Quinta-feira, 6 de Outubro de 2011
Após a morte de alguém
Era uma vez um choque
que deixou para trás uma longa e cintilante cauda de cometa.
Manteve-nos cá dentro. Desfocou as imagens do televisor.
Depositou-se nas gotas frias das linhas do telefone.
Ainda se pode deslizar em esquis, ao sol de inverno
por entre os bosques onde as folhas do ano passado ainda estão penduradas.
São como páginas arrancadas a antigas listas telefónicas -
nomes engolido pelo frio.
Ainda é belo sentir o coração a bater
mas muitas vezes sinto a sombra mais real do que o corpo.
O samurai parece insignificante
ao lado da sua armadura de dragão negro com escamas.
Nunca gostei de poesia mas o meu caso, raro, doente, estranho, terminal termina quando oiço Tomas Tranströmer.
- Então, Maria de Fátima?
- Cá se vai andando.
- Ninguém sabe quem é este Tomas, pois não?
- Em Portugal? Creio que poucos.
- E?
- E nada.
- Gostas de poesia?
- Não muito. Gosto do Franco Alexandre e pouco mais. Ah, da Luiza Neto Jorge.
- E de arte?
- Não me faças rir. Eu não sou uma ignara.
- Ah!
- É grave não saber quem é este homem?
- Não. Grave é ser estúpido, o suficiente, para não se perceber que não se pode saber tudo. Sem merdelins.
- Merdelins.
- Merdelins.
De Tiago a 7 de Outubro de 2011 às 17:01
Merdelins é bom.
De Niamey a 7 de Outubro de 2011 às 17:44
...mas estou em crer que, por cá, a cena do "merdelins" fará mais pelo poeta sueco do que o próprio prémio. a poesia costuma enervar-me mas só porque costuma ser mal dita. é tudo um dramalhão declamado e raramente alguém se lembra de a dizer num tom vulgarissimo de lineu. aposto que ganhava adeptos, a mim por exemplo que já raramente a leio.
atraída pelo "merdelins", juro "Maria de Fátima", pus-me a ouvir a voz do sueco.....Tomas what? mas este é o chatalhão do Bergman! pronto vinha só ilustrar uma não gravidade.
p.s houve uma altura em que vi os bergmans todos de enfiada, só ainda não percebi se isso me fez bem ou nem por isso.
nota final: fui mesmo ver vida e obra de Tomas à conta do "merdelins", imagino que não serei a única. obrigada.
Com o maior dos carinhos mas «chatalhão» é o senhor seu avô. Não me leve a mal porque eu também não. Embirro muito com esta moda recente a armar ao iconoclasta que é um clasta dos icono, um deus grego, não me dêem cabo da paciência.
Se o Bergman é chato o que dizer da Moda Lisboa, que lá no alto, patrocina dos mais sonolentos momentos da existência de moscas, mosquitos e até humanos?
Juro. Mal aquilo começa e já as pestanas dos meus olhos batem. E as pessoas dos eventos agarradas aos seus copos ui, ai, ui, ai? Mas isto sou eu que sou neta do Thomas. O outro.
Agora vão para dentro descansar.
António Parente, obrigada. Voltem sempre.
E se o Jardim perdesse as eleições? Mas perder de perder e mais além.
Abraços apertados desta vossa assistente de bordo.
Do vosso lado direito a porta de emergência. Debaixo do vosso assento, o colete de oxigénio.
De Niamey a 10 de Outubro de 2011 às 12:09
nunca soube se o meu avô era chatalhão porque só o conheci demente. agora que fala nisso, reconheço que bergman me marcou mais que o meu avô...ainda que a demência tenha a sua profundidade, não faço ideia pq não se consegue ir lá muito bem, a uma demência que não seja a nossa.
não a levarei a mal não senhora, antes pelo contrário pq perde a paciência e isso soa-me bem, para já e por enquanto.
só vim dizer: vê? como a palavra "merdelins" é milagrosa e mágica?
"Sonata de Outono" é o meu favorito, do meu chatalhão....não se estava mesmo a ver que contra mim falava, hum? mas foi inevitável vir salvar-me, claro está :)
De Niamey a 10 de Outubro de 2011 às 14:35
aaaiiii esqueci-me do seu principal: a Moda Lisboa é under dog indeed. não pequemos em semelhante comparação, coitado de bergman.
De António Parente a 7 de Outubro de 2011 às 15:18
- Olá, António Parente. 'Tás bom?
- Vai-se andando, pá. Umas dorezitas no lombo, a pedra no fígado, etc. Business as usual (falei em inglês para dar um tom mais cosmopolita)
- Então, já sabes do prémio nobel da literatura?
- Não. Ganhou o Lobo Antunes?
- Não. Ganhou um tal Tom qualquer coisa, um poeta, li um poema dele lá no jugular publicado pela Fátima.
-Ah, um poeta. (faço um ar de quem viu um prato de favas com chouriço)
- Não sabes quem é, ó Parente?
- Eh pá, se me perguntares quem é o Ronaldo dou-te a biografia dele desde a inscrição no andorinha (sabes que o Guilherme Silva disse na SicN que o Ronaldo era um produto made by AJJ?). Agora de poesia não aprecio muito.
-Eh pá, isso é uma falta de cultura do caraças!
- Eh pá, vai-te catar! Culturas, o tanas! O que mais me lixa são esses chavões/rótulos pós-modernos que nos colam para nos condicionarem a mente!
- Eh pá, esse reumático dá-te a dar forte!
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