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quarta-feira, abril 03, 2019

vozes da biblioteca

«Chorava em fonte, e as suas lágrimas punham no fogo rijo das duas horas um doce refrigério de orvalhada.» Aquilino Ribeiro, Andam Faunos pelos Bosques (1926)

«Desde Abril do ano anterior que a tropa e os comunistas se aproximavam das fachadas dos prédios, erguiam o membro como animais para urinar, e abandonavam nas paredes um mijo de vivas e morras que se contradiziam e anulavam, logo coberto por cartazes de comícios e greves, fotografias de generais, propaganda de conjuntos rock, cruzes suásticas, ordens de boicote ao governo e convites de retrete, dedos de letras entrelaçadas num namoro que o Outono do tempo desbotava.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados (1985)

«O Diogo combinara tudo com o mestre-negreiro, dera-lhe uma pepita de ouro, a única que possuía, toda a sua fortuna, escreveu-me, não suportava o Brasil sem mim, eu acreditei e senti-me agradecida, era o dinheiro do nosso futuro que ele jogava fora para me ter consigo, foi isso que fez que eu lhe perdoasse a Briolanja.» Miguel Real, Memórias de Branca Dias (2003)

sábado, novembro 21, 2015

inquieta e receosa como asas de melro recém-nascido

«Se a sábia sentença de Hipócrates está certa e tudo está em tudo, neste meu feio corpo também estará, por ventura inquieta e receosa como asas de melro recém-nascido, a divina beleza que talvez apenas no paradoxo de um corpo relaxado se deixe entrever.»

Migue Real, Carta de Sócrates a Alcibíades, Seu Vergonhoso Amante (1987)

sábado, maio 09, 2015

com uma catana à cintura

"Uma vez o mestre trouxer-me uma perna de galinha cozida e perguntou-me se eu queria mais, se queria um caldo, que no chapitéu havia calda, deixasse ali as crianças; mas eu percebi e tirei-lhe logo dali as manias, disse que comia o que os meus filhos comiam e que o meu marido, como ele devia saber, andava com uma catana à cintura, era para cortar a cana do açúcar, mas aproveitava e cortava-se mais qualquer coisa, que ele era homem para isso, e era, tenho a certeza."

Miguel Real, Memórias de Branca Dias (2003)

sábado, janeiro 17, 2015

empreendedorismo negreiro

«A tripulação passou uma semana a atirar baldes de água lá para baixo, a limpar a cagada dos pretos, eu só pensava que se aquilo era assim de Lisboa ao Brasil nem queria imaginar como fora da Mina a Lisboa com o dobro dos pretos no porão. Cada um dormia, comia, mijava e cagava no mesmo sítio, um niquinho de lugar, nem as pernas podia estender, os filhos pequenos dormiam sobre as mães, as mulheres sobre os homens e estes matavam-se uns aos outros para estenderem as pernas. Com esta história de trazer tantos escravos no mesmo barco perdiam-se não menos que cinquenta pretos em cada viagem, mas os atravessadores não se importavam, distribuíam o preço dos perdidos pelos salvados e ficava tudo em casa, era assim que eles diziam, ficava tudo em casa.»

Miguel Real, Memórias de Branca Dias (2003)

sábado, maio 31, 2014

um acontecimento editorial: A EXPERIÊNCIA, de Ferreira de Castro (hoje, na Feira do Livro)

Durante sessenta anos (desde 1954, data da primeira edição), A Experiência ficou escondida, no mesmo livro, entre a novela A Missão e o conto O Senhor dos Navegantes. A primeira, objecto também de edições à parte -- foi um dos volumes inaugurais da histórica colecção "Livros de Bolso Europa-América", e da própria editora original, a Guimarães, quando escolhido como um dos livros de leitura curriculares do então ensino unificado, na década de 1970. O Senhor dos Navegantes, em tempos gravado e dito por Ferreira de Castro, num disco editado pela Orfeu, em 1998, através da direcção avisada e culta de Vasco Graça Moura e António Mega Ferreira, foi também objecto de uma edição em separado, na colecção da Expo "'98 Mares".

E A Experiência, no meio da boa fortuna das outras duas narrativas, o único romance que integrava o volume A Missão?; essa história incrível de duas crianças de asilo, Januário e Clarinda, evoluindo para a marginalidade como se uma nuvem negra que sobre eles pairasse não lhes oferecesse outra saída?; essa narrativa modelar, moderna na sua estrutura, com vários planos espácio-temporais, mostrando que, como qualquer grande escritor, Ferreira de Castro não queria dormir à sombra dos louros conquistados, procurando superar-se de livro para livro?...

Foi preciso um editor culto, percebendo que tinha em mãos um romance notável, de grande mestria (um dos meus preferidos), para que A Experiência pudesse  sair da obscuridade a que não tinha direito. Sai, infelizmente, num tempo em que o detrito literário domina os escaparates, e o lixo quotidiano nos empesta a vida. Mas, ao contrário do que queria Ferreira de Castro, a grande literatura, aquela que experimenta e questiona, sempre esteve ao alcance de poucos. Podia ser outra coisa? Podia. Mas então Portugal não seria Portugal, mas outra coisa, menos rústica, menos suburbana.

A edição é cuidada, com referências bibliográficas diversificadas. Deixo duas, de conspícuos ensaístas e críticos, ideologicamente nos antípodas (Ferreira de Castro tem esse atributo dos grandes: seja qual for a nossa mundividência, encontramos sempre nos seus livros algo que nos emociona e faz sentido):

Óscar Lopes: «Ferreira de Castro foi o primeiro grande romancista português deste século [XX] que se determinou por problemas objectivos e não apenas por impulsos íntimos.»
e
Pinharanda Gomes: «Todas as situações são pontos limite, agonísticos, neste romance onde as personagens [...] bebem o cálice até à inverosímil agrura e, todavia, tudo é verosímil e, cotejado com a vida, é crível.»

Uma última palavra para Susana Villar, autora das capas dos livros de Ferreira de Castro na Cavalo de Ferro. Num autor que foi visitado pelos maiores capistas, de Stuart Carvalhais a Bernardo Marques, e até pelos maiores pintores, nas edições ilustradas de Portinari a Pomar, o óptimo trabalho de Susana Villar tem feito jus a também a esse legado.

Hoje, na Feira do Livro de Lisboa, Miguel Real falará sobre.

terça-feira, abril 22, 2014

bem escrito: "como nunca houvera em Portugal." (Miguel Real)

«[...] as ondas de choque deste dia puro [25 de Abril de 1974] promoveram um estado geral de bem-estar e de prosperidade como nunca houvera em Portugal.»

sexta-feira, setembro 15, 2006

Caracteres móveis - Miguel Real

Na História não há culpados, há vencedores e vencidos, povos ou grupos sociais esmagados e outros que constroem as vitoriosas interpretações futuras. Na segunda metade do século XVIII, jogava-se em Portugal um jogo de pólos opostos com um imenso vazio no centro. Este vazio ou esta ausência chamava-se Europa e o seu progresso económico, científico e filosófico. A violência, o extremismo e o vanguardismo de Estado de Pombal medem-se pela intensidade por que tentou, em menos de trinta anos, preencher solidamente este vazio, tornando Portugal menos Portugal e mais europeu. [...] Não o conseguiu, não porque as medidas estivessem erradas, mas porque a violência por que as aplicou criou tanto um deserto em redor do Estado, de que tudo dependia, quanto um campo concentracionário de quase dois mil presos e exilados.

O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa

terça-feira, julho 25, 2006

Miguel Real

Figuras de estilo - Miguel Real

Os portões dos Estaus abriam-se, o capelão do cárcere da penitência emergia, redondinho, vermelhinho como uma barrica de vinho, alçava o crucifixo de prata maciça, nobres seguiam-no, de peruca empoada, os «familiares» da Inquisição, olhos puros de fé, doze tocheiros entravam no Rossio, iluminando a madrugada, o alvorecer cedia a tanta luz beata, o livor do dia sorria, o céu azul de Lisboa nascia, perfilavam-se sacerdotes de sotaina branca, bainha rendada, o solicitador dos dominicanos ostentava a vara, os superiores das congregações adejavam a barba à brisa do Tejo, os dignitários seculares assomavam no palanque, procurando sombra sob o sólio, preveniam-se, o sol enrijaria, do portão saíam agora o arcebispo de Marzagão e Colhão, purpurino, o bispo de Mitilene e Cuzene, celestino, o bispo de Cajuzeiro e Pixoteiro, esmeraldino, o Inquisidor-Mor, Paulo de Carvalho, irmão do Ministro, o bispo de Lisboa, d. Anastácio Cagalhácio, o reitor dos Crúzios Sentados, o geral dos Levantinos Levantados, o abade do convento de Santa Maria dos Paneleiros, a chusma regozijava, admirando o donaire potente dos poderosos, de barriga inchada, passinhos miúdos, bofes pendentes do queixo gorduroso, sobrancelhas hirsutas, matagal de pêlos nas orelhas, os Peixotinhos perdiam-se no palanque dos convidados, a sua presença era forçada pela representação dos seus cargos, aquiesciam com a necessidade dos autos-de-fé, uma satisfação à Igreja, não se lhe podia tirar tudo de uma só vez, o Ministro forçara a Inquisição a submeter as suas decisões ao Conselho de Estado, o confisco dos bens transitara para o Estado, foram os dois primeiros passos seguros, dizia João Maria, político, um próximo Ministro, em menos de dez anos acabará com a Inquisição, até lá era comprazer e sorrir, circo atirado ao povo, pena era os palhaços serem queimados. Os penitentes emergiam no portão, baeta com a cruz vermelha, a representação do inferno atormentando as almas, a carocha amarela na cabeça, velas acesas na mão, cabeça baixa, um frade a seu lado forçando-os a arrependerem-se, e o povovéu -- a corja popular -- acidulado pelo vinho, ululava, uivava, gania, relinchava, zurrava, guinchava, ladrava, chiava, assobiava, mugia, carneira como sempre.
A Voz da Terra

quarta-feira, novembro 23, 2005

JornaL

1) Li apressadamente na livraria duas páginas do último de António Lobo Antunes, D'este viver neste papel aqui descripto -- as cartas enviadas a sua mulher. Soberbas. Não tenho dúvida de que se trata de um grande acontecimento cultural no sentido mais lato: a correspondência dum jovem alferes médico saudoso e apaixonado, atolado numa guerra tão estúpida que foi criminosa -- desde logo pela sua desnecessária estupidez. Um livro para a História. Tenho a certeza disso.
2) As cartas hoje publicadas pelo JL, de Fernando Assis Pacheco, Manuel Beça Múrias e Afonso Praça, mostram isso mesmo. Como há tanto material humano de primeira qualidade ainda a conhecer...
3) Miguel Real lança dois livros duma assentada: o ensaio O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa e um romance, a suceder ao excelente Memórias de Branca Dias: A Voz da Terra. Diz ele em micro-entrevista: «O romance histórico não deve reproduzir ficcionalmente a História, mas iluminá-la, abrindo-a a outras interpretações.»
4) A ler: Andrade Corvo, Perigos (Fronteira do Caos); Frederico Lourenço, A Odisseia de Homero adaptada para jovens; Graciliano Ramos, S. Bernardo (Cotovia); Miguel Real, A Voz da Terra e O Marquês de Pombal e a Cultura Portuguesa (Quidnovi); Daniel Maia-Pinto Rodrigues, Malva 62 (Quasi); Pedro Rodrigues, António Victorino d'Almeida Conta 50 Anos de Música (Quimera); Urbano Tavares Rodrigues, O Mito de D. Juan e Outros Ensaios de Escreviver (Imprensa Nacional); Paul Teyssier, A Língua de Gil Vicente (Imprensa Nacional); Miguel de Unamuno, A Vida de D. Quixote e Sancho (Assírio & Alvim).
5) A ouvir: Bach, Cantatas Profanas pelo Collegium Vocale de Gent, dirigido por Philippe Herreweghe (Harmonia Mundi); Mafalda Arnauth, Diário (Universal); António Chainho e Marta Dias, Ao Vivo no CCB (Movieplay); Clã, Gordo Segredo ((EMI-VC).