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domingo, maio 07, 2017

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Da deliciosa simplicidade ingénua de Sarah Beirão, de que a narrativa não se desviará, à fábula onírica de Miguel Barbosa, passando pela literatura marie-claire de António Alçada Baptista. Um despojamento directo e seco num grande romance de António Lobo Antunes e, finalmente, aquele «uma velhice tão antiga» que é elemento perturbador e toque de grande arte do livro de Baptista-Bastos. Dos títulos, balanço entre Cão Velho Entre Flores e Auto dos Danados.

1952 [?]: «Vivia-se com muitas dificuldades naquela pequena aldeia da Beira Alta.» Sarah Beirão, Triunfo

1974: «Quem vem do palácio real e desce a calçada vê à direita um carvalho com as raízes expostas e uma velhice tão antiga que nem a Primavera rejuvenesce.» Baptista-Bastos, Cão Velho Entre Flores

1985: «Na segunda quarta-feira de Setembro de mil novecentos e setenta e cinco comecei a trabalhar às nove e dez.» António Lobo Antunes, Auto dos Danados

1988: «Temos dificuldade em compreender nos outros aquilo que não somos capazes de viver.» António Alçada Baptista, Catarina ou o Sabor da Maçã

2008: «O rio, a árvore e o rouxinol tinham a razão de existir idêntica à do dia arrastado pelas metamorfoses sombrias da noite e pelo vento frio do norte.» Miguel Barbosa, Anatomia de um Sonho

sexta-feira, maio 05, 2017

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Em João Pedro de Andrade o interdito vela-se por detrás da frase anódina -- o título da novela, aliás excelente, põe-nos de sobreaviso.  Do livro de estreia, que não o primeiro, de António Lobo Antunes, uma torrente, contrário ao que pareceria desejável. A mestria é, porém, tanta, que é o longo incipit que nos fica à maneira de fim de rebuçado. Augusto Abelaira, em maré de XVIIª (1983), põe-nos a bordo de uma nau quinhentista. Não se trata, contudo, de um romance histórico, antes um afloramento da reconhecível faceta irónica e crítica do autor -- tanto quanto me lembro da leitura, com décadas. O incipit de António Alçada Baptista dá a medida do catolicismo light do romance, aliás intragável. Finalmente, o de Miguel Barbosa reitera um coloquialismo que em tempos deu frutos.

1942: «Desde o inverno que Jaime andava a falar na visita do seu sobrinho Luís.» João Pedro de Andrade, A Hora Secreta

1979: «Do que eu gostava mais no Jardim Zoológico era do rinque de patinagem sob as árvores e do professor preto muito direito a deslizar para trás no cimento em elipses vagarosas sem mover um músculo sequer, rodeado de meninas de saias curtas e botas brancas, que, se falassem, possuíam vozes tão de gaze como as que nos aeroportos anunciam a partida dos aviões, sílabas de algodão que se dissolvem nos ouvidos à maneira de fins de rebuçado na concha da língua.» António Lobo Antunes, Os Cus de Judas

1982: «Embarquei-me enfim com a minha fazenda numa nau que ia com muitos cavalos e pimenta em que era capitão Dias de Almeida, de alcunha o Tigre, filho do conde de Alcântara, o qual carregava a ossada do pai para Goa, donde seguiria para Coimbra, dando cumprimento a uma ordem de El-Rei Dom Manuel.» Augusto Abelaira, O Bosque Harmonioso

1994: «A letra de Deus nem sempre é decifrável e ninguém conhece a língua em que escreveu a alma humana.» António Alçada Baptista, O Riso de Deus

2010: «Eu tinha chupado a vida por uma palhinha e o que restava dela e de mim era um monte de ossos de algum sebo!» Rusty Brown (aliás, Miguel Barbosa), Os Crimes do Buraco da Fechadura

(o título: Os Cus de Judas)