal, sobretudo com espécies autóctones, incluindo o pinheiro bravo, promovendo as espécies folhosas sempre que tecnicamente aconselhável e promovendo a erradicação de espécies invasoras lenhosas exóticas, nomeadamente as acácias.

Resumo: que a Assembleia da República dote com urgência o país de uns novos Serviços Florestais e Aquícolas (ou outra designação), com a mais conveniente estrutura orgânica, apoiado num corpo técnico competente desde o nível dos guardas florestais até aos seus mais altos dirigentes, que seja capaz de, adotando uma visão moderna de conservação dos recursos naturais e da biodiversidade, dirigir e coordenar a gestão dos recursos florestais de Portugal Continental de modo a que estes contribuam na sua plenitude para a nossa economia e para o desempenho das funções sociais e do bem estar das populações rurais que deles dependem. Para tanto, será necessário que ocorra um investimento elevado para recuperar as perdas dos últimos anos e um orçamento anual capaz de suportar tal estrutura, dentro do Ministério da Agricultura, podendo-se recorrer não apenas aos recursos disponíveis no Estado português, mas também a outras fontes de financiamento existentes para estes fins.

Com respeitosos cumprimentos, os peticionários.

(atenção: deve obrigatoriamente colocar o seu nome COMPLETO e o nº do seu BI).

BIBLIOGRAFIA:


BEIRES, R. S.; GAMA AMARAL, J.; RIBEIRO, P., 2013. Ocadastro e a propriedade rústica. Fundação Francisco Manuel dos Santos. Páginas 83 e 84 

CTI, 2018. Avaliação dos incêndios ocorridos entre 14 e 16de outubro de 2017 em Portugal Continental. Comissão Técnica Independente. Páginas 195-201 e 239-240 

PARDAL, SIDÓNIO, 2014. A Politíca Florestal no Nosso País.In Questões Atuais de Direito Local. AEDRL – Associação de Estudos de Direito Regional e Local. 

PARDAL, SIDÓNIO, 2017. Apontamento para uma políticaflorestal

quarta-feira, 18 de abril de 2018

Estudo de caso: A lagarta exótica Helicoverpa armigera (monocultura vs agrofloresta)


O Brasil vai exportar megapragas? A lagarta exótica Helicoverpa armigera vem assombrando as lavouras de soja, milho e algodão do país há vários anos, pressionando inclusive para a liberação brasileira de sucessivos agrotóxicos antes proibidos pela Anvisa  e pelo Ibama. Ano após ano, a lagarta que causa perdas econômicas para produtores é, também, a mesma a que causa uma receita bilionária às fabricantes estrangeiras de pesticidas. Em janeiro deste ano, mais um novo agrotóxico foi liberado  no Brasil, outro veneno para tentar conter a tal lagarta. Estudos sobre estas superpragas realizado por pesquisadores ingleses, americanos e australianos, tanto do PNAS e CSIRO, demonstram que a tal lagarta híbrida já é uma megapraga, com muitas mudanças genéticas resistentes a todos os pesticidas do mercado. Os cientistas alertam para o risco mundial. 


Saiba mais:

Fonte: Árvore, Ser Tecnológico, 11.04.08