
«O QUE FAZ O PATRÃO DO PINGO DOCE | Alexandre Soares dos Santos merece-me todo o respeito. Pela postura na vida. Pelo império que construiu. Pela forma como, depois do falhanço no Brasil, tornou o Grupo Jerónimo Martins o líder do hard-discount na Polónia. E por ter definido um modelo com a família que mantém o grupo em mãos nacionais por pelo menos mais uma geração. Contudo, duas decisões recentes não estão à altura do seu comportamento empresarial eticamente irrepreensível. A primeira foi a decisão de antecipar os dividendos do grupo para evitar mudanças fiscais em 2011. Muitas companhias não o fizeram, compartilhando assim o esforço que todos os cidadãos estão a ser chamados a fazer para tentar inverter a dificílima situação em que o país se encontra. E a segunda foi a decisão de poupar aos consumidores à subida do IVA nos supermercados Pingo Doce. Não o fez, contudo, à sua custa, mas obrigando os fornecedores a suportar esse aumento. Agora, quando Soares dos Santos falar de ética, vamos olhar para ele com outros olhos.» Nicolau Santos, Expresso, Fevereiro 2011.



Estrela Serrano analisa o caso de Assunção Esteves.





imagens instagr.am da página #05 do semanário Expresso onde se lê, certamente por engano, "rendimentos anuais brutos de €2445". Agradecida.












































































































Eis um motivo para escrever sobre o Trabalho, não como ocupação desvalorizada por salários baixos e direitos que voam para o espaço, tratados a pontapé, porque disto mesmo se trata e quem ainda não percebeu este facto, não percebeu que se hoje são estes, amanhã? És tu. A luta vai ter que endurecer e ganhar contornos espertos, porque as arestas finas, lâminhas a cortar, a doer já aqui estão desenhadas a régua e esquadro.
Estes 13 pontos são dedicados a todos os que se interessam pela vida vivida, no duro, e não apenas esta quase doce, dolente ou grácil existência dentro do computador, livro, papel de jornal ou plasma de televisor; tudo coisa limpa, com retórica, sem novidade. Para me servir de um comentário a um comentário meu, o pão quente, a água fria, a vida ainda não é 2.0
1. Em Portugal existem dois grandes tipos de portos que se dividem entre os que cumprem a legislação em vigor e os que passam, ligeiros, por entre os pingos da chuva e ignoram o que é de lei. Ponto
2. Neste peculiar segundo grupo, incluo sem querer errar, o porto de Leixões e o Terminal XXI em Sines onde a mão de obra não especializada nas tarefas portuárias é usada e, ouso, abusada
3. A legislação do trabalho portuário data de 1993, ironia das ironias e a este título mais não acrescento, pois vai mais um ponto?
4. E o que nos conta a letra da exótica lei? Manda clara e inequivocamente que nas tarefas portuárias apenas possam trabalhar trabalhadores portuários. E entra a palavra de que gosto: estivadores cuja vida de trabalho tem uma história que nos merece mais respeito e siga para o ponto
5. Feitas estas contas que ainda a procissão vai no adro, quem é que afinal tem razões de sobra para criticar o pacote legislativo publicado na sequência do Pacto sectorial entre todos os parceiros sociais, exemplo único nas últimas décadas? Resposta:
6. Os estivadores que, passados 18 anos, aguardam que se complete o pacote legislativo acordado através da publicação da regulamentação das carteiras profissionais dos estivadores. Assunto de somenos para nós que estamos aqui sentados nas nossas confortáveis casas com vista para onde a vista der. Certo? Errado
7. O Contrato Colectivo de Trabalho – acordado e assinado em 1993 – entre Sindicatos e Patrões do sector portuário de Lisboa (para ser precisa), define a existência de 3 tipos de trabalhadores portuários. A saber: A, efectivos em topo de carreira; B, efectivos que podem alcançar o topo da carreira ao fim de 17 anos de “progressão” e C, temporários que apenas podem desempenhar tarefas não especializadas e cujo vencimento, quando trabalham, é menos de metade dos trabalhadores A
8. Este CCT define ainda a ordem de colocação em trabalho suplementar. A depois de B e no caso dos efectivos não serem suficientes, C
9. Os Protocolos de Acordo assinados livremente entre os parceiros sociais do sector, nomeadamente o de 1995, onde se estipula um rácio máximo entre o número de trabalhadores temporários/eventuais/precários (C) e o conjunto de trabalhadores efectivos/permanentes (A + B). Ou seja, um máximo de 20% na relação entre temporários e permanentes, que poderia passar a 25% no período de férias.
10. Vários foram os processos de reestruturação da mão-de-obra que conduziram ao afastamento de milhares de trabalhadores da actividade portuária.
11. O próprio Pacto sectorial referia que as futuras admissões deveriam ter em conta este aspecto e não criar expectativas excessivas de emprego. Os referidos protocolos resultaram, pois, da necessidade de introduzir mecanismos acordados entre os parceiros sociais, Sindicatos e Patrões, para, por acordo, se reajustarem as necessidades de mão-de-obra portuária para o conjunto do trabalho no porto.
12. Confusos? Isto tem uma ordem e a ordem é esta. Continua por aqui? Sim.
13. São estas e apenas estas as “regras rígidas” a que se referem os actuais governantes de sobrolho franzido. Acordos livremente negociados entre parceiros sociais do sector. Nada que tenha sido imposto à lei da bala, arma apontada ou mera excentricidade de esquerda. Qual esquerda? Onde está a esquerda? O que sorrio ao ler “regra rígida”, esse mal, grande mal, como se fosse de esperar que a regra não fosse rigorosa. Como se o que se quer ilegal e arbitrário devesse passar por coisa justa, tendo em conta os dias que correm, da forma como correm, a famosa e conveniente austeridade. Como se a rigidez invocada, por quem agora chegou ao poder, pudesse ignorar a abertura do Sindicato dos Estivadores ao trabalho temporário (nos idos de 1995) quando a precariedade ainda não era moda.
O que é que nesta história de Trabalho não se percebe? Que esta precariedade, limitada a cerca de 25% dos estivadores permanentes, tem um impacto significativo no decréscimo do peso do trabalho na factura portuária global. Não estou, ainda, a escrever em chinês e por este motivo acrescento que nos portos não há trabalhadores convocados, mas sim colocados. Não existem serviços de convocação, mas de colocação. Os estivadores são colocados em determinado navio, ou serviço portuário que decorra dentro dos 40 quilómetros da área de jurisdição do porto de Lisboa (é agora este o exemplo), no caso dos trabalhadores da empresa de trabalho portuário (pool), ou nas centenas de metros concessionados à empresa de estiva, no que se refere aos trabalhadores permanentes.
É com muita apreensão que se percebe, nos detalhes, o dedo do diabo, cena funesta. A utilização incorrecta do termo convocação em detrimento de colocação faz emergir o cheiro das antigas casas de conto onde uma multidão de homens de braço no ar, precários, aguardava a escolha do capataz para ganhar o dia. E desses, felizes eram os convocados, os únicos com direito a salário diário. A casa de conto de hoje, presente mais que envenenado, passou desse espaço para o telemóvel e o que se ganha em tempo, perde-se em contacto físico, tangível. A troca de olhares, galhofa e informação que sempre foi decisiva na hora em que o trabalhador tem que se mostrar forte, unido, solidário, fraterno. Parece-vos mal, palavra a palavra desactualizada? Parece-vos conversa de passar o tempo? Não é. O universo da estiva é que, de uma forma geral, global, se constitui num exemplo, um caso estudo. Quanto mais silenciado menos "contagioso" se torna. É isto? Sim. Quantos e onde são/estão os trabalhadores sindicalizados a 100% com tudo o que isto implica? Incluindo discordâncias, dissonâncias, mas, acima disto que é vivo e faz parte, o outro lado: o da consciência de classe que equilibra, como sempre equilibrou, o Trabalho. E se disser a vida, não exagero.
Curiosamente, ou nem por isso, toda esta luta, toda esta vida anda arredada dos jornais e televisões e dos blogs e dos twitters e dos Facebooks que por sua vez andam, os que andam, do lado de fora da vida, desta, das cidades portuguesas servidas por portos, porque este é o caso, porque é este o exemplo. E por conta do que pode a comunicação social, quantos não alinharam no discurso de Sousa Tavares contra os contentores em Lisboa? E quem foram os que perceberam, ou conseguiram pensar além do umbigo, no impacto que semelhante desejo de uma cidade limpa do que é a vida, bruta, talvez feia (não o entendo assim), mas vida a sério com conflito, como é a vida tão imperfeita como todos somos imperfeitos, dizia, o embate que semelhante ideia higiénica poderia ter nas pessoas do Trabalho, deste trabalho de força física, que não é ou será 2.0; Trabalho que anima a cidade e a ergue, corpo imperfeito. Uma cidade não é um jardim à beira rio plantado. Atapetado, perfumado. A riqueza de Lisboa, pois a ela volto, é a minha terra, inclui de tudo e muito mas sobretudo o rio que não serve apenas para ver passar, mas sobretudo para ser útil a todos os que dele dependem. E são muitos. E mesmo que fossem poucos. É esta a Ode Triunfal "Eia! eia! eia! eia-hô-ô-ô!/Nem sei que existo para dentro. Giro, rodeio, engenho-me./Engatam-me em todos os comboios./Içam-me em todos os cais./Giro dentro das hélices de todos os navios./Eia! eia-hô! eia!/Eia! sou o calor mecânico e a electricidade!", escrevia o senhor e sobre o Trabalho, não foi apenas estilo, aquilo nasceu-lhe de onde? Do que viu no Trabalho, sujo, das pessoas sujas, "Limpa o suor com o braço, trabalhador descontente./A luz do sol abafa o silêncio das esferas." Uma terra sem trabalho respeitado não é uma terra, mas apenas morte. Lenta. E foi sobre isto que escrevi.
Em cima, vimeo stop motion realizado a partir de imagens recolhidas no Porto de Antuérpia, Bélgica. Com um especial e sentido agradecimento ao Sindicato dos Estivadores cuja designação é mais precisa e longa, mas é assim que, incorrecta, gosto de dizer. A minha primeira casa para este caso sempre foi e será esta que leva o meu apelido: Rolo Duarte, Fátima em f,world. Aqui, jugular, casa de contos, é onde me sinto, igualmente bem, porque tenho a facilidade de me sentir agradecida, e bem, ora bem.


Vou escrever um poemado danado, vou tentar rimar sem olhar mas se não bater certo, paciência, não é? Estava aqui a ver uma mulher nervosa a falar em nome da administração da CP. Uma arengada, meu Deus, pensei, também vais ter Natal mas sem a sombra do teu despedimento a pairar-te na mona. Gosto muito de ti Natal, sempre te curti bués. Em miúda, que ainda sou, pensava que o Natal era uma cena fabulosa com segredos, embrulhos escondidos que naturalmente procurava, encontrava, abria e fechava. E ria. Gosto do Natal, da confusão das pessoas, nas ruas, nos centros comerciais, aliás, gosto de centros comerciais quase tanto como gosto do vento no meu proeminente nariz judeu, árabe, turco Gosto do bacalhau, broas e mulheres boas. Dessas que fazem bem à vista e das outras. Eh, êh, êh pá, gosto de toda a gente excepto dos cretinos Não. No Natal também gosto de cretinos para os ver mais perto e olhar, observar como fazia em miúda com as prendas Fim do Poema Sabiam que há uma notável diferença entre dizer presente e prenda. Presente refere-se à prenda que se dá com o significado mesmo da palavra: Presente, pá. Prenda é outra coisa. Adiante. Gosto de padres da América Latina, para aí quase todos os que defendem os deserdados. Também partilho desta mesma militância, a minha única militância, de resto. Gosto das famílias felizes e das tensas com aqueles sacos de roupa suja por lavar, mas todos sentados a pensar: "mas quando é que isto acaba?" e a gostar do vinho, das fatias paridas. Gosto tanto. Sou eu quem as faço, que vou ali fazer. Agora, gosto muito do Zeca a cantar o coiso dos simples. Gosto das pessoas simples, complexas, convexas também há; gosto de crianças mas não gosto da expressão: "gosto de crianças" como se fosse doce ou salgado, gosto de chocolate negro, dos pretos, dos azuis, dos chineses mas nunca como gosta o António Costa. Gosto muito do Jorge Lima Barreto, entram os anjos com quem muito embirro. Gosto do baby Jesus e da história dele, coitadinho, despidinho e aquecido pela vaca e mais o burro, pfuuuu pfuuuu. Sobre vacas, estamos mais que conversados. Gosto deste magnífico texto parcialmente reproduzido, olhar para cima, agradecida. São palavras do Pacheco Pereira que de quando em vez escreve inanidades sem desculpa, e outras salta lá do canto e é um homem. Agora, nestes últimos tempos, gozem, gozem, as melhores palavras da oposição a este bando de pessoas liberais ia escrever animais, são dele. São. São. Nem por acaso, havia que citar o Vítor Rua num fabuloso momento Rua, mas não o recordo, no que faço muito mal. Rua? Adiante. Tem a palavra o senhor: um rouxinol na ordem zero. Gosto desta fotografia do Lima Barreto a que acrescentei uns óculos. É igual a Brecht. Têm, no céu, lá nisso, a mesma exacta dimensão. Eram danados para a diferença. Gosto disso e da igualdade. De direitos e oportunidades e quando se trata das pessoas do trabalho, não brinco, não é para brincar. Gosto de ver os miúdos a aprender que todos aprendem. Gosto de colheres de mel e geleia de marmelo. Gosto de ler no Natal, para variar, que giro é dizer gosto de ler no Natal. Gosto do James Stewart e do Natal dos Hospitais nem se fala. Papo tudo. Gosto de circo com moderação, lamento a sorte dos animais? Se forem alimentados a pão-de-ló, não me causa dano. Gosto dos teclados internacionais e das greves gerais. Apoio os grevistas dos tempos que correm. Gosto de saber, perguntar, emendar muito no Natal. Esta frase tem um piadão. Gosto de ajudar velhinhas a atravessar à força, gosto de patifarias no Natal que não faz mal. Gosto de santinhos, pagelas, panelas, tachos e frigideiras e cozinhas no Natal. Gosto de abrir a porta e ver pessoas bem vestidas. Deixa-me cá ver se falta aqui alguma lembrança perdida. Falta. No caso presente são várias que se foram. Feliz Natal. Hei-de regressar para a porradaria, para a escrita e imagem e trolaró. Gosto desta ideia do tempo que se vai e vem. Gosto dos fracos das canetas? Depende. No Natal tenho a piedade dentro de mim, a ponta da piedade todinha que me circula nas veias. Gosto do mainstream? Se for para perceber do que são feitas as pessoas, gosto. Gosto de ti, minha rica prenda que aí vens e desta que já aqui está. A dormir na véspera de Natal.
O social-democrata Abreu Amorim chegou-se à frente e afinfou na hermenêutica: "as declarações do senhor primeiro-ministro fazem sempre sentido", palavras vociferadas com aquele trejeito de boca metida dentro daquele rosto preso ao corpo. Mise en abyme, assim o vejo. A propaganda pode ter este efeito coreano sobre quem se lhe dedica, alma e o resto, enfim, o que acima descrevi. Neste particular, o que se topa no social-democrata Amorim, ainda assim um jovem a caminho de lugar onde, pois marcha tudo a preceito com a arrogância dele, mas não só. Pesporrência de direita? Esquerda? Volver, tanto faz. Basta fazer dos outros burros de carga, cambada de labregos a quem não se deve dar importância. Hum. Nunca partilhei desta fraca forma de vida. O Abreu? Já era importante antes de o ser. Mal saltou daqui para ali -- a televisão -- e de lá para cá, ui, é o que se tem visto. Vem esta lengalenga a propósito do que o tipo disse sobre o que a retroescavadeira de Relvas desenterrou: uma entrevista de Helena André a um jornalista mau de escrita da Fox News. Perguntei, para perceber, se aquilo seria verdadeiro, se havia o resto daquela treta, tal era o bla bla bla sem tino a rematar com Portugal, país de sol, acolhedor e o caracas. Tal e qual descrito desta forma canhestra. O link para a coisa era então vero, mas basto nhonhas e dei comigo a pensar no paradeiro de Helena. Ei-la. Aqui fica até que chegue melhor tempo que varra o temporal onde o Amorim diz que sim com aquela fabulosa cabeça que Deus lhe deu. Amen para o rapaz, mas sobretudo para mim e para os meus e até para vocês, parvos, inteligentes, diligentes, trabalhadores, caçadores e pessoas humanas. Tende piedade de nós. Agora, imagine-se que eu era crente. Hum?


E tudo se passa na SIC do "Dilema" de Maya, consultório de análise selvagem e aconselhamento desregulado, sem acesso bloqueado; da "Querida Júlia" com Cláudio Ramos, desgraçado, sem acesso bloqueado; do militante número 1 do PSD que corre, coitado? Ora, sem acesso bloqueado, corre este clip. Viram a peça de criatividade e manipulação artístico-jornalística, ófecórce. E então? Alguém tuge? Ninguém muge? Pobre gado que engole o que a privada lhe dá. Come e cala, como compete apenas a alguns. Claro.
este clipe pertence ao documentário de Bruno Natal, "Dia voa" sobre Chico Buarque. Aqui, o assunto quase banal da violência, ou antes, do impacto dos comentários violentos, intrusivos associados sobretudo ao anonimato que a Net abriga e embala, obriga o artista a uma brutal deslocação do sítio onde se imaginava para esse outro espaço sombrio onde o impensável se torna visível até ao momento em que a tensão no riso, voz e atitude física de Chico dão lugar a uma franca e liberta gargalhada que nos liberta do sítio onde começámos por estar. O Chico de quem falam é afinal outro Chico.
De cada vez que me sinto atacada, invadida por comentários e/ou mailes que me insultam a inteligência e a sensibilidade que conscientemente se alimenta do conflito comigo, em primeiro lugar e só depois com os outros, dizia que também eu não sou o que imaginam e os que me servem de modelo, alvos do meu sarcasmo, ironia de lâmina fina, não são mais que a ínfima parte do que consigo alcançar.
*Pensar. Não parar de ler e pensar.

“Não há nenhum movimento ou organização política nas sociedades modernas com uma perenidade superior aos sindicatos. O sindicalismo vem de evoluções da sociedade, do conceito medieval de fraternidade, das profissões.”
“Em Portugal a palavra sindicato é utilizada muito tarde. Primeiro são as associações de classe.”
“O direito do trabalho foi aprisionado pelos que o combatem. Muitos dos que argumentam contra os privilégios das indemnizações ou proteções do emprego são os mesmos que os usam como cláusulas fundamentais nos seus contratos de trabalho na parte das rescisões.”
“O ano passado, em números aproximados, realizaram-se 60 mil greves na China. Há uma dinâmica no mundo do trabalho.”
“Hoje, os seres humanos não se tornaram mais individualistas [...] mas o individualismo está institucionalizado. Até por factores tecnológicos. Diminuíram a interacção humana e isso dificulta o sindicalismo, que precisa da construção de identidades colectivas para afirmar reivindicações.”
“Os trabalhadores foram retirados do espaço onde se produz a discussão. O individualismo foi uma forma requintada de distanciar o trabalhador do valor do trabalho.”
“O nosso problema é o da operacionalização do trabalho. Venderam-se teorias demolidoras do trabalho, chamando-lhe não-trabalho. No não-trabalho está incluído o descanso, um direito. Sem valorizar um, não se valoriza o outro.”
“Diz-se que desapareceu o taylorismo, qual quê! As redacções dos jornais e televisões são cadeias de concepção taylorista e fordista à exaustão.”
“A violência no trabalho será preocupante. Esta medida de aumentar meia hora de trabalho, que muita gente não acha grave, é trabalho forçado. [...] Uma violação dos mecanismos da retribuição do trabalho.”
“Todas as grandes lutas pelos direitos humanos tiveram a discussão do tempo, o bem social mais importante depois da saúde.”
“Quando o tempo for imposto unilateralmente não há nada a negociar. A seguir ao tempo vai-se a sobrevivência.”
“[a greve] não pode deixar de ser usada. A simbologia é absoluta em relação ao que está em jogo. A greve é o marco-limite.”
“Querem convecer-nos que todos os actos da nossa intervenção como seres humanos são contabilísticos.”
“[...] os trabalhadores tunisinos andavam a levar porrada há uns bons anos com uma repressão violenta, cada vez mais isolados nas zonas dos fosfatos e das actividades industriais, e mantiveram a chama e a luta. Foi a chama que ajudou a despoletar outros movimentos.”
“Os sindicatos que perderem lideranças e ideias, vão ressurgir.”
“Esta gente considera o trabalho subsídio de subsistência, e o Presidente da República com o discurso do pastor fez o mesmo. Os economistas estão formatados nestas regras de retrocesso.”
“A direita está a ganhar porque a esquerda está a perder.”
“Temos de pôr as pessoas a falar umas com as outras e não deixar que as pessoas sejam formatadas pela televisão das notícias descartáveis [...] As pessoas quando fogem da vida deixam de controlar a sua vida. Fogem da vida e esse é o perigo. Refugiam-se no rancor, no criticismo, nas imagens conservadoras do pastor.”
Cópia. Carvalho da Silva, Revista Única, 26 de Novembro de 2011.
Quem está vivo, sempre aparece. Ora viva a greve e esta em particular, a greve geral do dia 24 de Novembro. De facto, a greve não é filha de um Deus menor a necessitar de “sindicância” com números fiéis, amigos caninos, que existem como existem. Se a questão se esgotasse no descobrir o Wally na verdade verdadeira desta iniciativa, ora, ora talvez fosse do interesse nacional a criação de um fantástico protocolo, muito, mas mesmo muito aplicável, com manual de instruções em português, claro, e já agora aprovado de livre e espontânea vontade por todas as partes porque, é bom não esquecer, no caso dos trabalhadores do sector público, o governo e o patrão acumulam funções no mais perfeito sincronismo.
Ao que interessa: o que antecede a greve é o que a justifica: o reconhecimento pelos próprios sindicatos de que toda a argumentação e iniciativas falharam. E é desta falha, da perda que se tem de compreender o ganho. O ritmo desvairado das mudanças a que assistimos exige que o passo se adapte à dança. Se antes tudo falhou, a responsabilidade tanto pode ser dos sindicatos que não foram suficientemente persuasivos, ou de quem está do lado de lá da trincheira (é este o cenário que evoca violência porque disto mesmo se trata) que encena uma espécie de diálogo social quando já tudo foi decidido. Se falar em política do facto consumado não estou a doirar esta pílula tramada. Os tempos não estão para prosas sem soluções. Rima com corações? Sobretudo com esta lista de razões: • o governo tem a maioria absoluta e a ninguém escapa a política do quero, posso e mando (obrigada Carvalho da Silva por esta expressão que não está gasta); • a situação de emergência nacional justifica todos os meios para atingir um bom fim? Sim. Quem duvida que é neste ponto que estamos, que estes são os dias que vivemos?; • a enxurrada de medidas emergentes, socialmente devastadoras têm baralhado qualquer processo negocial, ainda que do lado dos sindicatos existam especialistas; • a gravidade das rígidas soluções apresentadas pelo governo é impeditiva, ou antes, visa a impossibilidade; • o elo sindical enfraquece e apenas pode responder com a última das armas. E voltar a responder. E...
Em 37 anos de democracia quantas greves gerais foram convocadas? Responde the weakest link: 6. Onde paira então o abuso do uso, o dá cá aquela palha, fabulosa expressão a necessitar de demonstração por quem dela se serviu e para quê? Com que fim? Que formas de luta legais existem para além da greve com tudo o que se sabe sobre a greve? (descontar o trava-língua, por favor) São perguntas cuja resposta interessa mais do que composição fabulosa.
Também na perspectiva do governo, este não seria o melhor momento para formas universais de luta. Pudera. Como vos compreendo, Correia, Relvas & Passos. Quem duvida que, neste momento, a “equidade” (ele há palavras tão feias de dizer em voz alta ou baixa, tanto faz) vai atingir o sector público com a mais extraordinária conquista social que há décadas lhe tem sido negada: a virtude do vício do privado: poder ser despedido.
Breve: o que determina a diferença entre o sucesso do orgasmo e a pobreza da pífia ejaculação precoce, ou seja, os números, não nos atira para terreno minado? Claro que sim. São alhos e bugalhos a emergir das diferenças entre quem decreta e mobiliza para a greve e os que desmobilizam, coagem, ameçam, condicionam, de forma mais ou menos visível, esse mesmo direito. Sindicar por sindicar? Sindique-se também a liberdade de expressão, conforme muito bem lembrou Pacheco Pereira no mais recente Quadratura do Círculo. Por mim, troco a fábula pela história do atento Pedro, na floresta dos sons, com o lobo à espreita e cujo final simbolicamente nos indica que o caminho é feito a andar. Com a coragem que o momento exige.
ps. nem de propósito, dou pela data de 25 de Novembro, no vimeo em que os estivadores do porto de Lisboa e Aveiro (caso único e exemplar de trabalhadores do sector privado, sindicalizados a 100% e que vivem a sua vida sindical sem integrar alguma das duas centrais sindicais portuguesas) são protagonistas e a quem agradeço a disponibilidade. Este "erro" marcou a luta para o dia em que escrevo e, no fundo, para todos os que se lhe seguirem. Tal é a necessidade que aguça o engenho do ladino inconsciente.

Se as pessoas fossem queijos, Vasco Pulido Valente seria amanteigado marca continente, digo, muitíssimo português. Breve: até eu que o julgava curado, inteiriçado dos de cortar com serrote, me desfiz em lágrimas ao abrir a primeira destas pastas de O Arquivo* e o vi sentado em cima da secretária, cigarro entre dedos, apijamado. Um anjo branco a contradizer Inês Pedrosa que em 1989 o descrevia estranhamente assim como assim “de fato-de-treino azul”, hã? (observe-se o documento acima reproduzido).
Enquanto remexo nos recortes, páginas e páginas de entrevistas, opiniões de Vicente Jorge Silva, prosa rococó pardais ao ninho de Eça Venâncio, claro: “objurga Pulido”e tal e tal que mais faço senão escaqueirar-me a rir. A imprensa gosta do Vasco que é bom companheiro e se presta a tudo e par de botas. Escreve um livro? Sai bife; vai escrever um livro? Entrevista; faz 52 anos e tungas; 60? Anda Valente e aos actuais 70? Olha, idem, idem, Lomba, Pedro engrupido por conta própria, culpa dele dada à estampa no Público do passado dia x, y, z.
Giro, giro é ver o que cada um consegue apanhar do chão que Pulido pisa (ler em voz alta: pulido-pisa) pois os escritos são estranhamente venerandos, atentos e obrigados, excepto os que escapam a este desígnio que pode muito bem passar por miúfa das origens aristocratas do senhor. Que me dizem?
Em 1992, Francisco Belard conclui no Expresso: “Levei tempo a perceber que falava exactamente disso”. Disso, o quê, perguntam-me os laços do cache-cœur. Não interessa. O que importa é o tom, a perplexidade, a repetição das mesmíssimas ideias feitas sobre o filósofo historiador que não frequentava o Vá-Vá embora fosse ao Vá-Vá e daí, quem sabe, a amizade com Fernando Lopes e a meia desfeita avec António-Pedro Vasconcelos (entrada patrocinada por Jean-Luc Godard). Enfim. O mais interessante e independente olhar, de todos os que para aqui tenho espalhados, está assinado pelo João Gobern (Visão, 20 de Julho de 1995) que repesca palavras de um amigo da infância Pulido que o retrata com actual precisão: “menino malcriado, narcísico, antipático, que fazia gala em chocar, egoísta e com tendência para falar sempre na primeira pessoa” e ainda afinfa com Maria Teresa Horta, mulher poema, camarada de Abril que também o topa e quem não imagina este Vasco que atire a primeira pedra: “menino gordinho de nove anos, (...) que já na altura era insuportável – partia-nos os brinquedos todos e depois dizia que não tinha sido ele, era hipócrita, grosseirão, que chegava, causava os distúrbios e atirava as culpas para os outros.” Isto tem muita piada.
O problema de escrever nunca foi, em meu entender, a erudição que execro, esse vomitar de nomes que ajuda a empurrar a coisa escrita para baixo, à semelhança do que me sucedia com as medonhas favas, mamutes verdes acompanhados por voz amiga: come-me isso com pão, miúda. Ah! Escrever é menos dramático e esforçado e apenas neste caso, também eu gosto do Vasco que o faz simples com a finalidade de informar, incomodar porque saber, sabe muito e se lhe falta mangar, em primeiro com as farroncas dele e só depois, atençãozinha, com as dos outros, é porque não ficou em Oxford. Aliás, por que não ficou ele por lá? Volto à papelada e não encontro pergunta nem resposta: então, Vasco, aquilo em Oxford é que era de estalo e voltaste porquê? Bom. Ninguém é perfeito. E assim chego, finalmente, à vez do wiki Lomba (sem Net és uma nódoa, não és? Que raio de idiotice ignorante é aquela do " Vasco já não é do tempo das tertúlias"? Ai, ai) deitado aos pés do Senhor na já referida efeméride dos 70 anos, ufa!: “E o contacto com aqueles sobre que [sic] se escreve?”, pergunta o puto. A resposta é de lana-caprina e previsível, mas vale a pena fechar isto com a resposta àquilo: “Não vejo por que é que um colunista deva ser capado politicamente.” De facto, companheiro Vasco, a verdade é que ainda não foi desta que te entrevistaram. Quem quer saber o que tu pensas, se todos te procuram para se verem ao espelho?
*O Arquivo é o nome que o Rolo Duarte deu às centenas de fotografias e recortes que coleccionou e arrumou em pastas numeradas. Memória viva que habita as estantes da Maria João Rolo Duarte, magnífica forma de perceber o mundo português. A feirinha cabisbaixa ou o seu oposto.

onde vai este português / vão logo mais dois ou três / Portugal "é uma coisa genital" / escreveu António / mas era sobre o Brasil, claro / "seu merecimento é grande" / continuava o poema / que me lembre tinha ainda japonês / mas dava e dá bem para este português / tão estranho / antigo / pequenino / diminuto / feio / tem qualquer coisa de bruto / como a casinha portuguesa / com certeza / que nunca foi ou será chinesa / ainda havemos de o ouvir / falar sobre os benefícios / de atear lume no chão / com dois paus e uma pedra / para nos protegermos / dos ventos frios de outros lados / como outrora
Em segundo plano, Paulo, olha de soslaio para si mesmo. A luz é naturalmente de Caravaggio, and I quote: "um dia, mais dia menos dia, é a tua vez"

Ia escrever-te carta
mas achei muito melhor
rezar uma bela oração
em teu favor
Oraçãozinha singela
mais ou menos neste modo
coladinho na pagela
bué de cómodo
meu puto fuinha
dos olhos míopes
nestas coisas, picuinha
vou já rimar com etíopes
que são tipos inocentes
à margem dos teus dislates
coitadinhos dos carentes
como tu, aos biscates
E agora que estou farta
de escrever tudo a rimar
quero que tenhas vergonha
e vás arrumar
o quarto desarrumado
a cozinha e o corredor
o cabelinho aparado
meu amor
Mas que raio passa na cabeça deste miúdo para se me andar a escrever cartas e postais, telegramas e demais palavras cómicas, como as que acima constam da fotografia, e que passo a copiar (gosto tanto destes trabalhinhos de mãos): "(...)E, aqui entre nós, V. é o homem ideal para adaptarmos ao cinema livros como 'A Amante Holandesa' ou, melhor ainda, 'La coca'. (...) Se V. quiser, eu ajudo no argumento." Então, não, pois se o puto, sem saber ler, já escreve no Expresso, página ímpar, coluna da direita e tal e tal, o que poderemos estranhar? Nada. Houve quem me avisasse, as usual, para não dar importância a quem a não tem. Sucede que discordo, não me ofende a importância de ninguém. Gosto muito de observar a influência dos raios gama no crescimento de todos os líquenes, especialmente estes que vêm de onde surgem, não interessa, e que facilmente ocupam espaço de monta. Bizarrias. Abro pastinhas e vou atirando lá para dentro os fenómenos do Entroncamento que não tem culpa alguma nem deveria ser para aqui chamado. Este país é fácil, mas apenas para alguns. Olá, Henrique, se quiseres, eu ajudo-te, ainda mais, no tratamento dessa moléstia pequenina a que se chama, em português do O'Neill: a vidinha. Beijinhos, muitos, deixei-te arroz de tomate no frigorífico e fiambre com fartura.
Brilhos no meu olhar: Saramago antes de Saramago já era Saramago em “Clarabóia”/ “Claraboia”. Desconhecia o nome de Dulce Maria Cardoso até chegar a casa e ler sem parar. Escreve, Dulce escreve a respirar, com uma perna às costas, deitada, recostada, direita e a direito: “O Retorno”, não tem crítica que se lhe faça. Imperfeitinho, desinquieto, nem uma só linha de renda de bilros. Daí a sua força. Deus e os demos te dêem ainda mais força, senhora Dulce. Quem diz Dulce, liga “É na Terra e não na Lua” de Gonçalo Tocha e agarra na Orchestrutopica para impressionar os que estranham porque lhes dá trabalho reconhecer. Olha, estão tanto no seu inalienável direito que me dá pena. Prontos?
Cada vez me interessa menos a opinião dos que escrevem sobre livros, os das recensões, coitados que a literatura é cousa outra. Mas vai que os leio porque tenho tempo e sempre foi do meu feitio ler o que me vem parar à mão. Rio muito e concordo com quem me fala de perder tempo, segundos de um olhar travesso para pessoas que não merecem coisa alguma. Sucede que nunca temi a ausência de ideias e dou por mim, congelada, a olhar para palavras disparatadas, arrogantes, infectadas pelo mal, aqui sim, muito português desta dimensão canocha. Tudo primos e primas incluindo os corpos que se nos apresentam estranhos. E aqui é que está a graça porque a cultura, resistente a cataclismos Viegas, transcende esta querida e cómica familória até ao momento em que o círculo fechado se abre para dar lugar ao pensamento. Há esperança? Sim.
Passemos à morte do Ministério da Cultura que apenas incomodou alguns durante pouco tempo quando deveria incomodar muitos durante o tempo que durar esta grosseria. Imagine-se, por um bocadito, que Paulo Portas passava a secretário de estado. Não faltaria quem lhe chorasse tal sorte. Esta sequência pertence a António Pinto Ribeiro, não exactamente nos meus termos arrevezados, mas à maneira e cito: O fim do Ministério da Cultura foi um rude golpe, porque atingiu a cultura na sua verdadeira dimensão de representatividade e de parceria da vida na comunidade. Relegada para uma secretaria executiva de um processo de emagrecimento dos orçamentos, sem possibilidade de representatividade simbólica nacional e internacional, foi a própria actividade cultural que foi desconsiderada e diminuída na sua expressão e necessidade. (...) Cultura não é um livro ou um espectáculo e a relação prática destes com os leitores, actuando sobre uma biografia, uma economia doméstica (...) Triste cultura, largo-te aqui no chão e agarro antes no adjectivo cultural para ver o que daqui sai, eu e tu e todos os actores do tal cultural, como bem indica o mesmo António Pinto Ribeiro. Ah, meu rico ponto por ponto: Contudo, e ao contrário do que se quer fazer crer, quanto mais são os actores deste cultural, tanto mais é necessário que o Estado esteja presente; (...) não se pode abdicar do Estado como instância que garante a diversidade e protecção das escalas de recepção e produção minoritárias. Esta não abdicação é claramente assente na traidção europeia de sustentação da cultura. E por aqui continuaria sem trabalho, outro, que não fora o de recitar o oásis no meio do quase deserto onde estou. “Onde estás”.
Breve: ou se percebe de onde nasce o populismo que anima as convicções de Viegas, entre os que agora nos governam, quando garante em delírio de previsão que daqui a dez anos ninguém saberá de Mozart, pobres diabos, da mesma forma que diz e desdiz e nada diz para falar em nome de todos nós ou nobre povo, nação doente que não atinas com a maleita e estás completamente feita num tremoço seco. Pois então: seja isto o que isto for, já isto desceu tão abaixo de sobrevivência que não será possível que o deserto ainda cresça mais.
Agradeço o magnífico texto de reflexão de António Pinto Ribeiro no suplemento Ípsilon de 28 de Outubro de 2011.




Sento-me em frente do televisor e deixo-me ficar horas a ouvir, a ver, a reparar, a observar. Quando a fome aperta, levanto-me e apanho-os a beber água nos charcos, a falar. Falam muito, têm inúmeras ideias que esqueço. Há um momento preciso em que dissocio e os vejo tal e qual como aqui aparecem. Deformados e pesadélicos.


áɹɐp oɯoɔ áp oʇuɐʇ
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Aníbal demarca-se de Pedro que se demarca de Pedro que se demarca de Manuela que se demarca de Pedro de quem Rui se demarca. Vem Vasco que se demarca de Aníbal que se demarcara de Pedro que se demarca de quem? Dele e de Aníbal que se demarca da desgraça que atingiu os portugueses que não se conseguem demarcar, ainda, de Aníbal, Pedro, Manuela, Rui ou Vasco*. Tanto deu como dá, tanto dá como dará
*Pulido Valente, "pà" |
Recente classe média, ainda há pouco andavas no campo, as mãos grosseiras, ainda ontem vinhas do baixo que mais baixo havia em Portugal a preto e branco. Uma porcaria de classe atirada para o canto do preconceito, carregada de preconceitos como comidinha para a boca e a cada família remediada que é este o teu passado recente, havia um pobrezinho à porta, ainda mais triste, domesticado também, a quem se entregava a carcaça rija com o sentimento do dever cumprido, tínhamos de ser uns para os outros. A herança do homem das botas é ainda mais dura: perdura. Vê-se nas linhas dos rostos de quem passa, na forma como uns olham para os outros e para todos, de uma forma geral. Lê-se nos livros, apanha-se nos jornais, na pintura, nos filmes. Mesmo os intelectuais, mesmo os aristocratas, até os das profissões liberais têm consigo a pequenez imposta pelo país onde nasceram. Agora que está na moda salvar Salazar, como em tempos abriam croissanterias em cada esquina, lado a lado, convém lembrar que Portugal era, há menos anos que os que levo de vida, um país miserável, nojento, fechado, cor de burro quando foge e quantos foram os que fugiram, a salto, para escapar à guerra? Muitos. Quantos foram os intelectuais obrigados a calar as ideias, a escrever direito por linhas tortas? Quantos livros proibidos? Quantos presos por pensar diferente, vamos ser verdadeiros, apenas porque pensavam? Quantos filmes não se viam e que todos, por ordem de uns poucos, não tinham direito a ver. Para aqui fechados neste canto, pobre classe média é daqui que tu vens. É esta a tua origem, pobre origem. Não eram os pobres mais capazes que estudavam e iam, por assim dizer, longe, mas apenas os que o regime seleccionava, obedientes, os filhos da nação timorata que se nos meteu dentro da pele. Entranhada a vergonha, o medo do ridículo no corpo hirto das mulheres de classe média, frias, frígidas, esta infelicidade ainda se vê em tanta pessoa jovem. A vida das mulheres portuguesas, por exemplo, é de ontem com o passaporte onde o nome do marido se sobrepunha. Aqui, tudo ainda vem daqui. Pouco ou quase nada está livre da culpa que encolheu os portugueses, durante quantos anos? Quantos anos para se livrarem disto tudo? A classe média portuguesa, novamente apontada a dedo, saiu para a rua, confusa, sem perceber, ainda, a quantas anda. Palavras escritas em cartazes desenhados à mão onde se descobre, afinal, a mão dos dedos grossos que trabalhava o campo. A mão obediente, reverente e obrigada que assinava por baixo a garantir que nunca fora do contra. É esta a tua origem, classe média e só pelo facto de saíres à rua que durante tantos anos não te pertenceu, tens o meu respeito.
Untitled from Fatima Rolo Duarte on Vimeo.
Quando via o Mário Alberto confundia-o com o Artur Semedo e se me calhava ver este pensava estar na presença do outro. Era miúda e pareciam-me os dois iguais. De certa forma, sim, mas agora, por que não? Ambos tinham aquela pinta de quem anda na vida, na boa como se não usa mais. Eram tramados, mulherengos, dados à graça e por vezes para o lado onde dormiam pior. Tinham ganas. Agora o Mário Alberto. Isto hoje, Deus me perdoe, pá, mas andas nas limpezas para quê? Enfim. Sobre Mário Alberto vão escrever os velhos, não que seja exactamente este o meu caso, mas não é para nova que caminho. Que fique aqui registada a espantosa fotografia afanada ao Público onde se vê o senhor no meio dos seus pertences. Ele e as coisas dele. As paredes são quadros, as mesas livros, papéis, coisas, coisas da vida. Se encontrares por aí o meu pai, pergunta-lhe se ainda fuma. Se o meu irmão te for apresentado, não me lembro se o conhecias ou se acaso no céu existe memória para estas coisas, é uma pergunta? Diz a esse que eu sei que ele sabe que eu sei. O que sendo verdade é mais verdade se acrescentar que a minha mãe é quem conta histórias tuas. Oh. Oh.
Mário Alberto muitíssimo bem apanhado por David Clifford
graças ao meu iPod Touch ando sempre a gravar imagens em todo o lado. A facilidade com que o faço é-me muito cara mas a felicidade de poder realizar obra de uma forma tão maneira, olhe lá, é a herança de Steve Jobs. Agradecida.
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98 anos é uma idade muito boa para fazer filmes ou rir do mal dos outros. Não era o seu caso. No dia 15 de Setembro passou-me o seu dia, mais vale tarde que nunca. O senhor está constipado, adoeceu de repente, porque não teve cuidado, porque foi imprevidente? Meu amigo João dos Santos, Professor se soubesse a falta que aqui nos faz, raios, voltava desse sítio branco onde vive para nos acudir e contar histórias. Com a sua licença, ora, com a tua licença meu mais querido João vou copiar à mão esta da sua vida: «Nasci num lugarzinho simpático com um ajardinado e uma pequena igreja no meio -- a Igreja dos Anjos. (...) Da minha janela da Rua Maria via-se todo um espectáculo movimentado e colorido: de manhã, os rebanhos de cabrinhas e as manadas de vacas, que eram ali mesmo mungidas à vista do freguês. A mulher da fava-rica, o meu primeiro-almoço predilecto. O aguadeiro que cantava há há... para apregoar água do barril, que ia levar à gente pobre das travessas da Bica, do Forno e do Maldonado. A senhora do «ierre, ierre, erre, mexilhão» que explicava, pelo pregão, que mariscos só nos meses com «r». (...) Cá fora, na rua e através das tabernas e da «meia-porta» das mulheres da Rua da Amendoeira, víamos ou adivinhávamos espectáculos diversos e aliciantes. Nas conversas -- ao ar livre -- das varinas, que falavam mal quando se zangavam ou quando se alegravam, das conversas de janela à janela ou de porta à porta das senhoras vizinhas, ouvia-se tudo. Era o espectáculo da vida dos adultos. Aquele que interessava e interessa às crianças: perscrutar, descobrir, perceber como é que os adultos vivem e se relacionam.» Coisas do tempo dele que passou, passaram.
| Este pensar é muito actual: «Pela minha parte, acostumei-me a dizer que educar consiste em a pessoa se oferecer como modelo; que ser educado é a pessoa crescer e evoluir de maneira a constituir-se a si própria como modelo. Uma definição como qualquer outra. Tem talvez o mérito de desencadear uma quantidade de interrogações acerca dos modelos» |
Isabel Moreira
Miguel Vale de AlmeidaRogério da Costa Pereira
Rui Herbon
