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7 de fev de 2011

coleção folha: pascal, pensamentos

a coleção folha havia anunciado que publicaria pensamentos de pascal na antiga tradução de paulo m. oliveira. por alguma razão que desconheço e nem creio que venha ao caso, optou-se por uma outra tradução, cuja autoria é identificada na ficha catalográfica da obra em nome de isolina bresolin vianna, para a editora edipro, que licenciou seu copyrigth [sic] para a coleção "livros que mudaram o mundo".


a edição francesa adotada para a tradução é de 1671, em publicação a cargo de eric dubreucq. encontra-se disponível aqui.

esperar-se-ia de uma nova tradução de pascal - existem tantas traduções de seus pensamentos em português! - que pudesse talvez contribuir para a fortuna crítica do pensador em terra brasilis.

infelizmente, não parece ser este o caso. a bem da verdade, temo que essa tradução publicada pela coleção folha até constitua um retrocesso em relação às traduções anteriores dos pensamentos. digo "retrocesso", pois desde as primeiras linhas da obra é possível notar deficiências no domínio do francês que comprometem o entendimento até mesmo de coisas muito simples.

assim temos logo na primeira frase de "Contra a indiferença dos ateus":
Que ceux qui combattent la Religion apprennent au moins quelle elle est avant que de la combattre. 

isto é, ao pé da letra: "Que aqueles que combatem a Religião aprendam pelo menos o que ela é antes de combatê-la". um conselho sensato, diga-se de passagem, que se aplica não só à religião.

estranhamente temos na edição edipro/folha: "Aqueles que combatem a Religião mais fazem que ela siga avante do que a combatem".

ou S'ils parlaient de la sorte, ils combattraient à la vérité une de ses prétentions como "Se eles falassem da sorte, combateriam a verdade única de suas pretensões" (Se falassem dessa maneira, na verdade estariam combatendo uma de suas pretensões).

ou Ainsi notre premier intérêt et notre premier devoir est de nous éclaircir sur ce sujet d'où dépend toute notre conduite como "Assim, nosso primeiro interesse e nosso primeiro dever é nos esclarecer sobre que assunto deve depender toda nossa conduta" (...nos esclarecer sobre esse assunto, do qual depende toda nossa conduta).

não tenho o menor interesse em tripudiar ninguém, nem a menor intenção de lesar honras e ferir sensibilidades, e não estou disposta a ficar sendo acionada, processada etc. por editoras insatisfeitas com minhas críticas, que julgo serem bastante objetivas e fundamentadas. aqui estou falando de um livro em sua materialidade física e concreta, com sua respectiva identificação bibliográfica, posto à venda no mercado e com respaldo numa ampla campanha de divulgação comercial.

é extensa a lista de equívocos e erros presentes nessa edição, mas creio que bastam esses rápidos exemplos extraídos da primeira página da obra (p. 13). a meu ver, ilustram claramente a precariedade da tradução, seus erros palmares: entendo que a coleção folha pisou mais uma vez na bola oferecendo esse produto medíocre a seus leitores.
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27 de dez de 2010

coleção poeira

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Acho que a Coleção Folha "Livros que Mudaram o Mundo" devia mudar de nome e passar a se chamar Coleção Poeira.

Vendo o Cândido, ou o otimista, de Voltaire, que sai nesses dias, fiquei mais uma vez decepcionada.


A tradução de Voltaire feita por Jorge Silva foi publicada de início pela editora Atena em 1938, lá se vão mais de setenta anos.


Quem visita o nãogostodeplágio sabe que sou enérgica defensora da preservação de nosso patrimônio tradutório, o qual entre 1995 e 2009 andou sofrendo saques desenfreados. Mas daí até achar que o tempo parou e que desde os anos 1930-1940 não surgiram novas traduções quiçá mais meritórias vai uma grande distância.

Recapitulemos. Nos volumes lançados pela Coleção Poeira, temos:
  • um descarado plágio de uma antiquésima tradução lusitana de 1908: Darwin, A origem das espécies, ainda por cima feita por interposição do francês e crivada de erros grotescos;
  • um lançamento francamente enganoso: o livro de Gabriel Deville, O capital de Karl Marx, resumido e acompanhado de um estudo sobre o socialismo científico, apresentado como se fosse o próprio O capital de Marx em edição condensada, e como se o Estudo sobre o socialismo científico fosse de sua autoria, também em vetusta tradução; 
  • uma edição de Descartes que dá vontade de chorar de tão ruinzinha que é; 
e nada menos que cinco títulos - a rigor seis, pois o volume de Maquiavel agrupa duas obras - com encanecidas traduções da antiga Atena (que fechou nos anos 1960), desde então exaustivamente republicadas por várias editoras - Ediouro, Abril Cultural, Nova Cultural, Agir, Nova Fronteira, Escala, Cultura Brasileira, Livraria Exposição do Livro, Hemus, Edipro - e que até acho que talvez já estejam em domínio público:

  • Maquiavel, O príncipe, tradução de Lívio Xavier, 1933
  • Maquiavel, Escritos políticos, tradução de Lívio Xavier, 1940 
  • Platão, A república, tradução de Albertino Pinheiro, s/d (em 1950 já era a 4a. ed.)
  • Thomas Morus, Utopia, tradução de Luís de Andrade, 1937
  • Aristóteles, A política, tradução de Nestor Silveira Chaves, 1944
  • Voltaire, Cândido ou o otimista, tradução de Jorge Silva, 1938

A Coleção Poeira tinha anunciado que a obra de Pascal, Pensamentos, sairia na tradução de Paulo M. Oliveira, também do baú de nossas avós. Mas aparentemente mudou de ideia, pois substituiu em seu site o nome de Paulo Oliveira pelo de outro tradutor. Apenas notei a troca de nomes, mas não cheguei a comprar o exemplar nessa outra tradução.


De mais a mais, A república de Platão e A política de Aristóteles são traduções do francês um tanto, digamos, superadas, e que em minha opinião têm valor basicamente histórico.


Não entendi muito bem a razão para reeditar esses títulos, em tradução seja espúria, medíocre ou ultrapassada, em tiragens tão grandes e com tanto aparato de marketing.
  • sobre darwin, a origem das espécies, veja aqui
  • sobre gabriel deville, o capital de karl marx, veja aqui
  • sobre descartes, discurso sobre o método e princípios de filosofia, veja aqui
Retificação em 02/01/11: a tradução de Platão feita por Albertino Pinheiro relançada nesta coleção é O banquete, 1943, também pela Atena.


aqui na edição de 1950, em volume duplo
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6 de dez de 2010

coleção folha, o capital de gabriel deville III

estabelecido que le capital de karl marx é uma obra de divulgação de gabriel deville, montada em 1883 a partir da tradução francesa de j. roy do das kapital, entendo que a apresentação correta desse resumo em português seria: gabriel deville, o capital de karl marx, como fez, por exemplo, a editora cultura nos anos 1940:

ou:

todavia, vimos que não é o que tem ocorrido: mencionei as edições da melso, da ediouro, da edipro e da coleção folha.

abro a edição da coleção folha: não bastasse ter marx virado o autor do aperçu sobre o socialismo científico e do resumo de deville, vejo lá um "prefácio do tradutor".

qual tradutor?, pergunto-me eu. e vejo ali que se trata do prefácio de gabriel deville, de 1883, onde justamente ele explica que montou seu apanhado seguindo a tradução francesa existente, feita por joseph roy.

como o préface do original se transformou em prefácio da tradução é mais um daqueles mistérios que só acontecem no brasil, e que não consigo desvendar. outra curiosidade é como a data do prefácio original - 10 de agosto de 1883 - se transformou no "prefácio da tradução" em 10 de outubro de 1883. e engraçado também como a remissão original de deville, em seu pós-escrito, às páginas 24-25 e 59-60 de le capital de karl marx, é mantida literalmente na edição da folha (p. 18), sem qualquer correspondência de fato no volume brasileiro.

o prefácio e o pós-escrito de deville não constam na edição melso. a tradução deles nessa edição da folha é sofrível: tenta-se um decalque que acaba se tornando ininteligível. por exemplo, ce que j'ai écrit dans d'autres conditions d'âge et par suite de connaissance é dado como "o que escrevi em outras condições de idade e após aprendizado" [p. 17; seria algo como "o que escrevi em outras condições de idade e, portanto, de conhecimento"].

já a tradução do aperçu e do resumo na edição folha/edipro, em nome de murilo coelho, é praticamente idêntica à tradução revista por gesner de wilton morgado, na edição que saiu pela melso 50 anos atrás. ambas guardam a mesma razoável distância e as mesmas discrepâncias em relação ao original em francês:
I

COLLECTIVISME OU COMMUNISME


Il y a six ans, la classe ouvrière qui n'était pas encore remise de l'épouvantable saignée de 1871, avait abandonné la tradition révolutionnaire et n'attendait plus son affranchissement que des associations coopératives généralisées. Les mots parti ouvrier et collectivisme, aujourd'hui passés dans notre langue politique, étaient, peut-on dire, inconnus ; les idées qu'ils représentent ne comptaient plus en France que de rares partisans, sans lien, sans possibilité d'action commune.

C'est le journal l'Égalité fondé, à la fin de 1877, sur l'initiative de Jules Guesde et dirigé par lui, qui a seul donné l'impulsion au mouvement socialiste révolutionnaire actuel. Tel est le fait que ne réussiront pas à effacer les personnalités envieuses empressées à le masquer, ou tout au moins à l'amoindrir, ayant bien soin, dans leurs prétendues histoires, de cacher les dates qui ne laissent aucun doute à cet égard.

A ce moment, il y avait utilité à distinguer le communisme scientifique sorti de la savante critique de Marx, du vieux communisme utopique et sentimental français. La même dénomination pour deux théories différentes aurait favorisé une confusion d'idées qu'il était essentiel d'éviter ; aussi avons-nous alors exclusivement employé le mot collectivisme.
Maintenant, nous écrivons collectivisme ou communisme indifféremment. Au point de vue de leur dérivation, ces deux termes sont également exacts; au point de vue usuel, ils ont les mêmes inconvénients. S'il y a eu un communisme dont nous devions nous distinguer, il y a des formes de collectivisme, les diverses contrefaçons belges par exemple, que nous répudions. L'important est de connaître non pas l'étiquette que chacun prend, mais ce que chacun met sous son étiquette.
edição melso, tradução revista por gesner de wilton azevedo (1961)

 

edição coleção folha, tradução de murilo coelho (2010)

contribuindo de passagem para a hipótese de que a tradução revista por gesner era lusitana, note-se na edição da melso a grafia de "carlos", "empregámos", "teem", "diferençar", e adiante "póde", "quasi", "jámais", "gráu", "sólo", ou as construções "em frança" e "facilidades que se irão aumentando". mas a questão, aqui neste contexto, é quase secundária. o que quero apontar é que essa tradução publicada pela folha é reedição, apenas com a ortografia atualizada, de uma tradução bastante antiga, que nas edições brasileiras anteriores não trazia créditos indicando sua autoria.

outra não pequena desinformação é a que consta na página de divulgação da coleção folha: essa obra de deville seria o "único resumo autorizado por Karl Marx, com o intuito de popularizar suas ideias na camada operária".

em verdade, marx teria autorizado vários resumos:
Versões resumidas para operários também apareceram em fins do decênio de 1870 em sérvio e inglês (esta publicada nos Estados Unidos). A edição italiana, feita por Carlo Cafiero, foi autorizada por Marx e publicada em 1879. No ano seguinte, Marx autorizou o anarquista Domela Nieuwenhuis a publicar um resumo popular em holandês. A obra saiu em 1881 (Ferdinand Domela Nieuwenhuis. Karl Marx. Kapital en Arbeid, s´Gravenhage, 1881). Na mesma época ele colaborou com Johannes Most numa edição resumida em alemão. No ano da morte de Marx foi editado o resumo francês (Gabriel Deville. Le Capital de Karl Marx, resumé et accompangé d´un aperçu sur le socialisme scientifique, Paris, 1883).
in Lincoln Secco, Leitura e Difusão de O Capital de Karl Marx, p. 12
ainda no mesmo release da coleção folha, consta que a obra de deville foi "publicada em 1883 e revista em 2010". o que significa "revista em 2010"? a antiga tradução revista por gesner, sim, pode ter sido re-revista em 2010 para essa edição da folha, e só.

restam algumas dúvidas: quem é murilo coelho? quando foi feita essa sua tradução? onde e quando foi inicialmente publicada? por que a ediouro, em suas várias edições, não havia lhe dado os créditos de tradução? por que a melso, em sua edição, preferiu apenas apontar que se tratava de uma "tradução revista por gesner de wilton azevedo"? e por que a folha em sua coleção "livros que mudaram o mundo" escolheu uma tradução, seja de quem for, tão fraquinha e com algumas informações aparentemente tão erradinhas?

atualização em 16/2/12 - obs.: estes são apenas alguns exemplos a título ilustrativo, extraídos de um extenso cotejo feito entre as traduções, com outras traduções e com o original. veja aqui.


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coleção folha, o capital de gabriel deville II

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recapitulando: em 1883, o socialista francês gabriel deville publica um resumo das ideias centrais de marx, num volume chamado le capital de karl marx, résumé et accompagné d'un aperçu sur le socialisme scientifique, para fins de divulgação entre o operariado e a militância socialista na frança.

essa introdução ao pensamento marxiano é traduzida para o português por albano de moraes e é publicada pela typographia de francisco luiz gonçalves em 1912, como: carl [sic] marx, o capital: resumido e acompanhado de um estudo sobre o socialismo scientifico, estudo de gabriel deville. outra tradução portuguesa dessa época, porém menos conhecida, é a de maria emilia de araújo pereira, publicada pela guimarães editora também em 1912, que utiliza a grafia "karl".

no post anterior, citei algumas fontes para acompanhar a divulgação da obra de deville no brasil a partir dos anos 1930. é um percurso interessante, que talvez alguma hora eu explore melhor. mas, com referência a nossos objetivos, tenho em mãos o exemplar publicado pela editora melso em 1961, e é dessa edição que eu gostaria de tratar, para chegarmos ao volume publicado na coleção folha "livros que mudaram o mundo".


na edição da melso sumiu qualquer referência a gabriel deville. dá-se a obra como da autoria pura e simples de marx, com o título o capital. na página de rosto consta "edição condensada" e "tradução revista por gesner de wilton morgado". o livro começa diretamente com socialismo científico: o leitor desavisado pensará que é um texto de marx que integra o começo do suposto capital condensado.


por outro lado, quanto à tradução: sabemos que, por convenção editorial, costumava-se utilizar a expressão "tradução revista por" para indicar que se tratava de uma tradução portuguesa adaptada para o português do brasil. cabe mencionar também que a orelha da capa da melso traz em destaque: CARL MARX, embora todas as demais referências venham grafadas Karl Marx.


assim, embora eu não tenha em mãos a tradução de albano de moraes, sou tentada a crer que foi ela a utilizada na edição da melso, e depois várias vezes reeditada pela ediouro, em suas coleções "clássicos de bolso" e "universidade de bolso".


pois muito que bem. agora chegamos à edição da folha, em tradução atribuída a alguém de nome "murilo coelho", licenciada da edipro, a qual consta na página de créditos como detentora do copyright da referida tradução. não consegui encontrar referências a qualquer tradução de murilo coelho, nem mesmo do próprio suposto capital condensado de marx, a não ser as divulgadas pela folha de s. paulo anunciando a publicação e do nãogostodeplágio dando a lista dos títulos da coleção folha.

o que se encontra às centenas é, por exemplo: "MARX, Karl. O capital. [Titulo original: Das kapital]. Gabriel Deville (Trad.). 1 ed. Bauru: Edipro, 1998. 286 p. ISBN 8572830987", ou "A EDIPRO tem satisfação em oferecer ao leitor a tradução condensada d`O Capital por Gabriel Deville", ou "A Edipro apresenta a Edição Condensada de O Capital, com tradução de Gabriel Deville" - com esse tipo de dado, qualquer um poderia achar que gabriel deville traduziu o capital para o português. mas, mais amiúde, o que se tem é apenas algo na linha "O Capital - Edição Condensada - 3ª Edição 2008. Marx, Karl / EDIPRO".


ademais, na fundação biblioteca nacional, agência brasileira do isbn, tem-se:

PESQUISA NO CADASTRO DO ISBN

ISBN: 978-85-7283-597-8
TÍTULO: O CAPITAL
COLEÇÃO: CLÁSSICOS EDIPRO
AUTOR: KARL MARX
TRADUTOR: GABRIEL DEVILLE
EDIÇÃO: 3
ANO DE EDIÇÃO: 2008
LOCAL DE EDIÇÃO: SÃO PAULO
TIPO DE SUPORTE: PAPEL
PÁGINAS: 224
EDITORA: EDIPRO

puxa vida, que história. espero que o leitor tenha entendido que, digam o que disserem as editoras, esse capital de karl marx pouco tem a ver com o capital de karl marx. é um apanhado, uma "apostila", digamos assim, montada por deville a partir da tradução francesa de joseph roy (cuja revisão, aliás, teria comentado marx que lhe deu "um trabalho dos diabos").

num próximo post, pretendo comparar a tradução revista por gesner morgado (melso; ediouro), a tradução em nome de murilo coelho (coleção folha; edipro) e o original de gabriel deville.
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24 de nov de 2010

o maquiavel de lívio xavier

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o segundo volume lançado pela coleção folha "livros que mudaram o mundo" é maquiavel, o príncipe e escritos políticos, em tradução de lívio xavier (1900-1988).

quanto a o príncipe, a tradução de lívio saiu originalmente em 1933 pela editora unitas e a partir de c.1938 passou a ser publicada pela athena editora, onde teve várias reedições. também foi publicada por outras editoras inúmeras vezes e atualmente está nos catálogos da ediouro, nova fronteira (agir), escala, edipro e fundação braille. é a tradução d'o príncipe de maquiavel mais conhecida no brasil: em pesquisa maquiavel, você encontra vários dados a respeito.

já dei minha opinião geral sobre a coleção "livros que mudaram o mundo". se agora comento a de maquiavel, é porque um detalhe me deixou um pouco desorientada: na página de créditos e no site da coleção consta que o copyright da tradução de lívio xavier pertence à editora edipro.

até onde sei, a ediouro tem publicado essa tradução pelo menos desde 1966, declarando ser a detentora dos direitos sobre ela.*

 * ver, por exemplo, a recente edição pocket dessa obra pela nova fronteira  mencionando "copyright da tradução: Ediouro Publicações Ltda".

a questão me parece relevante, não pelo aspecto empresarial, que não me diz respeito, e sim pelo aspecto do acesso à obra.
  • a atena, detentora original dos direitos dessa tradução, fechou as portas nos anos 1960;
  • desconheço que lívio xavier tenha recuperado seus direitos com o fechamento da atena ou que algum sucessor tenha constituído espólio após sua morte;
  • se a ediouro adquiriu formalmente os direitos sobre o catálogo da atena por ocasião de seu fechamento, é evidente que eles pertencem a ela;
  • no entanto, o volume da coleção folha informa que o copyright da tradução pertence não à ediouro, e sim à edipro.
por outro lado, se a editora atena, ao encerrar suas atividades, não chegou a transferir seu catálogo a uma outra empresa, essa tradução de lívio xavier, até onde consigo entender, estaria na situação jurídica de obra abandonada.

em nossa atual lei de direito autoral, obras abandonadas de autores falecidos que não tenham deixado sucessores pertencem ao domínio público (artigo 45, lei 9610/98).

daí minha dúvida: a quem de fato pertencem os direitos desta tradução, à ediouro ou à edipro? porventura não estaria ela em domínio público?

conversei no departamento de contratos da ediouro, ficaram de verificar em seus arquivos. transcorrido quase um mês, entrei em contato de novo: continuavam a verificar...

a mesma dúvida me surgiu em relação à obra de thomas morus, utopia, na tradução de luís de andrade, publicada pela atena em 1937 e várias reedições até 1959, depois pela ediouro desde os anos 60 até a data de hoje e também pela edipro a partir de 1994, a qual por sua vez teria licenciado agora em 2010 os direitos para a coleção folha.
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