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quarta-feira, dezembro 06, 2017

"Como és belo, meu Portugal"*

Não se admirem, por favor; quanto aos Painéis, quando Joaquim de Vasconcelos, na companhia de Ramalho Ortigão, deu com a obra de Nuno Gonçalves, em S. Vicente de Fora (que haviam já sido assinalados pelo monsenhor Elviro dos Santos), aqueles foram salvos de servirem como tábuas para andaimes, ou coisa que o valha. O Forte de Santo António, nem é tanto por lá ter caído o velho Botas, mas a memória da Restauração e da independência nacional que representa a quase totalidade das fortificações marítimas, mandadas erigir por D. João IV, para prevenir uma invasão espanhola, semelhante à do Duque de Alba, em 1580 -- função simétrica, aliás, às dos castelos da raia.
Coisas que não interessam nada a quase ninguém. É o tal défice de que falava Costa.



(* Luís Cília)

segunda-feira, novembro 13, 2017

um país sem futuro

 Esta historieta do Panteão é acima de tudo reveladora da indignidade dos círculos do poder (o passa-culpas grotesco governo-oposição);  é uma manifestação da desvergonha do nosso atraso e da nossa saloiice: qualquer  monumento, palácio, museu está sujeito a albergar um repasto, basta ter a carteira suficientemente recheada e gosto duvidoso.
"Web Summit", nada contra e, desde o início, nenhum interesse; os orgasmos analfabetos da imprensa, ainda me deixam a rosnar sozinho, mas cada vez ligo menos. (Qualquer dia desisto -- já estive mais longe --, e arranjo um Vale de Lobos à minha pobre medida.) Porém, em face dos deslumbramentos da semana passada -- alguns, certamente justificados -- lembrava-me da sala de concertos do Conservatório Nacional, entre outras coisas que não interessam a ninguém, nem sequer ao Menino Jesus, que renasce para o mês que vem: o património histórico ao abandono, dos castelos aos clássicos da nossa língua, que deveriam ter um programa em larga escala e competência editorial em edições acessíveis, a pensar em nós, portugueses, e naqueles a quem coube em sorte partilhar o nosso idioma. Nada, nada, nada -- zero.

Por falar em memória histórica, um programa excepcional de Fernando Rosas sobre o colonialismo português, é transmitido em horário envergonhado, na RTP2, à hora dos telejornais indigentes dos três canais. O desconhecimento da História não aproveita a ninguém; pelo contrário, é substituído pelo preconceito e pelas ideias feitas -- as mesmas que não nos permitiram assumir de frente a nossa história recente, deixando entregues a si próprios quantos combateram pelo "império" e serviram de carne para canhão, alimento de básicos interesses de dominação mascarados de nacionalismo transcendente. Uma vergonha nunca vem só.
Este alinhavar desencantado -- e exemplos não me faltam --, para dizer apenas a seguinte banalidade: um país que não valoriza a sua memória histórica, senão quando ela serve para propaganda e obtenção de votos, não é só um país indigno, é também um país sem futuro.

quinta-feira, março 31, 2005

Escrever na areia - Garrett e este miserável país

A casa onde morreu Almeida Garrett está em risco, por abandono e especulação. Somos um país de alarves, ainda atiramos lixo pela janela do carro, não temos civilização para respeitar a memória espiritual de quem foi enorme no seu tempo, apesar de todas as humaníssimas fraquezas. Somos um país de lepes, canalha de mão estendida a quem encheram os bolsos sem antes ensinarem a mastigar de boca fechada. O resultado é esta vileza. Demolir aquilo é como arrasar a casa de Dickens em Londres, onde ele só viveu escassos meses, mas está lá, para ser visitada; é como destruir a casa de Balzac em Paris, onde o homem viveu com um nome falso, e mesmo assim não se livrava dos credores, e também lá está. Mas é pior, muito pior para nós, periféricos, provincianos, tão atrasados que até envergonha. Eles, ingleses e franceses têm tanto, e tantas casas, de Dickens, de Balzac, de Thackeray, de Hugo, de... E nós temos tão pouco...