12.4.19

José María Fonollosa (West 10th Street)





WEST 10TH STREET



La esperé mucho tiempo. No sé cuánto.
No conté el sol, ni el viento, ni la nieve.
No contaba los días. Eran largos.

Supe que volvería. Y la esperé
para echarla de casa como a un perro.

Ahora la olvida todo. Yo, no puedo.


José María Fonollosa




Esperei-a muito tempo. Não sei quanto.
Não contei o sol, nem o vento, nem a neve.
Não contava os dias. Eram longos.

Soube que voltaria. E esperei-a
para pô-la como um cão fora de casa.

Agora esquece-a tudo. Eu, não posso.


(Trad. A.M.)

.

10.4.19

António Ramos Rosa (A festa do silêncio)




A FESTA DO SILÊNCIO



Escuto na palavra a festa do silêncio.
Tudo está no seu sítio. As aparências apagaram-se.
As coisas vacilam tão próximas de si mesmas.
Concentram-se, dilatam-se as ondas silenciosas.
É o vazio ou o cimo? É um pomar de espuma.

Uma criança brinca nas dunas, o tempo acaricia,
o ar prolonga. A brancura é o caminho.
Surpresa e não surpresa: a simples respiração.
Relações, variações, nada mais. Nada se cria.
Vamos e vimos. Algo inunda, incendeia, recomeça.

Nada é inacessível no silêncio ou no poema.
É aqui a abóbada transparente, o vento principia.
No centro do dia há uma fonte de água clara.
Se digo árvore a árvore em mim respira.
Vivo na delícia nua da inocência aberta.


António Ramos Rosa



8.4.19

José Luis Zuñiga (Tudo era triste então)




Todo era triste entonces, eso lo supe luego.
Íbamos al colegio con aquellos
pantalones tan cortos. En el patio, el recreo
era un parque temático pero sin luz eléctrica.
Bailábamos peonzas, jugábamos al clavo,
siempre al fútbol con balones de trapo.
Llovía sin parar, todos los días,
una lluvia tenaz, torpe, liviana, que empapaba la ropa,
los chalecos de lana que mi madre tejía.

Todo era triste entonces, pero yo lo ignoraba,
yo era un niño feliz a pesar de los curas.
Era normal que cada invierno dieran la vuelta a los abrigos,
y cada primavera una modista gorda cambiara a las camisas
los cuellos y los puños. Los amigos
-ya nos vamos muriendo- eran algo intocable.

Todo era triste entonces, eso lo supe luego.
Todo era triste entonces y sigue siendo triste,
lo malo es que ahora sé lo que antes no sabía
y siento un malestar tripas adentro
cuando pienso en los días felices de mi infancia.

No puedo ser feliz. No quiero
haber sido feliz. Sigue lloviendo
y ahora el agua me cala hasta los huesos.
No tengo en la cabeza más que muertes
de efectos especiales. Muchas veces
me despierto en la noche envuelto en nieblas
de traición o de olvido. Me tomo dos pastillas
y me vuelvo a dormir, y me regreso
al patio del colegio, allí están todos.


José Luis Zúñiga
[Ulises sin Joyce]





Tudo era triste então, soube-o depois.
Íamos para o colégio com aquelas calças
muito curtas. No pátio, o recreio
era um parque temático mas sem luz eléctrica.
Lançávamos piorras, jogávamos o prego,
futebol sempre com bolas de trapo.
Chovia sem parar, todos os dias,
uma chuva tenaz, torpe, leve, que encharcava a roupa,
os coletes de lã que minha mãe fazia.

Tudo era triste então, mas eu não sabia,
eu era uma criança feliz apesar dos padres.
Normalmente, viravam-se os sobretudos no Inverno
e na Primavera uma modista gorda virava nas camisas
os colarinhos e os punhos. Os amigos
- começamos já a morrer – eram algo de intocável.

Tudo era triste então, soube-o depois.
Tudo era triste então e continua a ser triste,
o mal é que agora sei o que antes não sabia
e sinto cá dentro um mal-estar
quando penso nos dias felizes da infância.

Não posso ser feliz. Não quero
ter sido feliz. Continua a chover
e agora a água entra-me até aos ossos.
Na cabeça não tenho senão mortes
de efeitos especiais. Muitas vezes
acordo de noite no meio de névoas
de traição ou esquecimento. Tomo duas pastilhas
e volto a dormir, e regresso
ao pátio do colégio, onde estão todos.

(Trad. A.M.)



6.4.19

José A. Ramírez Lozano (O silêncio)





EL SILENCIO



El silencio abastece
la soledad y da en las sombras
de comer a los peces.

Él nos guarda la casa
como el polvo, con esa
oscura mansedumbre
de la misericordia,
y vigila el olvido,
la virtud del aceite,
el filo de los verbos
con que nos castigamos.

El silencio se busca
para hacerse más hondo
en los desfiladeros del susurro,
en la desolación, allá
donde tampoco alcanzan las palabras
y el amor se cobija del acecho
de las profanaciones.


José A. Ramírez Lozano




O silêncio abastece
a solidão e dá de comer aos peixes
nas sombras do fundo.

Guarda-nos a casa
tal como o pó, com essa
quieta mansidão
da misericórdia,
e vigia o esquecimento,
a virtude do óleo,
o fio dos verbos
com que nos castigamos.

O silêncio busca-se
para se fazer mais fundo
nos desfiladeiros do sussurro,
na desolação, lá
onde as palavras não alcançam
e o amor se abriga do assédio
das profanações.

(Trad. A.M.)

.

4.4.19

Ana Salomé (Ode do fim da paixão)




ODE DO FIM DA PAIXÃO



agora que a paixão se demoveu de ti
são poucas as notícias que te trago.

as palavras bem podem ser
pequenos papéis atirados ao chão.
se o vento as levantar é porque ainda
haverá um livro de poemas
nas pontas dos dedos a ferir o espaço
para um último batimento.

deixaste-me assim com a paixão rápida
o funeral e os pássaros nos ramos
a aprender asneiras e as marchas de séculos
anteriores. recusaste um coração
a cercania das mãos
a destapar o rosto oculto.

agora é tarde
os poemas são vedações de florestas
que não podem crescer mais.
sem árvores o vento não sopra
e é pouco o que chega até ti.


Ana Salomé

[Emma Gunst]

.



2.4.19

Juan Luis Panero (Tal como éramos)





TAL COMO ÉRAMOS



Ingrata la vejez, aburridos sus símbolos
- sin valor literario - demasiado previstos.
Sólo queda - cada día más rara - la sorpresa
de un inesperado momento redivivo,
como se hace un rato, mirando la televisión.
Una desgastada película de otro tiempo
- horrendo doblaje, relamidos colores-
la penetrante estupidez de los anuncios.
Sin embargo, él y ella - años después de separarse -
se encuentran en la puerta de un hotel,
en Nueva York, se reconocen, dicen alguna frase vulgar
y se separan, esta vez para siempre.
Repetida escena, banal la historia,
pero quizá, toda mi vida puede resumirse en esa imagen.
Melancolía de los sueños perdidos
- entre marcas de automóviles y detergentes -
en el cristal infinito de un insomne televisor nocturno.

Juan Luis Panero

[El almirante ruina]



Velhice ingrata, chatos seus símbolos
– sem valor literário – demasiado previsíveis.
Resta apenas – cada dia mais estranha – a surpresa
de um inesperado momento redivivo,
como acontece um instante, a ver televisão.
Um filme desgastado de outros tempos
– dobragem horrível, cores delambidas –
a penetrante estupidez dos anúncios.
Contudo, ele e ela – anos depois da separação –
encontram-se à porta de um hotel,
em Nova Iorque, trocam umas frases vulgares
e separam-se, desta vez para sempre.
Cena repetida, banal a história, mas talvez
a minha vida inteira possa resumir-se nessa imagem.
Melancolia dos sonhos perdidos
– por entre marcas de carros e detergentes –
no vidro infinito de uma insone televisão nocturna.

(Trad. A.M.)

31.3.19

Juan José Saer (O graal)





EL GRAAL



El mar destila incertidumbre,
la montaña perplejidad; y el propio
cuerpo no abandona, por nada
del mundo, su secreto. El viaje
se volvió errabundeo, y el aura
solitaria, retirándose,
nos transformó en manada.
En la llanura inmóvil
el cansancio nos visita:
todo esto podía haber sido
de esta manera o de alguna otra,
el tiempo hubiese preferido
correr para adelante o para atrás
y abstenerse de salir, indiferente,
la luna. Nos creeríamos perdidos,
si fuésemos capaces, todavía,
de distinguir un lugar.
La mirada rebota, espesa;
ni reconoce ni interroga.
Astillas turbias flotan
entre la sombra que amenaza.
Confusos, vacilamos:
salimos a buscar no sabemos qué
ya no nos acordamos bien cuándo.


Juan José Saer





O mar destila incerteza,
o monte perplexidade; e o próprio
corpo não abandona, por nada
deste mundo, seu segredo. A viagem
torna-se errância, e a aura
solitária, retirando-se,
transforma-nos em manada.
Na planura imóvel
visita-nos o cansaço:
tudo isto podia ser assim ou
de outro modo, quisesse o tempo
correr para diante ou para trás,
ou a lua, indiferente, resolver não sair.
Fossemos nós capazes, ainda,
de distinguir um lugar,
julgar-nos-íamos perdidos.
O olhar ressalta, espesso,
nem reconhece nem interroga.
Lascas turvas bóiam
por entre a sombra intranquila.
Vacilamos, confusos:
saímos em busca não sabemos de quê,
sem nos lembrarmos já muito bem quando.


(Trad. A.M.)